Quando O Meu Mundo Parou
2 Beijo roubado
Notas iniciais
Meus dedos tocavam levemente as capas dos livros exposto na prateleira da loja. Eu não precisava dizer a Júlio o que queria fazer quando o deixei sozinho escolhendo o que deveria levar para a sala do cinema. Sempre que vou ao cinema (o que acontece com muita frequência) me distancio da seção comida e vou para a seção livros das Lojas Americanas. É quase como se fosse um ritual e as vezes tinha sorte de encontrar livros em promoção.
Tenho uma coisa com capas que tem o título delineado, causando um relevo liso e uma marca nas costas da capa. Fico alisando aquilo por horas se me permitirem. Não sei se isso é normal, mas sei que me atrai muito.
Em anos nesse ritual nunca encontrei livros desconhecidos expostos. A maioria era literatura estrangeira, embora tenha visto apenas uma vez livros nacionais no meio das fileiras, e não eram de autores novos.
Não gosto de pensar nesse tipo de coisa. Sei o quanto o mercado editorial é difícil e tenho um tombo por escrever. O que definitivamente não é bom por umas partes. É óbvio que quem escreve alimenta um desejo de um dia ver uma obra sua publicada, claro que não posso generalizar, aprendi em algum momento da minha vida (não sei exatamente quando) que sempre há exceções para um padrão.
— Sua cara não nega. Deveria ter desconfiado antes que gostava de ler.
Estremeci um pouco por causa do som repentino da voz dele, contudo sorri quando o encarei.
— Sou estudante de Letras. Gostar de ler é tipo um pré-requisito.
— Vai levar algum?
— Não. Só vim dar uma olhadinha. Ver se tinha alguma novidade.
— Quer dizer que não tem.
— Não. – Confirmei – Você já comprou os aperitivos?
Seu sorriso cresceu enquanto franziu levemente a testa, o que transformou sua expressão em uma espécie de careta.
— Aperitivos? Tinha que ser das Letras para usar um vocabulário tão refinado.
Precisei rir, mas não sei exatamente porque precisei fazer aquilo. Desviei meu olhar para os livros e passei meus dedos pelo o título de um livro, o que tinha o relevo.
— Eu não sou sempre assim. Geralmente, uso meu vocabulário refinado com pessoas que não conheço.
— Bem, — ele começou e parou meus dedos que se moviam agora sobre a lombar do livro – espero não ser um desconhecido por muito tempo.
Eu simplesmente não sabia o que fazer diante aquela óbvia tentativa de cantada, então fiz a primeira coisa que veio à mente. Sorri. Um sorriso sempre é a melhor opção em situações como aquela.
[...]
Embora tivesse alguns trabalhos para fazer, observar as estrelas e a lua me parecia mais convidativo. A janela do meu quarto é virada para rua e se eu ficar encostado na lateral dela, posso observar o céu sem problemas.
Minha mãe vinha me prometendo um telescópio há algum tempo. Sei que ela vai me dar, só não sei exatamente quando isso vai acontecer. Espero que antes de setembro de 2015, pois é quando vai acontecer dois fenômenos que quero muito poder ver de mais perto. Da última vez que a lua ficou vermelha, eu ainda não tinha nem nascido.
Meu celular vibrou uma vez. Larguei a lapiseira e quando o peguei a tela já tinha se apagado. Fiz o desenho na tela de bloqueio e então pude constatar que era uma mensagem no WhatsApp do Júlio. Matemos o contato desde o cinema e andamos conversando muito e, apesar de achar que não há mal nenhum em beijar alguém, não o beijei ainda.
Vc está em casa? – Dizia a mensagem.
Sorri e coloquei meus dedos em prática.
Sim. Por quê?— Mandei a primeira mensagem e digitei mais rápido quando vi que ele também estava digitando – Tô fazendo resenha.
Quero ver vc. — Sua mensagem apareceu assim que minha última mensagem foi enviada. Em seguida mais duas carinhas de frustração chegaram para mim – Deixa essa resenha pra lá, pelo menos por enquanto.
Uma imagem começou a carregar e assim que pude, abri-a. não consegui evitar um sorriso ao ler a pequena frase, um print tirado do Tweet.
“Olha que coincidência! Vc tem uma boca, eu tenho uma boca. Esse é um sinal de que a gente deveria se beijar”.
Apertei o botão do áudio.
— Você quer me beijar?
Logo depois de soltar o botão do áudio, mandei uma carinha de olhos arregalados. Meu áudio foi ouvido e não demorou muito até poder ler: Júlio está gravando um áudio. Alguns segundos depois chega uma notificação.
— Desejo sua boca na minha desde aquele dia na lanchonete.
Seu tom era baixo e ruídos do que parecia um ventilador atrapalhou um pouco o som. Sinceramente, não tenho a menor ideia de como responder aquilo. As pessoas geralmente não dizem na lata que quer beijar alguém, dizem?
Pressionei o botão do áudio.
— Infelizmente, você ainda não pode ter seu desejo atendido.
Ele me respondeu com uma das carinhas de feliz, depois digitou:
Tudo o que meus olhos captaram foi o ainda.
Embora aquela reação não me parecesse adequada, não pude controlar o descompasso do meu coração. E eu ainda não sabia dizer se aquele era um bom sinal.
[...]
Dei uma última olhada no céu antes de fechar a janela do meu quarto. As estrelas pareciam cintilar, eu fiquei imaginando quão lindo estaria o céu em um lugar onde as luzes urbanas não atrapalhassem.
Caminhei na direção da minha cama enquanto um bocejo escapava por meus lábios. Pelo menos, tinha terminado a resenha, apesar de já ser quase meia noite. Eu estava preste a me deitar quando ouvi uns chiados, e alguém bateu na madeira da minha janela.
— Quem é?
Minha voz entregava completamente o meu estado de espírito, algo entre o pânico e o alívio. Ouvi uma risada. Uma risada masculina.
— É o Júlio.
Com o espanto estampado no rosto, corri até a janela. Abri-a de supetão. Meus pensamentos estavam um pouco divididos. Parte deles se perguntava o que ele estaria fazendo ali tão tarde, outra se ele era louco por estar ali tão tarde e por fim, pergunta-se se algo ruim tinha acontecido.
Ele me pareceu completamente tranquilo, o que me fez descartar a opção de que algo de ruim tinha acontecido.
— O que você está fazendo aqui uma hora dessas? – Uma mistura de pânico e alegria formavam um tom que minha voz nunca possuiu.
— Eu disse que queria te ver. – Ele sorriu largo. Inclinei-me em sua direção para ver o movimento da rua. Não tinha ninguém.
— Você é louco? Está tarde demais para alguém estar fora de casa. A cidade anda perigosa.
— Fiquei pensando em você e no pouco que sei sobre sua pessoa. – Meu corpo continuou inclinado, mas não estava perto o suficiente dele para que pudesse me beijar.
— Anda pensando muito em mim, certo?
— Certo.
— E qual foi a conclusão dos seus pensamentos?
— Você gosta muito de ler, né?
— Sim. – Respondi apreensiva.
Um sorriso diferente tomou seus lábios. Aquele sorriso significava algo, só não sabia o que.
— Pensei em fazer uma coisa parecida com as que esses personagens fazem. Posso não ser um leitor ativo, mas já li umas coisinhas.
Ergui as sobrancelhas.
— Sério? E que você tem em mente?
Ele não me respondeu com palavras. Júlio tomou impulso, o que fez me afastar do batente da janela. Segundos depois ele estava sentado ali, onde a poucos segundos estava encostada. Eu ainda estava consumida pela surpresa quando ele passou um dos seus braços por minha cintura e me puxou. Meus joelhos encostaram na parede de leve e meus lábios tomados de assaltos pelos deles.
Era isso! Eu estava tendo um beijo roubado. Não um beijo forçado. Era um beijo roubado. Um beijo sempre faz os sentimentos borbulharem dentro de você, sejam eles negativos ou positivos. E eu sentia os meus borbulharem dentro de mim, eles atiçavam meus nervos e sensações. Sentia-me atraída por ele, disso não podia descordar.
Senti ele se movendo, pois, para pôr as pernas para dentro do meu quarto, ele precisou me locomover também. Agora eu estou entre suas pernas e, apesar dele estar sentado em um batente de uma janela, não preciso me curvar tanto. Ainda não tinha reparado no quanto ele é alto.
Suas mãos espremem o tecido do meu pijama até encontrarem minha carne. Júlio a aperta de leve e me espreme contra seu corpo. Estou quase sem fôlego quando ele decide diminuir o ritmo do beijo e pôr fim nele.
— Foi do jeito que você imagina quando os mocinhos beijam as mocinhas? – Ele perguntou, seu hálito bateu em meus lábios e entrou na minha boca.
— Foi bem melhor.
E o beijei novamente.
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