Quando O Lobo Uivar
7 Capítulo sete
Notas iniciais
Jeyne sentia os irritantes alfinetes arranhando sua pele. O vestido que a costureira fizera era largo demais.
Está linda, senhorita. sua criada, Solara, disse, enquanto esticava o tecido da cauda do vestido. A garota vinda de Dorne tinha a voz doce e um sorriso meigo, mas isso só serviu para irritar ainda mais a futura esposa de Jamie Lannister.
Obrigada. Jeyne soou carrancuda, e foi como se tivesse arrancado o sorriso de Solara a tapas. Jurou a si mesma que mais tarde se desculparia, mas com certeza iria esquecer-se do assunto até que a costureira acabasse.
Jeyne estava em pé em cima de um pequeno banco de madeira que a costureira havia trazido debaixo do braço. O banco a deixava a uns bons centímetros do chão e permitia que a mulher manuseasse o tecido com admirável concentração e agilidade. Nada melhor para acabar logo com aquilo.
O vestido era feito de tecido pérola, brilhoso e esbranquiçado. Longo, a saia tinha uma cauda que se estendia atrás de Jeyne por um metro, agora que Solara a arrumara. A garota temia a facilidade com a qual ia cair no casamento, mas ignorava a ideia. Mantinha o queixo o mais empinado possível, tentando manter o mínimo de orgulho que ainda lhe restava.
Estavam no quarto de Jeyne, o mais bem arejado de todo o Despenhadeiro. Era um cômodo grande mas vazio, o que o deixava quase deprimente. Uma cama larga e espaçosa estava encostada a parede do canto, com a roupa de cama sendo arrumada por uma única serva silenciosa. Uma grande janela estendia-se do teto ao chão, dando vazão a uma varanda decorada com algumas poucas flores quase mortas. Jeyne observava essa janela atentamente, tentando gravar a paisagem em sua mente e esquecer do que acontecia ao seu redor.
Eu concordo com ela, filha. Lady Sybell Westerling, sua mãe, disse com uma expressão desaprovadora ao mau-humor da filha.
Obrigada, mamãe.
Eu acho que poderá usar algumas pérolas com o vestido. a irmã mais nova, Elenya, estava animada demais com o casamento, ao lado da costureira e mexendo no vestido Ou, se tirarmos um pouco do brilho, mamãe pode pegar as suas antigas pedras! O que acha de safiras? Ou ágatas?
Lady Sybell revirou os olhos, o que quase deu a Jeyne a vontade de rir. Elenya era pequena demais, tinha apenas nove anos, e não entendia a situação difícil pela qual a família passava. Não entendia que o casamento de Jeyne era o único modo de tocar na riqueza de Tywin Lannister. E Jeyne não queria que ela entendesse. Ainda tinha os olhos castanhos vívidos de curiosidade, cabelos ondulados e longos e um sorriso inocente. Jeyne queria mantê-la assim.
Por favor, Elenya. Deixe que a senhora continue seu trabalho. Sybell estava sentada em sua posição de Senhora de Despenhadeiro em uma bela poltrona de tecido vermelho vivo, a cor dos Lannister. Os suseranos. Uma lembrança da época de riqueza da família.
Sim, mamãe. Elenya afastou-se da mulher. Então foi brincar com os poucos cordões de pérolas e pedras preciosas remanescentes de sua mãe, ao lado do espelho no qual Jeyne recusava a olhar-se.
Então. Sybell disse, do outro lado do quarto, se levantando e começando a caminhar de um lado para o outro. Jeyne .
Mamãe. a garota respondeu depois da pausa da mãe. Notou que ela ia começar algum assunto importante.
Sybell tinha os cabelos longos e castanhos ricamente ornamentados com cordões de algo parecido com ouro, e trançados de modo elaborado em um coque bonito. O rosto era austero e severo, com feições angulosas e um nariz empinado. Os lábios eram finos e rosados. Um vestido marrom com detalhes vermelhos evidenciava a silhueta não mais tão magra, ainda que elegante.
Saiam. Todos. a mulher disse. Agora.
Os servos olharam uns para os outros com uma expressão surpresa. A costureira não havia terminado de dar os ajustes ainda. Não estava nem perto de terminar. Elenya ainda brincava com as pérolas, mas as jogou de volta na caixa quando ouviu o tom impassível de voz da mãe. A costureira saiu, sem dizer uma única palavra, mas Solara foi a última a deixar o recinto. Ela olhou uma última vez para Jeyne e saiu finalmente, fechando a porta com um baque surdo atrás de si.
Quando casar-se com Jaime, não será tão desanimada quanto agora, será? ela começou. Jeyne revirou os olhos. Não revire os olhos para mim, mocinha.
Você sabe que eu não quero me casar! Jeyne gritou, liberando toda a raiva que sentia dentro do corpo. Eu não quero ter que me deitar toda noite com esse estúpido idiota traidor! E eu nem mesmo o conheço!
Você sabe que é a saída para a nossa família! Você sabe disso! Sybell também se exaltou, correndo para a frente da menina e a encarando desaprovadora. Ela pareceu se acalmar um pouco. Pensei que seu pai já a tivesse convencido de participar do casamento.
Eu vou casar. Disso pode ter certeza. Jeyne fungou, decidida a não chorar na frente da mãe, nem de ninguém. Decidida a não chorar. Só não me peça para sorrir com o fato.
É claro que vou te pedir para sorrir. Vou te pedir para fazer tudo, querida. Agradará o Regicida como ninguém nunca agradou. Terá dele vários filhos, que no futuro serão os senhores de Rochedo Casterly.
Não, mamãe. O Regicida não tem direito a Rochedo Casterly. O Duende é o herdeiro do castelo. a garota sempre perdia a paciência quando a mãe falava essas asneiras, Sybell nunca conseguira aprender muito sobre linhas de sucessão e política.
Isso não é problema! Você sabe como ele é rico. Ele tirará a nossa família da lama, Jeyne! O nosso nome da sujeira! Você fará isso. Sybell só conhecia a linguagem do dinheiro.
Mas eu não quero fazer isso. Isso ela apontou para o vestido perolado, rindo de raiva e nervosismo. não sou eu, mamãe. Você, acima de qualquer um, deveria saber disso. Você é minha mãe, você deveria me proteger. E não me deixar ser vendida a qualquer idiota que tenha conseguido matar um Rei Louco.
Você quer cancelar o casamento?
Não! Eu vou me casar com o Regicida. a garota lembrou-se das palavras de Solara horas mais cedo, dizendo Jaime Lannister, minha boa senhora, é um homem lindo. O Regicida é o cavaleiro mais honrado de toda Westeros. Tem sorte de se casar com ele, assim como ele tem sorte de se casar com a senhora. Não sou outra dessas garotas das quais as canções falam, que sonham com casamentos e querem ter um castelo e filhos com seus maridos.
O que você quer, Jeyne? Sybell jogou a cadeira ao seu lado no chão, completamente sem paciência. Diga-me, e agora. Porque tenho certeza que não vai consegui-lo sem dinheiro.
Eu quero... quase, quase que Jeyne contou a mãe seu grande sonho. Mas fechou a boca veemente e mais uma vez olhou para a paisagem.
Eram as grandes montanhas do relevo ocidental do Oeste. Um gavião voava distraído por aí, com as suas asas estendidas e as penas balançando com o vento. Jeyne desejou ser como ele. Mas revirou os olhos quando se deu conta do que a mãe dissera.
Mas é óbvio que voltamos a falar sobre isso! Dinheiro, dinheiro, dinheiro... É apenas sobre isso que sabe falar!
Não, garota insolente! É apenas sobre o futuro da nossa família que falo, pois é a única coisa que você parece não entender! o rosto de Sybell se tornou vermelho como sangue, de raiva e de humilhação. Jeyne franziu as sobrancelhas, imaginando se aquilo era uma ofensa ou um elogio.
O momento de silêncio que se deu, as duas se encarando, foi quebrado pela abertura da porta repentina e sonoramente. Um Gawen Westerling completamente alterado entrou pela porta, o rosto vermelho de raiva assim como o da esposa. Apoiado no batente da porta estava Raynald Westerling, seu irmão mais velho e herdeiro de Despenhadeiro. Ele olhou para Jeyne e levantou as sobrancelhas. Moveu os lábios: Está linda, Jeyne.
Os Lannisters! Gawen gritou. Há muita gritaria por aqui hoje. Jeyne pensou. Os ânimos estão seriamente agitados. Ela quase riu com o pensamento. Ah, mas eu vou mata-los! Todos eles!
O que houve, Gawen? Sybell perguntou, o rosto subitamente de volta a sua cor normal. A preocupação era visível em seu rosto. Provavelmente imaginava que Tywin tinha cancelado o casamento.
Os Lannister, querida! Eles querem me matar!
Mas pensei que o senhor quisesse mata-los. Jeyne falou, e viu quando Raynald segurou a risada.
Isso também! Gawen apontou para a filha. Está linda, querida. Mas Tywin... Ah, Tywin... Acabei de receber um corvo! Os Lannisters querem adiar o casamento. ADIAR! Gawen riu. Adiar. Estão em uma viagem oficial ao Norte, e a presença de Jaime é imprescindível. Agora, teremos que esperar mais um mês inteirinho para casá-la ao Lannister!
Jeyne respirou aliviada. Tinha dois meses de liberdade. Era bem mais do que nada.
Acalme-se, querido. Torraremos cada dragão de ouro deles. Sybell disse, acalmando o marido. As poções de fertilidade que encomendei de Lannisporto já chegaram. Darei a Jeyne no dia de seu casamento. Logo ela estará esperando um filho de Jaime, e eles não mais fugirão de nós assim.
Não acho que o casamento seja uma boa ideia. Raynald suspirou. Ele era igualzinho a Jeyne, com ideais de liberdade, cabelos castanhos claros, lisos e olhos cor de mel.
Não discutiremos isso de novo, Ray. Gawen cortou o menino.
Acho que temos honra o suficiente para saber disso, meu pai. Onde está a nossa honra, se damos a mais bela filha a um Regicida?
Ray, não temos mais tempo de discutir. Sybell soou melosa. Ray era seu filho favorito, seu maior orgulho.
Eu sei que não. Apenas não acho justo. ele se virou e foi embora.
Nesse momento, Jeyne também sentiu orgulho dele.
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