Quando Voltar a Te Ver

5 Lembranças que Retornam


Ah, mas se ela adivinhasse,

Se pudesse ouvir o olhar,

E se um olhar lhe bastasse

P'ra saber que a estão a amar!

— Fernando Pessoa

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O rio corria calmamente, ignorando o trânsito barulhento na ponte.

O nascer do sol, refletido no rio, parecia me confortar.

Era como se entendesse o que se passava na minha mente e no meu coração.

Sempre que eu queria pensar, vinha para cá.

Me sentia tranquila aqui.

Eu estava preocupada. De verdade. Eu não queria que aquilo tivesse acontecido.

— Caraminholas na cabeça, Rukia?

Olho para o lado e vejo uma sombra se aproximando.

Era meu melhor amigo, com seu jeito sempre sério e o cabelo laranja espalhado, arrepiado para todas as direções.

— Sabe, Ichigo… fui escolhida pra ser Julieta na peça da escola.

— E por que isso te incomoda? Não deveria ser bom?

— Você não entende, né, Ichigo? Romeu e Julieta se beijam na história.

— E qual é o problema?

— Poxa, Morango, vê se se toca! Eu não quero dar meu primeiro beijo em alguém que não conheço.

Ele fica em silêncio um momento.

— Rukia… nós estamos no nono ano. Não acho que o professor vá obrigar duas crianças se beijarem.

— Até parece que você não conhece o Kyouraku-sensei. Você sabe muito bem que nem um selinho ele vai aceitar como beijo. Aquela história de “teatro é vivenciar uma realidade alternativa” faz ele querer que a gente faça as coisas mais convincentes e naturais. Isso inclui um beijo bem dado.

Ichigo ficou calado. Ele sabia que eu estava falando a verdade.

Observei quando ele desviou o olhar para a outra margem.

Parecia refletir sobre alguma coisa.

— Rukia!

— Oi?

— Eu vou participar da peça.

— O quê? Mas você odeia atuar!

— Não ligo. Eu não vou deixar você beijar quem você não queira.

— Mas, Ichigo, como você acha que vai conseguir isso?

— Já aconteceu o teste masculino?

— Não.

— Então é simples. Eu faço o teste… e serei Romeu.

— Ichigo, isso é incrivelmente absurdo. Você não gira bem, não?

— Você disse que não queria dar o primeiro beijo em alguém que não goste. Então eu não vou deixar isso acontecer.

Estava chocada.

Ele parecia sério demais.

— Sei, sei… acredito…

Ele se levantou de repente e olhou para o sol. Aquilo me surpreendeu — mas não tanto quanto o que veio depois.

— EU, KUROSAKI ICHIGO, JURO. TENDO O CÉU COMO TESTEMUNHA E ESTE RIO COMO JUIZ. QUE NÃO DEIXAREI QUE KUCHIKI RUKIA DÊ SEU PRIMEIRO BEIJO EM ALGUÉM QUE NÃO GOSTE. TAMBÉM PROMETO QUE JAMAIS DEIXAREI QUE ESSA MESMA KUCHIKI SE CONFESSE PARA ALGUÉM QUE NÃO GOSTE DELA.

Meu rosto esquentou ouvindo ele gritar isso para a cidade inteira.

Ele se virou para mim e ergueu a mão direita fechada, com apenas o dedo mindinho levantado.

A expressão continuava séria.

— Vamos. É uma promessa, não é?

E então ele sorriu. Aquele sorriso angelical que só ele sabia fazer.

Havia dois sóis à minha frente.

Eu me levantei e olhei na mesma direção que ele tinha olhado antes.

Ele franziu a testa.

Mas as coisas tinham de ser feitas direito.

— EU, KUCHIKI RUKIA, PROMETO. TENDO O CÉU COMO TESTEMUNHA E ESTE RIO COMO JUIZ. QUE NÃO DEIXAREI KUROSAKI ICHIGO SOFRER POR AMOR. TAMBÉM JURO QUE JAMAIS PERMITIREI QUE GAROTAS METIDAS TENTEM SE APROVEITAR DA GENTILEZA, DOÇURA E, O MAIS IMPORTANTE, DA GRANDE IDIOTICE DESSE MESMÍSSIMO IDIOTA.

Caminhei até ele e cruzei o meu mindinho com o dele.

— Agora sim é uma promessa. — sorri.

— Você me chamou de idiota duas vezes? — ele perguntou.

Sorri e virei de costas. Cruzando minhas mãos por trás.

— Sabe? Ichigo, eu não me importaria…

— Com o quê?

— Você sabe.

— Como eu vou saber se você não contar?

— Bem… — olho para ele e sorrio ainda mais cínica — eu não me importaria de ter meu primeiro beijo com você.

Eu o vi corar imediatamente.

Ichigo era super tímido com essas coisas.

Era assunto normal… quando não envolvia ele.

Mas bastava virar o alvo para ficar totalmente desconcertado.

Mesmo quando estávamos só nós dois.

— C-c-c-Como se eu quisesse, baixinha metida.

— Ah! É assim? Então eu não sou boa o suficiente pra você, hein? Morango radioativo do espaço!

— Morango radioativo é seu… Sua irritante ao quadrado! E não vem com essa de “não sou boa o suficiente pra você” como se isso realmente importasse pra nós!

— Irritante ao quadrado… Deu pra ficar nerd agora, foi? Você sabe muito bem que eu não ligo pra isso, mas é diferente ouvir seu melhor amigo dizendo que você não é bonita o bastante pra beijar!

— Não foi isso que eu falei, filhote de formiga! Eu só não tô pronto pra beijar… Se tivesse, você seria minha primeira opção, droga!

Senti todo o meu corpo queimar.

O rosto dele parecia pintado com tinta vermelha.

Nenhum de nós esperava aquilo.

— Ah, então é assim? — disfarcei a vergonha. — Quem diria que o moranguinho tinha medo de algo tão simples assim… Onde está o destemido Kurosaki Ichigo? Aquele que enfrenta tudo? Encostado na parede com medo de um beijinho…

Fiz bico, fingindo beijar alguém enquanto falava.

Senti um instinto assassino bem perto.

Ichigo estava emitindo uma aura negra, intensa.

Eu o havia irritado. Corri o mais longe que pude.

Quando ele ficava assim, sempre queria me afogar no lugar com água mais próximo.

Ele me alcançou, segurou meu ombro e eu tropecei. Ele também — mas, de algum modo, girou no ar e fez o próprio corpo de amortecedor para o meu, deixando o impacto mais suave.

— Tá tudo bem, pequena?

— Hai, morango-kun…

Fiquei deitada em cima dele por um momento, ouvindo as batidas do coração.

Batiam rápido.

Fechei os olhos e senti o vento passar por nós.

— Ei, Ichigo… você realmente vai fazer aquilo que prometeu?

— Claro. Eu sempre cumpro minhas promessas.

— E quando nós crescermos e arranjarem um casamento pra mim?

— Eu não deixo nenhum cara tocar em você.

— E se tiver que me casar sem ter nem um encontro?

— Eu te sequestro do altar. Não vou deixar, de jeito nenhum, você ficar com alguém que não goste.

— E se você morrer antes?

— Sabia que você ia me matar… — ele resmungou. — Mesmo que eu morra… eu venho do além te proteger.

— E se tiver ido embora pra bem longe, onde a gente não pode sequer conversar por telefone?

— E isso seria pior que a morte? Meninas são realmente estranhas… — ele suspirou, como se estivesse pensando. — Bem… eu posso estar do outro lado do universo, mas venho te proteger. Mesmo que seja só meu espírito. Mesmo que eu seja só um vento, sei lá… eu vou estar aqui. Ao seu lado. Sempre.

O telefone de Ichigo tocou: era uma mensagem de texto da Yuzu, sua irmã mais nova.

— Minhas irmãs chegam em meia hora. Vamos, baixinha… temos de ir ao aeroporto.

— espera, Ichi…

Ichigo se levantou de uma vez — e eu caí.

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Uma dor explodiu na minha nuca.

Abri os olhos.

Eu estava no meu quarto.

O despertador tocava. Era sábado. Hoje eu ia sair com as meninas.

Tatsuki disse que tinha uma surpresa pra mim, então marcamos na casa dela.

A casa de Tatsuki não era longe da minha — mais ou menos três quarteirões.

Arrumei-me e saí. Caminhei devagar até lá.

O sonho ainda estava vivo demais na minha pele.

Acabei parando em frente ao lugar onde era a casa dele.

Era incrível como aquele quarteirão estava silencioso sem a família dele por ali.

Olhar aquela casa sempre me trazia alegria e tranquilidade…

Mas, também, saudade. Muita saudade.

Minhas travessuras de infância foram vividas com eles.

Desde o dia em que o conheci até o dia em que ele se foi…

Lágrimas escorreram pelo meu rosto, lembrando cada detalhe.

Apressei o passo e cheguei à casa de Tatsuki.

A casa dela era do tipo tradicional japonesa, com portas de correr, toda em madeira.

Era bem grande e parecia ter um dojô dentro — o que não seria estranho vindo dela.

Rangiku e Tatsuki já me esperavam na entrada. Quando me aproximei, Tatsuki abriu um sorriso enorme, como se estivesse contando os segundos para dar a notícia.

— Você não sabe o que voltou!

— Quem voltou?

— O Word Chappy! É agora que eu elimino aquele recorde, definitivamente. Nós estamos indo pra lá e, com certeza, você vai conosco.

— Será que ainda vai ter aqueles Chappy gigantes? Tô louca pra ganhar um — Rangiku comentou, empolgada.

Aquilo avivou meus ânimos. Fazia muito tempo que o parque não vinha à cidade. Seria uma ótima oportunidade de esfriar a cabeça. Eu não iria desperdiçar.

Chegamos cedo demais: o parque ainda estava fechado. Então decidimos ir até a escola ver o teste dos garotos — estávamos curiosas com os novatos.

Alguns minutos depois, já estávamos entrando na escola.

Ficamos escondidas entre as cadeiras do auditório e fomos nos aproximando do palco, o único lugar iluminado.

No palco estavam Uryuu, Hisagi-san, um garoto que eu nunca tinha visto, Keigo e Kaien-san.

Ver Kaien-san me deu um friozinho na barriga. Ainda na quinta eu quase me confessei pra ele. Rangiku olhou para mim, apreensiva e preocupada. Eu sinalizei que estava bem.

Havia uma enorme TV no palco. Kyouraku-sensei e os meninos discutiam os papéis da peça. Parece que a encenação tinha sido gravada e eles só analisavam os vídeos.

— O vídeo dos novatos tá ali também. Vou me aproximar mais.

— Ei! Rangiku, vai com calma. Não queremos ser descobertas.

— Calma, Rukia-chan. Eu sou bem sutil quando é pra pegar informação.

— Aaaai! Matsumoto, cuidado com o meu pé!

— Gomen, gomen, Tatsuki…

— Rumh! Rumh! — (tosse forçada)

Olhamos para cima e vimos Ukitake-sensei sentado bem à nossa frente.

— Se vocês estão espiando, deveriam ser mais discretas, meninas… — ele disse, divertido. — Bem, sentem-se. Mas comportem-se, hein?

Assistimos aos testes — ou melhor, à análise que os meninos faziam do próprio desempenho. Infelizmente não conseguimos ver nem ouvir a parte dos novatos, pois já tinha sido mostrada antes de chegarmos.

— A propósito, Kuchiki-san… como está a formação da banda?

— Só falta o segundo vocalista, sensei. O senhor não conhece ninguém que possa cantar?

— Infelizmente, em nossa escola são poucos os alunos que tocam ou cantam… e, na verdade, todos eles já estão em alguma banda.

Voltamos ao parque. Percebi que ali estava tão exuberante quanto antes. Os brinquedos pareciam melhores — e maiores também —, cada um feito de maneira artística, com a forma do coelho mais famoso do mundo.

Começamos suave: fomos na roda-gigante, depois no bate-bate (onde Tatsuki não deu chance), em seguida no navio pirata e logo na montanha-russa.

Quando paramos para almoçar, nossos cabelos estavam tão bagunçados que parecíamos fantasmas. Até a Tatsuki, com o cabelo curto, estava assim.

Enquanto Rangiku e Tatsuki conversavam horas sobre o Brasil, eu estava presa nos “dias inesquecíveis”.

Será que…

— VOCÊ CONSEGUE SUPERÁ-LO?

Uma voz em megafone anunciou a lenda do pistoleiro.

— Yoshi! É hoje que eu quebro esse recorde!

— Peraí… Tats, você quer quebrar esse recorde? Jura?

Fomos até o local de inscrição para o Chappy War.

Eu ainda não acreditava. Seria mesmo o recorde?

Quando chegamos, confirmei.

Lá estava ele, fantasiado; e abaixo, escrito: Pistoleiro Lendário — supere essa marca. Logo abaixo, o recorde.

Aquilo me trouxe lembranças de como ele fez questão de metralhar várias bolas de tinta em mim…

— Sinistro…

— O que foi, Rukia?

— Tats… Sabe quem fez esse recorde?

— Não. Por quê?

— Foi Ichigo.

— QUÊ?!Eu não acredito! Eu passei o tempo todo tentando superar ele? Aquele idiota…

Tatsuki sorriu. Ela sentia falta dele.

— Pera! Quem vocês disseram que fez? — Rangiku perguntou, boiando.

Expliquei sobre a jura de eternos rivais que Tatsuki e Ichigo tinham — e que parecia não ter sido quebrada.

— Ichigo… Kurosaki Ichigo… Será? — Rangiku murmurou, como se tivesse sido atravessada por um pensamento.

— O que foi, Rangiku?

— Nada não… só foi uma doidice que passou pela minha cabeça. Agora vamos. Tenho um Chappy gigante pra conquistar…

Depois disso, ela passou o resto do dia pensativa, olhando como se quisesse dizer algo.

Rangiku só voltou ao normal quando ganhamos o Chappy War.

Ela finalmente conseguiu o tão desejado Chappy gigante.

E o pistoleiro…

Infelizmente ainda é ele.