Quando vou dormir
3 Segunda carta

Escrito em 03/09/2018
Já passou meia hora?
Fiquei em pé durante esse tempo. Andei de um lado para outro no quarto, nada além desta luz fraca e amarela iluminando a minha noite, sustentei o Marlboro em uma mão e a taça de conhaque na outra. Eu pensei em coisas que não gostaria, em coisas que te falei e nas que não falei.
Caralho, escorreram dez minutos.
Dez fodidos minutos.
A dose de conhaque já acabou e eu não encontrei a resposta no fundo do copo. Se eu tentar mais uma vez, irei encontrá-la? Não tenho certeza se falo da resposta ou de você.
Você nunca gostou de beber, sempre foi a babá da minha irmã nas festas, e por isso eu preciso te agradecer. Sabe como é, coisa de irmão mais velho. Eu só não entendo como você consegue viver sem um pingo de álcool no corpo porque, particularmente, eu não tenho conseguido ficar muito tempo sóbrio. Acho que é mais fácil, o álcool me entorpece, me faz rir de coisas bobas e, confesso, me excita.
Eu pensei que funcionava ao contrário, sabe? O álcool desce e leva junto a excitação, mas... não.
E eu acho errado pensar em você dessa forma, mas, outra vez, não vou pedir desculpas. Eu sou humano e, no momento, um tanto necessitado.
Agora estou rindo. Fui me servir de conhaque e derramei algumas gotas no papel.
Ah, sim, papel.
Mas não pense que sou um old-fashioned man. Eu só não gosto de fumar e sujar o teclado do computador. A nicotina deixará certas memórias, assim como o conhaque, e essa mistura de aromas entranhará no papel.
Sei lá, talvez amanhã eu simplesmente jogue tudo fora.
Você nunca poderia sonhar que um dia escrevi sobre você.
Eu sempre gostei de ler. A sua cara foi impagável quando entrou pela primeira vez no meu quarto e viu todos os livros na estante. Você também me caçoou muito, me chamou de nerd para baixo, mas talvez naquele ponto eu já estivesse apaixonado e nem fazia ideia. Qual outro motivo eu deixaria uma garota como você entrar em um lugar tão pessoal?
E antes que você pense bobagem, tenha em mente que eu me recusei a tocar em você. Fiquei encolhido contra a parede enquanto a assistia passar os dedos por cada título da estante e sorrir um daqueles seus sorrisos mais intrínsecos quando encontrava um livro que você já tinha lido. Naquela tarde, nós conversamos sobre "O guia do mochileiro das galáxias" e você quase me convenceu a ler a saga de "Percy Jackson".
Você deveria ter pensado que era muito esperta, não pensou, Sabidinha?
Você me enviou uma mensagem agora, mas acho que não irei responder.
Por que eu deveria?
Você me virou as costas e eu não me encontro no direito de ir atrás de você.
Mas por que você acabou de perguntar se estou bem?
Minha longa lista de estórias e fanfictions insiste em dizer que você simplesmente sabe quando eu não estou bem, mas a minha razão diz que é só mais uma coincidência.
Então, por agora, vou a ignorar.
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