No silêncio da totalidade, uma voz rompeu o vazio.


No princípio havia apenas um único ser.


Um ser que era tudo o que havia.

E tudo o que havia... era Ele.


Sua existência é envolta em mistério.

Um enigma insolúvel até os dias de hoje.

Ninguém jamais conheceu sua verdadeira face, mas acredita-se que era composto de uma luz que beirava a infinitude.


Talvez Ele seja eterno.

Talvez tenha se auto-gerado.

Ou talvez seja uma sombra de algo muito maior.

A verdade é que ninguém sabe.

O que se sabe, é que no início, este ser era absoluto.


Entretanto, estava só.


Era completo, mas se sentia incompleto.

Era livre, mas se sentia aprisionado.

Tinha tudo e ao mesmo tempo não tinha nada.


Apesar de onipresente, estava cercado por ninguém além dEle mesmo.


Apesar de onisciente, não via nada além de sua própria consciência.


Apesar de onipotente, se encontrava impotente diante do vazio.


Sim, vazio.


Um vazio gigantesco que parecia que ia engoli-lO.


Um silêncio ensurdecedor, apenas rompido pelo som de sua voz ecoando na imensidão — ou de seus próprios pensamentos.


Um silêncio quase palpável, que parecia pesar toneladas.


Era uma realidade que ameaçava emagá-lO.


E no seio de sua totalidade, havia apenas um eco de si mesmo, um lembrete eterno de sua solitude.


Como é possível o próprio infinito ter uma existência tão insuportável?

De que vale ser tudo, sem outro olhar para encontrar? Ou alguém com quem compartilhar?


O tempo ainda não existia, entretanto milhões de eras se passaram, enquanto Ele refletia.

Ou talvez tenha sido apenas alguns instantes.

Impossível dizer, o tempo não fazia sentido, pois não havia mudança.


Nem passado, nem futuro, apenas um interminável e torturante presente.

Sem sentido.

Sem direção.

Sem propósito.


Apesar de toda sua inteligência, não encontrava uma saída.

Apesar de ser tudo e de ter tudo, se sentia infeliz.


A ironia das ironias.

O paradoxo dos paradoxos.


Até que finalmente não pôde mais suportar.

Até que com um grito, fez sua solidão acabar.

Até que nesse instante, decidiu finalmente... criar.


...


Um grito deu início à tudo.

Um grito avassalador.

Um grito que atravessou toda a existência.

Um grito não de desespero, mas de necessidade.

Necessidade de compartilhar. Necessidade de amar.


E quando sua voz ecoou no abismo, o abismo olhou de volta.


E um instante que pode ter sido apenas alguns segundos, ou milênios, se passou.


E não só olhou de volta; o abismo respondeu.


Não nasceu em luz, mas em escuridão.

Não trouxe calor, mas um frio cortante.


E então, pela primeira vez, o ser eterno viu um rosto que não era o seu.


Um rosto frio, calmo, enigmático.

Ouviu uma voz que não era a sua própria.

Uma voz calma, profunda, indecifrável.

Encontrou um ser que não era Ele mesmo, um ser que era seu extremo oposto.


Um ser de escuridão profunda.


Foi nesse instante que de sua própria essência, irrompeu sua primeira criação, seu primeiro filho: o abismo que se chama Oblivion.


...