Quando Voltar a Te Ver
16 Um Dia Sem Morango
Notas iniciais
Nem todo dia tem Sol,
Nem toda sobremesa são morangos
E nem toda relação homem e mulher é romance.
— A. Araújo
---XXX---
Estou no vestiário, terminando de me trocar depois do treino de natação. Finalmente o dia acabou — e, surpreendentemente, sem nenhum desastre.
Ichigo não me irritou.
Nenhuma repórter maluca apareceu.
Ninguém perguntou sobre beijos inexistentes.
Nenhum diretor nos trancou em sala.
Nenhum plano suspeito da Rangiku.
Um dia comum.
O que, sinceramente, já é suspeito.
Só que, agora que parei pra pensar… Desde que o ruivo voltou, a gente tem ficado junto demais.
E isso não era pra estar acontecendo.
Eu estava chateada com ele. Muito.
Mesmo depois do medalhão. Mesmo depois da carta. Mesmo depois de tudo.
Era pra termos voltado ao nível “amigos civilizados”.
Não “dupla inseparável do ensino fundamental”.
E o pior: eu tenho me afastado das meninas. Principalmente da maluca da Rangiku.
Sinto falta dela.
Apesar de, às vezes, ter vontade de esganá-la.
Ok. Decidido.
Esse fim de semana será só eu e as meninas.
Sem Kurosaki Ichigo.
Depois de combinar com elas, fui avisar o dito cujo.
Não vou simplesmente desaparecer. Não sou infantil.
Fui até o vestiário masculino do clube. Sábado só tem o pessoal dos treinos especiais.
Foi aí que vi ela de novo.
Cabelos longos, num tom azul-esverdeado que balançavam com o vento.
Corpo… bem, do tipo que causa acidentes.
Vestido vinho caído nos ombros, botas até acima do joelho, postura confiante.
Era linda.
E com certeza não estuda aqui.
Nem devia estar onde estava.
— Oe, Nell, já tô pronto.
A voz rouca dele.
Então era isso.
Enquanto eu aqui, preocupada em avisar…
Ele já tinha planos com uma modelo importada…
Quando ele me notou, ficou indeciso sobre qual carranca usar.
Era culpa?
Ah! Qual é?
Você vai sair com uma garota absurdamente linda…
Por que ficar nervosinho?
Ao notar nossa interação, a garota, chamada Nell, pareceu ansiosa.
Eu, impaciente com a falta de atitude dele, dou um tchauzinho pra ela e vou embora.
E o plano “fim de semana sem Ichigo” foi uma falha total.
Agora estou no shopping, praça de alimentação, com as meninas.
E adivinhem o assunto?
Um prêmio para quem disse Ichigo.
Nunca pensei que sua voz rouca fosse tão popular.
Ou que até nossas amigas babam no seu tanquinho.
Ou que seu jeitão rabugento lhe daria um fã-clube.
E Rangiku está zoando Orihime por ser parte desse fã-clube.
Essas garotas têm que ser estudadas…
Olha, eu não vou dizer que ele não é bonito. Ele é.
Muito.
Mas não é isso que torna ele o cara maravilhoso…
Se tem uma coisa assim… é seu sorriso…
Esse é seu verdadeiro charme.
Não existe uma pessoa sequer que possa ver aquilo sem se apaixonar.
E é exclusivamente meu…
— talvez… não por muito tempo… — percebi tarde demais que tinha falado em voz alta.
Dei uma mordida bem grande no meu duplo mcmelt e bebi um gole bem longo do refrigerante.
— Kia? Que carinha é essa, ein?
— Não sei do que tá falando, Rangiku, minha cara tá normal.
— Não tá não, você tá muito desconfiada… Não me diga que é ciúme da Hime?
— Matsumoto-san, por que Kuchiki-san teria ciúme de mim?
— Rangiku, não viaja, se um dia Orihime e Ichigo tiverem alguma coisa, serei a primeira a jogar arroz nos dois…
— Kuchiki-san… por favor… — falou uma Orihime perdida com o rumo da conversa.
— Kia, você parece, mesmo, muito irritada, qual o problema?
— Não tem problema já disse…
— Não enrola, Kia, se tem alguém que não fica com essa aparência desanimada é você e, principalmente agora, nesses últimos dias, que você tá bem mais feliz… Diz logo o que tá pegando.
— Já falei! Não tá acontecendo nada… mas… talvez, não esteja bem, desculpa, meninas, eu vou na frente…
Saí antes que explodisse de vez.
Acabei trombando em alguém no caminho. Xinguei tanto o coitado que ele deve estar até agora em crise existencial.
Tudo bem, eu confesso: não fui nada legal com as meninas.
Desde cedo, alguma coisa me incomodava. Uma preocupação misturada com ansiedade e um aperto estranho no peito.
Tudo isso junto dá vontade de esganar alguém.
Ao invés de ir para casa, fui para a margem do rio.
Comecei a jogar pedras nele.
Nenhuma pulava.
Afundavam logo depois do plop!
Deveria ter trazido meu caderno, talvez escrever me ajudasse a aliviar.
Mas que sábado sem graça.
— Caraminholas na cabeça?
Viro meu rosto para olhar para o dono daquela voz rouca e inacreditavelmente popular.
— Que você quer? — perguntei, voltando minha atenção para o rio.
— Se você me devolvesse o braço que arrancou no shopping já ajuda…
— ha! Ha! Quem mandou não olhar por onde anda!
— Olhar até olhei. Mas, sabe? Ainda não inventaram microscópio portátil pra enxergar micro-organismos andando por aí.
Meu pé acertou bem no seu maxilar fazendo ele voar bem alto antes de cair no chão.
— Nanica maldita… tu é o quê? o Homem-Formiga?
— Baka! Eu seria a Vespa, imbecil…
— Ei, Rukia…
— hmm…
— Sabe a Garota que tava comigo?
— Hmm?
Aquele aperto voltou.
— Ela é minha prima, Nell, vem do lado Shiba da família…
— E?
Perguntei, lembrando que Kaien-san e Ichigo são parentes. Pensando bem… ele também não é primo de Ishida?
— Eu tô ajudando ela a se acostumar com a cidade, o pai dela é europeu e ela morava por lá…
Olhei para ele.
Seus intensos olhos castanhos sempre pareciam ler o mais profundo de minha alma…
E refletir de volta.
— Você não me deve explicações… — volto a olhar o rio.
— Tá louca? O olhar que você deu foi igual ao daquele dia em que você viu a Tats e eu em—
— Tá! Eu entendi!
Não quero falar daquele dia.
Foi a maior vergonha da minha vida!
— E também… a gente fez uma promessa aqui, lembra? De não deixar o outro se envolver com quem não valesse a pena.
— Você ainda lembra?
Ele assentiu.
Claro que eu não perderia essa.
— Então quer dizer que o Morango Sexy ainda é BV?
Ichigo ficou vermelho, coçou a cabeça, olhou para o lado e deu uma risadinha sem graça.
Eu não gostei nadinha.
— O mais próximo que tive de beijo foi quando conheci a Rang—
Ele parou.
Virou de costas.
E lá estava.
Outra vez.
O mistério Brasil.
O mistério Rangiku.
Não mesmo que eu vou deixar isso passar.
Ou eles contam.
Ou eu apelo pra tortura.
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