Quando O Meu Mundo Parou
1 Não há nada de errado em um beijo
Notas iniciais
Julho de 2013, Fortaleza
O amor é muito esquisito, e existem pessoas que têm o dom de intensificar tudo o que está ao seu redor. Invés de intensificarem o lado bom do sentimento, na maioria das vezes, elas o destrói. Saturam-no de esquisitice.
Eu não tenho certeza se aquelas histórias que leio e assisto em filmes podem acontecer na vida real. Provavelmente não. Há algo de encantador nelas, mas não é só isso. Há também a crueldade em algumas. Às vezes ponho em dúvida os sentimentos do personagem. Eles dizem que se amam e no final um deles mata o outro. Que amor é esse?
Sim! Sou romântica, não me julguem por isso. Gosto de romances simples, encantadores e de vez em quando juvenis. Gosto de ler e assistir coisas que me emocionem e que me façam sentir o que o personagem sente. Se ele sofrer, quero sentir a dor dele também, quero ter meu coração partido. Se ele amar ou se sentir feliz, quero compartilhar da felicidade também, quero ter meu coração inflado com o amor que ele sente pelo o outro. Quero sentir meu estômago vibrar toda vez que o personagem narra um beijo ou sentir o coração acelerado pela a dor.
Não sei exatamente o que esperar da vida. Acabei de entrar na faculdade e tudo ainda parece muito novo. É impressionante a maneira como as coisas mudam da água para o vinho. A independência que sinto infla meu ego, mas a verdade é que só dei um passo grande. Ainda não tenho a independência que parte de mim quer que eu acredite ter.
O garoto de cabelo de cor chocolate e de olhos cor de mel me encara da outra ponta da mesa. Eu não sei quem é ele. Tudo o que sei é que veio se encontrar com um dos veteranos que também estava sentado à mesa. Deveria estar em casa. Estou toda suja de tinta, resultado do trote.
Um som sobrepõe o barulho oriundo das caixas de som espalhadas pela lanchonete. Levo alguns segundos para perceber que é o som do meu celular. A parte instrumental da música Chocolate de Jesse y Joy. Eu amo essa dupla, assim como amo o Espanhol.
Saco o celular da minha pequena bolsa o mais rápido que meu nervosismo me permite e ao ler o identificar reviro os olhos. É a minha mãe. Eu não tenho escolha. Preciso atender o telefonema.
— Alô? – Tento parecer como se nada estivesse acontecendo.
— Querida, é a mamãe.
— Eu sei. – Revirei os olhos outra vez – Tenho seu número salvo no celular.
— Que horas você vai chegar? Já são quase quatro da tarde e você saiu cedo de casa.
Nisso ela tinha razão. No dia que fui assinar a ata para confirmar minha matrícula, disseram-me que teria uma reunião no auditório para os novatos que teria início às oito da manhã.
— Chego umas seis e meia.
— SEIS E MEIA? – Ela gritou do outro lado.
— É que os veteranos levaram a gente para uma lanchonete perto da faculdade.
— Mônica Garcia, espero que não chegue bêbada em casa.
— Não! – Protestei de imediato – Não vou beber.
Digamos que os universitários têm uma fama ruim em alguns aspectos.
— Tudo bem. Beijos, querida.
Desliguei o telefone e joguei dentro da bolsa. Fiquei aliviada ao descobrir que ninguém ficou vidrado em escutar minha conversa como acontecia na minha sala do Ensino Médio.
Ergui meu olhar só para me deparar de novo com o olhar do garoto da outra ponta. Foi esquisito ter aquele tipo de comportamento com um desconhecido, mas aquela não foi a única vez que o vi.
[...]
— Quem a gente está esperando mesmo? – Perguntei.
— O Júlio. Ele avisou que estava chegando, mas até agora nada.
Otávio me respondeu, ele não estava se esforçando para esconder a raiva que sentia naquele exato momento. Notei ao longo dessa semana que ele é muito impaciente e não me admirei, muito menos questionei, quando pegou mais uma vez o celular para verificar a hora.
— Aquele moleque é muito escroto. Sempre atrasado, até parece mulher.
Ainda estávamos na primeira semana de aula e a maioria dos professores ainda não tinham dado as caras. Das aulas que deveriam ter acontecido, apenas algumas foram de fato dada. Isto é, eu não deveria contar com as aulas que os professores aparecem, mais passam o tempo falando sobre seus métodos e explicando a ementa da disciplina.
A universidade pública tem seus prós e contras, mas era o melhor que alguém poderia ter e eu estava feliz por ter conseguido uma vaga em uma Federal.
Eu ainda não sabia exatamente quem era Júlio. Ele estava na lanchonete naquele dia? Bem, ali estavam presentes muitas pessoas que não conheço.
Olhei para o céu. Ele estava azul e quase sem nuvens. Gosto de observar o céu, mas prefiro a noite, embora o brilho da cidade ofusque as estrelas. Torço todas as noites para que a imensidão que sempre está sobre minha cabeça, dei-me a dádiva de sua melhor performasse. É por isso que gosto de ir para lugares afastados da cidade.
— Ah! Céus! Finalmente!
O clamor dos meus novos amigos me fez desviar meus olhos e olhar na direção em que olhava. Meu coração vacilou por alguns instantes e entrou em total descompasso. De todos os desconhecidos daquele dia, o tal Júlio tinha que ser aquele que ficou me encarando?
Ajeitei o corpo e tentei agir naturalmente. O que obviamente não era o estado do meu espírito. É claro que eu estava nervosa. Todo aquele clima do dia da lanchonete só poderia significar uma coisa: paquera.
Não que eu seja o tipo de garota que não sabe lidar com esse tipo de situação. Não é isso. Eu só não sou o tipo de garota que dá mole para qualquer um, eu ao menos o conhecia. Não sabia nem seu nome há alguns segundos e o início sempre me deixa nervosa.
Júlio se aproximou dos amigos e fez cumprimentos estilo homens. Não é nenhum segredo que existe um abismo bem grande de diferença entre as atitudes que eles tomam em certos momentos e as nossas atitudes nesses mesmos momentos. Tipo, eu nunca cumprimentaria alguém com todas as aquelas manobras de mãos ou aquelas excessivas tapinhas nas costas.
Ele então se voltou para mim e um sorriso tomou seus lábios. Não sei se é minha mente querendo me enganar, mas me lembro de ter lido em alguma página no Facebook que não é fácil para as pessoas sorrirem. É claro que não acredito em tudo que é postado, pois li em algumas dessas postagens que homens de olhos escuros são mais fieis. Que grande besteira! Como se trair alguém dependesse de um traço genético.
Retribuí o sorriso.
— Acho que não conheço você? Qual é o seu nome?
— Mônica.
— Muito prazer, Mônica. Meu nome é Júlio.
Embora estivesse com vontade de dá uma resposta engraçada, não disse nada. Balancei um pouco a cabeça e segui o caminho que os outros tomavam. Iríamos ao cinema, no Benfica, mais conhecido como o Shopping dos universitários.
— Está no primeiro semestre? Porque nunca tinha te visto antes. – Disse já ao meu lado.
— Sim. E você? Em que semestre está.
— Ah. Eu ainda estou no cursinho. Quando terminar o filme, vou para aula.
Ele percebeu que minhas sobrancelhas se ergueram em surpresa e confusão. Como ele é tão amigo dos veteranos se nem ainda começou a faculdade? Sua risadinha me fez virar o rosto em sua direção.
— Sou uma pessoa muito espontânea. – Ele deu de ombros – Faço amigos rápido e o meu cursinho é o que a universidade oferece, então... – Seus ombros se moveram de novo.
— Ah tá.
— Você é a garota que entrou sem terminar o ensino médio?
Revirei os olhos. Na maioria das vezes, quando todo o processo do Sisu acaba, sempre em algum jornal saia a notícia de que alguém que ainda não tinha concluído o Ensino Médio entrará na faculdade. Claro que depende muito do curso. O meu por exemplo, nunca ganhou esse tipo de destaque. Era licenciatura, e a educação não é lá tão importante nesse país.
— Dei sorte.
— Não tem que fazer uma prova pra medir os conhecimentos.
— Tem.
— Então não foi sorte.
— A gente vai logo comprar os ingressos ou a comida?
Otávio virou de frente, ficando de costas para os outros. Ele dava passos de costas.
— Você compra o ingresso da gente e a gente vai comprar a comida Nas Americanas.
Júlio propôs puxando dinheiro da carteira. Nós paramos de andar.
— Quê?! Você vai pagar para mim?
— É o mínimo que um cavaleiro deve fazer, não é?
Revirei os olhos.
Que conversa fiada.
Não disse mais nada. O que havia de mal em ver no que aquilo iria dar? O máximo que poderia acontecer seria um fica, alguns beijos. O que há de errado em beijar alguém?
Adicionem-me no Facebook: Thainá Alexandre
Fale com o autor