Quando Voltar a Te Ver
6 O Vazio da Saudade
Longe de ti são ermos os caminhos
Longe de ti não há luar nem rosas
Longe de ti há noites silenciosas
Há dias sem calor, beirais sem ninhos
Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas
Abertos sonham mãos cariciosas
Tuas mãos doces, plenas de carinho
— Fumo — Florbela Espanca
--- xxx ---
Certo. Meu dia começou assim: acordei superatrasada, me ajeitei às pressas e corri para a escola.
Trombo com um cachorro.
Quase torço o tornozelo.
Caio.
Quebro meu celular.
Chego atrasada.
O cano do bebedouro estoura.
Vou me trocar.
Levo bolada do clube de futebol, do clube de vôlei e, por incrível que pareça, do clube de tênis de mesa — que treina em local fechado.
Sinistro, não?
Mas não tão sinistro quanto o enorme olho roxo que a bolinha perdida me deixou.
Para completar o dia incrivelmente agradável que estou tendo… adivinhem.
Isso mesmo: explodi o laboratório de química de novo. E isso, claro, me trouxe até aqui, à sala do diretor. Acho que vou acabar virando assistente dele dessa vez...
E de quem é a culpa?
Bem, a verdade é que deveria ser dos astros que regem meu signo, mas não sou tão supersticiosa, então a culpa é da minha professora de história.
A matéria que estamos vendo agora é mitologia e, por isso estar relacionada com a origem da astrologia, ela nos mandou pegar vários mapas astrais e fazer o nosso próprio, contendo as informações coletadas de forma resumida.
Então foi isso que deu o meu mapa astral:
Segunda-feira: uma maré de azar vai lhe atingir. Fique longe de canos de escola ou lugares com tubo de ensaio. Busque sempre chegar pontual nos compromissos essa semana, ou coisas horríveis acontecerão. Uma nova amizade poderá trazer um amor antigo consigo.
Terça-feira: quando os sonhos sempre trazem lembranças ou fatos relacionados a uma pessoa especial, é porque o destino ligou vocês para sempre. E se eles se repetem, é sinal de que em breve os dois terão grandes surpresas. Fique atenta às mensagens dos sonhos.
Quarta-feira: a vida traz muitos desencontros, mas o encontro, quando finalmente acontece, é algo mágico. Este dia marcará sua vida em vários aspectos: antigas amizades e novos amores surgirão… mas abra os olhos, pois não será como pensa. Lembre-se: atrasos trarão graves consequências.
Quinta-feira: o dia promete ser ótimo. Por que não botar o papo em dia? Saia com seu melhor amigo e desfrute das possibilidades. Divirta-se.
Sexta-feira: o melhor dia para você, pois marca o fim da instabilidade na sorte. Relaxe e divirta-se — afinal, hoje é o dia das grandes notícias. Espere novidades quentíssimas.
Pensando bem, eu devia ter queimado essa coisa…
Aí tem aqueles malditos sonhos.
Desde o dia da quase confissão, estou tendo eles, e eles ou me fazem dormir demais, ou ficar acordando de momento em momento.
— Sabe, Kia-chan, isso é saudade — me diz Rangiku depois que conto tudo a ela. Estamos no refeitório; Tatsuki e Orihime ainda não chegaram… onde teriam se metido?
— Saudade do quê? Não perdi nada.
— Não seja boba, você sabe bem de quem eu estou falando...
— Sinceramente...
— Do Ichi.
— Não seja ridícula, Rangiku. Já faz exatos dois anos. Não sinto falta dele… raiva, talvez. Não: ódio. É. Ódio. Uma vontade enorme de matá-lo, de forma lenta e cruel, começando pelos cabelos laranja...
Acho que fiquei assustadora, porque Rangiku se moveu para trás e começou a esconder as coisas pontudas que estavam próximas a nós.
— Estou falando sério, Kia-chan. No fundo, no fundo, você está morrendo de saudade. Só não admite. Você até teve alucinações com ele e agora sonha com o passado toda a noite. Parece aquela coisa de casal quando se separa… Por falar nisso… eu tenho que ir. Te vejo no estúdio.
Ai. Aquela expressão no rosto dela me deixava preocupada. Era a mesma de quando bancava a cupido — o que quer dizer que vem encrenca por aí.
Mas essa ideia dela de que eu estou com saudade do Ichigo… só faltava essa.
Hoje é o dia em que o clube de natação e os demais começam os treinos, então não vamos ter aulas à tarde.
Depois do treino, marcamos um ensaio no estúdio da escola; sim, nós temos um — sinta inveja (na verdade é só a sala de música, mas é tão bem equipada que parece um estúdio).
Antes de ir para lá, decidi passear pela cidade.
Passeio, eu disse, mas, na verdade, só vou a dois lugares: o parque de Karakura, onde fico nos balanços como sempre fiz — era aqui que ficávamos na maioria das vezes.
E o rio, na margem próxima à ponte; brincávamos muito aqui, mas normalmente a gente vinha para pensar.
Eu ainda me lembro de tudo o que fazíamos.
Todas as promessas.
Todas as juras feitas ali.
Bem infantil não é?
Uma jovem garota de 15, fantasiando com juras feitas aos 12…
Sentei na areia e lembrei da promessa do primeiro beijo.
Será que ele já deu o seu?
Como será que está indo no lugar onde está?
Será que tem um novo melhor amigo?
Ou mesmo uma melhor amiga?
Que ele me esqueceu, disso tenho certeza, porque poderia ter mantido contato.
Ah!
Por culpa da Rangiku, não consigo parar de pensar naquele imbecil!
Por favor, não estrague minha segunda-feira, seu laranja espacial!
Decido voltar à escola.
Ver tudo tão normal é tão estranho… é como se esse não fosse meu lugar.
As pessoas andando tranquilas ou apressadas, crianças rindo e artistas de rua animando as calçadas.
Mas nada disso me envolve.
Sou como uma estranha total.
Já faz seis anos que moro aqui, mas sinto como se tivesse acabado de chegar e não conhecesse ninguém. Como descrevo isso?
Ah! Sim — um vazio.
Era como se aquilo não significasse nada.
Não era culpa dessa pequena cidade, mas minha.
Faltava algo e eu não conseguia descobrir o quê.
É como se faltasse um pedaço para ficar completa.
Me sinto assim, apesar de todos ao meu lado.
O rio passa em frente à escola, então parei e fiquei olhando o horizonte, sentada na margem.
Senti um aperto no peito e meus olhos molharem.
Um choro silencioso.
Sem desespero. Sem gemidos.
Apenas lágrimas.
— Caraminholas na cabeça?
Olho para trás e vejo uma menina — acho que não deveria chamá-la assim.
Acho que tem doze ou treze anos; cabelo preto, bem curto e bem liso.
Seu rosto me lembrava alguém, mas senti que não ia gostar de saber quem.
Ela me estendia uma latinha de refrigerante e sorria radiante.
Parecia uma garota bem simpática.
Recebi o refrigerante e ela sentou perto de mim.
— Meu irmão costuma perguntar isso quando vê alguém triste e pensativo.
— Sei… Ele deve ser alguém de muita sorte por ter uma irmã como você.
— He he! É o que ele costuma dizer. Mas me diga: você estava pensando em alguém, né?
— Não, ninguém em particular. Eu tava só me sentindo… meio triste, sem rumo. Só isso.
— Tá bom! Me engana que eu gosto. Pode não parecer, mas sou bem madura pra minha idade. Mas com um pai como o meu, quem não seria?
— Por quê?
— Você não pode imaginar como é ser filha de um paranoico...
Passamos horas conversando sobre as travessuras do pai dela e como ele implicava com o irmão mais velho.
Ela me contou que, uma vez, o irmão estava se vestindo para ir à escola quando o pai entrou no quarto para apressá-lo e espirrou… pegou a cueca do filho e assoou o nariz nela.
Entre outras coisas.
Rimos bastante. Nossa conversa me animou muito, mas havia chegado a hora do treino e eu teria de voltar à escola.
— Sabe… se você conhecesse meu irmão, acho que vocês se dariam muito bem. Ou seriam como cão e gato...
— Sério? Por quê?
— Vocês são muito parecidos, onee-san.
— Ah! Desculpe não dizer antes. Meu nome é Rukia. Kuchiki Rukia.
— Muito prazer. Eu sou Karin, Kuro...
— KIA-CHAAAAN, VAMOS! JÁ TÁ NA HORA!
— JÁ ESTOU INDO, RANGIKU! — Viro para Karin. — Então te vejo por aí, Karin-chan. Ah! E obrigado pelo refrigerante.
— Não tem de quê.
Fui até Rangiku e os outros mais animada para o treino de natação e, quem sabe, depois cantar uma música boa.
Quem sabe eu não encontro o meu parceiro de dueto?
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