O cabelo cor de rosa encontrava-se preso num coque alto e bem alinhado enquanto o corpo se delineava através de um vestido tomara que caia. O tecido branco era simples, leve e definido, sem qualquer detalhe extravagante. Podia-se dizer que o decote em V era comportado, as bijuterias detalhadas em cor ouro eram pequenas e discretas e o scarpin de camurça rosa bebê completava o visual. A boca fora pintada com um rosa mais vívido ao passo que a íris verde dos olhos femininos se destacavam devido ao delineador preto, dando a ela um toque encantador de seguridade.

A noite do primeiro sábado de primavera não estava tão fria, além disso, o seu destino final era perto do seu apartamento no centro da cidade, o que levou-a optar por um táxi. Ao fim e ao cabo, quando colocou os pés para fora do veículo, não percebera o quão nervosa estava para um primeiro encontro. Porém, já dentro do restaurante, enquanto caminhava em direção ao sorriso galanteador que pintava os lábios carnudos de Akasuna no Sasori, seu colega de profissão, notou que era tarde demais para analisar se o conselho que sua tia lhe dera de deixar-se envolver era realmente correto. Depois das constantes insinuações e convites do ruivo, a rosada não conseguira negar acompanhar-lhe num jantar. De longe, sorriu para o homem assim que vislumbrou a caneca de vidro, contendo cerveja, entre os dedos masculinos.

Embora estivesse sendo guiada por um garçom, seu olhar percorria toda a extensão. O restaurante australiano se mostrava mais requintado do que imaginara, constatou. O ambiente era agradável e refrigerado. As mesas e cadeiras feitas puramente de madeira davam um ar rústico enquanto a exuberância do local fazia-se nas luminárias bem trabalhadas e nos quadros fotográficos de Camberra¹. Além disso, Sakura concluiu, pequenos detalhes realmente fazem a diferença. Como, por exemplo, o miúdo tatu que encontrava-se sobre as mesas dando um toque especial. Tudo ali ilustrava a Austrália saudosamente.

— O lugar lhe agradou, chérie? — A voz do homem de madeixas avermelhadas saiu suave e Sakura pôs-se a respondê-lo assim que se acomodou na cadeira frente ao parceiro, deixando as mãos sobre a mesa.

— Confesso que não tinha tido uma boa impressão quando me falou desse restaurante. — Sorriu divertida, lembrando-se da hesitação quanto ao local do jantar. — Mas estou impressionada, o lugar muito me agrada. — Completou, fazendo uma pequena reverência. Sinal que fez o Akasuna sorrir de lado, afinal, a Haruno tinha lhe dado razão.

— O dono desse restaurante é um velho amigo meu. — Comentou Sasori, bebericando a cerveja antes de continuar. — A propósito, já comentei o quão linda está hoje, chérie? — Elogiou a medida que pousava a mão masculina sobre a feminina, num afago carinhoso.

Nesse momento, a Haruno ficou totalmente desconfortável. Precisava conversar sobre isso com o rapaz num outro dia. Ainda não estava preparada para mergulhar de cabeça. A mulher limitou-se a dar um sorriso e quando um agradecimento ia escapar-lhe pelos lábios, seus olhos visualizaram um homem gorducho vindo as pressas em direção a eles. Sakura acenou com a cabeça indicando a aparição alheia, o que fez com que qualquer contato físico entre ela e o ruivo se quebrasse.

Era baixo, gorducho e usava roupas brancas. O toque² descartável era de um tamanho tão considerável que Sakura recompôs-se em relação ao rapaz, lembrando-se que se tratava de um chefe de cozinha, estritamente profissional. O semblante preocupado tomava conta da face do cozinheiro chefe e os lábios se movimentavam como se estivesse praguejando algo. Assim que os passos rápidos o levaram até o casal recém formado, as mãos gorduchas apoiaram-se na mesa e o rapaz ofegava. Quando Sakura voltou o olhar para o seu acompanhante, notou a sobrancelha ruiva arqueada, como se estivesse tentando entender, como se esperasse uma explicação.

— O senhor está bem? — Indagou a rosada adotando um tom acolhedor enquanto sua mão fora de encontro a do rapaz. Recebeu um balançar de cabeça afirmativo e de forma abrupta a atenção do homem foi para Sasori.

— Sasori-sama! Sasori-sama! — Chamou o gorducho enquanto segurava firmemente as mãos do ruivo, como se estivesse implorando por algo.

— Mas que raios deu em você, monsieur? — A indignação do Akasuna era tamanha que o sotaque francês escapou mais carregado. Sotaque esse que fora consequência de anos convivendo em outra cultura. Nessa altura do campeonato, o cozinheiro já balançava freneticamente o par de mãos.

— Kisame-dono mandou chamá-lo! Tem um senhor passando mal na área reservada. — A explicação veio rápida demais, o chefe de cozinha despejava as palavras num desespero e tanto. O Akasuna quieto estava, quieto ficou enquanto direcionava o olhar para a rosada.

— Onde? — A reação veio da Haruno. — Me leve até lá. — Soltou a garota, apesar do semblante alheio demonstrar confusão

—L-l-leva-la? — Gaguejou o gorducho.

— Sim, posso ajudar. — Esbravejou Sakura, fitando-o com seriedade e urgência no olhar, já que o homem não reagia.

~


A motivação só crescia dentro de si. O cozinheiro guiava tanto ela quanto Sasori até uma das salas reservadas. Lhe fora explicado que era um jantar importante e que reunia uma das famílias primordiais na economia do país. O ruivo atrás de si caminhava preguiçosamente, o que deixou a mulher frustrada. Forçava os pés para aguentar a dor oriunda dos saltos, já que conseguia visualizar de longe a entrada para as saletas. O homem a sua frente começou a correr novamente, o que fez Sakura franzir o cenho e ficar para trás. Quando deu por si, o ruivo e o cozinheiro a esperavam. Os homens entreolhavam-se, decidindo silenciosamente quem abriria a porta. A Haruno, descrente com o que acontecia, bufou a medida que se aproximava. Porém, o que despertou todos os três fora o barulho de uma tosse contínua vindo de dentro da saleta. Reagindo rapidamente, a rosada girou a maçaneta e seus olhos visualizaram toda extensão dentro da sala. Os pequenos neurônios trabalhavam mais rápido do que nunca em cima daquela cena. Havia realmente um senhor passando mal. Provavelmente algum pedaço de carne o entalara. Já que o filho mais novo dava batidinhas inúteis nas costas do pai enquanto o filho mais velho ficava apenas observando com um olhar impassível. A senhora, provável mãe dos rapazes, estava aparentemente aflita com toda aquela situação, mas permanecia sentada numa poltrona. No mais, não passaria de uma pequena ocasião de emergência. Se eles não carregassem o sobrenome Uchiha.

Depois dos mais longos segundos de sua vida, a atenção caiu geral sobre a porta escancarada. Mas não para ela, sim para o Akasuna.

— O que pensa que está fazendo parado nessa porta, Akasuna? — A pergunta partiu do primogênito, Uchiha Itachi. Sakura reconhecera a família de imediato devido a constante aparição em manchetes. Estava de pé e com os punhos cerrados, levando no corpo um traje formal preto e os cabelos presos. O clima pesou, já que todos ali pareciam ignorar a presença tanto de Sakura quando do cozinheiro. — Ajude-o logo. — Mandou.

— Mas eu sou só um fisioterapeu.. — Começou o ruivo. Estava tão nervoso que vez ou outra passava as mãos na cabeleira. Porém, antes de concluir a frase, o mais velho voltou a falar e o cortou.

— Não perguntei sobre sua qualificação, Akasuna. — Respondeu ácido. — Só faça.

A mulher de madeixas rosadas observava a situação totalmente incrédula. Quando Sasori fez menção de ir até o senhor que continuava tossindo, Sakura deu espaço para o corpo masculino passar pelo batente da porta. Os olhos esmeralda acompanhavam o rapaz fazer os procedimentos iniciais corretos, que se limitava em dar um solavanco por trás. A garota fitava atenta toda a movimentação do seu quase caso, levando a mão direita até o queixo feminino. Como se estivesse pensando em algo. Os procedimentos do ruivo nada adiantaram e quando o mesmo se preparava para enfiar a mão goela abaixo e retirar o que maltratava o corpo alheio, o senhor perdeu a consciência. Esse fora o primeiro instante que os olhos do fisioterapeuta fitou os olhos esmeraldinos, pedindo, clamando por socorro.

~

Quebrou o contato visual com Akasuna no Sasori assim que cerrou os olhos e suspirou resignada. Antes de movimentar-se para sair do batente da porta, Sakura virou-se e sussurrou para que o cozinheiro lhe trouxesse uma faca de cerras esterilizada o mais rápido possível. Quando por fim movimentou-se em direção ao álcool em gel, pendurado numa das paredes da sala, notou que a atenção dos indivíduos voltou-se finalmente para ela. Os integrantes da família Uchiha a fitavam porque seu acompanhante direcionou a atenção à ela e seu último ato antes de ajoelhar-se ao lado do corpo inconsciente do matriarca, fora livrar-se do scarpin rosa que tanto lhe incomodava.

Sem delongas, aproximou-se do rosto desfalecido em sua frente e notou por fim que faltava-lhe ar. A face da mulher de cabelos rosados adotou uma expressão séria e quando levantou os olhos, encontrou o par de ônix a fitando, frente a frente. Segundos se passaram enquanto os olhos esmeraldas tentava, em vão, decifrar aquela imensidão que era os olhos alheio. Apesar de não conseguir imaginar o motivo daquele olhar tê-la perturbado, não hesitou nem por um minuto em revelar a verdade.

— Sou médica cirurgiã do mesmo hospital que o Doutor Akasuna. Vou precisar fazer uma traqueostomia ou ele vai morrer asfixiado. — O tom saiu baixo com a finalidade de confidenciar o fato somente ao homem engravatado ajoelhado em sua frente.

— Se vai salvá-lo, faça. — A autorização veio com mais facilidade do que Sakura esperava. Fitou-o uma última vez, o cabelo escapava das amarras e apesar da calmaria presente em sua voz, a Haruno lidou por anos com situações parecidas para saber que no fundo aquele homem estava tão desesperado quanto o restante dos familiares. Estes que, Sakura notou, aproximaram-se logo após.

— Sasori, chame uma ambulância. — A mulher despejou os comandos sem mesmo direcionar o olhar para o ruivo. — E vocês. — Fitou tanto a esposa do matriarca quanto o filho mais novo. — Se afastem para que eu possa fazer o meu trabalho corretamente. — Mandou. E sentiu a intensão de Itachi levantar-se para se juntar aos familiares. Impediu-o segurando parte do terno masculino. — Você fica. Vai me ajudar. — Concluiu e viu o corpo masculino assentar-se a sua frente. Nesse momento o cozinheiro entrou na sala com seus passos apressados e entregou-lhe tanto a faca que pedira antes como o kit de primeiros socorros do restaurante de Kisame. O kit fora passado para o colo de Uchiha Itachi que fitou-a com uma sobrancelha arqueada.

— Me ajude com as gazes e prepare um tubo de caneta. — Pediu, baixo. Notou o moreno apenas assentir, o que estranhou dado a forma como tratara o Akasuna momentos antes.

Então, as mãos femininas começaram a realizar os primeiros procedimentos no matriarca Uchiha. Com as pontas dos dedos, tateou a região do pescoço masculino a fim de encontrar a membrana³ correta para fazer a incisão e quando a encontrou, a mão direita fez o trabalho de deslizar a faca para perfurar o local no intuito de criar a possibilidade de escape do ar. Por conseguinte, não tardou para um pouco de sangue aparecer e independente de estar concentrada na cirurgia de emergência, pôde ouvir os lamentos da outra mulher dentro da sala.

— Gazes. — Pediu e num reflexo, Itachi lhe entregou um punhado de gazes para estancar o sangue. A mão de ambos se tocaram e Sakura pôde sentir algo diferente nesses milésimos de segundos, entretanto, ignorou mais uma vez. — Tubo. — Pediu novamente e fora atendida. Sem delongas, introduziu o tubo na abertura, finalizando o processo. Porém, depois de dez longos minutos, nenhum sinal de Fugaku recobrar a consciência. — Mantenha a cabeça dele levantada para controlar o sangue, Uchiha. — Pediu à Itachi.

— O que houve? Por que meu marido não acorda? — Perguntou a mulher mais velha do local, já se aproximando. — O que você deixou essa desconhecida fazer com seu pai, Itachi? — A voz se alterou na pergunta feita ao filho e a rosada levou os olhos até o homem, que não a fitou dessa vez.

— Ele passa bem e pode ser que não recupere a consciência de imediato. — Disse, sentindo a necessidade de dar um parecer a senhora.

— Como posso confiar nas suas palavras, menina? — O tom de desprezo se fez presente na voz de Mikoto e a rosada nada respondeu. Porém, ficou transparente para todos que Sakura não gostara da desconfiança.

— A 119 chegou! — Anunciou Sasori, adentrando o local com os paramédicos. Fora a deixa para a médica cirurgiã sair da sala, afinal, a equipe que viera faria o restante dos procedimentos.

~


O vestido tomara que caia branco encontrava-se amarrotado e manchado de sangue. O cabelo rosa, antes preso, agora caia como uma cascata desgrenhada até a cintura fina da mulher. Quando olhou para o espelho a sua frente, notou as olheiras que a maquiagem já não mais escondia, o que fez Sakura esfregar as mãos com mais afinco debaixo da água corrente. Acabou por pensar que o encontro com Sasori fora um fiasco e seria difícil para ele convencê-la a sair novamente. Suspirou, derrotada com a ideia de contar a sua tia Tsunade, que estava tão animada, o fato de nada dar certo em sua na vida amorosa. Pelo menos salvou uma vida hoje, mesmo que a contragosto alheio.

— Toc,toc. — Uma voz rouca pouco conhecida se fez presente, tirando-a de seus devaneios. Quando virou-se em direção a porta do banheiro feminino, deparou-se com Uchiha Itachi. Sakura sobressaltou-se com tamanha ousadia, o que fez o moreno sorrir de lado. — Meu pai acabou de acordar. — Soltou.

— E por que não foi com ele? — Perguntou.

— Porque esqueci de agradecer a Doutora que salvou-lhe a vida. — Respondeu simplesmente, aproximando-se dela sem esbarrar na placa em seu caminho que avisava sobre o chão molhado.

— Não há nada para agradecer, fiz o meu trabalho como médica. — Devolveu, voltando a sua atenção ao espelho. Procurou não fitá-lo por saber que o mesmo a atingia.

— Na verdade, seria melhor que esse acontecimento ficasse apenas entre os envolvidos. — Começou, devagar. Itachi fitava a expressão da rosada, que não se alterara, através do espelho. — Estou disposto a oferecer uma..- Parou por um segundo para encontrar a palavra correta. — Gratificação.

— Suborno, você quis dizer. — Soltou, virando-se para ele num ímpeto. — Existe uma coisa chamada sigilo médico, sabia? — Perguntou, apesar de imaginar que o homem a sua frente entendia perfeitamente a existência do que acabara de falar.

— Prefiro não arriscar. — Alertou-a enquanto apoiava a lateral do corpo na parede cor de rosa do banheiro feminino.

— Não importa. Não tenho tempo para provar que sou diferente da sua gente. — Disse. A maneira com que a rosada pronunciou as palavras levou Itachi a concluir que ela o conhecia. Sentiu-se ofendido, entretanto, um sorriso pequeno pintou os lábios dele. — Fique com a sua gratificação.

Sakura fechou a bica e o barulho da água corrente já não mais se ouvia, posicionou a bolsa que levara no ombro e preparou-se para sair. O scarpin de camurça ainda a machucava, todavia, a vontade de deixar o local era tamanha que apertou o passo. Não notou o aviso. Nem quando entrara no banheiro feminino. A placa ridiculamente amarela só chamou atenção de seus sentidos quando os pés deslizaram no chão molhado, o que levou-a a cerrar os olhos, esperando pela queda.

Que não veio.

Diferente do que imaginara, um braço aconchegante segurou-a pela cintura. O Uchiha a havia salvado da iminente queda, abraçando-a sem pudor algum. Pôde sentir o cheiro de loção pós barba, pôde sentir o calor humano emanando em sua frente. Sentiu-se atraída e atraente, apesar das circunstâncias. O corpo feminino ficou rígido, porém, Itachi não soltou-a do abraço. Apenas aproximou-a mais de si, a ponto de sentir a respiração feminina contra seu rosto, obrigando-a a fitá-lo nos olhos. Desse modo, o clima intenso parecido com o que havia sido ignorado por ambos anteriormente, fez-se presente como consequência.

— Posso considerar esquecer tudo que aconteceu hoje e começar do zero com você. — Disse.

Sakura pôde jurar que havia um brilho diferente transbordando nos olhos ônix. Ademais, pôde jurar também que Uchiha Itachi lhe traria uma séria dor de cabeça. E devido a isso, não achou outra alternativa a não ser soltar-se dos braços alheio, numa fuga silenciosa.

Notas finais
Camberra¹ - É a capital da Austrália.

Toque² - É o nome original do chapéu do cozinheiro. As alturas variáveis dos chapéus identificam o posto exercido por cada um, sendo que o chef usa sempre o chapéu mais alto enquanto os auxiliares mais simples usam apenas um boné.

Membrana³ - A cricotireotomia é preferível quando é uma situação de emergência. A membrana Cricotireóidea é onde se faz a incisão e é identificada através do apalpamento.
Veja mais sobre em:
www.otorrinousp.org.br/imagebank/seminarios/seminario_70.pdf