Notas iniciais
Oi caçadores! Agradeço muito aos outros autores maravilhosos e donos de histórias mais maravilhosas ainda que vieram comentar nessa história ♥ Esse capítulo é, sem dúvidas, um dos mais importantes de todos e por isso é um pouco maiorzinho, ok? Boa leitura!

Naquela manhã de sábado fui acordado com uma lambida de Martha, a husky.

Era uma cadela extremamente bonita, com uma cor bege e manchas amarronzadas, os olhos eram estranhamente da mesma cor dos meus e, pelo que eu me lembrava, dos olhos de meu pai também, embora eu acabe percebendo que a cada dia que passa os olhos dele estão adquirindo um tom mais escuro, quase um castanho.

— Ei, garota, ei! – Falei, rindo, enquanto Martha me brindava com mais lambidas.

Eu não me lembrava de Martha filhote, embora meu pai tenha dito que havia ganhado ela de um amigo quando minha mãe morreu.

Eu tinha sete anos.

Mamãe morreu em um acidente de carro fora da cidade e, bem, eu estava no carro. Não me lembro de nada a não ser uma grande luz âmbar que invadiu o carro, logo em seguida sei que capotamos e mamãe morreu, mas só me lembro de acordar novamente em São Santo, num hospital.

De qualquer forma, fora a primeira e única vez que eu havia saído da cidade e, devido as circunstâncias traumáticas, talvez seja esse o motivo de meu pai ter calafrios toda vez que menciono meu desejo de estudar nas faculdades de São Paulo.

A família de meu pai tinha certa adoração por huskys siberianos bege de manchas marrons e olhos mel. Sei disso porque uma vez vi uma foto de meu avô com um cão idêntico a Martha do lado.

Penso que, talvez, uma de minhas sinas hereditárias seja ganhar um quando me casasse e tivesse filhos.

Martha geralmente não me dava tanta atenção e nem demonstrava tanta admiração, mas há umas duas semanas mais ou menos acho que ela havia decidido que eu seria seu novo dono. Martha me seguia pela casa, começara a dormir em meu quarto todas as noites e sempre reclamava quando eu queria sair de casa ou ficar longe dela.

Meu pai parecia um pouco triste com isso, mas animais são irracionais, vá entender o que se passava na cabeça daquela cadela... então meu pai simplesmente engolia seu pesar e fingia que nada estava acontecendo. Quanto a mim, eu procurava não o chatear com esse fato, achava muito difícil fazê-lo perceber que perdera mamãe e que agora estava nitidamente perdendo sua fiel companheira para mim.

Desci as escadas e o encontrei ao telefone, a conversa parecia séria e ele sussurrava, como se não quisesse que eu ouvisse.

É claro que fiquei ali para ouvir.

— Está acontecendo, não está? – Dizia meu pai, claramente nervoso. Ele esperou um tempo e segurou a respiração por alguns segundos. – Eu sei, eu sei... foi por isso que lhe demos o convite, lembra? Serão mais fortes juntos, o resto... – Ele deixou a frase incompleta, como se estivesse imerso em pensamentos. Houve uma longa pausa. – Você acha mesmo que são os únicos Hereditarium? – Ele assentiu ouvindo a resposta do outro lado da linha. – Eu também estou sentindo a impetu passar... teremos que ser rápidos, se isso estiver mesmo acontecendo eles estão corrend... – Ele parou de falar e olhou para trás. Martha fizera o favor de latir e se esfregar em mim como se fosse um gato gigante de 40 kg.

— Cadela idiota. – Murmurei.

Meu pai estava visivelmente transtornado e desesperado, mas me lançou um meio sorriso, disse “Nos falamos depois” ao telefone e desligou. Colocou as mãos em meus ombros.

— Animado para a festa hoje à noite?

— O que são Hereditarium? – Perguntei, na lata.

Meu pai piscou, atordoado.

— Hã... são coisas do trabalho. Processo criativo. Brainstorm.

Assenti com os olhos semicerrados, ainda desconfiado, e assisti meu pai indo para a cozinha preparar algo para comermos.

Você pode estar se perguntando: Caiu mesmo nessa?

É claro que não. As coisas andavam meio estranhas nas últimas semanas, mas que explicação eu teria?

A ignorância é uma virtude, dizem.

No final da tarde resolvi começar a me arrumar para o tal aniversário de Jéssica.

Olha, eu sempre fui um cara meio magricela, sabe? E não fazia muita questão de mudar meu tipo físico por questões óbvias de: preguiça, mas ultimamente eu me sentia cada vez mais perto de Peter Parker: ficando mais forte aleatoriamente e com um físico atlético que não era meu.

Embora fosse de meu pai.

Penso eu que talvez seja umas daquelas coisas de DNA que em algum momento da vida afloram em nosso corpo. Seja como for, minhas roupas, especialmente as camisetas, não estavam mais servindo em mim. Era meio desconfortável e ficava apertado demais em meus braços e peitoral. Por esse motivo, fazia mais ou menos uma semana que eu estava me vendo obrigado a usar as roupas cafonas de meu pai.

Então lá estava eu, usando um dos poucos jeans que ainda me serviam e uma blusa cor de vinho com duas dobraduras no pescoço em tom mais claro. Tentei dar algum jeito no cabelo, mas não funcionou. Admito que fiquei admirando meus novos companheiros por um tempo: bíceps, tríceps, deltoides, peitoral, abdômen, quadríceps, panturrilha, inferiores de coxa... tudo estava visivelmente mais definido e torneado do que da última vez que eu fizera um check-out em mim mesmo.

Meu pai me esperava na porta quando desci.

— Ah, filho, você está ficando fortinho! – Disse ele, mas não parecia feliz com isso. Foi quando notei o quanto ele parecia fraco.

— Pai... o senhor está bem? Parece que envelheceu uns 100 anos.

Ok, talvez não tivesse sido a melhor forma de dizer, mas ele sorriu.

— A idade chega para todos.

Franzi o cenho.

— Pro senhor parece que chegou tudo junto em poucos dias. Não é melhor ver um médico?

De repente meu pai se tornou sombrio, o que me deu calafrios.

— Não há médico para resolver isso. – Houve alguns segundos de silêncio constrangedor e ele voltou a sorrir. Pegou o colar que estava usando: um cordão preto que ia se entrelaçando, formando vários círculos ovais que abrigavam delicadamente uma joia verde musgo, a exata cor dos olhos de Jéssica. – Tome, vai ficar melhor em você.

— Eu não vou usar isso, pai! – Reclamei, peguei o colar e o enfiei no bolso da caça. – Já não basta precisar usar suas roupas.

Meu pai deu duas palmadinhas em meu ombro.

— Fique tranquilo que logo suas roupas irão servir novamente.

Eu simplesmente pisquei, confuso. Como poderiam simplesmente servir de novo? Algumas haviam até rasgado. Era impossível eu estar musculoso a esse ponto, mas aparentemente era o que estava acontecendo.

— Você quer dizer que isso... ISSO – enfatizei, mostrando-lhe os músculos – vai desaparecer? – Eu estava um pouco deprimido.

Meu pai negou, sério.

— Nós teremos que ter uma conversa mais tarde. – Suspirou. – Use o colar se sentir necessidade, aquela joia pode ser muito útil se usada delicadamente. – Ele sorriu. – Por hora, se divirta enquanto pode.

E com esse comentário feliz e positivo, sai de casa.

Não que alguém naquela festa estivesse me esperando, é claro.

Bom, eu descobriria que havia, sim, algo, me esperando na espreita.

A casa de Jéssica era maravilhosamente bem decorada, se estivéssemos no século XIX. No hall de entrada havia um piano tão velho que não me surpreenderia se as aranhas que viviam nele soubessem sonetos do Bethoven de cor e salteado. Acima do espelho existia um suporte para colocar livros, tipo uma bíblia ou algo assim. A sala seguia um design vintage com estofados verde água, mesa de centro com hack gigante de mesma cor e com espaço para lareira, quadros com fotos de basicamente todos os membros da família, vasos de orquídeas e um carpete esquisito. A televisão de tela plana 4K se destacava tanto do restante da decoração que fiquei uns cinco minutos rindo enquanto olhava para aquilo tudo.

Eu quase havia me esquecido de como era estar ali.

— Pedro! – Era a mãe de Jéssica. O sorriso de orelha a orelha demonstrava o quão contente ela estava em me ver. – Que saudade! – Maria me abraçou e não consegui não sorrir. Com a morte de minha mãe, Maria havia sido a pessoa mais próxima de uma mãe para mim.

— Oi, tia. – Falei, tímido.

Um barulho de vidro quebrando veio da cozinha seguido por um grito e algumas risadas.

Jéssica apareceu na sala tão pálida que parecia ter visto um fantasma. Seus punhos estavam cerrados e ela olhava sem piscar, incrédula, para sua mãe.

— O que ele está fazendo aqui? – Perguntou.

Levantei as sobrancelhas.

— Oi para você também. – Murmurei.

Maria apertou meus ombros e se aproximou da filha.

— Isso são modos, mocinha?

Mais risadas vieram da cozinha. Eu podia ver algumas cabeças familiares da escola aparecendo e desaparecendo pela porta que dava na cozinha.

Jéssica estava perigosamente vermelha, mas lançou um sorriso forçado à mãe. Maria subiu as escadas, parecendo extremamente orgulhosa de, aparentemente, ter me convidado sem que sua filha soubesse para a festa.

De repente me senti deprimido.

Jéssica olhou para mim e parecia estar se segurando para não me matar. Um de seus dedos estavam sangrando.

— Uau. – Falei, e logo me arrependi. Jéssica era bonita, mas era só se arrumar um pouquinho que na minha cabeça ela se tornava a personificação de Afrodite, a deusa do amor. Ela me olhava estarrecida. Voltei meus olhos para seu dedo machucado. – Quer dizer, dedo, hã, sangue. – Respirei. – Sangrando, você.

Jéssica pressionou o machucado nos lábios.

— Eu não sei o que você acha que vai fazer aqui. – Disse. – Não chamei nenhum de seus amigos.

Dei de ombros.

— Eu só tenho um amigo, de qualquer forma, já que você decidiu me ignorar nos últimos anos.

Jéssica se aproximou. Ela tinha perfume de lavanda. Seus olhos estavam praticamente verdes, quase sem resquício nenhum do castanho que eu conhecia.

— Aparentemente não ficou assim tão claro, né. – Disse ela, sarcástica. – Já que aqui está você.

Dito isso deu as costas para mim e entrou na cozinha, gritando que todos calassem as malditas bocas.

O restante da festa seguiu com Jéssica, o namorado e os amigos de um lado e eu do outro até que todos fossem embora. Decidi me manter longe o máximo possível e aproveitar a comida e a coleção de facas dos pais de Jéssica, mas que agora eram apenas de sua mãe já que seu pai era policial e havia morrido em serviço antes de Maria dar à luz.

Jéssica nunca conheceu seu pai e era por isso que, até três anos atrás, era tão ligada ao meu pai.

Não que ela se lembrasse disso agora.

Maria descia de vez em quando para checar como eu estava, trocávamos algumas palavras e ela tentava me fazer ficar todas as vezes que eu ameaçava ir embora.

Restavam, então, eu, Jéssica e seu namorado José, o novato.

— Bom, crianças, — disse Maria – acho que está na hora de nosso querido emancipado ir embora.

Jéssica engasgou.

— Mãe!

José sorriu, mas era um sorriso forçado, meio maldoso. Ele e Maria se olhavam como se estivessem guardando um segredo.

— Tudo bem, meu amor. – Disse José, beijando a testa de Jéssica e me fazendo ficar enjoado. – Amanhã já é segunda e se você ainda estiver viva eu passarei de manhã aqui como sempre.

Maria segurou a respiração, eu inclinei a cabeça extremamente confuso e Jéssica riu.

— Certo, mas não acho que fizemos tanta bagunça para mamãe querer me matar. – Disse ela.

Maria separou bruscamente José de Jéssica.

— Poderia me acompanhar, Maria? – Perguntou José, inocente. – Gostaria de mostrar que minhas intenções com sua filha são as melhores.

Maria olhou desconfiada para ele, mas balançou positivamente a cabeça e o seguiu para fora da casa.

Jéssica bufou e afundou nas almofadas do sofá.

— Ela expulsa o meu namorado e convida você sem me avisar. – Murmurou.

Ficamos ali, parados e extremamente desconfortáveis pelo que pareceram horas. Eu havia aberto a boca para questionar a demora de Maria quando escutamos um barulho esquisito vindo da cozinha, como se alguém estivesse tentando arrombar a porta do quintal da casa que dava para o cômodo da cozinha também.

— Mas o qu...? – Infelizmente Jéssica não conseguiu terminar, já que algo abriu a porta da cozinha que dava para onde estávamos. Seja lá o que estivesse ali, atirou uma série de espinhos cristalizados em sequência antes que pudéssemos nos mover.

Jéssica teria sido atingida no rosto, não fosse o súbito despertar de seus reflexos. Ela desviou em diagonal e deu uma cambalhota para trás, pegando um dos quadros com a foto de seus avós para usar de escudo.

Eu não tive tanta sorte.

Um dos espinhos atingiu minha costela esquerda e eu cai, arfando de dor. Minha visão ficou turva por alguns segundos e assim como havia chego, a dor foi embora, como se meu corpo tivesse entrado num estado avançado de recuperação cutânea.

Foi quando vimos... a coisa. Era humano e não era. Negro, forte, esguio, com cabelos e barbas encaracoladas e um pouco grisalhas. O que mais impressionava eram seus olhos. Um era totalmente branco e o outro tinha uma cor escura com o formato alongado dos olhos de gato. Ele também possuía chifres, de onde, aparentemente, seus espinhos estavam sendo lançados.

Senti o bolso da minha calça quente e pesado, estava me dificultando em levantar. Quando coloquei a mão, retirei dali o colar que meu pai me dera. A joia parecia brilhar de tanto calor que emanava.

Não sei o motivo, mas a coloquei no pescoço.

No mesmo instante senti uma força me inundar e eu sabia exatamente o que precisava fazer. Não que eu soubesse de verdade, parecia ser uma memória genética ou algo assim.

Jéssica estava tendo alguns problemas. A coisa estava muito próximo dela, sibilando e fazendo estralos com a boca enquanto disparava mais espinhos. Jéssica conseguiu se defender da maioria deles, mas pude notar que algumas partes de seu corpo estavam sangrando. Ela estava contornando a coisa para entrar na cozinha.

Eu estava hiperativo e conseguia ver tudo o que estava acontecendo ao meu redor com detalhes. Antes que eu pudesse perceber, eu estava atirando alguns vinis na coisa. Isso o distraiu o bastante para que Jéssica conseguisse se esgueirar para a cozinha.

O problema é que agora ele estava interessado em mim.

Por sorte, antes que eu morresse de forma trágica e idiota, a calopsita da mãe de Jéssica apareceu em cima da coisa, furando-lhe os olhos com as unhas e berrando. A coisa berrava de volta e tentava agarrar a ave com as mãos.

Jéssica apareceu com uma colher de pau nas mãos. Seus olhos emitiam um brilho feroz, quase ancestral. Sua expressão não era de puro terror como a minha parecia ser, e sim de determinação e... bem, prazer. Definitivamente prazer.

A coisa urrou quando Jéssica o acertou com a colher de pau da mesma maneira que faria se estivesse utilizando uma faca. O que me lembrou da coleção de facas que estava a poucos metros de mim. Entretanto, quando peguei uma delas gritei de dor, pois havia acabado de queimar minha mão.

— Jéssica! – Gritei. Foi um erro.

A coisa veio em direção a mim como um tornado, lançou uma saraivada de espinhos aleatórios porque não estava enxergando nada, mas uns 5 deles me atingiram em cheio. Cai, ofegante e tendo a certeza de que morreria ali mesmo. A última coisa da qual me lembro foi de apontar fracamente para a faca que havia tentado pegar.

Notas finais
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