Quando Voltar a Te Ver

19 Romeu e Juleita: A Véspera


Ele

leva à inimiga o pranto seu

Ela

tira do ódio doce amor.

Inimigo

Romeu fica vedado fazer as juras naturais do amor,

Ela

apaixonada, não é dada ir encontrá-lo, seja onde for

— William Shakespeare

— XXX —

— Aqui — fala Ichigo, me entregando uma carta em um envelope rosa — de Kagurazaka Ryou, turma C.

— Então? — pergunto, recebendo o envelope.

— É o mais covarde até agora. Nem pensar que serve pra você.

— Pra quê tá me dando a carta, então?

— Pra você dar um fora decente…

— O que vocês tão aprontando agora, hein? — pergunta Rangiku, levantando a sobrancelha.

— Nada demais — respondemos juntos, dispensando-a com a mão. Ela revira os olhos e volta a atenção para o Kyouraku-sensei.

— Essa é a sua — entrego a Ichigo um envelope em forma de coração, absurdamente perfumado.

— Quem?

— Haruka-sempai, 2º B.

— E…?

— Uma tremenda vadia que pega qualquer um que tenha um tanquinho. Nem pensar!

— Pera. Vocês tão decidindo sobre os pretendentes um do outro? — insiste Rangiku.

— E que é que tem? — perguntamos.

— Vocês nunca vão aprovar ninguém… Aliás, quantas cartas até agora cada um recebeu?

— Rukia recebeu umas 120…

— E Ichigo recebeu umas 115… — era mais, mas por orgulho não quis dizer o número exato.

— E quantos vocês deixaram tentar?

— Zero.

— Viu? Vocês não vão aprovar ninguém… — suspira. — Aliás, eu não entendo os meninos japoneses. Têm o maior medo do Ichi por causa da pinta de delinquente, mas pra mandar carta de amor, não. Ai, ai…

Se você não entendeu nada até aqui, explico:

A maldita entrevista passou na terça-feira. Ichigo e eu resolvemos, de uma vez por todas, os boatos do nosso “namoro super fofo”, criado pela Rangiku e alimentado por robôs.

O fato da entrevista não ter sido exibida completa, também ajudou.

Resultado? O maior dos arrependimentos.

Depois disso fomos bombardeados por cartas.

Os meninos pedem por mim através do Ichigo.

As meninas pedem por ele através de mim.

Têm sido dias corridos.

Diligentemente (palavra nova da semana), analisamos as opções como profissionais de RH.

O problema?

Nenhuma estava adequada para ele.

Elas não tinham o que é preciso para cuidar dele.

Nem para cogitar abraçá-lo.

Definitivamente não.

— Não vou permitir ninguém que possa passar a perna nesse idiota…

— Não vou permitir ninguém que possa passar a perna nessa idiota…

Falamos juntos.

— E aí está a fala sincronizada… E o clube de kendo que o diga, né, Ichi?

— Como assim o clube de kendo? É o clube do Chiaki-san, né? Aquele que…

— Sim, Kia. Aquele que se declarou pra você na quarta… e cujo clube foi completamente destruído no fim do dia.

— Rangiku-san? Acho que a Inoue quer falar algo com você… — interrompe Ichigo, coçando a cabeça.

— Ichigo… o que você fez?

— Grite comigo o quanto quiser, Rukia, mas nunca vou deixar ninguém te tratar como uma qualquer.

— Como assim?

— Ouvi aquele patife dizer que você “daria facinho, facinho”…

Minha resposta foi uma voadora certeira que o fez bater a cabeça na mesa.

— Nanica desmiolada, por que você—

— Por que você não me chamou? — ele me olha com cara de pateta. — Eu mesma quebraria a cara dele pessoalmente!

Ele sorri, cínico:

— Se você fosse presa, amanhã não seria Julieta.

Saiu da sala como um trem-bala ao toque do sino.

Rangiku e eu seguimos calmamente.

No caminho para o teatro, Rangiku começa a rir.

— Que foi?

— Você fez a mesma coisa com aquelas meninas do terceiro ano…

— Ruh! Elas queriam usar a gentileza do Ichigo pra armar uma emboscada contra ele!

Chegamos lá e estavam todos os participantes da peça, além da staff. Estranhamente, não vi o ator principal, Kaien — o que era muito estranho mesmo, porque ele não se atrasa. Bem… como hoje não é dia de ensaio, acho que não tem problema.

Hoje não vamos ensaiar, porque é o momento de descanso das vozes. O ensaio final foi ontem, e o resultado estava excelente.

Agora vamos conversar sobre a mensagem da peça, ajustar detalhes finais, e amanhã arrumar tudo para apresentar. Perfeitinho.

Ah! Sei que vocês estão curiosos sobre isso: não nos beijamos durante os ensaios e nem vamos nos beijar durante a peça.

Ensaiamos uma técnica que parece beijo, mas não é. Decidimos isso para o pessoal não ficar falando coisas sobre mim e sobre a Maiko. Afinal, adolescentes e seus hormônios são um inferno, como fala Karin.

— Ichi, você não faz sentido… — escuto Rangiku falar com Ichigo, enquanto Hinamori concordava ao lado.

A discussão era sobre nossas percepções da história, e Ichigo acabara de dizer que não acreditava em amor à primeira vista.

— Não acho que Romeu e Julieta se conheceram no baile — ele explica. — Parece que algo foi cortado. A forma como eles se flertam não é de quem acabou de se conhecer.

Eu apoio o rosto nas mãos e escuto.

E eu concordo com ele.

Nas últimas semanas me senti cada vez mais envolvida com Julieta.

Comecei a achar que ela era parecida comigo.

Com problemas parecidos.

Ela não tem medo.

Mas teme envolver quem ama.

Sabe o que pode e não pode.

E sabe que há coisas que não podem ser contidas.

Cada ensaio gritava em mim:

Não foi assim que aconteceu.

Eu não conheci ele assim.

Ele não é só o cara bonito do baile.

Ele é mais.

Muito mais.

Alguém por quem eu abriria mão do nome Kuchiki.

Eu não permitiria que ninguém fizesse mal àquele a quem amo.

Nem me entregaria a ninguém senão ele.

Se não fosse esse sobrenome, o que me impediria?

Se ele não fosse quem é, por que hesitaria?

Se você não fosse humano…

Se entendesse a angústia de ficar longe…

Se soubesse como é saber que foi enviado para longe por conveniência de quem pode…

Como explicar?

Não importa quantos beijos trocarmos — não é o bastante.

Não importa quantas vezes eu me entregue — não satisfaz o desejo do meu corpo pelo teu.

Não importa o quanto meus olhos te apreciem.

Não é suficiente…

Como algo assim nasceria em um simples baile?

Se eles soubessem…

Se entendessem o sentimento de finalmente encontrar…

Mas como saberão se nem nós compreendemos?

E como impediriam se entendessem?

Um dia vamos nos ver novamente?

Poderei estar em teus braços outra vez?

Você virá ao meu encontro?

Jurará a mim, novamente, diante do sol?

Me beijará saudoso ou deslumbrante?

Seremos livres?

Outra vez nos esconderemos?

Ou lutaremos contra o mundo mais uma vez?

O que farei quando eu voltar a te ver?

— Kia? — chama Rangiku.

Sinto meu rosto molhado.

Estou chorando.

Realmente…

Romeu e Julieta não é uma história fácil.