Notas iniciais
Sentado no chão em frente a uma lanchonete, havia um anjo, solitário; que analisava as gostas da chuva caírem e se esparramarem pelo chão, pensando em seu passado. Sempre que pensava em sua vida, ficava deprimido e seu coração apertava um pouco. Sim, esse sou eu, Ivan, ou também conhecido como Anjo de Asas Azuis.
Os anjos são todos iguais: pele bronzeada, combinadas com seus cabelos claros, variando entre loiro ou um castanho claro. Seus olhos normalmente são azuis, mas verdes também é comum de se ver. Possuem uma beleza incomparável a qualquer humano, mesmo eles não tendo um cuidado especial para isso ou ligassem para a beleza. O uso de magia entre os anjos também écomum, mas não sãotodos que tem essa habilidade. E por último, aquelas asas brancas e macias, compridas a ponto de encostar no chão e chegar a dez metros de largura ponta a ponta. Mas não são todos que nascem assim, os que nascem com diferenças notáveis são chamados de "desfeito" (que não foi feito para ser um anjo.), e dependendo da família, são jogados fora ou até mortos. E esse é o meu caso, eu sou um desfeito.
Ao contrário dos outros anjos, minhas asas são azuis, minha pele pálida, meus cabelose olhos negros como o céu à noite. Fora isso, usava magia que aprendi com o tempo e a beleza continua, isso fazia parte do anjo, assim como as asas -no meu caso, azuis -, só que a minha beleza é diferente dos outros anjos, é um pouco mais... escura.
Um anjo recém nascido é muito frágil. Eu tenho sorte de estar vivo ainda, pois meus pais eram muito conhecidos pela vilae muito esnobes, então um anjo desfeito em sua família era nojento, assim, me jogaram fora; e antes de morrer, um casal de anjos humildes me resgataram e cuidaram de mim por toda minha vida em Ezret. De vez em quando surgem anjos que cuidam dos outros. Suspeito eu que esses anjos sejam os do tipo que já passaram por muito tipo de coisa para ligar por meras diferenças físicas. Sempre que eu estava com eles, me sentia alegre e amado, pois me tratavam como se eu fosse importante.
–DESFEITO!, DESFEITO!- as outras crianças gritavam isso jogando pedras em mim, que batiam e deixava minha pele dormente. Algumas riam quando eu era acertado por uma, outros pegavam mais pedras para me acertar. Uma delas acertou a minha maçã do rosto de forma que começou a sangrar, a dor era tanta que tive que conter um grito em minha garganta e secar as lágrimas que logo escorreriam de meu rosto. Limpei o sangue prateadode minha bochecha e me encolhi, botando o rosto entre os joelhos querendo que eles parassem mais que tudo.Cada músculo de meu corpo doendo por causa da força que jogavam as pedras.
De repente, ouço uma voz gritando para que todos saíssem de perto.Não fiquei curioso em descobrir quem se aproximavapois estava com muito medo de olhar para cima e achar mais uma pedra vindo em direção da minha cara. Estremeci todo só de pensar nisso e me encolhi mais ainda me preparando para a pedra, os machucados já quase cicatrizados das últimas vezes se abrindo em meu movimento. Mas em vez de uma pedra dura e fria, eu senti braços quentes e aconchegantes se agarrando em mim. Olhei para cima e me vi cara a cara com o meu irmão mais velho. Ele olhava para as outras crianças de cara franzida, mandando elasembora com a força do olhar. Alguns adultos que passavam o olhavam com desaprovação, porém ele não ligava o que os outros pensavam. Olhando para meu irmão me protegendo, comecei a me sentir mais confortável não querendo mais segurar nada dentro de mim. Lágrimas começaram a cair em meu rosto sem parar e eu soluçava, agarrando a camisa do mais velho.
– Por que as crianças fazem isso comigo? — perguntei entre soluçospara meu irmão, que olhou de volta com um sorriso carinhoso em seu rosto.
– É porque elas te invejam. — ele passou a mão pelos meus cabelos, me fazendo olhar em seus olhos azuis profundos. O tempo que eu passava com o meu irmão era o melhor. Ele sempre me fazia rir e me sentir à vontade, ele sempre me protegia quando necessário. Íamos à campos floridos,subíamosem árvores ecomíamosde seus frutos.Brincávamosde muitas coisas juntas e eu sentia que ele era a pessoa que eu tinha mais afinidade. Sempre contava tudo para ele e vise versa. Éramos inseparáveis. Teve até uma vez que ele deixou sua companheirapois ela brigou comigo. Me sentia feliz só por ele estar ali comigo.
– Por que eles teriam inveja de mim se eu sou diferente?... Um desfeito? — Estava irritado comigo mesmo. "Por que logo eu tive que nascer assim?" pensei.
– Por isso mesmo. Por você ser diferente que eles te invejam. — Ele sorriu carinhosamente mais uma vez, mas agora dava mais confiança. Comecei a pensar que não era euo errado, mas sim os outros, por eles serem invejosos, assim como seu irmão dissera, mesmo havendomuitas coisas que eu ainda não entendia.
–Leo, obrigada por me proteger. — meu sorriso se alongou de orelha a orelha e Leo me abraçou, dizendo pra eu nunca escutar o que as outras crianças falavam. Eu abracei-o de volta sentindo o cheiro de torta de maçã dos seus cabelos dourados e sóassenticom a cabeça. Depois disso, Leo me pegou no colo e disse que tinha comprado mais um livro para mim, e eu estava ansioso para ler, porque quando Leo não estava por perto, a única coisa que eu gostava de fazer era ler, e meus livros prediletos eram aqueles que ensinavam a usar mágica, pois eu tinha uma facilidadeincrívelde aprender as coisas rapidamente. Mas eu não lia só dessegênero;lia de tudo, desde romances até livros de auto ajuda. Para a idade que eu tinha na época, isso não era uma coisa que as crianças faziam, mas eu não me importava.
Pensar em meu irmão era mais doloroso do que eu imaginava que seria. Comecei a imaginar seu sorriso radiante, que sempre me deixava em estado de paz quando o via. Me perguntei o que será que ele diria se me visse no meu estado agora. " Não deixe que isso te deprima, mesmo estando em um lugar diferente, siga com a vida! " seria algo assim, seguido por um sorriso. Lágrimas brotaram nos cantos dos meus olhos mesmo eu não querendo admitir elas.
Aqueledia é um dia muito especial para mim: fazia 13 anos que estava nesta família desde o dia em que me acharam em um buraco ao pé de uma árvore, a ponto de morrer. Foi naquelamesma manhã que aprendi isso, e não estava muito abalado, pois vivia muito bem com minha família, e sentia raiva de meus pais biológicos por terem me abandonado por causa de minha aparência. Vivia anos de ouro com essa família bondosa que eu amava.
De tarde iríamos comemorar o meu aniversário e eu veria Leo, pois agora ele morava com uma amigo dele. "Amigo" era o jeito que Leo se referia de Michael para nossos pais, mas eu sabia que eles eram mais que amigos; afinal, nunca escondíamos nada entre nós.
No dia anterior, Leo disse que viria algumas horas antes da comemoração, porém ele não apareceu. "Talvez eles esteja comprando algum presente pra mim." pensei positivamente, enquanto esperava pacientemente por sua chegada. Porém, na hora marcada, comecei a me preocupar por sua falta, assim como meus pais.
Pai foi ver se ele não estava em sua casa, mas disse que não havia sinal algum dele lá. Então pediu para a mãe sair com ele a procura do filho. Então, sem mais nem menos, os dois saíram para procurar enquanto eu fiquei em casa sozinho, na frente de um grande e enfeitado bolo, sem saber que seria o último.
Passei um tempo sentado emfrente aobolo o contemplando até que ouço batidas na porta e corri ansioso para abrir a porta e encontrar Michael com pavor em seus olhos verdesenquanto me encarava. Não entendi porque ele estava assim, mas se ele estava ali, Leo também estaria.
– Cadê o Leo? — perguntei alegremente. Michael hesitou um pouco antes de me agarrar pelo braço com força e me arrastou para fora de casa em direção ao centro da vila, onde havia algumas pessoas se concentrando em um dos cantos olhando horrorizados para o altar. Esse altar era onde ocorria a maior parte das execuções, e,estranhamente, Leo estava lá em cima, com agonia em seu rosto enquanto passava os olhos pelo público que se formava em volta. Quando nossos olhares se encontraram, eu sorri para ele confuso pois não ainda não sabia o que ele estava fazendo ali em cima, e ele arregalou seus olhos se virando para encarar Michael, como se pedisse piedade, mas Michael oolhava com seriedade.
Voltei-me para Leo e ele sorriu para mim enquanto um homem mais forte chegava com um machado vermelho em mãos. Olhei de novo para Leo, agora o examinando. Sua pele bronzeada estava um tanto pálida, e suas asas e mãos presas por cordas. Mesmo sorrindo, sua expressão não indicava que estava acontecendo coisas boas no momento. Chegamos mais perto do altar e notei que ele tremia.
– O que está acontecendo? — perguntei assustado para Michael, que apertou meu braço com mais força. Tentei olhar para seu rosto, mas os sois atras dele ofuscavam a minha visão. Por um momento, entretanto, pude jurar que vi o medo tomando-lhe conta. O homem do machado parou emfrente aoLeo e se virou para o público, falando algo sobre Leo ser condenado à morte por ter tido atos sexuaiscom um anjo do mesmo sexo, porém eu não entendia o que essas palavras significavam devido a minha idade. Assim que terminou seu mini-discursose virou para Leo e o chutou no estômago, fazendo-o cair e gemer de dor. Eu gritei horrorizado pela ação do outro perdendo fôlego logo em seguia e as pessoas em volta se afastaram de mim quando perceberam que eu estava ali. Arregalei meus olhos quando vi que sangue caia de sua boca. Ignorando meu grito, o homem do machado perguntou:
– Você tem direito a últimas palavras, tem algo para dizer? — Leo levantou o olhar com dificuldade e mirou em mim, deu o melhor sorriso que conseguia e disse:
– Feliz aniversário, Ivan. — sua voz estava fraca. Lágrimas começaram a se acumular em meus olhos e meu corpo tremia à medida que o homem levantada seu machado em direção aopescoço de Leo, cujos olhos estavam fechados como se ele tivesse dormindo, mas as lágrimas que escorriam em seu rosto não diziam o mesmo. Assim que a lâmina vermelhaencostou no pescoço do outro, algo dentro de Leo começou a se expandir para todos os lados até que rasgou sua pele e o que antes era Leo, virou sangue para todos os lados, principalmente para quem estava em frente ao altar, principalmente em mim. Nenhum som saia de dentro de minha boca, e lágrimas escorriam de meus olhos e eu não tinha condições de secá-las. Minhas pernas amoleceram e eu cai de joelhos no chão, vendo minhas mãos pintadas de prateado e as lágrimas caindo no chão enquanto eu repassava tudo que acabara de ver em minha mente. Ainda não acreditava no que vira, meu irmão não poderia estar morto, quando eu chegar em casa, ele estaria lá, me esperando na frente do bolo e me dando parabéns.
Me levantei do chão com dificuldade evisualizeia poça de sangue no altar. "Esse não é o meu irmão" pensei, e sai correndo voltando para casa. Os sons em minha volta, as pessoas em que eu batia, essas coisas não me importavam. Tinha que me encontrar com o meu irmão, ele não tinha acabado de morrer na minha frente. Ignorei o chamado de Michael atras de mim, e me lancei ao arpara casa para ser mais rápido, o vento forte machucando meu rosto quando se encontraram. Assim cheguei em casa, achei meus pais sentados no sofá e vasculhei a casa, nada de Leo. Perguntei para meus pais se eles encontraram Leo e pasmos encarando o sangue em mim disseram que não. Arregalei os olhos e comecei a chorar mais forte, gritando junto. Meus pais perguntaram o que havia acontecido, mas, de novo, não conseguia falar, cai de bunda no chãoe minha mãe chegou por trás e me abraçou, não ligando o sangue. Porém, naquelemomento eu queria ficar sozinho, então sai de seu abraço e corri o mais rápido que pude para longe de casa, esbarrando em algumas pessoas até chegar em um dos campos que eu e Leo maispassávamoso tempo. Me sentei ao pé da única árvore entre a vastidão verde que se seguia até o horizonte e virei minha cabeça para cima visualizando os galhos em quesubíamosefazíamosmacaquices até chegar o primeiro pôr-do-sol, que nós nossentávamoseolhávamosele sumindo aos poucos, conversando sobre como seria bonito de se ver o pôr-do-sol se aquilo fosse um campo de cereais, pois combinaria mais com as cores alaranjadas que iam se formando entre as nuvens. Perdido em meus pensamentos mal notei quando alguém se aproximava de mim. Seus cabelos dourados e cacheados balançando ao vento.
–... Michael? — perguntei. Minha voz estava rouca de tanto chorar e gritar, entretanto, ver Michael se aproximando me fazia sentir um pouco melhor. Mas quando se aproximou pude notar que ele me olhava com desprezo e nojo, assim como todas as outras pessoas. Arregalei os olhos de medo e falei de novo seu nome. Quando chegou em minha frente, me encarou por longos segundos até que botou sua mão em meus cabelos escuros e começou a acariciar. Fechei os olhos ao seu toque, me lembrando de como eu me sentia seguro perto de Leo, mas logo em seguida seus dedos em minha cabeça se fecharam em um punho segurando boa parte de meus cabelos. Minha cara foi empurrada para cima conseguindo ver somenteseu rosto sombrio. Arregalei os olhos aterrorizadoe sentindomeus cabelos queimaremonde Michael segurava.
– É tudo sua culpa! — falou ele em um tom asqueroso. Ele levantou mais sua mão com força, me levantando. Cada fio de cabelo que a mão de Michael puxavadoíamem sua raiz cada vez mais e imaginavaque eles seriamarrancados. — É tudo sua culpa.- repetiu ele mais baixo. Sua mão aindasubindoaté que eu não pudesse mais encostar no chão. Meus cabelos pesandomais ainda e meus olhos voltaram a se encher de lágrimas enquanto encarava Michael de olhos arregalados. — O-o quê? — desafiei perguntar, e em resposta ele me jogou no chão, batendo de costas na árvore, machucando meu pulmão e tive dificuldade para respirar depois. Mão tive mais forças para ficar de pé. — Não finja que não saiba, desfeito. — Michael nunca falara assim comigo antes, e comecei a sentir um tremendo terror do que aconteceria agora.
Mesmo assim,eu não entendia do que ele estava falando e porque estava fazendo o que fazia, mas a próxima coisa que eu vi foi um pé vindo em direção ao meu estômago. Uma onda de dor passou pelo meu corpo e meus braços amoleceram me fazendo bater de queixo no chão com os olhos ainda arregalados e não tendo força para soltar um grito estridente. Logo em seguida um líquido surgiu em minha boca e eu o cuspi, machucando meuspulmõescom a ação. Olhei com dificuldade para o chão aonde o líquido fora cuspido e vi que era sangue. Tremia de dor e medo enquanto encarava o sangue no chão, a dor era tanta que não conseguia pensar em outra coisa além dela. De repente me lembrei de um um feitiço que aprendi sobre cura e tentei conjugar, mas assim que um circulo branco começou a se formar em minha mão, Michael pisou com força em minha mãofazendo o feitiço se desmanchar pelos ares e um ruido parecido com um grito sair de minha boca. Michael riu.
– Você sabe... se não fosse pelo Leo, — começou ele, apertando mais seu pé sobre a minha mão, quebrando o meu pulso. — eu já teria feito isso há muito tempo atrás. Mas não, — tirou o pé da minha mão e me arrancou do chão pela gola de minha camisa. — ele te amava mais do que a mim. — cuspia ele, essas palavras em minha cara. — Eu não entendo o porque, você não é ninguém, nada além de lixo que não deveria nem existir. Suas asas dão nojo a todos que te veem, terei que lavar bem as minhas mãos pra não ficar sujo de desfeito. — essa foi a primeira vez que alguém falou isso neste tom para mim. As lágrimas que caiam de meus olhos não paravam de rolar e suas palavras ecoavam dentro de minha cabeça como veneno, mesmo não querendo admitir, sabia que ele estava certo. Acumulei um pouco que coragem e perguntei por que ele estava fazendo isso. -Obviamente, porque é sua culpa que ele morreu e eu morrerei. — gritou ele. — Você era a única pessoa que sabia de nós como um casal, sabe por quê? — ele me encostou na árvore e quase no meu ouvido sussurrou. — Porque Leo confiava em você. — com sua outra mão tirou uma das penas de minha asa direita com força, doendo tanto quanto o chute que levei no estômago. Não pude segurar o grito de dor, saindocurto e agudo. — Eu sinceramente acho que a vida de todos a sua volta seriam mais felizes se você não existisse. — e com essa última praga, me largou e cai no chão com um bang, o pulsodoía e o estômago se revirava. As lágrimas quentes ainda caindo de meus olhos e minha cabeça girava, pensando em todas as coisas que Michael dissera e não conseguindo ver nada. Que eu me lembrasse, nunca falei nada a ninguém sobre os dois.
– Ah, pensando bem... — falou Michael dando meia volta para me encarar novamente. — Eu suspeito que Leo nem gostava de você, ele só fingia porque tinha pena de você. Essa éa única coisa que alguém poderia sentir por um desfeito como você. — e foi embora, só deixando comigo a dor de suas palavras e ações. Eu, por outro lado, fiquei sentado a beira da árvore, não querendo acreditar no que Michael disse sobre que o Leo não gostava de mim. O primeiro pôr-do-sol terminou e eu fiquei me lembrando de todos os momentos bons que passei com Leo, mas sempre acabava me lembrando de sua cara enquanto me dava feliz aniversário prestes a morrer a minha frente. Tentei pensar em outra coisa, mas sempre tinha algo que eu relacionava com Leo, então, não conseguia fugir da realidade, não mais. Não sem Leo por perto.
Aquela noite, eu passei sentado no pé da árvore, pensando. Sentindo raiva,tristezae sentimento de perda. Quando voltei pra casa, meus pais já tinham descoberto o que acontecera no dia anterior com o Leo, mas mesmo assim se preocuparam com o meu estado, porém nada disse, não sentia vontade de falar com ninguém no momento. Entrei no meu quarto e de lá não saí por um bom tempo.
Depois daquele dia, eu nunca mais sorri.
Joguei esses pensamentos para longe e comecei a prestar atenção nas pessoas que andavam na rua. Algumas com guarda-chuvas, andando calmamente morro abaixo, outras tentando fugir da chuva. Suas almas — facilmente visíveis- variavam entre amarelo, vermelho ou laranja, mesmo não sabendo o que elas significavam, a maior parte dos humanos possuíam essas cores como principal em suas almas. De repente, senti um líquido quente cair em minha cabeça e logo me pus de pé assutado e olhei para trás para encarar um menino, não mais de 25anos, com os olhos arregalados de medo e tremia ao me encarar. Ele vestia um avental preto por cima de sua calça também preta, e em sua camiseta branca havia uma etiqueta com alguma coisa escrita, porém não conseguia entender de tão velho que era. Olhei para a cor principal de sua alma e a cor dela me deixou espantado. Era roxa. Desde que cheguei neste mundo nunca vira um humano com a alma desta cor. Que estranho, pensei. Por baixo das sardas em suas maçãs do rosto pude ver que ele estava envergonhado.
– M-mil perdões! — gritou ele, tirando um pano de seu avental e passando por meu cabelo. Fiquei calado e notei que meu casaco tinha manchado. Assim que ele notou também, soltou chiado agonizado e me pediu para ficar ali esperando um momento. Visualizei por um segundo o ponto ruivo sumir no meio da multidão dentro do café e logo em seguida encarei as pessoas que me olhavam com curiosidade, meu olhar frio espantando olhares. Assim que o menino apareceu de novo, estava vestindo uma roupa mais casual em vez do uniforme, agarrou minha mão me fazendo estremecer. "Quando foi a última vez que eu toquei em alguém?" pensei, sentido sua palma quente segurando meu pulso. — Venha comigo. — disse ele, e eu o segui.
Fale com o autor