O amor que une, separa

A amizade tão bela, rejeita

A distância cruel, declara

É amor, então aceita

— Kuchiki Rukia

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Tinha chegado o grande dia.

Graças às forças quase sobrenaturais que Rangiku e Hinamori me deram, finalmente eu ia dizer ao meu amado o que sentia. De verdade. Sem enrolar. Sem fugir.

Me aproximei.

Respirei fundo.

Era agora ou nunca.

— Kaien-san!

— Oh! Fala aí, Hisagi, algum problema?

— Nada demais. Kyouraku-sensei quer falar com você sobre a seleção da peça. Esqueceu que o nosso teste vai ser antes do das garotas?

— Não, não esqueci. Já estou indo. Valeu.

Kaien-san saiu.

Sem me notar.

Sem perceber que eu estava ali, do lado dele, pronta para mudar o rumo da minha vida.

Ainda bem que nenhuma palavra saiu da minha boca, porque teria sido o mico mais vergonhoso da história da humanidade.

Fiquei parada. Rosto vermelho. Boca aberta. Alma fora do corpo.

Só voltei ao planeta Terra quando senti água gelada no rosto.

— O que foi que aconteceu? Rangiku, eu te mato na próxima!

Estávamos no terraço. Hinamori me olhava como se eu fosse desmaiar de vez.

Rangiku tinha aquela cara clássica de “não fui eu”.

E Hisagi-san me observava com uma curiosidade suspeita.

— Fique feliz que você não falou nada desnecessário — disse Rangiku.

— Desnecessário? Como assim? — perguntou Hisagi, com a maior cara de quem não entende absolutamente nada.

Eu ainda não entendi o número 69 na bochecha dele. Existem teorias. Todas assustadoras. Prefiro não confirmar nenhuma.

— Você falou algo sobre a peça? Sobre os testes? — mudei de assunto.

As meninas ficaram imediatamente atentas.

— Ah, isso. O teste masculino vai ser sábado.

— Por quê?

— Vai ser diferente do de vocês. Como tem poucos meninos no grupo, o professor vai avaliar também dois novatos que chegam na quarta. Pra não atrapalhar o primeiro dia deles, o teste será antes.

— Mas como ele sabe que eles vão querer participar?

— Na matrícula você escolhe os grupos, esqueceu?

Fiquei com a cara mais idiota possível.

Era verdade.

— Mas tem algo estranho com esses novatos…

— Estranho como? — perguntou Hinamori.

— A escola não quer que ninguém saiba sobre eles. Só estou contando porque vocês são do grupo.

— Por quê tanto segredo? — Rangiku perguntou.

— Talvez pra outras escolas não descobrirem ainda. Devem ser incríveis.

— Ah! Então é isso que estavam cochichando na sala do diretor. Aposto que são gênios nerds que se acham deuses porque sabem a teoria da relatividade.

— Não são só nerds. São prodígios. E também são feras nos esportes.

— E vão fazer teatro? Quero ver dois atletas esnobes tentando ser Romeu.

— E você sabe quem são?

— Nem nome eu sei.

— Podem ser gatinhos — comentou Rangiku.

— Foi mal, Matsumoto-san, mas o teste é restrito aos meninos do grupo. Só entram eu, Kaien-san, Ishida-kun, Yumichika-kun, Asano-san e Sentarou-san. Os dois novatos farão videochamada.

— O Keigo é do grupo?! — quase gritei.

— Aquele desgraçado é dedicado. Vocês vão ver. Ou ele ou Kaien vai ser Romeu.

Tomara que seja Kaien.

Tomara que seja Kaien.

Tomara que seja Kaien.

— Sinistro… — murmurei.

Mas nada ia estragar meu humor. A chance de Kaien ser Romeu era alta. E eu só precisava me esforçar para ser Julieta. Aquela garota do terceiro ano, versão humana da Sharpay, não ia ter moleza comigo.

O dia passou.

O seguinte chegou rápido demais.

Saí do laboratório de Biologia inteira — um milagre. O professor só mandou observar amebas. Nada explodiu.

O intervalo foi normal, tirando as brincadeiras de Rangiku, que deixavam Hinamori vermelha como pimentão.

Depois fui chamada à sala do Ukitake-sensei.

— Kuchiki-san, vim falar sobre o festival de música. Já temos data e regulamento.

— Quando começa?

— Daqui a três semanas. Mas cada banda precisa ter pelo menos dois vocalistas.

— Dois?

— Você tem duas semanas para montar sua banda.

O telefone tocou. Era meu irmão. Reunião emergencial no clube de natação.

Ótimo. Meu dia estava oficialmente irritante.

No clube, fiquei ao lado de Hitsugaya-kun, que também não sabia o motivo da convocação.

Até que meu irmão entrou.

Com aquela expressão.

Aquela de “fale qualquer coisa idiota e será a última”.

Silêncio absoluto.

— Atenção, alunos do 6º esquadrão. Em dois meses teremos a fase estadual. A escola quer o primeiro lugar. Dois nomes de prestígio no esporte estão vindo estudar aqui e integrarão o esquadrão. Kuchiki Rukia e Hitsugaya Toushirou, vocês irão recebê-los.

— Ótimo! — alguém vibrou.

— São só novatos — murmurou Hitsugaya.

Mas eu queria saber.

E muito.

Mais tarde, no terraço, a discussão continuou. Keigo jurava que conheceria os novatos primeiro no sábado. Rangiku disse que conhecer pessoalmente era diferente.

Depois começamos a montar a banda.

Ficou assim:

Bateria: Keigo

Contra-baixo: Orihime

Guitarra: Hitsugaya-kun

Teclado: Tatsuki

Vocal 1: eu

Vocal 2: ainda inexistente

Figurino: Uryuu

Agentes autoproclamadas: Hinamori e Rangiku

Eu ainda precisava de um segundo vocal.

Mas por algum motivo… não estava preocupada.

Era como se já estivesse escolhido.

Mesmo que eu não soubesse quem era.

No meio desses pensamentos, esbarrei em alguém e caí no chão.

— Tá doido?! Não olha por onde anda?!

— Desculpa… Rukia?

— K-Kaien-san?

Meu coração perdeu completamente o controle.

Ele me ajudou a levantar.

Conversamos. Sobre competições. Sobre o festival. Sobre coisas inúteis e importantes ao mesmo tempo.

Perguntei se ele cantaria comigo.

— Se eu soubesse cantar, ajudaria.

Ah.

Retiro o que pensei sobre o momento mais feliz da minha vida.

Passeamos pelo colégio.

Paramos sob a cerejeira.

Era ali.

Era agora.

Ou eu ficaria para sempre imaginando se deveria ter dito.

— Kaien-san… eu…

— Sim?

— Eu… eu…

— Fala, menina. O gato comeu sua língua?

Respirei.

— Kaien-san, eu te—

— EI! BAIXINHA!

Aquela voz.

Aquele jeito de me chamar.

Mesmo distante, eu reconheceria.

O laranja do pôr do sol parecia zombar de mim.

— BAIXINHA É A VÓ SEU—

Não havia ninguém.

Só o céu alaranjado.

Olhei para o lado.

Kaien me encarava, confuso.

— Rukia? Tá tudo bem?

— Hai… eu só…

— Kaien-kun!

Uma garota surgiu e pulou nas costas dele. Ele riu. Girou. Abraçou.

Beijou o rosto dela.

— Rukia, essa é Maiko. Minha namorada.

…

Ah.

Então era isso.

Depois de tanto tempo.

Mesmo sem estar aqui.

Você continua me salvando de desastres.

Me impedindo de passar vergonha.

Me tirando de situações que eu não teria forças para enfrentar.

Você cumpre o que promete, não é?

Ichigo.