Quando pensar em destino, pense em mim.
2 Capítulo 2
— E vocês não deram nem uma bitoquinha, Sakura? — Perguntou a loira enquanto gesticulava com as mãos uma suposta "bitoca".
— Não. Meu encontro foi um desastre e você ainda queria que eu aceitasse a proposta de um desconhecido? — Sakura rebateu enquanto remexia o ramen instantâneo com os hashis.
— Mas não era um desconhecido. Era Uchiha Itachi. — Contra argumentou, indignada.
— O cara tentou me subornar por ter feito o meu trabalho, Ino. — Soltou enquanto levava até a boca um amontoado de macarrão. — Não merecia uma bitoquinha. — Finalizou.
— Você perdeu uma bela de uma oportunidade. Nem parece amiga minha. — Riu divertida.
— Também não sei onde fui arrumar uma amiga como você, Ino. — Riu do bico feito pela loira quando acabara de falar. — Agora, uma questão mais importante. — Disse Sakura, tirando um envelope pardo de dentro do bolso do jaleco e despejando em cima da mesa do refeitório. A Yamanaka logo abriu o envelope, que revelou-se num convite.
— Você está sendo convidada para uma jantar beneficente na mansão Uchiha. — Concluiu, depois de ler o conteúdo.
— Seria muita falta de respeito não ir, não é? — Perguntou a rosada, embora fosse uma resposta óbvia.
— Sakura! — Clamou a amiga. — Código vermelho vindo em nossa direção em 3,2.. — Começou a contagem, o que fez Sakura endireitar-se na cadeira e deixar a comida de lado. — 1!
— Doutora Haruno. — A voz aguda da chefe administrativa do Hospital Namikaze soou e quando notou, Karin Uzumaki estava sentada em sua frente com as pernas cruzadas enquanto mascava um chiclete.
— Em que posso ajudá-la, Karin? — Perguntou e sentiu vontade de sumir quando vislumbrou uma pasta branca nos braços alheio. A mulher de madeixas avermelhadas só lhe trazia problemas e a situação só piorava pelo fato de ser uma segunda feira.
— Nessa pasta contém as informações da residente que ficará sob a sua responsabilidade. — Disse no momento em que estendeu a pasta em direção a rosada, que pegou para analisá-la. — Naruto pediu para dar uma atenção especial à ela.
— Residente¹? — Perguntou-se, baixo. Era a primeira vez que ouvia sobre algo assim direcionado a ela. Entretanto, sua curiosidade fora saciada assim que os olhos esmeraldinos percorreram o currículo de Hyuuga Hinata. — Diga ao Naruto que não vou me submeter a instalação de privilégios. — Respondeu, o que deixou tanto Ino, que ouvia tudo calada, quanto Karin apreensivas. — Aliás, não. Deixe que eu mesmo falo com ele. — Levantou-se e direcionou-se ao escritório do chefe e amigo, Uzumaki Naruto.
O Hospital Namikaze podia ser considerado um dos maiores e melhores hospitais de Tóquio. Alguns anos atrás fora fundado por Kushina Uzumaki, mãe de Uzumaki Naruto, que hoje em dia vestiu a camisa da presidência do hospital. Todos as áreas eram bem equipadas, com disponibilidade de medicamentos, profissionais e materiais para a realização de diversas cirurgias. Haruno Sakura era uma dessas profissionais, chefe da área de cirurgia geral. A mulher de madeixas rosas optou pelas escadas e depois de longos minutos subindo, chegou ao andar que ficava o escritório de Naruto. Entrou sem bater. A sala era grande e bem decorada, numa mistura de tons de laranja, marrom e branco. O gosto peculiar do seu chefe era realmente questionável, pensava.
— Um dia ainda irá receber uma advertência por entrar de supetão, Sakurinha. — Riu divertido assim que pronunciou-se, sem fitar quem entrara já que continuava a digitar algo no computador.
— Imagino que saiba o motivo de eu estar aqui, Naruto. — Soltou com seriedade, levando a pasta branca até a mesa de vidro do chefe.
— Eu? Não faço ideia. — Fez-se desentendido.
— Não posso aceitar o trabalho com a residente. — Disse. — Não sei o motivo que o levou a pedir a mim, mas peça a outra pessoa. — O pronunciamento chamou atenção do loiro, fazendo-o parar de mexer no computador e encostar na cadeira branca.
— Simples, você é a melhor médica que eu tenho. — Começou, analisando a situação. O cotovelo direito apoiado na cadeira e a mão no maxilar. — E foi um pedido particular de um amigo da família. — Finalizou.
— Amigo? Então não é por causa do conchavo do hospital com a empresa de distribuição Hyuuga? — Perguntou, descrente quanto a Naruto balançar a cabeça indiferente.
— Hinata será noiva de uma família importante. Que além de ser acionista do hospital, são amigos da família. — A voz masculina tornou-se um aúdio estranhamente infame. Um arrepio estranho percorreu-lhe a espinha, deixando-a inquieta.
— Não conhecia esse seu lado, Naruto. — Soltou, no automático.
— Sakura, você é minha amiga há anos então tenho certeza que vai entender quando digo que não posso fugir disso. — Sakura suspirou. Naruto continuou a falar, porém, agora sobre os detalhes especiais do currículo da mais jovem. Os minutos pareceram-lhe eternos. — Entendeu? Dê assistência a ela. Não quero ter que ameaçar sua posição no hospital para conseguir. — Soltou por fim o loiro, adotando um tom diferente do que a rosada estava acostumada. O que estava escancarado em sua frente feria seus princípios, porém, a mulher necessitava manter o emprego.
Ao fim e ao cabo, Sakura apenas assentiu, não acreditando na sua concordância com o assunto e tampouco no que seu chefe acabara de falar. Pegou novamente a pasta branca e girou os calcanhares para sair da sala, num movimento puramente robótico.
— Hmpf! — Praguejou enquanto descia as escadas para a área de emergência. Entretanto, já não tinha tempo para pensar nisso, afinal, estava escalada para um novo plantão.
~
O plantão de quarenta e oito horas pareceu-lhe, pela primeira vez, muito longo, apesar de proveitoso. Fora chamada diversas vezes para analisar supostos casos de cirurgia e integrou a equipe médica numa de emergência. Quando seus pés, envoltos por um all star branco, pisaram no estacionamento do Hospital, finalmente pôde despreguiçar-se sobre o céu estrelado. Esticou o corpo esbelto de tal maneira que fez a blusa de moletom cinza subir, deixando aparecer parte da barriga delgada. E foi nesse exato momento que seus ouvidos captaram um assovio. Pareceu-lhe maldoso, entretanto, a diversão brincava nos olhos do Uchiha quando virou-se para fitar quem a incomodava.
Surpreendeu-se.
— Não fomos apresentados formalmente, Doutora Haruno. — Soltou, aproximando-se da mulher de madeixas rosadas. A voz grave continuava a mesma, o traje formal também, todavia, dessa vez, os cabelos de Itachi estavam perfeitamente presos por um elástico. Sakura perguntou-se se algum dia poderia vê-lo sem essa amarra. Desejou, por segundos, poder tirá-las.
— Nos encontramos de novo, em menos de uma semana, Uchiha? — Perguntou, mascarando-se através do sarcasmo, da ironia. — Vou pensar que está planejando algo. — Findou, procurando não fitá-lo tão diretamente já que a tensão devido ao último encontro poderia vir a tona.
— Para a sorte da doutora, tive que tratar de assuntos com o Naruto. — Explicou o mais velho, dando a entender que sabia mais do que a rosada imaginava. — Não a deixarei fugir dessa vez. Poderá desfrutar da minha humilde companhia. — Concluiu, convencido.
— Ah, dificilmente isso irá acontecer. — Respondeu, curta. Remexeu na bolsa a procura da chave do carro. Não despediu-se. Apenas virou-se e começou a andar em direção ao HB20 branco, destravando as portas. Entrou no carro, colocou a chave na ignição e pôde ouvir o barulho da porta do passageiro sendo fechada.
— O que pensa que está fazendo? — Perguntou, estupefata. Fitou-o nos olhos por breves instantes e o silêncio predominou até o homem procurar pelo cinto de segurança.
Dela.
Sakura segurou a respiração entre os segundos em que Itachi inclinou o corpo para perto do seu no intuito de puxar o cinto de encontro ao travamento.
— Me dê uma carona. — Disse, sem esperar qualquer resposta. O semblante do Uchiha estava verdadeiramente sereno naquele dia.
— Você também vai para o centro? — Perguntou ela.
— Mesmo se não fosse, agora vou. — Respondeu, divertindo-se.
— Não se acostume, maldito. — Praguejou, baixo. Porém, soube que o mais velho tinha entendido devido ao sorriso pequeno que pintou os lábios dele por segundos. Nesse momento, virou a chave, ligou o carro e deu a partida em direção ao centro da cidade.
O clima dentro do automóvel era claramente inquietante, apesar da música tocando baixo. Por um tempo, nenhum dos dois se pronunciou. Ela, oscilando entre o que imaginava ser nervosismo e curiosidade, fixou os olhos na rodovia com a finalidade de tentar desviar a atenção da existência ao seu lado. Ele, por sua vez, não deixou de fitá-la por um só minuto. O coque mal feito nos cabelos cor de rosa e o moletom cinza largo o fez visualizar uma Sakura divergente do dia em que se encontraram pela primeira vez. Notou a falta de jeito dela com a situação e divertia-se vendo-a morder os lábios vez ou outra para não direcionar-lhe o olhar. Entretanto, quando o carro parou no sinal vermelho, o Uchiha decidiu pronunciar-se.
— Recebeu o convite que lhe mandei? — Perguntou, curioso com a reação alheia. Finalmente a mulher virou-se, por segundos, para encará-lo.
— Você que o enviou? — Rebateu com outra pergunta, deixando claro que tinha recebido o convite mencionado anteriormente.
— Fugaku quer lhe agradecer pessoalmente. Apenas farei acontecer. — Explicou, dando de ombros.
— Você é sempre assim? — A voz feminina voltou a preencher o local. Não demorou muito para completar a fala. — Parece sempre saber quando uma determinada resposta não vai lhe favorecer. Afinal, não posso declinar se o seu pai for o motivo. — Terminou.
— E se não for? Realmente irá querer declinar o convite? — Perguntou. E embora os olhos do homem estivessem concentrados na contagem do sinal, que aliás estava terminando, jurou notar que Sakura curvara os lábios num sorriso instantâneo. Aquilo deu-lhe forças para continuar. — Imaginei que não gostaria de ouvir que o mandei apenas por motivos íntimos e egoístas. Apesar de ser a verdade. — Respondeu, rouco.
— Touché! — A mulher deu carta branca, surpreendendo-se com a sinceridade dele e num ímpeto virou-se, com um sorriso miúdo estampado no rosto. Era o primeiro sorriso direcionado a ele, percebeu. E apesar de tudo, Itachi só pôde pensar em como ela parecia maravilhosa dentro daquele moletom surrado, com um sorriso, depois de horas de trabalho. Não recuou, apenas fitou-a nos olhos e fora recebido com um olhar igualmente intenso. O brilho nos olhos esmeraldas fez o homem cogitar a possibilidade de que ela poderia não ser um caso perdido, afinal. Entretanto, o som estridente das buzinas alheias, fez-se presente.
Despertando-os.
— Você não vai acelerar? — Itachi atreveu-se a perguntar. Um sorriso irônico posto na face e a ousadia costumeira tomou-lhe o ser quando levou a mão masculina sobre a dela. Tocou a mão fina e gélida da médica, movimentando a marcha do carro para fazê-lo andar. Inúmeros pensamentos enevoaram a mente de Sakura naquele momento, já que não se sentira desconfortável com tal contato. Engoliu a seco pelo fato dele não ter retirado a mão da dela, mesmo com o carro andando.
— Você não vai tirar a mão daí? — Perguntou, desconcertada.
— Como quiser, Doutora. — Respondeu de forma simples. O semblante dele não demonstrava muita coisa e Sakura perguntou-se o motivo de seu corpo estar em alerta, com o coração quase na boca.
O restante do percurso fora silencioso e de certa forma agradável. Cinco minutos mais tarde Sakura se encontrava de frente ao seu prédio e quando deu por si, percebeu o homem do lado de fora a esperando. Vislumbrou-o com as mãos nos bolsos, observando a noite movimentada no centro da cidade.
— Você quer subir? — Ouviu-se dizendo assim que posicionou-se ao lado dele. Itachi surpreendeu-se, tanto que arqueou as sobrancelhas, mas entendeu que fora pura educação vinda da parte dela. Não queria-a assim.
— Muito me agrada descobrir esse seu lado pervertido tão cedo, doutora. Mas sinto dizer que ainda não será hoje. — Brincou, o que fez Sakura arregalar os olhos.
— Uchiha! — Exclamou.
— Me chame de Itachi, Sakura. — Ordenou. — Tenho algumas coisas para resolver não muito longe daqui então terei que ir. Obrigado pela carona. — Agradeceu. Pensou, logo após, que o destino acabara por ajudá-lo. Já que o local do seu mais novo empreendimento se encontrava perto da residência alheia.
— Tudo bem. Nos vemos no jantar então. — Respondeu, vendo-o anuir.
— Suba. Irei esperá-la entrar. — Finalizou.
Com isso, Sakura apenas adentrou pelo portão de ferro. Itachi viu-a passar pelo porteiro do prédio sem hesitar. Tão logo, pegou o celular e digitou alguns números. Depois colocou-o no ouvido para então começar a caminhar em direção ao seu destino, do outro lado da rua.
— Peça para alguém ir buscar meu carro no estacionamento do hospital Namikaze. — Ordenou. — Traga para o novo lote que adquiri no centro da cidade. — Findou, desligando logo em seguida.
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