Quando vou dormir
4 Terceira carta

Escrito em 19/10/2018
É sexta-feira e meus amigos estão me incomodando para ir à farra com eles. Eu disse que iria, é claro, como poderia negar? Já estou vestido para sair, uso aquelas roupas que você costumava gostar. Mesmo assim, por algum motivo estou aqui, sóbrio, escrevendo sobre você e tentando compreender o porquê.
Meu Deus, por quê?
Você pode até me questionar por que estou escrevendo. Eu sou um leitor, você sabe disso, e nunca fui um escritor. Admiro quem é, mas eu não levo jeito para isso.
O detalhe é que eu já tentei de tudo para esquecer do seu jeito, da sua voz, dos seus toques, dos seus beijos inocentes... Eu já tentei de tudo para te esquecer. Já cantei, já chorei, continuo enchendo a cara (o que comprova que também não serve), já transei, já me esgotei na academia, escrevi músicas para você e, quando nada disso surtia efeito, eu me encontrei sem opções.
Até que uma amiga próxima me perguntou “já experimentou escrever?”.
Mas agora estou sóbrio, agora não consigo ser descarado o suficiente para sentir pena de mim.
Nos vemos quando eu estiver caindo de bêbado, eu acho.
Escrito em 20/10/2018
Eu acho que seja dia 20. É a madrugada que vem depois do dia 19, não é?
A primeira vez que eu a enxerguei de verdade, foi em uma noite que você e outras amigas da minha irmã estavam no quarto dela, com a porta aberta. Eu saí só de toalha do banheiro, nunca me importei muito mesmo, e as outras duas amigas brincaram comigo, assoviaram irônicas, mas você não. Você se encolheu contra o canto, parou a Ruffles entre a boca e suas bochechas ficaram mais vermelhas que um extintor de incêndio. Meu primeiro pensamento foi que você nunca tinha visto um homem seminu e eu mal poderia saber que estava fodidamente certo.
Gostaria de, hoje, dizer que a entendi, mas a verdade é que não. Garota, eu não a entendo e eu fui dormir com essa inquietação na minha cabeça. Eu sonhei com você naquela noite. Acordei com o sentimento de que não deveria sonhar com você, mas sabe como são os sonhos, não sabe? Eles são inevitáveis e algumas pessoas ousam dizer que eles são os nossos maiores desejos.
Agora, quando não estou nada sóbrio e a minha letra neste papel não passa de um rascunho muito mal feito, sim, eu ouso dizer que o sonho é um dos nossos maiores desejos. Ainda assim, compreenda uma coisa, menina: eu não posso desejar você.
Você é delicada, quase frágil, e mesmo assim definitivamente apaixonante. Eu nunca vi uma malícia nítida em seu olhar, toda vez que a via, jamais me deparei com pensamentos obscenos, diferente das outras garotas. Você apenas era... você. E você me encarava com seus olhos curiosos, embora assustados, e isso puxava todo o meu tapete.
Lembro que naquela noite as garotas conversaram sobre homens, me incluíram no papo, mas você... você não. Eu fiquei a noite inteira acordado, mas não escutei a sua voz proferir um A sequer.
O que isso queria dizer, menina?
Pode ser coisa da minha cabeça, o que provavelmente é, mas, enquanto a maioria falava de mim, o seu silêncio me incomodou.
Por quê?
Fale com o autor