Quarenta Graus
3 Capítulo 3 - Trinta e Nove Graus
Notas iniciais
Boa leitura!
- Quarenta Graus —
Capítulo Três — Trinta e Nove Graus
As talas de madeira estalavam no chão com os passos apressados de Renji. Arfando ele chegou até a porta de entrada da sala do comandante Yamamoto. Os guardas pediam-no para se afastar, e mais calmo, disse que vinha tratar de um assunto importante com o capitão. Os guardas se entreolharam e um deles entrou na sala. Instantes depois, permitiu a entrada de Renji que se curvou em sinal de agradecimento.
— Qual é o assunto urgente que tem a tratar comigo Abarai Renji? – perguntou Yamamoto com as expressões sérias de sempre.
— Yamamoto Taichou, eu acabo de saber sobre o pedido de transferência feito pelo Kuchiki taichou. Eu gostaria de saber se o senhor já tem alguma resposta.
— Isso não é assunto seu. Qualquer que seja a decisão será informada ao Kuchiki taichou e depois então para você. Seu dever é apenas o de cumprir ordens, não de ficar zanzando por aí feito uma criança intrometida.
— Mas eu preciso saber por que ele fez esse pedido!
— Não estou aqui para ficar de conversa fiada, se tem algo a perguntar sobre o Kuchiki taichou pergunte diretamente á ele. Agora se retire, Abarai, ou eu mesmo irei forçá-lo.
A enorme reiatsu do capitão foi sentida apenas por alguns milésimos de segundos, mas fora o suficiente para estremecer toda a sala. Renji engoliu seco, entendo o recado de Yamamoto, e frustrado, mordeu de leve sua língua, levantando-se, caminhou com a cabeça baixa para fora da sala.
Com passos lentos voltou para a sala de Byakuya. Ele ainda não havia chegado.
Sentou-se em sua cadeira pegando alguns papeis. Tentava lê-los, mas sua mente estava voltada para outros pensamentos. Apesar de querer perguntar diretamente a Byakuya o motivo de seu requerimento de transferência, ele já temia o por que: a tarde passada, onde tinha se deixado levar pela situação, por sua cobiça. Não devia ter feito aquilo! Foi a maior estupidez de toda a sua vida.
O calor ainda era forte. O clima desses últimos dias não estava dando tréguas, fazendo-o suar cada vez mais. Saiu da sala voltando com uma garrafa de refresco. Quando fechou a porta, no entanto, deixou a jarra se espatifar no chão. Viu Byakuya sentado em sua cadeira, assinando e lendo documentos, como se nada tivesse acontecido, como se estivessem em um dia normal de trabalho.
— Ta...Taichou?... – disse vacilando a voz.
Byakuya não se deu o trabalho de olhar na direção de Renji. Continuou a molhar a pena na tinta e a rabiscar nos papéis.
O ruivo estava inquieto. Ele sabia que o orgulho de Byakuya não o deixaria mostrar seu desconcerto por ter de reencontrá-lo. Mas antes de mais nada, precisava falar com ele, pois talvez, essa fosse sua última chance de vê-lo, talvez fosse a única coisa sensata que pensou em fazer.
— Taichou eu preciso lhe fazer uma pergunta. É muito importante, então, por favor, me responda: porque fez o pedido de transferência ao Yamamoto taichou?
A pena na mão de Byakuya parou. Seus olhos pareceram tremer um pouco, mas logo se acalmaram. Repousou a pena no tinteiro, arrumando alguns papéis á sua frente. Deu um longo suspiro, encarando Renji com um olhar frio:
— Você é tão ignorante a ponto de desenvolver amnésia? – falou, rispidamente.
Renji se assustou com as palavras grossas de Byakuya, mas antes que pudesse rebatê-las, ele continuou:
— Suas ações de ontem são mais do que um motivo para uma transferência. Não quero um subordinado tão indisciplinado e insolente como você! Aliás, a transferência é um castigo pequeno! Eu deveria matá-lo pelo que fez comigo!
— Você vai me matar por eu ter feito amor com você?! – respondeu Renji num sobressalto.
Byakuya calou-se, pasmo. Amor. Aquela palavra o deixava desconcertado. Não esperava uma resposta como aquela, não estava preparado para nada daquilo. Ele era um homem impulsivo. Falando de ‘amor’ e coisas desse tipo com tanta facilidade... Quem ele pensava que era para se referir ao seu capitão de forma?! Como ele conseguia dizer isso tão livremente?! Atônito, Byakuya perdia-se nesses pensamentos, tão absorto que não notou Renji chegando do seu lado.
Colocando seu braço em volta da cintura de Byakuya, Renji o puxou, dando-lhe um profundo beijo, mais longo do que o dia anterior. Confuso, o moreno deixou sua língua ser envolta pela dele, inapto de alguma reação.
— É disso que você tem medo?! – gritou Renji, ainda próximo do capitão — Deixar que alguém se aproxime do senhor?! Isso não é justo! Quando alguém tenta ficar perto de você seu orgulho a afasta! Você faz o mesmo com a Rukia, sempre fez isso comigo, por que...
Renji interrompeu sua fala quando sentiu um metal frio encostar-se ao seu pescoço. A zanpakutou de Byakuya estava rente a sua pele pronta para matá-lo, com um pequeno fio de sangue escorrendo pela lâmina. O rosto de Byakuya estava mais sério do que antes, seus olhos frios e calculistas, quase foscos:
— Se eu o matar agora, trarei problemas para mim, então antes que eu o faça, afaste-se, ou então aceite seu fim como homem.
Engolindo sua saliva á seco, Renji soltou Byakuya, recuando para trás de sua mesa. Seus olhos tremiam ao ver o semblante do capitão. Havia mesmo cometido um erro. Não deveria ter movido um único dedo, não deveria ter se exposto tanto assim à ele. Baixando sua cabeça, disse, num ar irônico:
— O senhor... Me odeia tanto assim... Kuchiki taichou?
Byakuya mirou seu subordinado outra vez. Tomou um leve susto ao ver as feições de Renji dum jeito que nunca havia visto antes. Seus olhos estavam vermelhos, lacrimejando, a face tristonha e derrotada. Mordia seus lábios com força como se esperasse por uma resposta sua, desesperado por uma única palavra dele.
Contudo, as portas da sala correram e Kira adentrou-as, ofegante:
— Depressa! Yamamoto taichou nos deu uma missão urgente! Todos os capitães e seus pelotões devem se apresentar na área leste da Soul Society imediatamente!
— O que está havendo?- perguntou Byakuya, tornando a sua usual calma, fugindo do assunto principal, e já guardando sua zanpakutou.
— Hollows de grande poder invadiram a cidade! Não sabemos como! Precisamos ir até lá depressa!
Byakuya se adiantou enquanto Kira corria para avisar as outras unidades. Antes de sair da sala, disse, de costas para Renji:
— Aprenda a obedecer ordens, e venha logo.
Com o olhar vago, Renji esperou Byakuya sair da sala para então se dirigir à luta. Mal tinha forças para caminhar, porém, sabia ser preciso, sabia ser o seu dever como shinigami.
Todavia, quando chegaram lá, o que virão não foi uma batalha qualquer, mas um massacre. Corpos de shinigamis se amontoavam em várias pilhas ao longo do local. A equipe médica do quarto esquadrão corria tentando salvar a todos, mas seus esforços eram inúteis perante a força avassaladora que os hollows aplicavam sobre eles. Eram dez no total, poderosos o bastante, para deter os capitães.
Numa rápida olhada, Renji avistou seu comandante tomando conta da linha de frente. Parecendo executar uma dança, ele removeu sua espada da bainha, dizendo, numa voz quase inaudível:
— Shire Senbonzakura.
A zanpakutou de Byakuya desfez-se em mil pétalas, indo de encontro a um dos Hollows. A luta entre eles começava, mas seus pensamentos estavam vagando mais longe, além daquela batalha.
“Qual a razão daquela expressão em seu rosto? Era de uma amargura tão... Profunda... Tinha lágrimas nos olhos, ou fora apenas impressão? Ele falou sobre amor... Sobre o que fizera comigo... Aquilo fora apenas um acidente, algo que jamais deveria ter acontecido. Eu não deveria ter permitido, e tudo estaria como sempre foi. Eu não teria me envolvido... E também não teria envolvido ele...”
Enquanto se absorvia cada vez mais nas suas indagações, outro hollow corria em sua direção preparando um ataque certeiro. Byakuya estava ocupado, sem tempo para se defender. Quando avistou o ataque, já era tarde, a distância entre eles era pequena demais para se esquivar. Fechou os olhos e pôs um dos braços na frente de seu rosto para evitar o impacto.
— Hoero, Zabimaru!
Um longo som metálico chamou a atenção de Byakuya. Abrindo seus olhos arregalou-os ao ver Renji na sua frente, repelindo o ataque.
— Taichou! O senhor está bem?!
Ignorando a pergunta dele, Byakuya adiantou-se, lançando um novo ataque com sua espada, partindo o hollow em mil pedaços. Mudando de direção, Byakuya continuou o ataque, no entanto, as perguntas em sua cabeça apenas se multiplicava “Por que...” — pensou Byakuya- “Porque ele se arriscou tanto? Porque ele nunca tem medo de agir?”
O outro hollow com quem lutava tornou a atacá-lo. Dessa vez Byakuya conseguiu concentrar-se nele, ferindo-o e o obrigando a se afastar para uma pequena floresta. O
seguindo, Byakuya o procurava por entre as árvores, com seu olhar analítico. Mas algo divergiu sua concentração. Um grito familiar chegou aos seus ouvidos. Renji estava gritando. Ele havia sido atingido. Aquela sensação era desconfortante. Uma aflição apoderou-se de seu peito, tão forte quanto às vezes nas quais se preocupou com Rukia, talvez até maior do que elas.
Tinha que voltar. Mas antes disso veio o silêncio. A voz de Renji não era mais ouvida, só o retumbar das outras espadas chegava até ele. Poderia ser que... O pior havia acontecido?...
Sentindo seus dedos tremerem, voltou-se para a saída da floresta quando algo agarrou seu braço.
Sendo puxado para trás e batendo suas costas no chão o hollow parou em cima dele. Havia se distraído, tinha deixado sua guarda aberta apenas para atender um impulso seu, um delírio! Tolice! Não devia se preocupar com um subordinado qualquer... Mas ainda assim preocupava-se com Renji, e apenas ele... O hollow abriu sua boca dizendo, com uma voz distorcida: O sabor de um shinigami... Eu preciso dele!...
Byakuya moveu seu punho chamando sua zanpakutou para um novo ataque. Dessa vez o hollow perdeu seu braço. Urrando de dor, desferiu outro golpe em Byakuya, o jogando contra uma árvore. Sua cabeça começou a latejar devido a pancada, seus sentidos estavam turvos; a febre do dia anterior ainda o afetava levemente. Aquele hollow tinha uma força muito superior a de qualquer outro que já havia enfrentado. Talvez fosse hora de aumentar o nível daquela luta.
Enquanto tentava se reorientar, o hollow adiantou-se mais uma vez na direção do capitão. Ele defendeu-se com sua zanpakutou, mas para sua surpresa, o hollow atravessou sua muralha de pétalas de flores, estendendo longos dedos, grossos o bastante para suportar o corte de suas inúmeras lâminas. Abrindo a mandíbula, o hollow veio na direção do dorso exposto de Byakuya.
Sentiu gotas de sangue caindo em seu rosto, mas não eram dele. Cabelos ruivos e soltos estavam na frente de Byakuya, esvoaçando com a potência do ataque. Absorto, ele viu o ombro de Renji ser abocanhado pelo hollow, espirrando o líquido avermelhado sobre ele. Renji, urrando, acertou-o com sua zanpakutou obrigando o hollow se afastar com um novo corte, ainda que superficial.
Byakuya observou Renji, caído de joelhos, ofegante com a mão sobre seu ferimento, tentando firmemente permanecer de pé.
O capitão continuou recostado na árvore, vendo Renji girar a cabeça até poder encarar os olhos acinzentados de Byakuya.
— O senhor... Está bem... Taichou? – perguntou Renji com dificuldade para falar.
— Porque você... Fez isso?... – perguntou, pela primeira vez, querendo, precisando saber os motivos daquele homem!
— Não podia deixar ele ferir o senhor...
— Mas por quê?! – exclamou.
— Não é óbvio?... Byakuya taichou... – respondeu num fraco sorriso.
Abrindo sua boca de leve e arregalando os olhos, Byakuya viu Renji fechar lentamente seus olhos, caindo, deitando-se no tapete gramado.
Confuso Byakuya ficou ao lado de Renji, vendo seu sangue escorrer pelo ferimento. O hollow avançava mais uma vez na sua direção. Com os olhos foscos, o capitão levantou sua zanpakutou:
— Bankai...
Milhões de espadas rodearam o hollow e em poucos segundos, ele foi destruído pelo poder avassalador de Byakuya. Não havia nem mais um pedaço para poder comprovar a existência dele. E o capitão preferia assim.
Ele se abaixou para perto de Renji, tocando em seu ombro, o aproximando dele. Seu corpo estava ficando frio, enrijecido, tão diferente do calor daquela tarde...
Apertando Renji contra seu corpo, manchando-se de sangue, ele mandou um sinal para a equipe médica. Ainda sem noção da realidade à sua volta, gaguejou algumas palavras, as únicas que conseguiu formular nesse estado de choque:
— Eu preciso que venham recolher o corpo de meu subordinado... Abarai Renji...
Continua
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