Notas iniciais
Desculpem a demora! Foi meu aniversário e curiosamente voltei a ficar viciada em The Sims, então... Boa leitura ♥

O.k, o dia meu aniversário de dezessete anos fora completamente arruinado por um homem esquisito de olhos brancos e barbas trançadas.

Eu estava realmente infeliz.

Quando vi Pedro desmaiar devido aos ferimentos, entrei realmente em pânico. Quer dizer, eu não estava percebendo o que estava acontecendo até aquele momento, sabe? Era como se eu houvesse desligado e uma outra personalidade tivesse assumido o controle físico e mental do meu ser.

Então, não, não me lembro de nada do que aconteceu. Em um momento eu estava no sofá com Pedro na espera de mamãe, no minuto seguinte lá estava eu: sangrando, machucada, descabelada, a maquiagem totalmente desfeita, as roupas novas que havia ganhado estavam completamente rasgadas, eu estava com uma colher de pau na mão e tinha aquela coisa horrenda uivando de dor na minha frente.

Não que eu estivesse com muito tempo para me lamuriar sobre esse fato, é claro. Percebi que Pedro apontou para a coleção de facas de meus pais e joguei a colher de pau no chão. Aquela coisa ia matar o pobre coitado se eu não fizesse alguma coisa... Por uma felicidade Ignis estava tentando cegá-lo – aparentemente – ainda mais, e isso o deixou extremamente enraivecido.

Quando me aproximei das facas, uma delas me chamou mais atenção do que as outras. Era uma adaga de combate oriental, o punhal era de uma cor mel vibrante, que me lembrava vagamente a cor dos olhos de Pedro. Ela parecia brilhar e quando a toquei, era como se a tal segunda personalidade dentro de mim se agitasse em pura excitação, só que dessa vez eu parecia estar ciente do ambiente e da situação ao meu redor.

A coisa estava prestes a lançar outra sequência de espinhos quando empunhei a adaga e corri em sua direção, gritando algo muito heroico como “VOCE ESTRAGOU MINHA MAQUIAGEM!” e o acertei na perna esquerda. Ele urrou de dor e se virou em minha direção. Ignis berrava e voava em sua cabeça para atormentá-lo, mas ele lhe deu um tapa com as mãos e ela bateu em uma das paredes, caindo imóvel no chão. Havia um terceiro olho agora, bem entre suas sobrancelhas falhadas que brilhava, mas não tinha o formato de um olho, era só um círculo branco, mas que claramente estava o ajudando a enxergar, porque ele atirou outra sequência de espinhos diretamente para mim.

Não sei como, mas consegui desviar de todos eles me abaixando e deslizando pelo chão até estar embaixo dele. Não me pergunte como era a visão, pois não quero falar sobre isso, mas digamos que seria como ver as partes baixas de um javali peludo. Enfiei a adaga no único lugar que achei sensível o bastante e rolei para o lado bem a tempo de a coisa cair no chão. Lágrimas saiam de seus olhos perfurados e ele gritava.

Minha mãe entrou correndo e pareceu confusa por um segundo, mas logo em seguida retirou um canivete do bolso e o abriu. Foi então que algo extraordinário aconteceu: uma espada longa e afiada, fundida em ouro e prata, apareceu em suas mãos. Ela fitou o pobre ser no chão e, sem pestanejar, fincou a espada bem fundo em seu coração.

A coisa emitiu um último grito de dor e virou cinzas.

Minha mãe correu até mim, mas eu já estava ao lado de Pedro. Ele estava pálido e seus lábios estavam roxos.

— Mamãe... – Não consegui segurar o choro.

Minha mãe telefonou para o pai de Pedro e em segundos ele estava lá, carregando um arco e flecha velho. Marcus se ajoelhou ao lado do filho e pressionou as mãos no tórax de Pedro por alguns segundos, recitando algo em latim. Nada pareceu acontecer, mas eu juro que a joia no pescoço de Pedro brilhou e ele estremeceu.

— Veneno. – Disse Marcus, aborrecido. Ele olhou para minha mãe. – Ele vai ficar bem, vou passar o restante da Impetu, é o único jeito de salvá-lo.

Minha mãe arfou.

— É o único jeito. – Repetiu Marcus. Ele pegou Pedro nos braços como se fosse uma criança que adormecera vendo televisão e me lançou um aceno de cabeça solidário. – Cuidem-se, agora eles já sabem de tudo. – Disse para minha mãe, saindo de casa.

Minha mãe suspirou.

— Como você está? – Perguntou calmamente, colocando uma mecha do cabelo despenteado atrás da orelha esquerda.

Eu pisquei.

— Ah, não sei. – Falei, me contendo, mas a raiva estava prestes a eclodir. – Como você acha? Quer dizer, como uma pessoa ficaria depois de... hã... LUTAR CONTRA UM MONSTRO E VER A PRÓPRIA MÃE MATÁ-LO? HEIN? COMO? Co... – Comecei a chorar, soluçando.

Por algum motivo, minha mãe sorria.

— É, bem, talvez a maneira que escolhemos para esconder tudo isso de vocês tenha sido meio... – Levantei as sobrancelhas para ela. – certo, tenha sido bastante falha, mas achávamos que não voltaria a acontecer.

Eu bufei e sentei no que havia restado de nossa poltrona.

— Mãe. – Tentei me controlar. – Me diz, por favor, que eu fumei um baseado, cheirei cocaína e comi doce? Por favor. – Minha mãe riu. Olhei séria para ela. – Só pode ter sido isso, foi tudo minha imaginação. – Eu falei mais para mim mesma acreditar nessa frase.

Minha mãe me deu um abraço sem jeito e ajeitou como pode minhas vestes.

— Primeiro você precisa descansar. – Ela olhou para o relógio. Já eram 6h30 da manhã de domingo, o real dia do meu aniversário. – Tire o resto do dia para desembaralhar as ideias da cabeça, filha. Na segunda, depois da escola, conversamos.

Olhei perplexa para ela.

— Depois da escola? – Ela assentiu. – Minha querida, você está louca? – Eu comecei a tremer. – NÃO TEM CONDIÇÃO, mamãe! Eu... eu quase morri, eu não sei o que está acontec...

Minha mãe colocou o dedo indicador nos meus lábios, me calando.

— Eu sei, mas tentar entender tudo agora não vai te ajudar. – Descanse, tire o dia para cuidar de si mesma, tudo bem?

Coloquei a cabeça entre as mãos.

— E o Pedro?

Minha mãe olhou para o horizonte, perdida em pensamentos por alguns segundos.

— Ele vai ficar bem. – Ela sorriu. – Vá, minha querida, preciso começar a arrumar a bagunça por aqui.

Assenti num completo estado de estupor e subi para o meu quarto, Bóris e Ignis me seguiam.

***

Meu sonho começou novamente na floresta, na mesma clareira do primeiro. Alguns monstros estavam reunidos em volta de uma fogueira de chamas negras e azuis, murmurando coisas entre si. O cara nu, Cameron, estava em pé andando de um lado para o outro, extremamente impaciente.

— Você só pode estar brincando comigo! – Exclamou ele ao notar algo vindo das profundezas da floresta. As arvores começaram a se balançar ferozmente até que um homem de uns três metros aparecer. – Só pode ser brincadeira. – Um tom avermelhado de raiva percorria sua pele translúcida.

Eu me lembrava do cara grandão. Era o Ghoul que havia dirigido a palavra para aquele leão marinho esquisito do meu outro sonho. Suas garras de Wolverine estavam mais afiadas do que da última vez e ele soltava ganidos tão intensos de dor que até senti um pouco de pena.

Cameron suspirou.

— Será que você tem como me explicar como dois pirralhos que não possuem conhecimento de nada conseguiram matar um dos seus melhores?

O Ghoul resmungou algo inteligível para si mesmo e olhou para Cameron – ou tentou, devido a grande diferença de altura entre eles.

— Ele teria vencido. Teria matado os dois não fosse o serviço péssimo daquele lobisomem.

— O Lupinotuum Pectinem fez um trabalho perfeito e ainda o faz. O problema foi seu soldado que demorou mais do que o esperado e você sabe disso.

Os dois se entreolharam por um segundo e o Ghoul soltou um último urro de ódio e dor, voltando para o fundo da floresta. Cameron respirou fundo e ajeitou os longos cabelos para trás. Levou uma das mãos na altura dos olhos e por entre seus dedos uma luz intensa fluiu, crepitante.

Ele olhou diretamente para mim e sorriu, exatamente da mesma maneira que fizera da outra vez.

— É bom vê-la novamente, Jéssica. – Eu estremeci. Ele brincava com as luzes que percorriam seus dedos das duas mãos nesse momento. – Sabe, sua mãe nos subestima demais... e sempre o fez. Não deveria deixar que ela guie seus conhecimentos, isso pode ser fatal para você. – Ele abanou uma das mãos na minha frente, como se estivesse desmanchando alguma miragem. Tudo ao meu redor, inclusive Cameron, começou a tremeluzir e desaparecer aos poucos. – Você tem uma escolha. Não pense que nasceu para seguir somente os passos de sua mãe.

***

Acordei com um sobressalto e ofegante.

Ignis aparentemente estava montando uma guarda em minha cama. Bóris rosnava visivelmente enciumado e olhava para mim com raiva.

Revirei os olhos.

— A culpa não é minha se de repente uma calopsita escolheu me amar. – Resmunguei para ele. Ignis piou, triste. – Você é esquisita, até parece que me entende. – Ela piou novamente e eu sacudi a cabeça, deixando esses pensamentos de lado.

Bóris me deu as costas e foi arranhar a porta de meu quarto para que eu abrisse para ele. Quando levantei para fazê-lo, senti fisgadas de dor por todo o meu corpo e voltei a deitar, zonza.

De olhos fechados comecei a tatear meu corpo em busca dos lugares doloridos. Descobri que basicamente todo o meu corpo era um lugar dolorido: haviam cortes e arranhões leves e profundos por todo meu ser e, embora muitos curiosamente já estivessem praticamente curados, a dor continuava ali.

No meu sonho Cameron havia dito que eu podia escolher não seguir somente os passos de minha mãe, mas ao mesmo tempo havia mencionado o fato de ser fatal eu esperar que minha mãe me explique as coisas.

O que será que ele queria dizer com tudo isso?

Quer dizer, realmente havia explicação para tudo que estava acontecendo nas últimas semanas?

Por que mamãe queria esperar até o dia seguinte para me contar seja lá o que for, ao invés de já me contar e me deixar preparada agora?

Essas perguntar estavam me deixando com dor de cabeça.

Aos poucos consegui me levantar e fui até a porta para abrir para Bóris.

— Ela não precisa disso. – Era a voz de minha mãe vindo do andar de baixo. Estava bem baixa, sussurrada, mas por algum motivo eu conseguia escutar como se ela estivesse falando diretamente no meu ouvido. – Não, não, não. Hoje não. – Ela estava séria, com a voz dura. Falava com alguém no telefone. – É melhor falarmos com os dois ao mesmo tempo e não, não essa parte. Talvez sem saber, ela não tenha dúvidas de por onde seguir. – Ela suspirou. – Ele iria querer assim também. – Houve uma pausa. – Marcus, amanhã resolvemos. – E silêncio.

Lentamente fechei a porta e senti meu coração se acelerar. Eu não fazia ideia do que estava acontecendo e pelo visto não iriam me contar tão cedo.

Peguei o celular, entrei no Google e, me sentindo a pessoa mais louca do mundo, digitei: Monstros existem?

Notas finais
E ai, o que acharam? Comentem o que pode ser melhorado, ou explorado mais! Irei começar a postar a história num site da minha cidade e seria ótimo se quem gosta me ajudar a melhorar ainda mais! Abraços!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.