Quando Voltar a Te Ver

3 Karakura High School


Não quero um pôr do sol tardio

Nem um amanhecer prolongado

Não quero sentir o vazio

Sem você ao meu lado

— Kuchiki Rukia

--- xxx ---

— Kuchiki-san, Kuchiki-san, é melhor acordar antes que o professor perceba.

— Calma, Hinamori-san… só mais cinco minutos… ele nem vai notar…

— NOTAR o quê, Kuchiki-san?


Erro fatal: abrir os olhos.


A primeira coisa que vejo é o rosto de Tessai-sensei me encarando como se eu tivesse cometido um crime federal. A aura negra ao redor dele quase tinha forma própria. Se o capeta tivesse um primo mais musculoso, provavelmente seria ele.

Sentei na mesma hora. Postura de ojou-sama. Aluna exemplar. Cidadã de bem.


— Nada não, Tessai-sensei! Eu só estava… refletindo sobre a vida.


Ele não achou graça.


— Hoje estudaremos a sutil arte de fazer tortas. E exijo atenção.


Sim. Esse homem que parece capaz de quebrar uma mesa com as mãos é meu professor de culinária.

E cozinha melhor do que qualquer pessoa que eu já conheci.

Antes que você pense que eu estudo numa escola maluca.

Tá. Eu estudo sim.

Mas não é só por causa dele.

Eu estou no ensino médio agora. E estudo na escola onde meu irmão é professor. O que já deveria ser ilegal.

O nome? Karakura High School.

À primeira vista é normal. Aulas normais. Professores normais. Uniformes normais.

Até você descobrir que culinária, teatro, música e economia doméstica são obrigatórios.

O-bri-ga-tó-rios.

E se isso não bastasse, a escola já foi militar. Então ainda usam aquela organização esquisita: professores são “capitães”, líderes são “tenentes”, e você é praticamente forçado a entrar num clube esportivo.

Ou reprova.

Eu estou na equipe de natação.

E meu irmão é o capitão.

Traição familiar? Talvez.


— KUCHIKI-SAN, SUA TORTA!


Quase morri do susto.

Do meu forno saía uma fumaça preta, espessa e com cheiro de tragédia anunciada. Em segundos, outros fornos começaram a soltar fumaça também.


Não sei como isso acontece comigo. Eu só sigo instruções.

Às vezes.

O alarme de incêndio tocou.

Todo mundo correndo.

E eu já sabia: lá vem a diretoria.


Quando tudo se acalmou, fui chamada para meu quarto particular na escola — a diretoria. Tessai-sensei foi junto.

Meu irmão já estava lá.

Ele me olhava com aquela expressão neutra demais. Como se estivesse pensando: “...”

Exatamente, quem consegue ler Kuchiki Byakuya? Eu não.

— Kuchiki Rukia — começou Yamamoto-sensei — você de novo.

Ele parecia à beira de um infarto.

— Eu entendo explodir um laboratório de química. Mas como se explode uma sala com um forno elétrico?

Vou ser sincera.

Não é a primeira vez.

No começo do ano destruí o laboratório de química.

Mês passado, transformei um experimento microscópico do Big Bang numa versão 3D imersiva.

E agora… culinária.

Já consigo ouvir o apelido que vão me dar.

— Me desculpe, senhor diretor, mas não foi porque eu—

— Está tudo bem. Eu sei que não foi intencional. Mas você deixou a escola quase sem verba.

Quase.

Respirei aliviada por meio segundo.

— Então você vai ajudar a recuperar.

Respirei errado.

— Hã?

— Vai participar de torneios e concursos que tragam recursos para a escola. Você é talentosa.


Talentosa em causar prejuízo, talvez.


— Você foi descuidada. Agora vai competir. Natação daqui a dois meses.


Olhei para meu irmão.

Ele não me salvou.

Traição confirmada.


— Hai…

— Também participará da peça de teatro para arrecadação. E do grupo de poesia. E do festival de música.


Claro que não bastava uma apunhalada, Brutus.

Tinha que ser um combo.

Meu mundo escureceu por alguns segundos.

Natação.

Teatro.

Poesia.

Música.

Eu mal consigo sobreviver à minha própria existência.


— Hai…


Foi tudo o que consegui dizer.

Kyouraku-sensei me informou que a peça será Romeu e Julieta.

Eu amo a história.

Mas minha última apresentação terminou… mal.

Não quero falar sobre isso agora.

Talvez dessa vez seja diferente.

Kaien-san faz parte do grupo.

Se ele for Romeu…

Não. Para. Respira.

Fui ver Ukitake-sensei.

Ele é jovem, mas tem aquele ar tranquilo de quem parece entender o mundo melhor do que a maioria.


— Sei que é muita coisa para você, Kuchiki-san. Vou ajudá-la.


Quase chorei ali mesmo.

Ele precisava de um poema para as classificatórias. O fiscal viria no dia seguinte.


— Você tem algum pronto?

— Tenho vários. Trago amanhã.


Claro que tenho. Eu escrevo quando não consigo falar.

Rangiku e Hitsugaya vieram comigo para casa.

Iriam me ajudar a escolher os poemas para o professor.

Mas Toushirou foi embora rápido dizendo que não queria ouvir “baboseiras femininas”.

Mentira.

Ele é romântico. Só finge ser frio.

No meu quarto, Rangiku ficou hipnotizada pelo meu Chappy gigante.


— Isso é do tamanho de uma pessoa!

— Foi prêmio de um torneio do World Chappy.


Ela então pegou um porta-retrato.


— Quem é esse? Parece o Kaien… mas não é… Até parece com…


Meu coração fez algo estranho.


— Era meu melhor amigo.


A palavra “era” sempre pesa.


— Era? Então ele…


— Não! Ele não morreu… não que eu saiba. Só… deixou de existir para mim.


Contei sobre o parque. Sobre o rio. Sobre a briga que virou amizade. Sobre o acidente. Sobre a partida sem aviso.

Rangiku ouviu tudo.


— Caramba! Isso é tão… um amigo que tenho…


Depois contou a história de um amigo dela.

Doente. Precisou ir para o Brasil. Despediu-se de todos… menos da melhor amiga. Foi embora sem avisar.

Mas deixou uma carta.

Prometendo voltar.

Promessas são perigosas.


No intervalo do dia seguinte, Ukitake-sensei me chamou.


— Foi difícil escolher.


Ele mostrou “Dias Inesquecíveis”.

Claro que foi essa.

Engoli seco.

No refeitório, vi Kaien perto do bebedouro.

Eu juro que o tempo desacelerou.

Meu coração parecia que ia sair pela boca.


— Vai falar com ele — sussurrou Rangiku atrás de mim.

Hinamori praticamente me empurrou.

Minhas pernas tremiam.

Mas eu fui.

Voltei.

Fui.

Respirei fundo.

— Kaien-san!