Teu olhar

Brilho no meu

Tua boca

Tentação indecente

Desejo...

Tua lágrima

Rios de ternura

Encanta...

Teu corpo

Corpo no meu

Aconchego...

Teu sussurro

Paixão

Pura sedução…

— Ira Rodrigues

— XXX —

Entramos na sala às pressas. Estávamos atrasados para a aula de matemática; por um triz não chegamos depois da professora. Era a última semana de ensaio para a apresentação da peça. Os nervos de todo mundo estavam à flor da pele. Os membros do clube corriam de um lado para o outro pela escola, resolvendo e consertando materiais, ensaiando e, claro, estudando — afinal, ainda era uma escola. A apresentação seria no festival que encerrava o período letivo e dava início às férias de verão. Então era comum ver pessoas vestidas com trajes medievais europeus pelos corredores.

Quanto a mim, estava exausta, sentada na carteira tentando recuperar o fôlego. Ao meu lado, um Ichigo igualmente cansado. E não, eu não estava vestida de Julieta. Vínhamos de mais um treinamento com aquele maluco do chapéu verde chamado Urahara. Estávamos usando hakamas — parte de cima branca; a de baixo, vermelha para mim e azul para Ichigo. Parecíamos alunos de algum centro tradicional de artes marciais. E, claro, armados com katanas de madeira.

— Porcaria, já não aguento mais! — reclamei, sentindo as dores musculares e a dormência nas mãos.

— Bom dia! Ichiigoo!! — escutei Keigo, empolgado, correndo na direção do ruivo.

Com reflexos sobre-humanos, Ichigo levantou rapidamente sua espada e a encostou no pescoço dele.

— Um passo e você perde a cabeça.

— Eita, parece que vocês não estão pra lero hoje, Kia, Ichi — disse Rangiku, rindo do coitado do Keigo, que agora choramingava para Mizuiro.

— Esse treinamento maluco tá me matando, sério — resmunguei.

Rangiku lançou um brilho cúmplice para Ichigo.

— Tenho certeza de que ainda não chegou ao extremo que geralmente chega…

— Não chegou? Qual é esse extremo então? Passei a semana balançando espadas embaixo d’água, em cima de postes, no telhado de casa, nas barreiras da ponte com risco de cair no rio! Tenho que estar respirando o tempo todo daquela forma esquisita. Além disso, ele cismou dizendo que eu era compatível com o elemental do gelo e me fez praticar esgrima por cinco horas dentro de um freezer a 10 graus. Dez graus!

— Calma, Kia. Ele é louco, mas sabe o que faz. Você deve mesmo ser compatível com gelo.

Ela caiu na gargalhada. Eu, por puro instinto, chutei o que estava mais perto. Claro que era a canela de Ichigo.

— Sua louca…

— Rangiku, eu sou uma maldita de uma CAPRICORNIANA! Meu elemento é terra. Terra! Não água. Terra!

Os dois me olharam. Depois se olharam. Depois olharam para mim de novo.

— Pensei que você não fosse ligada em horóscopo, Kia…

— É com isso que está preocupada?!

— Rukia, ele não deixaria você se machucar — disse Ichigo.

— Sim, Kia, quando conheci o Ichi ele fez ele…

— Acho melhor a gente se ajeitar. A professora está chegando.

Ele coçou a nuca, avermelhado.

Lá estava de novo. A história que ele sempre desconversava.

E dessa vez eu não deixaria passar.



Cinco minutos depois, estávamos em um dos camarins do teatro. Um ruivo e uma loira sentados diante de mim, sob a luz forte da luminária, um autêntico interrogatório.

Eu estava ligando os pontos.

Ichigo e Rangiku se conheceram no Brasil;Ichigo falou de mim para Rangiku;Ichigo coça a nuca quando lembra como conheceu Rangiku;Ichigo fica vermelho quando lembra como conheceu Rangiku;Está na cara que eles mais que se conheceram.

Coloquei minha katana de madeira sobre a mesa.

— Então? Quem vai desembuchar primeiro?

— Rukia, por que isso importa tanto pra você? — ele perguntou.

— Não sei. Mas preciso saber. Porque toda vez que penso nisso eu…

Senti meu sangue ferver.

Aquela coisa bem profunda começou a se agitar pedindo por sangue de loira, olhei maníaca para Rangiku que se encolheu na cadeira, com medo de seja lá o que ela estava vendo em mim.

Então ela soltou.

— Ichigoparticipoudeumfilmepornôgravadoporseupai — Em uma só tacada.

— O QUÊ?!

Falamos Ichigo e eu ao mesmo tempo.

— Seu pai gravou tudo, Ichi — ela completou, olhando para o chão. — Ajudado por Urahara e Kurotsuchi.

— Aqueles velhos—

— Kurosaki-kun. Você não vai fugir de mim.

Minha doce voz assassina e a katana de madeira surtiram efeito imediato.

Ele voltou a sentar.

— Eu conto tudo.



— Aconteceu logo no início do meu treinamento de kenjutsu, esse treinamento que você está fazendo agora, eu também fiz, exceto que ele não me colocou no freezer — diz que meu elemental é fogo…

O relato foi absurdo. Garotas correndo atrás dele. Roupa rasgada. Unhas. Perseguição. Armário de limpeza.

E então a parte do armário.

Ele ficou vermelho. Eu também.

— Então Rangiku-san começou a desabotoar a camisa…

— Pera!

— Vai arregar agora?

— Continua!

Ele continuou.

Respiração pesada. Movimentos estranhos. Beijos no pescoço. Chupões. Tentativas desesperadas de fuga. Pulou pela janela. Telhados. Escadas de emergência. Garotas geneticamente alteradas. Rangiku praticamente sem roupa. Grudada nele.

Piscina.

Silêncio.

— Está feliz agora? — ele disse por fim.

Depois foi embora.

Fiquei ali sentada, tentando organizar os pensamentos, enquanto ouvia o fungado da Rangiku ao meu lado.

Pode ter sido muito vergonhoso para os dois… mas não foi aquilo tudo que eu imaginei.

Quer dizer… tirando a parte em que eles quase…

Ah!

Eu não entendo.

Eu realmente não entendo.

Por que isso incomoda tanto?

— Por que só de pensar… — murmurei, mais para mim mesma do que para ela.

— Ciúmes.

Olhei para frente e vi uma Rangiku quase normal. Quase — porque a maquiagem dela estava um desastre absoluto.

— Por que eu teria ciúmes do Ichigo? Ele é apenas meu…

— Apenas o melhor amigo. Eu sei — ela respondeu, surpreendentemente séria. — E é exatamente por isso, Kia. Você quer protegê-lo. Vai se incomodar sempre que aparecer alguém que possa fazê-lo sofrer. É a mesma coisa com ele.

Fiquei em silêncio.

— Ok… e por que eu teria ciúmes dele com você? Você também é…

— Sua melhor amiga, por assim dizer, né?

Ela suspirou. Não havia deboche ali. Nem malícia.

— E é por isso que doeu. Quando você sentiu que seus dois melhores amigos tinham um passado juntos — um passado que você não conhecia — aquilo mexeu com você. O medo de perder os dois… ou de ficar de fora… incomoda mais do que você quer admitir.

Aquilo me atingiu.

Ela continuou:

— Sabe… quando te conheci, você era mais melancólica. Mesmo quando sorria e brincava com a gente, parecia distante. Como se estivesse sempre com um pé fora. Agora não. Agora dá pra ver sua felicidade até na forma de falar. Você ficou mais forte… mais mandona também — ela sorriu de leve. — Como a lua mudando de fase. Você passou a brilhar mais.

Eu fiquei imóvel.

— E eu aposto que sei o nome do sol que causa esse brilho.

Engoli em seco.

— Kia… com o Ichi é a mesma coisa. Ele não sorria no Brasil. Aqui ele sorri o tempo todo. Você nunca parou pra pensar por que ele implicava tanto com o Shiba-kun? Mesmo sendo primos? Sabia que eles já nem se estranham tanto? Você mudou ele também.

Meu coração começou a bater mais forte.

— Às vezes eu acho que a ligação de vocês vai além da amizade. Porque é uma química absurda quando vocês entram naquele “mundinho” de vocês.

— Nós não temos mundinho nenhum.

Ela riu, mas sem crueldade.

— Vocês passam horas se olhando. Não enxergam mais nada ao redor. E quando voltam parece que tomaram uma decisão juntos, como se tivessem conversado sem abrir a boca. Isso é assustador… mas também é bonito.

Eu tentei argumentar.

Mas não consegui.

— Certo — suspirei. — Vou admitir que quero o melhor pro Ichigo. E que talvez exista esse tal mundinho. Mas dizer que nosso laço é maior do que amizade é exagero.

Ela arqueou a sobrancelha.

— É? Então vamos testar. Responda sem pensar.

O jogo começou.

Maturidade.

— Ukitake-sensei.

Bizarrice.

— Urahara.

Amizade.

— Ichigo.

Família.

— Ichigo.

Filhos.

— Ichigo.

Eu ainda não estava pensando. Só respondendo.

Brilhante.

— Kaien-san.

Amor.

O nome escapou antes que eu pudesse impedir.

— Ichigo.

Silêncio.

Rangiku não riu.

Não provocou.

Apenas me olhou com aquele sorriso tranquilo… de quem já sabia a resposta antes mesmo de perguntar.

E foi embora, correndo desesperada ao lembrar da maquiagem borrada.

Eu fiquei ali.

Parada.

Tentando entender quando foi que o nome dele começou a surgir antes mesmo dos meus próprios pensamentos.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.