Vamos fazer um poema

ou qualquer outra besteira.

Fitar, por exemplo, uma estrela

por muito tempo, muito tempo

e dar um suspiro fundo

ou qualquer outra besteira.


— Carlos Drummond de Andrade

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Acordei antes do despertador tocar. O fim de semana pareceu um sonho: as pessoas, as bandas… e eu cantando com o Ichigo em um estádio, como se fôssemos celebridades.

Na verdade, ainda sinto que tudo o que aconteceu foi um sonho — que não teve show nenhum e que eu ainda estou em busca do segundo vocalista.

Não é a primeira vez que meus sonhos se misturam com a realidade, mesmo.

Abri a janela.

Nossa… como o céu está lindo hoje.

Terminei de me vestir e desci para preparar meu bento. Fiz um curry bem apimentado. Não que eu seja fã — só me deu vontade de comer coisas apimentadas hoje. Por isso fiz o suficiente para duas pessoas.

De sobremesa, preparei um delicioso mousse de chocolate e decorei com pedacinhos de morango. Também para duas pessoas.

Depois de pronto, apreciei minha obra-prima. Sou uma cozinheira de primeira… só não entendo por que faço a cozinha da escola explodir. Mas, enfim: tenho certeza de que esse mousse vai ser muito elogiado.

Guardei tudo nas minhas coisas e fui tomar café com meu irmão.

— Bom dia, nii-sama.

— Bom dia!

Parece que meu irmão não está para muitos amigos hoje. Será que cantei muito alto de novo? Bom… ele sempre é assim, então tudo bem.

Terminei meu café, me despedi e parti. Íamos encontrar cedo com a Rangiku, porque tínhamos que resolver umas coisas — caso passássemos para a próxima etapa do festival, que, para ela, nós já tínhamos garantido.

Quando viro a esquina, escuto algo que há muito eu já não ouvia:

— VELHO IDIOTA, O QUE TÁ FAZENDO COM UM CARA DE 15 ANOS?!

Vejo Ichigo sair de casa correndo, seguido pelo pai, que fazia bico enquanto dizia:

— É só um selinho de despedida! Não seja ingrato!

E esticava ainda mais a boca enquanto perseguia o próprio filho.

— SAI DE PERTO DE MIM! — gritou Ichigo, correndo na minha direção.

— Parece que seus problemas de todas as manhãs continuam os mesmos — comentei, rindo.

— Esse velho nunca age normal. Não entendo como ainda consegue ser médico. Mundo esquisito.

Ao chegar na escola, encontramos Rangiku na entrada do portão. Ao nos ver, ela soltou logo um sorriso cínico e insinuante:

— Hmmm! O casal vinte veio juntinho hoje…

— Que se pode fazer? Meu caminho inevitavelmente passa pela casa dele…

— Sabe, Kia? Tsun-tsun não combina com você…

Eu realmente não entendi o que ela quis insinuar com isso.

Depois disso, nos reunimos com o restante do pessoal e discutimos possíveis músicas e figurinos. Foi quando Keigo, que tinha ido dar uma olhada nas notificações do celular, ficou chocado:

— Vocês têm que ver isso!

Nos aproximamos e vimos o vídeo da nossa apresentação. Tinha atingido mais de um milhão de views durante o final de semana.

Ficamos todos chocados. Não imaginávamos que daria tudo isso. Pesquisamos as outras bandas que participaram, e nenhuma tinha a mesma quantidade de visualizações.

Rangiku ficou tão emocionada que começou a delirar sobre “os planos” dela estarem mais próximos de se cumprirem. E o jeito como ela olhava para nós… foi como se fôssemos pequenos animais presos num curral.

Assustador.

Chegando na sala de aula, fomos bombardeados pelos colegas que acompanharam o festival inteiro. A sala estava empolgada a ponto de dizer que agora eram colegas de celebridades.

A confusão só se acalmou quando o professor — que hoje era meu irmão — entrou.

Ele olhou para mim, sentada ao lado de Ichigo, fez uma cara de serial killer, suspirou… e voltou à expressão normal.

Não me culpe, querido irmão. Você foi um dos que conspiraram para isso acontecer.

Mal deu tempo de começar a próxima aula quando a rádio da escola tocou, nos chamando para a sala do diretor. Senti um frio na barriga: as vezes que estive lá já estavam me fazendo sentir freguesa.

Chegando na diretoria, as notícias que nos esperavam eram boas e ruins ao mesmo tempo:

Nós íamos aparecer na TV.

Sim: as bandas que passaram seriam entrevistadas pela emissora que estava cobrindo o festival. E nós passamos para a próxima etapa.

Por causa disso, o diretor nos dispensou das aulas para nos preparar para a entrevista! Porém… ele liberou apenas os demais e prendeu Ichigo e eu em sua sala.

No televisor usado para reuniões, ele abriu um perfil no Twitter. Um que agora tinha quatro milhões de seguidores.

Sim. Quatro milhões.

O nome do perfil?

“Mania IchiRuki”.

Sim: o bendito perfil criado pela Rangiku para nos sacanear.

— Podem explicar o que é isso? — perguntou, como se estivéssemos num interrogatório da CIA.

Eu gaguejei tentando responder, mas Ichigo ignorou meu nervosismo e perguntou:

— Diretor, isso foi uma brincadeira de uma amiga que foi longe demais. Acha que pode atrapalhar?

— Não. Mas vocês sabem como é o pessoal da TV. Tentem evitar perguntas que possam constranger vocês ou insinuar coisas ruins — tanto para vocês quanto para a escola. Podem ir.

— Hai!

Saindo da sala do diretor, só havia cinco palavras na minha cabeça:

“MATSUMOTO RANGIKU, VOU MATAR VOCÊ!”

Quando encontrei Rangiku de novo, meu instinto assassino já estava mais calmo. E, por causa disso, aceitei a proposta dela de irmos para minha casa fazer alguns “ensaios de entrevista”, segundo ela.

Passamos horas conversando e alinhando o que podíamos responder seguindo as orientações da nossa especialista em paparazzi.

E aí… aconteceu mais cedo do que eu esperava.

Fiquei sozinha com Ichigo.

Rangiku disse que estava “mal” porque, por culpa dela, nossa situação tinha ficado “bem especial” e que, por isso, nós devíamos “relembrar o passado para evitar situações vergonhosas”.

Até parece que ela estava com esse peso todo na consciência.

Entramos e nos sentamos no sofá. Então começamos uma longa conversa sobre “o passado”, bem no estilo Kurosaki Ichigo: muito calorosa, espontânea, cheia de emoções e lágrimas, aventuras e mistérios…

Na moral: vou enganar quem?

Ele só olhava para o chão, e eu para a porta, batendo os pés, ansiosa.

Que clima.

E o pior: já estávamos nessa enrolação há horas.

Não se chateiem comigo, por favor. Faz muito tempo que ficamos sozinhos. Nosso reencontro não foi lá as mil maravilhas e, mesmo que hoje a gente já tenha uma conversa normalzinha indo para a escola… ainda assim, a gente não tem ficado sozinho.

Sozinho para conversar.

Sabem quando foi a última vez?

É claro que o clima ia ficar estranho.

Ah!

— Matsumoto… eu te mato. Matsumoto… eu te mato. Matsumoto… eu te mato…

Meu surto psicótico foi interrompido pelo meu estômago, lembrando que era hora do almoço.

— Ichigo, já que está nessa hora… por que não come aqui?

— Qual é o cardápio? Outra bandeja de morangos? — ele perguntou, me zoando.

Fingi que não me irritei e fiz aquela voz que ele tanto odeia enquanto íamos para a sala de jantar:

— Rum! Rum! Você vai amar, Kurosaki-kun, porque hoje o prato do dia é nada menos que… curry!

Abri minha lancheira e dividi em dois pratos.

— Ho, ho! Agora sim estamos falando a mesma língua…

Ichigo ama comida apimentada, e curry está no topo da lista. Dava para ver o quanto ele estava desfrutando: os olhos brilhando, o ritmo em que movia a colher, a velocidade com que mastigava, apreciando cada elemento… a forma como limpava os lábios com a língua, que parecia em câmera lenta…

Até que era fofo.

De repente, bateu uma curiosidade.

— Tem comidas apimentadas no Brasil, Ichigo?

— Tem. O acarajé da Bahia é o melhor. A forma picante como o sabor gruda na boca é de outro mundo… — ele respondeu. E completou: — Falando nisso… sua comida está muito mais gostosa, Rukia. Melhorou muito.

Graças ao acarajé, conseguimos quebrar o gelo. Finalmente conversamos de verdade: ele me contou como foi viver no Brasil, as competições que participou e venceu, o tempo que levou para voltar a nadar — e como isso, para ele, foi um tormento.

Perguntei sobre os amigos que fez… e ele respondeu que o mais próximo que teve era uma garota.

E não era ninguém mais, ninguém menos que a nossa especialista em paparazzi: Matsumoto Rangiku.

— E como vocês se conheceram? — perguntei.

Ichigo ficou vermelho. Tão vermelho que parecia morango maduro.

Tinha caroço nesse angu, e minha mente começou a trabalhar muito rápido. Eu sabia bem que só existia uma coisa capaz de deixar o destemido Kurosaki Ichigo assim e isso era…

— Acho melhor falarmos de outra coisa… — ele disse, virando o rosto e coçando o cabelo com o indicador.

Matsumoto Rangiku… o que você aprontou?

Senti meu desejo assassino nascer de novo: um sentimento sombrio crescendo no mais profundo do meu ser angelical e puro.

— Ei — ele falou, mudando de assunto —, depois daquele dia… você se confessou novamente para o Kaien?

Espera.

Como é?

Ichigo sabia que eu tinha tentado me confessar para o Kaien?

Minha reação foi tão surtada que eu só gaguejei por quase meia hora antes de conseguir dizer:

— C-como v-você sabe disso?

Ichigo virou o rosto:

— Eu tava lá…

Ele explicou que tinha vindo ali resolver umas coisas com o pai. Queria até ficar logo, mas não pôde. E naquele dia, enquanto “conhecia a escola”, me viu e, sem querer, chamou por mim. Só então percebeu o que eu estava fazendo… e saiu morrendo de vergonha.

— Aquele palerma é muito lento — comentou Ichigo.

Eu olhei para ele. Ele me encarou apreensivo. Acho que ele já sabia o que ia acontecer… porque, se eu ainda consigo lê-lo em detalhes, ele também consegue me ler.

E claro: vocês também sabem o que eu fiz depois.

— PALERMA É VOCÊ, MORANGO ATÔMICO ESPACIAL, CENOURA ESTRAGADA, PATETA DE CABELO TINGIDO! POR QUE NÃO FICOU?! IMBECIL!

Gritei, xinguei, chutei até perder o fôlego.

Depois me joguei no sofá, recuperei minhas energias… e continuei:

— Obrigado.

Ele me olhou atônito.

— Você me salvou aquele dia. Ele tem namorada.

Ichigo me encarou, processando a informação. Eu conseguia ver a cabeça dele formando claramente a pergunta:

“Como aquele cara conseguiu uma namorada? Mundo esquisito.”

Eu sorri.

Ele sorriu também.

E, mais uma vez, caímos naquele silêncio — só que diferente.

Um silêncio cúmplice.

O mesmo olhar que ele usava quando a gente aprontava quando era menor.

Nós estávamos de volta, e era bom o mundo se preparar, porque quando nós estamos juntos, um pelo outro… o mundo não é páreo.

E o melhor: dessa vez não tinha gelo.

Era quente e refrescante, como o sol nas primeiras horas do dia.

Se eu pudesse, ficaria assim o dia todo olhando para essa cara mal-encarada…

Mas—

— Ku-ro-sa-ki I-chi-go…

Tarde demais.

O mundo congelou de novo. E sem chance de reversão dessa vez.

Pelo visto, essa seria mais uma despedida. Sem retorno. Porque agora Ichigo vai dessa para melhor e, com certeza, eu sou a culpada…

Por quê?

Simples: meu irmão acaba de chegar da escola, e o rosto dele não está nada legal de ver.

E eu realmente não sei se é porque estou em casa, sozinha, com um cara… se é porque esse cara é Kurosaki Ichigo… ou se é porque eu estou deitada no sofá com as pernas em cima das do dito cujo.