Quando Voltar a Te Ver
17 Urahara Kisuke
Notas iniciais
Tive noites maldormidas
Perdi pessoas muito queridas
Cumpri coisas não prometidas
Muitas vezes eu
Desisti sem mesmo tentar
Pensei em fugir para não enfrentar
Sorri para não chorar
— Martha Medeiros
—- XXX —-
Eu estava sendo erguida.
A sensação de fraqueza por causa do meu poder anulado era angustiante… mas, estranhamente, eu estava tranquila. Sabia que meus amigos estariam seguros. O tempo em que fui suspensa foi suficiente para agradecer a cada um deles, lembrando nossos momentos divertidos e marcantes.
Senti meu sorriso se abrir.
Eu não tinha arrependimentos.
Ganhei um irmão incrível. Mesmo distante, ele sempre agiu nas sombras para garantir que eu tivesse o bem-estar digno de uma Kuchiki. Nossa relação não era de sangue, mas era sólida — e eu sabia que ele já tinha feito tudo o que podia por mim.
Renji… meu amigo de infância. Lutou com tanto esforço para se tornar tenente. Eu sempre me orgulhei dele — mesmo que não tenhamos nos falado muito nos últimos anos.
Inoue… a garota avoada e apaixonada que ganhou um poder extraordinário. Nunca imaginei que participaria de uma loucura dessas. Sou profundamente grata por ela. Por trás do jeito distraído, há uma amiga extraordinária.
Chad, sempre calado, sempre firme. Fizemos uma luta digna, mesmo que, naquela época, ele não enxergasse nada. Hoje está aqui — ainda que essa visita à minha terra natal não seja das mais felizes. Afinal… eles são invasores.
Ishida, que dizia odiar shinigamis e acabou entrando no grupo da forma mais inusitada possível. Seu jeito frio é apenas uma fachada — eu sempre soube.
E, por último… Ichigo.
Meu irmão se enganou sobre o motivo do meu apego a ele. Não era por causa de Kaien-dono. Tirando o rosto, eles não tinham nada em comum. Kaien era alegre e expansivo. Ichigo é… resmungão. Rabugento. Insuportável.
Mas a conexão que criamos era forte demais.
Eu não suportaria vê-lo morrer.
Por isso fiz o que fiz.
E ainda assim ele veio.
Quando senti sua presença… foi estranho. Uma alegria do mesmo tamanho do desespero. Quando nos encontramos, senti esperança. Revê-lo me trouxe uma paz absurda, como se eu tivesse esperado apenas por isso — vê-lo uma última vez. Mesmo que ele odeie despedidas.
Você lutou por mim, Ichigo.
Essa alegria eu levarei até o fim.
Nosso encontro não foi exatamente perfeito, como dizem os humanos. Aliás, meu traseiro ficou dias marcado com o seu pé, idiota.
Mas foi bom te ver.
Quem sabe, em outra vida, possamos nos reencontrar?
Obrigada por tudo, Ichigo.
Fique vivo. Viva por nós dois.
Senti as lágrimas rolarem por meu rosto — evaporando quase ao mesmo tempo. O pássaro de fogo já havia ganhado vida, suas brasas emanando calor. Em breve ele viria ao meu encontro… e eu iria desta para melhor — se é que isso é possível no destino das almas.
O pássaro avançou.
Fechei os olhos.
Esperei as chamas.
Que nunca vieram.
— Yo, Rukia.
Abri os olhos, surpresa.
Ele estava ali.
O quimono preto contrastava com o brilho intenso atrás dele. Sua carranca dizia que estava extremamente bravo comigo.
Isso são modos de salvar sua melhor amiga pela segunda vez?
Espera… onde estou?
— Nanica, tu me coloca nisso e vai dormir? Quem disse que eu vou deixar? — Ichigo falou, emburrado.
Foquei melhor.
Não havia pássaro algum.
Apenas um painel de iluminação aceso atrás dele.
Estamos no palco do teatro da escola.
Eu estava sonhando.
Nossa escola tem um grupo de teatro liderado por Kyouraku-sensei. Naturalmente, temos um teatro próprio — com capacidade para mais de quinhentas pessoas e estrutura para apresentações de qualquer gênero.
Graças ao clube de costura, sempre temos figurinos adequados.
E, claro, aproveitamos os ensaios da peça para experimentar roupas.
Mesmo com Ichigo lutando contra a ideia com todas as forças… eu venci.
— Por que não fazer algo mais normal? — ele perguntou.
— Porque não teria graça.
— Do que você tem medo, Ichi? — provocou Rangiku. — Não se preocupe, não vamos fazer você morrer pra salvar a Kia e no fim ficar com outra.
— E quem disse que isso me importa? — Ichigo respondeu, nervoso. — AI! NANICA!
Já íamos começar outra sessão de brigas quando um aluno apareceu.
— Kuchiki-sensei chama vocês à sala dele. Imediatamente.
Saímos sem nem trocar de roupa.
— É melhor você enxugar essa baba. Já que vai ver seu nii-sama — Ichigo zombou, imitando meu jeito de falar.
— Eu não falo assim! — rebati, acertando um tapa na nuca dele.
— Maluca…
Chegamos à sala do meu irmão — o 6º esquadrão, onde fica o time de natação.
Lá estava ele, conversando com um homem… peculiar.
Usava um dogi verde escuro que, se você não prestasse atenção, parecia pijama. Um kimono preto curto como sobretudo. Um chapéu trilby com listras verdes e brancas.
E um olhar cínico.
Ele pareceu bem surpreso ao nos ver…
— Ah! Entendi — disse ele. — Vocês têm uma banda chamada Soul Society e se apresentam vestidos como shinigamis.
Foi isso que o surpreendeu? Sério?
Ichigo suspirou.
— Urahara-san… você também acha que shinigamis são samurais?
Olhei de soslaio para Ichigo.
Só então percebi que ele estava vestido exatamente como eu queria.
E… sim.
Eu quase babei.
Ele ficou uma gracinha de kimono.
— E o que mais seriam? — respondeu o estranho. — Não acha que são bichos esquisitos com asas que decidem quem vai morrer escrevendo nomes em um caderno, né? Aliás, essa espada está pequena demais pra você, Kurosaki-san. Precisa ser—
— Urahara, fale menos — interrompeu meu irmão.
— Tá tranquilo, tá favorável — respondeu o homem.
— Nii-sama… por que nos chamou?
— Rukia, este é Urahara Kisuke. A partir de hoje ele treinará você e Kurosaki Ichigo para as competições de natação. Ele já sabe das outras atividades de vocês.
Outras atividades?
Olhei para o tal Urahara.
Ele sorria como alguém que já planejou vinte coisas que ninguém mais percebeu.
Ele tinha cara de ser… perigoso.
Ou completamente maluco.
Talvez os dois.
— Um completo maluco, sim — Ichigo confirmou, como se lesse minha mente. — Mas relaxa. Ele foi meu treinador, neurologista e fisioterapeuta no Brasil. E, como você, é maluco por espadas.
Acertei um chute na canela dele.
— Quem disse que sou maluca por espadas?!
— Vocês dois realmente não mudam nada — comentou Urahara.
— Você fala como se já nos conhecesse.
— Kuchiki-san… eu vi vocês dois nascerem e crescerem.
Ele caminhou até a porta.
— Duas vezes.
Pausa.
— Vamos. Não temos tempo a perder. Vocês têm uma agenda bem lotada.
Seguimos.
— Mas, sensei, hoje não podemos usar a piscina. É dia de limpeza.
— Ah. Hoje não iremos à piscina.
Ele sorriu.
— Vamos para o dojô. Hoje iniciarei o treinamento de kenjutsu.
Eu ouvi certo?
Kenjutsu?
Por que eu treinaria kenjutsu?
Nii-sama… o que passa pela sua cabeça?
E lá fui eu.
Com meu melhor amigo.
Aprender algo que eu nem sabia por que deveria aprender… nem se ainda deveria sequer existir.
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