Natália piscava sem parar para ver se acordava de seu pesadelo em vida. Não queria mais ver todas aquelas mulheres comendo com os olhos Adam toda vez que passava pelos corredores. Sabia que elas estavam muito a fim de colocar em prática o verbo comer. Só não compreendia o porquê de Adam não ter ficado com nenhuma. Já fazia um mês que tinha voltado e estavam trabalhando juntos. Devia estar passando pelo seu inferno astral de novo. Só podia. Não bastava ele ter voltado. Ele ainda trabalhava na mesma empresa que ela e ambos dividiam a mesma sala.

– Não se preocupe – fala Adam vendo-a encará-lo – Ficarei aqui só até a minha sala ficar pronta.

– Gostaria que você desparecesse. De preferencia voltasse para São Paulo que é o seu lugar. – responde de mal humor.

– Vou voltar assim que terminar tudo por aqui. – ele sorri piscando para ela.

Apesar de não ver a hora do trabalho deles acabarem para que Adam possa voltar, ao mesmo tempo não queria perde-lo de novo. Isso a fazia ficar de mal humor. Tudo estava indo bem, até ele aparecer.

***

Todos os dias, Adam levantava pensando que as coisas iriam melhorar entre ele e Natália. Que era uma questão de tempo ela perceber que podiam ficar juntos de novo. E todos os dias ele voltava frustrado para casa. Fazia um mês que tinha voltado e que trabalhava junto dela, mas era sempre patada atrás de patada. Só melhorava quando o assunto era sobre trabalho. E com relação a isso tudo ia muito bem, se continuasse desse jeito voltaria mais cedo para São Paulo. Uma coisa boa era que os dois juntos eram bons demais para os negócios das duas empresas. Eles sempre tiveram uma boa química no trabalho. Era um completando o outro. Era perfeito.

Queria poder fazer mais por ela. Qualquer coisa. E quando viu ela e o ex-noivo discutindo sobre como ela não deveria voltar para ele, seu sangue ferveu. Quem ele pensava que era para falar assim? Se escondeu para que Natália não o visse, foi tarde demais, ela o vê, mas não se importa. Sai da sala deixando para trás o ex-noivo com o ex-namorado.

– Você deveria ir embora. – diz o ex-noivo

– Quem você pensa que é?

– Eu errei, mas nada se compara ao que você fez com ela. – ele fala tentando provocar Adam.

Adam sorri. Um sorriso predatório. Ali na sua frente estava sua presa, que não sairia dali com vida.

– Sabe a diferença entre eu e você? – pergunta friamente.

– Não. – ele responde sem entender

– Eu nunca a traí. – Adam responde tão calmante que parecia uma faca sento enfiada lentamente no corpo da vítima.

– Mentira. Ela me contou tudo sobre você. Eu sei que você a traia com qualquer uma.

Adam balança a cabeça fazendo o outro ficar com mais raiva ainda. Ele se aproxima e diz bem baixinho só para ambos ouvirem.

– Eu menti. – e sai da sala a procura de Natália.

***

Natália sentia as ondas molharem seus pés. O escritório ficava perto da praia e sentir a água era reconfortante. E a fazia se lembrar dos bons momentos com Adam.

Naquele momento estava cansada de fingir, de se enganar, seu ex-noivo havia esgotado suas forças. Como pensou que conseguiria esquecer Adam com aquilo? Por mais canalha que Adam fosse, ele nunca mentiu. Sempre tinha sido sincero, às vezes até demais.

Queria poder voltar no tempo e nunca ter aceitado aquela maldita aposta. Talvez ainda acreditasse que poderia ser feliz. Que tudo é lindo, porque quando conheceu Adam, ela acreditava nessas coisas. Acreditava no amor, mas agora era uma viciada em uma única pessoa que a fazia sofrer mais que qualquer doença. Sabia que não foram destinados a ficar juntos, mas mesmo assim insistia. Tentava e tentava. Até que se separaram. Era para ter sido o adeus, mas não foi. Ela ainda estava lá esperando por ele. Nutrindo esperanças e foi só vê-lo para que todas as suas barreiras erguidas caíssem vertiginosamente. Era vergonhoso e patético como ainda o queria. E se recusava a pensar que ainda o amava.

Como estava cansada de lutar com tudo isso. E ainda tinha que ouvir do seu ex-noivo que a largou, que Adam não era homem para ela e ele sim. Que queria voltar. Obvio que deu um basta. O outro estava só com ciúmes. Homens não gostam de perder.

Jogou-se na areia e deitou. Tiraria o resto do dia para curtir sua fossa. A única coisa boa era que ficaria sem ver a cara de Adam.

***

– Você é muito difícil de achar, sabia. – diz Adam sentando ao lado de Natália na areia.

Ela apenas o olha suspirando. Como ele a tinha achado?

– O que você está fazendo aqui? – pergunta olhando para o mar.

– Estava preocupado. Você saiu toda nervosa, achei que precisava de um ombro amigo.

– Você seria a última pessoa que gostaria de ver nesse momento. – dessa vez responde olhando diretamente para Adam.

– Eu sei – dá de ombros – Mas vim mesmo assim.

– Desde quando se tornou masoquista?

Adam apenas sorri. Sua vontade era responder desde que tinha se apaixonado por ela, mas ficaria repetitivo. E sinceramente começava a ficar cansado. Teria que repensar uma nova maneira de mostrar que os dois podiam dar certo. Naquele momento não fazia a menor ideia de como.

– Bom, já que faz tanta questão de me consolar. – Natália levanta, sacudindo a areia de sua roupa. – Que tal me levar pra algum lugar pra beber? Pretendo afogar minhas mágoas.

– Achei que iria voltar para o trabalho. – ele se levanta também.

– Hoje não. Não tenho cabeça pra mais nada. Então, vai comigo ou não?

– Não acha meio cedo?

– Isso é um não?

– Não. Claro que não. – suspira. Jamais a deixaria beber sozinha. Até porque Natália nunca foi muito forte para bebidas. – Eu vou.

– Ótimo.

***

O que exatamente estava pensando quando o convidou para beberem juntos? Afogar as mágoas? Desculpa mais esfarrapada. Não tinha mágoas, não havia mais nada para sentir. Estava tão cansada de tudo que se sentia vazia. Quando entrou no apartamento de Adam levou um choque tão grande que precisou se segurar no batente da porta para não cair. No meio da sala, assim que você abre a porta está uma foto dela, uma das fotos tiradas por Andreia, a irmã dele. Olhou de relance, mas parecia que não tinha percebido seu choque. Ele foi direto para a geladeira pegar alguma bebida. Tinha insistido para que fossem ao um bar, mas Adam preferiu seu apartamento. Era mais seguro. De certa forma, tinha razão. Nunca foi muito resistente a bebidas e caso passasse mal, era só correr para o banheiro e vomitar. Não precisaria pagar nenhum mico por isso.

Pegou a cerveja e começou a beber. Ao mesmo tempo analisava o apartamento. Era tudo tão impessoal, mas tão familiar. Estar ali a fazia se sentir em casa novamente. E todo aquele vazio ia sendo preenchido. Adam. Era culpa dele, sabia disso, mas não havia como aquilo dar certo de novo. Não mais. Não era mais a mesma. Apesar de naquele momento não saber nem que era. Estava tudo tão confuso.

– Qual o significado de tudo isso? – pergunta ao ver um porta-retratos com uma foto deles juntos. Quem visse podia jurar que era o casal mais apaixonado do mundo. Mas não foi bem assim.

– Gosto dessa foto – Adam responde bebendo em seguida.

– E aquela ali – aponta para a foto da entrada.

– Também gosto daquela foto – sorri um pouco tenso. – A modelo é muito bonita. – pisca para Natália que bufa como resposta.

– Claro.

***

Tinha percebido o choque de Natália ao ver o quadro, mas preferiu fingir que não. Não sabia o que falar sobre isso. Por alguma razão tê-la ali em sua sala o estava deixando nervoso. Pelo menos não havia bagunça, tudo parecia na perfeita ordem. Por fora tudo em ordem, mas por dentro um caos. Não tinha como esconder as fotos que havia espalhado deles juntos. Gostava de olhar para elas. Era como um mantra, uma motivação para não desistir, pois tinha dias que era um pouco mais difícil. Natália tornou-se bem difícil nesses últimos anos. E reconquistá-la pela terceira ou quarta vez, já nem lembrava mais de quantas vezes tinha pisado na bola, estava muito complicado. Seria um milagre se ainda o aceitasse de volta. Sabia que existia algum sentimento, mas havia também uma resistência enorme para se entregar a ele.

Vê-la analisando seu apartamento o fazia se sentir despido. Era bem verdade que não tinha o decorado muito, até porque não ficaria muito tempo no Rio e por isso achou melhor não o deixar com cara de lar. Era apenas um lugar que passava as noites depois do trabalho. Sua única coisa mais pessoal foram as fotos. Ele queria tanto que as coisas fossem de outro jeito, de outra forma, mas cometeu muitos erros para serem apagados assim do nada.

Suspirou olhando para a quantidade de latas que haviam bebido. A maioria tinha sido a Natália que bebeu. Ela estava mesmo afogando as mágoas. O ex-noivo devia ter feito um estrago e tanto na vida dela. Não gostava de pensar que alguém mais podia feri-la, além dele. Não era um pensamento legal, mas gostava de saber que tinha sido uma pessoa tão marcante que ela ainda sofria por ele.

– Sabe Adam – Natália começa a falar já bêbada – Eu te odeio. De todas as formas – ela tenta se aproximar dele, mas cai no sofá. Adam preocupado chega mais perto dela – Mas não consigo te odiar de verdade, sabe – e o puxa para sentar ao seu lado – Queria de verdade te odiar, te apagar da minha vida, mas não consigo.

– Ok, Nat – ele responde tentando não sorrir. Era reconfortante ouvi-la dizer tudo aquilo, mas ao mesmo tempo triste. Queria que falasse tudo isso sóbria e não bêbada. – Acho melhor parar por aí. Você pode dizer alguma coisa que se arrependa depois.

– Provavelmente iriei me arrepender de tudo isso. – sacode a cabeça concordando — De ter vindo até seu apartamento, de ter aceitado beber com você, mesmo sabendo que sou péssima com bebidas. E... – respira fundo. Ela realmente iria se arrepender do que pretendia fazer. Mas não conseguia deixar de reparar nos lábios de Adam e em como ele passava a língua para umedecê-los. Queria já algum tempo fazer isso. Estava tão perto era só pegar sua camisa e puxá-lo.

Sem perceber Natália começa a fazer aquilo que imaginava. Agarrou a camisa de Adam e o puxou para beijá-lo. De inicio Adam tentou resistir um pouco, mas acabou cedendo. O beijo que começou com algo meio confuso foi tomando proporções mais intensas.

– Espera, Nat – diz tentando colocar sua mente em ordem. E a impedindo de abrir seu zíper da calça.

– Ãhn. O quê? — Ela tenta voltar a beija-lo.

– Para, Nat. – junta as mãos dela, obrigando-a a ficar quieta.

– O que foi? Você não me quer? – pergunta com raiva.

– Quero claro, mas não assim. – Natália o fuzila. Adam apenas olha para baixo. Não conseguia encará-la. – Não é desse jeito que eu quero você. E nem você vai querer.

– Como assim? Estou praticamente me oferecendo pra você e você me rejeita. – sua raiva aumenta tanto que até a bebedeira passa. Não sabia se sentia mais raiva de si mesma ou de Adam.

– Eu te amo. Não quero você bêbada. Quero você de verdade aqui comigo. – Foi a decisão mais difícil que tomou, mas sabia que era a certa. Se transassem, nunca mais conseguiria Natália de volta.

– Vai se ferrar, Adam. – ela dá um tapa bem dado no rosto dele e vai embora.

Adam escuta o som da porta batendo. Ao mesmo tempo percebe que alguma coisa ali mudou. Só não sabia dizer se era ele ou ela.

***