Quasar

14 Não era mais puro e ingênuo


Notas iniciais
Capítulo da semana, espero que gostem. Favoritem se estão gostando da estória. Espero comentários.

Acordei cedo no outro dia e Dylan não se encontrava comigo. Olhei pela porta de vidro da sala para fora e seu carro não estava estacionado.

Levantei para ir ao banheiro escovar os dentes, e ao fechar a porta tive um susto bobo. Quando olhei para o espelho, acima do vaso sanitário estava Josh, se lambendo. A sombra que ele projetou ao abrir a porta me recordou meu banheiro e os tiros que eram para me acertar, aquilo ainda me incomodava muito, se não fosse por Dylan, provavelmente eu estaria morta. Aproveitei que já estava no banheiro e tomei um banho, a água estava morna e relaxante, a cena e as palavras de Dylan vinham na minha cabeça, fazendo com que eu desce alguns sorrisos embaixo do chuveiro. As gotas passavam entre meu corpo como se estivessem dançando nos meus ombros em direção à minha cintura, elas alisavam meu rosto com um toque carinhoso, elas não eram mais aquelas gotas que tiravam minha paciência e sim o que me trazia. Eu olhava para minhas mãos e fazia gestos lentos, as acariciando, passando as gotas de alegria pelas mãos, pode ser um pouco bobo, mas era o que eu estava sentindo, alegria.

Escutei um barulho, o que me fez parar e desligar imediatamente o chuveiro. Meu coração disparou e me vi naquela cena novamente. Peguei a toalha que estava pendurada no boxer de vidro e a enrolei sobre meu corpo molhado. Com cuidado tranquei a porta e fiquei espreitando. Passos lentos e barulhos de alguém procurando algo estavam soando ainda longe, possivelmente pela sala. Josh estava nos meus pés e eu, estava receosa de que ele nos revelasse para quem estava além daquela porta. Meus pés tremiam e meu coração acelerava a cada segundo que eu passava atrás daquela porta. E então, a maçaneta virou, e alguém forçou a entrada, sentir a força exercida pela pessoa para entrar, mas sua ação foi falha. Então, os barulhos sessaram, a maçaneta ficou imóvel e não ouvia mais passos. Até que uma voz familiar soa.

— Quasar?!

Era Dylan, abri a porta e ele estava com algumas sacolas na mão, sai daquele banheiro tão aliviada. De toalha o abracei, jogando naquele abraço o sentimento de medo extremo. Fechei meus olhos tão fortemente que ele ficou sem entender o porquê daquilo, soltou as sacolas no chão e retribuiu o abraço.

— O que aconteceu? — pergunta ele ainda me abraçando.

— Você estava tentando entrar no banheiro? — perguntei, olhando para os seus olhos.

— Quasar, eu acabei de chegar.

Eu parei, me afastei e pensei se eu não estava ficando muito traumatizada a ponto de escutar barulhos e ver maçanetas virando. Ele segurou meus ombros, fez uma expressão de dúvida e me sacodiu de leve.

— O que aconteceu Quasar? Você está pálida!

— Alguém... Não é coisa da minha cabeça. — disse eu balançando a cabeça em negação.

— Fala o que aconteceu!

— Não é nada, foi impressão minha.

Dei um sorriso e ele ficou desconfiado. Subi para trocar de roupa. Entrando no quarto tudo estava um silêncio, eu estava paranoica. Estava olhando para as paredes, cheguei próxima à porta que dava para a varanda e a tranquei, coloquei as cortinas, coloquei minha roupa íntima e sentei na cama, e fiquei repetindo para mim mesma: “Você está vendo coisas, não era ninguém, apenas relaxe”, coloquei um moletom cinza grande, que chegava duas mãos por cima do joelho, fiz um coque no cabelo e parei de frente para o espelho, coloquei as mãos no pescoço e repeti: “Apenas relaxe”.

Fui na minha mini biblioteca e peguei meu livro. Ao abri a porta sentir um ar estranho, alguém passou por ali. Aquele não era o ar sereno da literatura inglesa que eu estava por apenas quatro dias acostumada a sentir, alguém passou por ali. Minha consciência estava gritando “Menina fuja desse lugar”, mas eu sacodia a cabeça e repetia: “Apenas relaxe, é apenas imaginação”, meu medo era não querer acreditar no óbvio. Eu sentia os calafrios daquele lugar estava trazendo, como é que um lugar mágico, onde o seu coração arrancava o medo e a solidão, um lugar que te arrebatava, que te levava para um mundo sem igual, se torna um lugar obscuro e sem vida? Aquele ar não era mais puro e ingênuo, era sombrio e tempestuoso. Fechei aquela porta, como se estivesse dizendo adeus para os livros, não queria mais abri-la e minha mente repetia “Alguém passou por ali”.

Desci as escadas com desgosto do que acabará de sentir, de ter abandonado os meus livros. Podia ser apenas mais uma paranoia que podia passar, mas o que havia ali era algo diferente e não era bom. Dylan estava colocando as compras que tinha feito na geladeira, percebeu a minha presença e indagou novamente, parando sua ação.

— Quasar, você quer me perguntar alguma coisa, fale!

— Não era nada, vou ler está bem?

O deixei terminar de guardar as compras e sentei no sofá da sala. Abri o livro “Capítulo VII: ... Foi com surpresa que, em vez de a ver do lado de fora, escutei vozes vindas de dentro do quarto. Aquela macaquinha travessa...” Não estava me concentrando no livro, eu olhava para as páginas, as alisava, olhava de novo, contava as páginas, rolava os olhos, olhava para a porta de vidro, para o jardim lá fora, olhava para lareira e para o relógio eram nove horas da manhã, as horas pareciam ter estacionado, o ponteiro parecia rodar cansado. Dylan, colocou sua mão no meu ombro e pulei de leve, confesso que estava assustada.

— Você não está bem, Quasar.

Sorri para ele e disse:

— Estou bem.

Ele viu que não iria tirar informações de mim e disse:

— Já comeu? — disse ele com um grande sorriso no rosto.

— Não, não comi.

— Trouxe uma coisa para você.

Ele foi até a cozinha e fui logo atrás, ele inclinou-se e pegou uma sacola de presente, colocou em cima da bancada e disse:

— Abre!

— Pra mim?

— Claro que é para você, acho que você vai gostar.

Abri a sacola e retirei um vestido branco, com pequenas pedrinhas brilhantes em sua alça, o seu tecido era fino e leve, uma fita cinza com várias pedras cruzava no peito, seu babado era irregular, o vestido era perfeito. Olhei para Dylan que estava esperando a resposta, então fechei a cara e disse:

— Não gostei! Muito sem graça.

Dylan tirou o sorriso do rosto e perguntou:

— Pensei que ele ficaria perfeito no seu corpo. Eu posso trocar.

Peguei seu pulso e o puxei para próximo de mim, dei um beijo em sua bochecha e sussurrei em seu ouvido:

— Vou usar hoje à noite.

Dylan sorriu e respirou em alivio. Ele ficou eufórico e disse indo em direção à cozinha:

— Vou cozinhar nosso jantar hoje, você terá uma surpresa.

— Estou aguardando. — disse eu com a voz baixa.

Ele ficou cozinhando o almoço e eu resolvi tentar continuar o livro, desta vez mais calma e longe de pensamentos negativos. Consegui continuar e só parei quando Dylan disse:

— Vamos almoçar!

Olhei para o relógio e eram doze horas e trinta minutos, nossa, realmente continuei o livro. Sentei na mesa e ele também, perguntei onde ele aprendeu a cozinhar.

— Quando eu morei um tempo com Tim, a gente teve que se virar e ele sabe cozinhar muito bem, então aprendi.

— Tim é uma ótima pessoa... — disse eu, comendo um pedaço da torta de frango que ele fez.

Dylan olhou para mim e voltou a comer, dizendo:

— É sim...

Ficamos calados. Terminamos de comer, levantei peguei os pratos e fui lavar, ele recebeu uma mensagem no celular e levantou.

— Vou ter que sair rápido, mas volto logo.

Virei para ele e perguntei:

— Onde você vai?

— Resolver um problema, mas tarde eu estou chegando.

Eu não estava receosa dele ter recebido uma mensagem e sim de ter que ficar sozinha.

— Você tem que ir mesmo agora?

Ele se aproximou, alisou meus cabelos e disse:

— Você vai ficar bem! Eu não demoro.

Ele me deu um beijo na testa e saiu. Rapidamente tranquei a porta e as janelas, subi correndo e sai vasculhando canto por canto e tranquei tudo. Minha paranoia estava ficando cada vez pior. Peguei Josh e subi para o quarto, a cada ruído eu ficava desconfiada. Entrei no quarto e o tranquei, até a porta da varanda. Sentei na cama, com as costas encostada na parede, Josh deitou em meu colo e adormeceu, mas eu não conseguia pregar os olhos. Se passou uma, duas, três horas, eu contava os segundos para que Dylan voltasse. Eu não sabia quem era, e o que era capaz, como eu podia me defender de alguém desconhecido? Sei me defender, mas contra uma arma já é impossível, eu estava me sentindo uma presa fugindo do caçador, indefesa e dependente.

Três horas depois, escuto o barulho de carro, corri até a porta da varanda e era Dylan. Ele sai com pressa do carro e entra correndo.

— Quasar? Quasar?

Corri até a porta que estava trancada, quando destranquei, Dylan entra pegando meu pulso e dizendo:

— Vamos, pegue suas coisas agora, vamos sair daqui!

— Mas... o que está acontecendo?

Ele estava pegando tudo e colocando numa bolsa, e gritou:

— ARRUME SUAS COISAS AGORA!

Eu então subi correndo, peguei uma bolsa e coloquei minhas coisas, peguei Josh e desci nas pressas, ele puxou meu braço e foi me guiando com uma mão nas minhas costas até o carro.

— Pra onde estamos indo?

Ele ficou em silêncio.

Notas finais
Espero que tenham gostado, um grande beijo!