Quando voltar a te ver

Poderei entender por que parti

Quando voltar a te ver

Enfrentarei o que tanto fugi

Quando voltar a te ver

Poderei novamente sorrir

— Kuchiki Rukia

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Já tinha passado um mês desde o acidente. Ir ao hospital depois da aula virou minha rotina desde o dia em que ele foi internado. Por incrível que pareça, Ichigo só teve uma contusão no joelho e precisou levar alguns pontos na cabeça. Mas como perdeu muito sangue e a pancada foi feia, ficou em observação.

Hoje era o dia da alta.

E eu decidi faltar à aula para passar o dia com ele.

Quando cheguei ao hospital, ele já estava na entrada me esperando. Sacana.

Olhei preocupada. Eu queria muito me desculpar. Ele só tinha ficado ali por minha causa. Mesmo não sendo nada grave, foi tudo culpa mi—

— Já te falei pra não ficar se culpando, baixinha. Você não teve culpa nenhuma nisso. Eu escorreguei e caí, me machucando no caminho — disse, virando o rosto e coçando o cabelo.

Ele não me engana. Sempre faz isso quando está mentindo descaradamente.

Sorri. Não queria estragar o dia com discussão. A gente acabaria brigando mesmo.

Sempre brigamos. Mas não queria que fosse por causa disso.

Fomos para o nosso lugar favorito: o Parque Central de Karakura. Foi lá que nos conhecemos.

Tomamos sorvete sentados no balanço e ficamos conversando bobagens, como sempre.

Depois fomos para o nosso segundo lugar favorito, na margem do rio perto da ponte.

Era tradição brincar ali. Foi onde tivemos nossa primeira briga.

O motivo?

Coelhos botarem ovos.

A gente era bem mais novo. Uns três anos atrás.

Mas foi isso que nos aproximou, então não tenho do que reclamar.

Comecei a estranhar quando percebi que estávamos parados em frente ao World Chappy.

Eu fiquei pasma.

Nunca, em sã consciência, Ichigo me traria ali. Talvez a pancada tivesse afetado alguma coisa na cabeça dele.

Mas não reclamei.

O World Chappy era o melhor lugar do mundo pra mim.

Eu amo coelhos. Chappy é o meu preferido. Meu quarto é cheio de pelúcias e desenhos dele.

Quando queria vir ao parque, era puxando Ichigo à base de cascudo.

Brincamos nos meus brinquedos preferidos.

Brigamos quando ele não quis comer algodão doce em forma de coelho só porque era “para casais”.

Jogamos Chappy War, um paintball em que um dos times se veste de Chappy. Ichigo adorou atirar em mim vestida de coelho.

Ele eliminou metade do time sozinho e ganhou o apelido de Pistoleiro Lendário. Até hoje ninguém bateu o recorde.

O melhor do dia foi quando ele venceu dez caras seguidos no torneio de tiro só para me dar um Chappy gigante.

Depois do que fez no Chappy War, isso deve ter sido fácil. Mas não importa.

Eu amei.

O que era para ser só o dia da alta dele virou o melhor dia da minha vida.

Saímos do parque quando já estava fechando. Caminhamos sem pressa até minha casa. Ele carregava o Chappy porque era maior que eu.

Falamos sobre as aulas de Educação Física e Arte, sobre Kaien e Orihime, e sobre a possibilidade quase impossível de Keigo virar um adulto responsável.

Em casa, ele me ajudou a guardar o Chappy no meu quarto antes que meu irmão começasse a surtar.

No portão, abracei Ichigo forte.

— Ai! Morango… o que eu seria sem você? — perguntei, encostando a cabeça no peito dele.

— Uma pirralha rabugenta e irritante que ninguém suportaria — respondeu.

Eu odeio quando ele me chama assim. E ele sabe.

Quando me afastei pronta para bater nele, ele me puxou de volta.

— E eu? O que seria sem você?

— Um morango atômico, antipático e careta que daria medo até no Godzilla.

Ele me olhou sério. Depois sorriu.

Era aquele sorriso que ele só mostrava quando estávamos sozinhos.

O sorriso que fazia qualquer tristeza minha desaparecer.

O sorriso que me deixava calma.

E eu gostava de pensar que ele era só meu.

Quando ele sorria assim, eu me sentia a pessoa mais importante do mundo.

Sorri de volta e fui dormir feliz. Sabia que no dia seguinte a melhor poesia da aula seria minha. Sempre era assim quando ele sorria daquele jeito.

Pena que ele faltaria aula.



O despertador tocou e parecia que eu tinha acabado de fechar os olhos. Mesmo assim, acordei animada. Me arrumei rápido, tomei café com meu irmão e fui para a escola.

Português foi suportável. Sou boa, mas odeio gramática. Matemática foi um desastre sem Ichigo por perto — ele sempre me ajuda.

Mas sobrevivi.

Finalmente chegou a aula de Arte.

E eu ia ver meu príncipe encantado, Shiba Kaien.

— Bom dia, turma. Hoje é dia de poesia. O tema é Amizade. Escrevam sobre suas aventuras com seus melhores amigos. A melhor poesia ganha esta suculenta caixa de chocolate — anunciou Kyouraku-sensei.

Perfeito. Eu tinha assunto de sobra.

Comecei a escrever sobre mim e Ichigo. Nem percebi quando terminei.

— Muito bem, galerinha, o tempo acabou! — disse Kaien-san. — Kyouraku-sensei? Kyouraku-sensei?

O professor estava dormindo.

Kaien-san pegou uma corneta de carnaval e tocou direto na orelha dele. O susto foi tão grande que ele caiu da cadeira.

Depois das desculpas, começou a chamar os alunos.

Quando chegou minha vez, me levantei.

— Olá. Meu nome é Kuchiki Rukia. O poema se chama Dias Inesquecíveis.

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Dias Inesquecíveis

No gramado do parque te conheci

Na margem, o rio nos ouviu

Nasceu um laço, meu carinho por ti

E o destino, feliz, nos uniu


Palavras não dizem o que vivemos

Nem explicam o que sentimos

Mas guardam um pouco do que temos

Dos momentos que dividimos.

O céu foi nossa testemunha

E a terra, uma cúmplice também

Promessas que ninguém arranha

Segredos que só a gente tem


Do passado, boas lembranças

Do presente, forte ligação

Do futuro, mil esperanças

Batem juntos, como um coração.


Em imagens guardamos glórias

Vitórias e quedas terríveis

No peito vivem as memórias

Dos dias sempre inesquecíveis.

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Quando terminei, a sala inteira estava em silêncio.

Então ouvi um fungado.

Kaien estava com os olhos molhados.

De repente, Orihime começou a chorar. Depois Tatsuki. Depois todo mundo.

Até o professor.

— Era pra ser alegre… — murmurei, com o rosto vermelho.

— Nós entendemos, Kuchiki-san — disse Kyouraku-sensei, ainda emocionado. — Foi como se víssemos vocês juntos de novo. Ele vai fazer falta. A escola não será a mesma.

Eu não entendi.

— Como assim?

— Kurosaki-kun foi embora hoje. Achei que você iria com ele ao aeroporto.

A caixa de chocolate caiu da minha mão.

Meu mundo caiu junto.

Ichigo tinha ido embora.

Sem me contar.

Eu também comecei a chorar.

Desde aquele dia, nunca mais fui a mesma.

Os dois anos que se passaram foram comuns.

Comuns como a vida de qualquer pessoa.

Sem aquele brilho diferente.

Sem aquele sorriso.

Sem ele.