Quando o Tudo Gritou - A Canção da Criação
2 Canto II - O Eco do Abismo
Quando o vazio ouviu o grito, respondeu com um silêncio vocal.
E finalmente havia um segundo rosto, uma segunda voz, uma segunda persona.
Uma voz nascida do silêncio. Vinda de onde não poderia surgir coisa alguma, ainda assim, lá estava ele.
Nascido do Vazio Exterior, alguns acreditam que o Vazio Exterior já estava presente no início de tudo. Outros creem que também foi criado pelo mesmo ser Criador. Novamente, ninguém sabe com certeza. O que se sabe é que Oblivion assistiu em primeira mão a Criação tomando forma.
E não gostou disso.
Oblivion faz então, o impensável. Começa a desfazer as obras do Criador.
Com apenas um toque de sua mão, as coisas simplesmente deixavam de existir.
O Criador estava perplexo.
Não conseguia entender o motivo por trás das ações de seu filho.
Por que desfazer suas obras? De onde vem esse desejo de destruição?
Pois esperava justamente o oposto, que seu filho se juntasse na grande aventura da Criação.
Como Oblivion parecia estar mesmo disposto a reduzir tudo ao nada absoluto, resolveu finalmente interpelá-lo:
— Oblivion... meu querido filho... por qual motivo destróis as minhas obras?
O Criador observa seu filho com serenidade, aguardando uma resposta, mas Oblivion não parecia ter pressa para responder. Ou talvez estivesse pensando no que responder, era difícil dizer.
Era um silêncio denso, até assustador.
— Porque não vejo sentido ou propósito nelas. – Respondeu finalmente, sem olhar diretamente para Ele, como quem constata um fato. Sem raiva ou paixão. Como o vazio frio e insondável que é. — Por qual motivo tu as cria? – Perguntou, dessa vez erguendo o olhar.
Ele realmente não esperava essa pergunta. Pela primeira vez, estava surpreso. Não só com a pergunta, mas com o olhar e o tom de voz dele. Não aparentava sentir ódio ou prazer, ou qualquer outra coisa, apenas a serenidade fria de alguém que contempla o nada.
Um momento de quietude se seguiu antes dEle finalmente responder:
— Eu crio por... amor.
A resposta saiu quase como uma confissão. Oblivion ficou um instante emudecido. Não uma mudez comum. Não o silêncio que era ele próprio. Era o se calar de alguém que tentava assimilar a resposta. A palavra paira no ar, estrangeira para ele. O Criador percebe então que ele não compreende, talvez nunca compreenda.
— Desconheço o significado de tal palavra. – Respondeu secamente. — Me explique.
O Criador inspira fundo.
Como explicar o inefável a quem nasceu do silêncio?
Como fazê-lo entender?
Como explicar algo que nasceu antes das palavras?
Como explicar a luz para alguém que só conhece a sombra?
— Amor é... – O Criador fez uma pausa, pois a palavra parecia poderosa demais para ser posta de maneira tão leviana. A luz ao redor oscilou por um instante, como se ela própria tivesse parado pra ouvir a resposta. — ...um sentimento grandioso demais para ser descrito em poucas palavras... É como tentar nomear o inominável... Nada que Eu disser fará jus ao seu significado... Amor é entrega. É doação. Em essência, é um sentimento poderoso de querer bem, faz com que tu te entregues, se doe, sem nada a pedir em troca, tu simplesmente fazes e se apraz com isso.
O Criador fala com ternura, mas sente que tudo o que argumentar será insuficiente. Ele sabia. Nenhuma palavra seria o bastante. Precisará de mais para tocar o Vazio, que novamente silencia.
Como explicar a cor para alguém cuja origem provém da treva?
A expressão de Oblivion era calculista, como alguém tentando desmontar uma equação.
— Isto é ilógico. – Finalmente conclui, a resposta saindo como o frio cortante que ele próprio produzia e era. — Como poderia eu fazer algo sem receber nenhum favor em troca? Este sentimento exige então que eu anule a mim mesmo?
A constatação de Oblivion não parecia ser carregada de raiva, mas de dúvida sincera. Como quem percebe um erro de cálculo. Amor para ele soa como uma falha, algo que não faz sentido.
— Não. Não pede anulação. Apenas dá uma importância maior a algo. Algo além de si mesmo.
— Absurdo. Para mim, eu e apenas eu, importo. Não irei abandonar minha individualidade como tu.
— Eu não abandonei, apenas escolhi partilhar o que tenho e o que Sou...
Oblivion não estava convencido e Ele sabia.
Mas não ia desistir de seu filho.
Estava determinado a trazer a própria encarnação da escuridão para a luz.
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