Quasar
17 Quer ficar comigo de verdade?
Notas iniciais
Meu coração parecia que iria pular. Andei uns dois passos para trás e retirei os fones do ouvido. A pessoa estava de moletom preto com capuz e uma calça branca. Eu tentei sai pelos lados, mas a pessoa parava na minha frente. Perguntei:
— Quem é você?
— Você é Quasar Orth? — disse a pessoa.
— Quem quer saber?
A pessoa estirou o braço e me deu um papel, peguei com medo e perguntei:
— O que é isso?
A pessoa foi embora sem dizer mais nada apenas me deu o bilhete.
Fiquei parada na rua olhando o papel. Olhei para os lados para ver se a pessoa ou alguém estava me olhando, mas não sabia o que fazer com o bilhete, se abriria ou não.
Voltei para casa e Dylan estava no banho. Entrei no quarto dele para pegar uma blusa que tinha deixado, sentei na cama e fiquei olhando o papel na dúvida.
Dylan entrou no quarto enxugando os cabelos molhados, ele parou olhou para mim e disse:
— O que é isto na sua mão?
Olhei para ele rápido e coloquei o bilhete no bolso, levantei e disse:
— Nada, só vim pegar uma blusa.
Sai do quarto e ele disse:
— Está certo, então!
Entrei no quarto e guardei o bilhete na gaveta da cômoda. Eu não estava preparada para ver o que havia escrito, poderia ser nada, mesmo assim resolvi não abri. Peguei aquele livro de Emily Brontë que eu tinha pego na casa do lago. Era sábado e o jornal não funcionava nos finais de semana. Deitei na cama e Josh no meu colo, fiquei alisando-o e lendo o livro. Não passou nem 5 minutos, levantei e fui em direção à gaveta, a curiosidade e o medo estava martelando ao mesmo tempo fazendo com que eu ficasse muito confusa e nervosa. Peguei o bilhete e não quis mais hesitar, abri e nele estava escrito:
“Me encontre no Museu de história natural, na zona azul amanhã às 11:00 am.”
Museu de história? É um lugar movimentado. Guardei o papel na gaveta novamente, Dylan bateu na porta e disse:
— Oi? Quer sair pra almoçar?
Olhei para ele e fechei a gaveta.
— Está bem. — respondi.
Saímos para almoçar. Na mesa, eu estava calada, Dylan olhou para mim e disse:
— Aconteceu alguma coisa?
— Não, não aconteceu nada. — disse eu olhando para o prato e mexendo com o garfo.
Ele insistiu e disse:
— Você está estranha, desde quando voltou da caminhada.
— Eu estou bem, Dylan! Não aconteceu nada comigo. — olhei com um olhar sério.
Ele voltou à almoçar. Depois que ele pagou a conta, sai do restaurante e fui em direção ao carro, ele saiu logo em seguida. Entrei no carro calada. Ele disse:
— Vou te levar para um lugar que eu costumava ir.
Continuei calada, o caminho todo, ele olhava às vezes para mim, mas eu não dava atenção. Chegamos em Hampstead Heath, o parque onde o verde toma conta de quase toda a paisagem.
Descemos do carro e seguimos parque à dentro. Olhei para ele e disse:
— Você tem gosta da natureza? — disse surpresa.
— Eu gostava de sentar nos bancos de frente ao lago, olhando para o verde dessas árvores, andar pelos caminhos de terra, olhando para cima, onde só avistava os topos das árvores verdes. Ou na época de outono, quando elas ficavam laranjas. Era aqui que eu fugia às vezes do estresse do trabalho. Aqui é meu refúgio, onde todos os pensamentos negativos iam embora com o vento relaxante. — falou Dylan andando e admirando a paisagem.
Justamente estávamos passando por esse caminho, onde do lado esquerdo tinha um lago e vários bancos, cheio de árvores ao redor. Dylan parecia estar se sentindo leve. E esse sim, é um lugar onde você pode confortar-se com a natureza.
Sentamos num banco de frente ao lago, como Dylan tinha descrito. O vento soprava levemente em nossos rostos, trazendo consigo as lembranças que pensávamos ter esquecidos com o tempo. Lembranças tristes que queríamos esquecer pelo resto da vida e outras que nunca vamos esquecer. Eu fechei os olhos e comecei a sentir, sentir como aquilo me confortava, o barulho das folhas, o barulho das pequenas ondinhas que o lago fazia. Não eram barulhos e sim a natureza expressando a sua maravilha em formas tão simples.
Dylan perguntou:
— O que você lembrou? — disse ele com a voz calma.
Olhei para ele calmamente e voltei a olhar para o lago.
— Minha mãe!
— Você senti muito a falta dela, não é?
— Sinto, muita. Ela era uma pessoa alegre, inteligente e linda, linda demais. — falei isso lembrando dela, olhando para o céu.
— Como ela morreu?
Olhei para ele não muito feliz, e ele disse:
— Desculpa, não queria fazer você lembrar do passado.
— Era páscoa, eu tinha 6 anos. Tinha acabado de fazer um coelho de papel na aula de artes todo fofinho, com algodões colados e suas orelhas pintadas de tinta rosa. Eu amava as aulas de artes. Nesse mesmo dia fiz uma cartinha para ela. Toda páscoa eu fazia uma cartinha e dava um ovo todo decorado. Era ela que me buscava na escola, mas nesse dia foi minha tia Margareth, perguntei para ela: “Titia, cadê minha mãe? Ela não vem me buscar?”, ela respondeu: “Hoje não deu para ela vir minha querida.” Quando cheguei em casa, procurei por ela e minha tia disse “Calma Quasar, mamãe já vem”. Sentei no sofá com a cartinha e o ovo de lado, esperando por ela. Depois de um bom tempo esperando e minha tia andando de um lado para o outro, ela recebe uma ligação, eu corri, fiquei puxando sua blusa, dizendo: “É minha mãe titia? É minha mãe?”, ela começou a chorar muito e eu comecei a ficar nervosa. — falei isso com falhas na voz e caindo lágrimas. — Ela sentou no sofá e desligou o celular, olhou pra mim e me abraçou, eu não estava entendo nada, eu sentia o seu coração palpitando forte e suas lágrimas caindo em meu rosto. Eu disse de novo: “Minha mãe titia?”, ela parou limpou o rosto e disse: “Quasar, mamãe não vem mais para casa”, “Por que Titia? Ela nem se despediu de mim.”, “Mamãe agora é uma estrelinha no céu”, “Não titia, eu não quero que minha mãe vire uma estrela, eu quero ela aqui comigo”. Comecei a chorar, minha tia me abraçou e disse: “Um dia Quasar, todos nós viramos uma estrelinha no céu”. Sai correndo para meu quarto chorando muito e eu gritava: “Eu quero minha mãe”, nunca mais eu vou esquecer daquele dia. Anos depois quando fiquei maior, minha tia disse que ela morreu num incêndio que aconteceu no laboratório onde ela trabalhava, e eu tive que passar a minha infância e adolescência sem olhar mais para o belo sorriso que ela tinha.
Dylan ficou espantado, e limpou as lágrimas que estavam caindo involuntariamente no meu rosto. Ele pegou na minha mão e disse:
— Sei que eu não sou o tipo de cara romântico, mas... — pegou uma florzinha amarela ao lado do banco e me deu.
Eu peguei a flor e agradeci. Dylan resmunga de dor, quando ele olha para o chão tinha um pato bicando sua panturrilha, comecei a sorrir dele tentando espantar o pato.
— Vamos sair daqui, porque não quero virar comida de pato. — disse ele se levantando rápido para livrar-se do patinho.
Levantamos do banco e fomos caminhando até o final da trilha. Antes do fim, ele segura minha mão, eu estava estranhando todo aquele romantismo. Dylan parou e disse:
— Quasar... — disse ele pegando minhas mãos. — Não quero morar numa casa, onde tenho que olhar para você todos os dias e não poder te beijar tendo o risco de você jogar um sapato em mim, ou que você esteja lá todos os dias sendo forçada. Eu quero que você esteja comigo porque você quer. Quero poder te beijar e dormir com você enquanto isso durar. Como eu já te disse, eu sinto algo por você que eu nunca sentir por ninguém. Seu jeito nervoso de lidar comigo, me dando foras, fingindo que não me quer. Tudo isso faz com que eu me sinta melhor. O seu cheiro todas as manhãs me faz delirar de amor por você. Quer ficar comigo de verdade? Quer me fazer sentir isso todos os dias?
Os olhos de Dylan fixados em mim, brilhando como eu nunca tinha visto. Eu não sabia o que responder, porém, sorri toda rosa e disse sim. Ele abriu um largo sorriso e me deu um beijo segurando com as duas mãos o meu rosto, me suspendeu em seu ombro e eu disse:
— Me coloca no chão agora! DYLAN!
Ele me girou, eu gritei:
— Se você não me colocar no chão eu jogo meu sapato em você.
Ele me colocou no chão sorrindo, dei umas tapas em seu braço, ele segurou meus pulsos e me deu um breve beijo e continuamos andando de mãos dadas.
Fomos para casa. Chegando, ele disse:
— E então? Aceita um vinho?
— Você é cheio de piadinhas. Não, não quero vinho.
Josh aproximou-se dos meus pés, peguei ele e o cheirei, Dylan fez uma expressão de nojo e disse:
— Como é que você gosta de gatos?
— Como é que VOCÊ NÃO GOSTA de gatos?
À noite...
Jantamos, eu li meu livro e Dylan ficou escrevendo em seu Notebook.
Seu celular toca, ele se levanta e se afasta para atender, eu olho discretamente e percebo que de vez em quando ele recebe essas ligações misteriosas, que não quer que eu escute. Ou é o começo de um ciúme? Enfim, quando fomos dormir deitei em sua cama, logo em seguida ele veio, mas saiu pra atender outro telefonema. Me viro e fecho os olhos, depois só sinto aquelas mãos grandes envolta da minha cintura puxando-me para mais perto.
Levanto às 08:30 da manhã, Dylan estava dormindo. Fiquei pensando se era realmente seguro eu ir no Museu sozinha, eu nem sabia do que se tratava ou de quem se tratava e isso me deixava insegura. Tomei um banho gelado, troquei de roupa, coloquei comida para Josh e sentei no sofá pensativa, olhei para o livro em cima da mesa de centro mas não quis ler. Dylan acorda e à caminho da cozinha, me dá um breve beijo na testa e abre a geladeira.
— O que foi? — diz Dylan pegando um pote de geleia na geladeira.
— Nada.
— Está pensativa, está pensando em quê?
— Em nada, coisas do trabalho — disse eu lhe dando um breve sorriso.
Eu estava girando os dedões em sentidos diferentes em sinal de nervosismo. Dylan ficou me observando de longe e refez a pergunta:
— Aconteceu alguma coisa? você está pensativa.
— Eu já disse que não aconteceu nada...
Levantei, peguei minha bolsa e sair, mas chegando a porta Dylan me interroga:
— Aonde você vai?
— Vou sair... — sair e ele ficou olhando.
Ainda tinha muito tempo antes que eu chegasse ao Museu, então resolvi andar pelo bairro. Ao dobrar a esquina avistei uma mulher de costas, de cabelos enrolados castanhos, um pouco alta, com óculos escuros descendo de um táxi, me aproximei mais, pois eu estava reconhecendo ela de algum lugar. Já próxima, a mulher se virou, era Rebeca, eu fiz uma expressão de brava e ela de surpresa.
— Quasar! — disse ela vindo me abraçar com voz de surpresa.
Fiquei parada só observando ela. Respondi:
— Quasar uma ova, você está certa? Sua piranha. Sabe como é que eu estava esse tempo todo que você passou fora? Sua ridícula.
Ela começou a sorrir e me abraço dizendo:
— Eu sei que você me ama sua grossa.
— Por que você não me atendeu e nem respondeu minhas mensagens?
— Eu perdi o celular na viagem.
— Mas é demente mesmo. Graças à Deus que você está bem, eu já estava pensando no pior.
— Me conta o que aconteceu aqui enquanto eu não estava. Você não espancou ninguém ou foi para a cadeia, não né?
Olhei para ela com cara de “Oi?”
— Desde quando eu sou violenta? Criatura.
— Lembra de Jennifer? Que você torceu o braço dela.
Eu olhei, e lembrei “ai minha nossa”
— Aquilo foi um momento de desequilíbrio! E ela tinha roubado meu lanche, meu deus Rebeca eu só tinha 13 anos.
— Enfim, e Tim? Me conta.
— Eu... Estou com Dylan...
— Quem é Dylan? — disse ela surpresa.
— O cara do táxi.
Ela ficou espantada e disse:
— O Gostoso? Digo, o rapaz que você estava dispensando?
— Esse mesmo!
Ela começou a sorrir, balançou meus ombros e disse alto.
— Você desencalhou! Ela desencalhou gente! — disse ela, olhando para os lados.
Eu estava extremamente envergonhada, ela estava praticamente gritando na rua.
— Para Rebeca, por favor, você está me deixando constrangida.
— Está certo, parei. Mas ver só fui na sua casa e ela estava em “reforma”, você está morando aonde?
— Com Dylan, virando essa esquina.
Ela ficou surpresa e disse:
— Nossa, está rápido demais amiga. Vamos com calma.
Sorri e disse a ela que depois nos falávamos, que eu estava atrasada.
— Para onde você vai?
— Resolver umas coisas.
— Está bem, até mais!
Peguei um táxi e fui para o Museu.
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