Quando Voltar a Te Ver
20 Romeu e Julieta — Entre a Culpa e o Instinto
Quando em desgraça, sem sorte e afastado
Dos homens, sozinho, em meu exílio,
Amaldiçoo meu destino.
Mas ao lembrar do teu doce amor,
Não trocaria meu estado pelo de reis.
— William Shakespeare, Soneto 29
— XXX —
Finalmente chegou o grande momento da apresentação. Eu estava de frente ao espelho. Faz apenas uma semana que comecei esse treinamento maluco de kenjutsu, mas tenho que admitir: houve uma melhora bem decente em mim. Minha cintura está mais fina, minhas coxas mais firmes e grossas e, surpreendentemente, até meus peitos parecem maiores. O que Ichigo faria se descobrisse?
Espera… e por que eu estou querendo que ele faça alguma coisa? Devo estar dormindo ainda.
Quando virei a esquina, já esperava ouvir os gritos tradicionais da casa dos Kurosaki. Mas não havia nada. Misteriosamente, estava tudo quieto. Um frio na barriga me percorreu, seguido de um choque pelas costas. Alguma coisa não estava bem. Fui até lá e chamei. Ninguém atendeu. O frio virou dor — forte, sufocante. Será que aconteceu alguma coisa com Ichigo?
Liguei para ele, mas não atendeu. A maldita dor ficou mais intensa. Eu já estava começando a me sentir perdida, sem saber o que fazer, quando recebi uma mensagem da Rangiku:
“Hospital de Karakura. Urgente. Todo mundo lá. Quarto 300.”
Voltei para casa e pedi ao meu irmão que me levasse depressa ao hospital. Enquanto ele dirigia, eu repetia mentalmente como um mantra:
“Por favor, que ele esteja bem. Por favor, que ele esteja bem. Por favor…”
Quando chegamos, mal deixei o carro parar e já estava correndo para dentro. Não demorou até encontrar todo mundo em frente ao quarto, com rostos tensos. Surpreendentemente, até Kyoraku-sensei estava lá.
— Kia! — Rangiku me recebeu cabisbaixa.
— Ichigo! Cadê ele? — tentei avançar, mas ela me segurou com força.
— Ichigo? A gente não viu ele em lugar nenhum, ainda… Se acalma, Kia, me escuta!
Ela me puxou com mais força. Ishida, Orihime e Maiko vieram ajudá-la e, com dificuldade, conseguiram me encostar na parede.
— Acalme-se, Kia!
— Kuchiki-san, se controle. Nós não podemos ver Shiba-kun ainda…
— Shiba? Kaien-san?
De repente, me senti a pior pessoa do mundo.
Ao saber que quem estava naquele quarto era Kaien-san, todo o peso que eu sentia desapareceu. Era como se tivesse ficado menos grave. Menos importante. Eu me senti aliviada — e por me sentir assim, fiquei péssima também. Estava mais tranquila… mas me sentia horrível por isso. Sentimentos são complicados. Por que existem?
Depois que me acalmei, Ishida explicou:
— Uns delinquentes de outra escola confundiram ele com Ichigo e o lincharam até perder a consciência. Um casal o encontrou e chamou a ambulância. Shiba quebrou as duas pernas e um braço. Vai ficar um bom tempo internado. A escola avisou o Kyoraku-sensei, que entrou em contato com todo mundo. Você foi uma das últimas a receber a notícia. Ele está dormindo agora, por isso não podemos entrar.
— Muito bem, galerinha, já é hora de irmos. Os Shiba e os Kurosaki ficarão aqui com Kaien. Vamos para a escola — chamou Kyoraku-sensei.
Minutos depois, estávamos no teatro discutindo se cancelaríamos a peça. Kaien era muito popular; o ocorrido abalou a escola inteira. O diretor quase cancelou o festival, mas a associação de pais foi contra. No fim, a decisão foi clara: a festa tinha que continuar.
Foi então que percebemos que faltavam dois membros na staff: Kaien, hospitalizado, e Ichigo — que deveria estar organizando o cenário. E, claro, a missão de encontrá-lo sobrou para mim. Motivo? Ele não atendia ninguém. Nem os pais. Nem as irmãs.
Aceitei de bom grado. Se Ichigo não quer ser encontrado, ele vira um fantasma. E ninguém o encontra. Talvez eu ainda tenha meus instintos de caça-fantasma ruivo para me ajudar.
Encontrei-o na margem mais distante do rio, quase escondido entre mato e árvores. Só o percebi porque laranja não combina com verde, especialmente nessa estação.
Quer saber a técnica que usei para encontrá-lo?
Nenhuma.
Se eu paro de pensar e começo a andar… eu encontro ele. Simples assim. De alguma forma, sempre sou levada até ele. E desconfio que com ele também é assim. Nunca acreditei em destino, mas nunca achei que nosso encontro foi acaso.
Quando eu me isolava, no passado, ele sempre me encontrava. Quando eu perguntava como, ele respondia:
— Apenas te achei.
E isso explicava tudo.
Sentei ao lado dele.
— Nem vou perguntar como — ele disse, ainda olhando o céu.
— E então?
Ele suspirou.
— Foi minha culpa… Eu sou patético…
— Sim, você é.
Ele me olhou, confuso.
— É assim que você me dá forças?
— Não. É assim.
Acertei sua barriga com uma cotovelada.
— Você é patético por se achar culpado. Eles confundiram Kaien com você. E daí? O erro foi deles. Ele foi para o hospital. E daí? Ele não morreu. Ficar se remoendo pelas coisas ruins é patético. Lamentar decisões erradas é patético. Se esconder por culpa é ainda mais patético. E você, Kurosaki Ichigo, é meu melhor amigo. E meu melhor amigo não é essa coisa patética.
Os olhos castanhos dele brilharam. E aquele sorriso apareceu.
Eu já disse o quanto esse sorriso é meigo? O quanto ilumina qualquer céu nublado? Posso repetir mil vezes.
Ele me puxou para si. Eu praticamente cabia inteira em seu tórax. Apoiei a cabeça em seu peito. Ficamos ali alguns minutos.
Ele bagunçou meus cabelos e disse:
— Valeu, nanica.
— Não me chama de nanica.
— É bom saber que eu voltei a ser seu melhor amigo.
— E você, alguma vez, deixou de ser, Kurosaki-kun? Oh! Não, Kurosaki-kun quer abandonar sua melhor amiga e partir…
— Pareceu agora que eu era um cara casado indo comprar cigarros… é bom parar…
— Então você é esse tipo… Coitada da garota que se casar com você…
— Claro que não, nanica, a mulher que casar comigo vai ser muito feliz…
— Que presunçoso, Moranguinho. A mulher que casar com você terá muito trabalho…
— Não tanto quanto as surras que o teu esposo vai ter de aguentar, além desse jeito mandão.
— Me acha mandona, é? Você não viu nada…
— Calma aí, baixinha, paz, paz, eu me rendo. Seu marido será o maior sortudo do mundo…
— Agora, sim, você entende…
— Nem sei por que a gente tá falando de casamento…
— Vai ver, lá no fundinho, você já quer se amarrar…
— Não, nem pensar em tal desgraça…
— Eh! Então se casar é uma desgraça para o Moranguinho…
— Não é assim. É só que, quando eu penso nisso… imagino como ela deveria ser…
— Uma garota certa pra você tem que ser do tipo que consegue entender essas carrancas, consegue te pôr na linha quando perde o rumo e te dá uma boa surra quando você faz besteira…
— Ei! Se eu fosse casar com alguém assim eu me casaria com vo—
— Hã?
— …cê?
De repente, o tempo parou.
Ficamos ali, nos olhando por horas — ou foi o que pareceu.
Havia um novo brilho em seus olhos.
Tentei decifrar o que significava. Até que tudo voltou a girar com o toque do meu celular.
Era Kyoraku-sensei, perguntando se eu tinha encontrado o Morango fugitivo.
Era hora de voltar para a escola.
Mou!
Fale com o autor