Quando Voltar a Te Ver
15 Sobre Samurais e Shinigamis
O que não se diz
Diz mais que palavras
Sabor viciante do quase
Doces sons, vozes raras
Inocente e intensa fase
— Kuchiki Rukia
---XXX---
— SUA IMBECIL, SEM NOÇÃO, IRRITANTE… TINHA MESMO QUE DIZER AQUILO?! — a doce voz do meu quase, novamente, melhor amigo.
— E POR ACASO EU MENTI, ABERRAÇÃO LARANJA?! NÃO VIU QUE EU TAVA SEM SAÍDA?! — minha doce e linda voz… mas, acima de tudo, acima de tudo mesmo, eu vou matar a Rangiku, aquela especialista em paparazzi de araque.
— PELO MENOS PODERIA TER DITO ALGUMA COISA MENOS… AHH!! BAIXINHA IRRITANTE DOS INFERNOS!
Ok. Acho que devo explicações.
Estamos agora indo para uma lanchonete após a desastrosa entrevista que acabamos de ter. Sim, desastrosa — e principalmente por culpa da nossa super empresária que simplesmente não consegue manter a boca fechada!
Aliás, Ichigo está chiando sobre o que eu falei na entrevista com o grupo todo. Imagina se ele souber o que aquela repórter doida me fez falar na entrevista individual… ele com certeza vai me fazer picadinho.
Ah! Antes que me perguntem: não, não vou falar da entrevista. Não vou dizer o que aconteceu. Quero esquecer tudo sobre ela, pelo menos até aquela desgraça passar na TV, então me perdoem.
— Espero que você não tenha falado nenhuma besteira nas individuais, Kuchiki Rukia. — Esse morango pintado de laranja só pode estar lendo minha mente…
— O mesmo pra você, Kurosaki Ichigo. O mesmo pra você… — afinal, não sou só eu que tenho problemas com situações constrangedoras.
— Com licença… hmm… vocês já vão pedir? — falou a atendente.
Sem perceber, nós já estávamos sendo atendidos e, parece, estávamos também congestionando a fila. Ichigo, seu…
— Porção grande de fritas e duplo cheddar McMelt — falamos ao mesmo tempo, sem olhar para a atendente. Estávamos muito ocupados olhando, ameaçadoramente, um para o outro.
— Seriam duas p… — A coitada olhou pra gente e, por alguma razão, tremeu na base.
— Sim, por favor, prepare dois… E quanto a vocês dois: vão pra mesa. Eu levo pra vocês, ou então vamos acabar saindo daqui algemados… — Ishida interveio, nos tirando da fila e pagando os pedidos, enquanto nós íamos para a mesa com nossa típica conversa cheia de paz e alegria…
— Mou, Kia, Ichi… vocês, hein… Olhem como a coitada da atendente ficou… — reclamou Rangiku.
— Culpe o Morango Tingido, que sempre é tomado por delinquente…
— Melhor ser delinquente do que ser uma nanica… — lógico que o resto ele não terminou. Por quê? Simples: sua canela foi acertada por moi aqui.
Ishida nos trouxe nosso duplo McMelt, e isso deixou a Rangiku meio fascinada encarando nosso sanduíche. Fiquei extremamente curiosa com isso. Será que ela nunca viu um duplo McMelt?
— Aconteceu alguma coisa, Rangiku? — perguntei.
— Nada, não… só lembrando do Brasil… — disse, soltando risadinhas.
De repente, escuto alguém engasgando do meu lado e, claro, era o Ichigo. Minha mente angelical começou a processar o que aquilo poderia significar… Por alguma razão, sinto as penas das minhas asas se tornando negras como breu.
— Por quê? — perguntei.
Rangiku, ainda dando essas risadinhas de nostalgia, me respondeu:
— É que quando eu conheci o…
— Rukia, a gente ainda tem que ensaiar a peça e planejar a cena da apresentação. Acho melhor a gente ir — Ichigo falou, coçando a parte de trás da cabeça e olhando pro lado.
Eu ainda vou descobrir esse rolo, ou eu não me chamo Kuchiki Rukia! Mas agora ele está certo: temos que trabalhar nisso, graças àquela repórter sem noção.
Nos despedimos da galera e saímos fazendo uma guerra de batatas fritas que, por incrível que pareça, eu venci. E, na hora de decidir onde a gente ia para fazer os projetos, discutimos de novo. O motivo? Ichigo não queria ir para a minha casa.
Depois de tanto tempo sem sair do lugar, perguntei:
— Ichigo, o que foi que você e meu irmão conversaram tanto que te deixou tão assustado?
Ichigo fechou a cara, olhou para o nada e disse:
— Sabe, Rukia… acho que o Byakuya tá precisando de um psicólogo…
E, claro, ele levou uma voadora bem mirada na cabeça laranja.
— Ô! SUA LOUCA! DÁ PRA DEIXAR EU FALAR PRIMEIRO?!
— Nunca. Mais. Insulte. Meu. Nii-sama!
— Eu tô falando sério…
— Por que você tá dizendo isso?
— Ontem, depois que ele me levou pro escritório, ele me deixou plantado horas enquanto preenchia um monte de papel — sim, lembro disso, e nem pensei que você ia escapar com vida, Moranguinho —, depois suspirou e disse algo assim: “Eu realmente não sei o que estava pensando ao aceitar participar desse plano. Porque tudo o que vejo, Kurosaki Ichigo, é que não importa em que era estejamos, você continua sendo um moleque petulante. Se dependesse de mim, nunca teria deixado você encontrar Rukia, em nenhum momento”.
Ichigo falou imitando o meu irmão, o que deu uma imagem fiel e engraçada que me fez imaginar como seria meu nii-sama se tivesse o cabelo laranja…
— Você tá vivo e bem. É isso que importa…
— Uhum. E vamos pra minha casa hoje…
Fomos para a casa do Ichigo, o que foi muito legal porque reencontrei a Karin e a Yuzu. Eu realmente amo essas irmãs — e, claro, a Masaki-san também. Ela é muito encantadora e graciosa. Bem… o que se espera de uma ex-supermodelo, não é?
Se meu guarda-roupa não fosse quase exclusivamente vindo da sessão infantil, eu pediria umas dicas de moda. Realmente odeio ser baixinha.
Fiquei meio nervosa ao entrar no quarto do Ichigo depois de muito tempo. Esse lugar foi o local de muitas das nossas brincadeiras; vivemos muitos momentos aqui. Mas, para ser sincera, tem poucas diferenças: a roupa de cama deixou de ser de desenhos de personagens de animes e agora é só azul; a escrivaninha do lado oposto da cama continua no mesmo canto; e, lógico, a estante de livros, com toda a sua coleção de livros e mangás…
Com um espaço dedicado ao seu autor preferido: William Shakespeare.
Sim, desde que conheço Ichigo, ele gosta de Shakespeare. Apesar de pequeno não gostar de atuar, quando decidiu fazer Romeu ele conseguiu o papel com facilidade por saber todo o roteiro original da peça. E foi por esse motivo que ficamos de ensaiar juntos: seu vasto conhecimento do universo shakespeariano viria a calhar.
Mas antes disso, tínhamos um videoclipe para criar.
Nos deitamos na cama e começamos a pôr a mão na massa.
— Que tal assim: somos dois amigos samurais da era Edo que vivem suas vidas pacificamente, até que eu sou acusada injustamente de um crime e você vai lutar contra o sistema para me resgatar.
— Com esses desenhos fica difícil imaginar como isso seria… — Ichigo caiu da cama de repente.
— Kurosaki-kun, tudo bem com você, Kurosaki-kun?
— Maldita…
— Queria saber por que Rangiku topou esse desafio. Sobrou pra nós a treta…
— Então assim: somos dois samurais shinigamis que lutam contra espíritos malignos, e eu sou presa por um crime que não cometi, e você vai me resgatar…
— Por que shinigamis seriam samurais? Você gosta mesmo de espadas e de ser a donzela em perigo, hein?
— Então, Ichigo, você quer ser a donzela em perigo? E espadas são legais…
— Eu, de donzela em perigo, seria uma ofensa ao meu nome…
— E desde quando ser donzela em perigo ofende aos morangos?
— Tsc! Baixinha irritante… por que não coloca a Inoue como resgatada? É mais a cara dela…
— Eh! Então é assim… você prefere resgatar a Orihime. Claro, ela tem hime no nome, né?
— Não é isso…
— Então seria o quê, Kurosaki-kun?
— Eu não consigo nem pensar em você…
— Eh! Entendi: você nem consegue pensar em mim, então se meu nii-sama me levar pra longe e a gente não se ver mais, ia ficar tudo bem…
— Rukia, dá pra deixar de fingir a idiota?
— Sim. Vou deixar de ser uma idiota que pensa que Kurosaki Ichigo faria alguma coisa pra salvá-la algum dia…
— Nanica, você sabe que é a única por quem eu faria o impossível para…
— Para não salvar caso vire uma donzela em perigo, eu sei…
— Para trazer de volta, sua irritante. Eu arriscaria tudo pra trazer de volta… e deixa eu terminar…
— Não tô impedindo…
Ele coça a cabeça virando o olhar.
— Rukia, eu não consigo nem pensar em você longe de mim de novo…
— Isso é uma confissão, Moranguinho?
— Dá pra ficar um momento sem ser irritante? Esquece. Você é assim mesmo. Não consegue fazer nada sem me irritar, ou me dar uma voadora, ou um chute na canela, ou largar esse jeito mandão… mas sabe… quando estamos juntos, sinto que posso fazer qualquer coisa. Até lutar contra qualquer coisa…
— Sabe que isso tá parecendo mesmo uma…
— Mas não é…
— Então, onde você quer chegar?
Me aproximei mais dele.
— Eu quero dizer que, no tempo que eu fiquei no Brasil, eu percebi uma coisa… Kurosaki Ichigo só é Kurosaki Ichigo quando está com Kuchiki Rukia…
Aproximei ainda mais.
— Ah! Então é um pedido de casamento. Tem que falar com meu nii…
— Acho que você tá falando muito com meu pai…
Ichigo sorriu pra mim. Aquele sorriso que derrete todo o gelo. E claro: sempre que ele faz esse sorriso, eu fico hipnotizada, presa na beleza do brilho radiante — amplificada pela gentileza contida naqueles olhos castanhos que sempre leram minha alma.
Ficamos assim, nessa troca de olhares por horas a fio.
Olho no olho. Respiração a respiração.
Mas, como tudo que é bom dura pouco, o barulho da porta se abrindo bruscamente nos tirou de nossos devaneios.
Isshin-san, Karin e Yuzu estavam caídos no chão, cada um com um copo, enquanto ao lado havia uma Masaki-san toda sorridente, como se tivesse feito — ou visto — uma travessura.
Sim. Esta é a família Kurosaki, com todo o seu poder de ser louca e barulhenta.
Bom… enquanto Ichigo berra com seu pai, que está gritando sobre uma terceira filha e netos, acho que por hoje já deu.
Mas sabe… eu
queria mesmo fazer o clipe como samurais shinigamis.
Acho que Ichigo ficaria uma gracinha de kimono…
Fale com o autor