Quando O Lobo Uivar
4 Capítulo quatro
Catelyn viu o marido sair de Winterfell, seguido de perto por seus três filhos homens. Três, ela pensou novamente com desgosto.
O bastardo. Como ela o odiava. Cada vez que o olhava, mesmo que de relance, era o mesmo que voltar no tempo e encontrar Eddard Stark com um bebê nos braços voltando do Tridente. Com um bastardo.
Não fazia a menor ideia de quem era a mãe, e agora isso não mais a incomodava. Ele parecia ter sido chocado, com sangue unicamente Stark. Não havia nem um único traço que não fosse dos lobos gigantes do Norte. Era o que mais a intrigava.
Ned devia tê-la amado ferozmente, pois insistia que o menino fosse criado ali, em Winterfell, junto com os outros de
seus filhos legítimos. Mas Catelyn se certificava de que o menino não se
sentisse bem vindo ali. Que ele não se sentisse em casa. Destratava-o sempre
que possível, tentando mantê-lo em seu lugar. Em seu lugar de desonra.
Amava incondicionalmente seus outros filhos, entretanto. Orgulhava-se de Robb, de como ele havia se tornado um belo rapaz de dezoito anos, um homem que será o senhor de Winterfell um dia. E o seria com maestria, ela tinha certeza.
Bran, o mais doce e gentil de todos os seus filhos. Sorria cada vez que o via com as bochechas rosadas de frio e esforço, correndo com Rickon através do pátio. O que não gostava era de sua babá, Eileen.
Ela era boa, não a entendam mal. Só que boa demais. Era irritante o tipo de adoração que seus filhos cultivavam por ela. Ela conhecia Bran, Rickon, Arya e até mesmo Robb melhor que ela. Apenas Sansa mantinha-se em uma distância da criada nortenha.
Depois de vê-los irem embora, encontrou a serva parada no meio do pátio de Winterfell, enquanto que todos os outros criados corriam de um lado para outro, agitados, e ocupados com suas tarefas. Mas não ela. Permaneceu ali, delicada, observando enquanto o portão se fechava e os outros iam embora.
– Eileen. – Catelyn a chamou. A criada virou-se imediatamente para a senhora. Fez uma reverência desajeitada e fitou-a pacientemente. – Senhora Windstone não tem nenhuma tarefa para você?
– Não, senhora. Rickon ainda dorme. Esteve se sentindo mal durante a noite.
– E não fui avisada?
– Meistre Luwin disse que não era nada.
– Entre já. Arranje algo para fazer. – ela esfregou as mãos e virou-se abruptamente, andando em direção ao castelo. Falaria com Luwin agora mesmo. Aquela criada não tinha o direito de saber mais
sobre seus filhos do que ela mesma.
– Sim, milady. – conseguiu ouvir a distância.
Catelyn Tully usava sedas azuis escuras que destacavam ainda mais os belos olhos azuis e a vivacidade dos cabelos ruivos de fogo. A pele clara cheirava ao perfume das flores selvagens do Sul que encomendava todo mês. Nunca se acostumaria com as flores fortes do Norte.
Entrou no castelo andando decididamente até a torre de Meistre Luwin. No caminho, entretanto, encontrou com o Meistre.
– Senhora Stark! Devo falar com a senhora, é um assunto de extrema importância...
– Então, meu bom senhor. – ela o interrompeu. – Como está Rickon? A criada acabou de me contar que ele não teve uma boa noite de sono. O que aconteceu? Por que não fui informada?
– O pequeno senhor apenas teve pesadelos. Eileen o socorreu, estava no quarto cantando para ele dormir. Rickon estava muito agitado, ela o ajudou a voltar a dormir.
O meistre tinha os cabelos brancos salpicados com alguns fios negros remanescentes, olhos quase completamente fechados, negros e atentos. Havia trazido ao mundo todos os filhos de Catelyn. Talvez até mesmo Jon. A pele fina do pescoço estava sempre avermelhada devido a pesada corrente de ferro e a aço que ali pendia, o símbolo de sua profissão.
Catelyn entendeu o ponto de vista de meistre Luwin, mas decidiu não dar o braço a torcer. Permaneceu com a expressão severa, mas descruzou os braços elegantemente.
– Neste caso, qual o importante assunto que tem para discutir comigo?
– Um corvo chegou. Esta manhã.
– Um corvo? – ela se surpreendeu. Pombos eram mais usados em mensagens. Corvos geralmente noticiavam uma morte ou algo ruim. Como a Velha Ama dizia mesmo? Asas escuras, mensagens escuras. Repentinamente temeu por seu pai em Correrio.
– Venha conversar em meu escritório. – meistre Luwin a puxou pelas escadas até a torre do Meistre.
Era uma sala de tamanho médio, com uma mesa de canto amontoada de livros de contas e pesados volumes emprestados da biblioteca. Os corvos estavam em uma gaiola no alto da torre, mas alguns se amontoavam no peitoril da janela. Uma mensagem estava em cima da mesa, e o meistre a entregou a Catelyn.
Era uma caligrafia desconhecida, redonda e elegante. Excessivamente floreada, Catelyn achou.
– Quem enviou isso?
– É da Fortaleza Vermelha, Lady Catelyn. Mas foi enviado de Cerwyn.
Ela o leu rapidamente, em alguns momentos lutando para entender a letra enfeitada demais. Quando finalmente pensou ter compreendido mensagem, um leve sentimento de desespero passou por sua alma. Sentiu pena de Ned, e desejou não ter que lhe dar a notícia.
– Jon Arryn morreu? – ela precisou de alguns segundos para absorver o que aquilo significava. – Robert Baratheon chega daqui
a alguns dias?
– Isso foi enviado do castelo dos Cerwyn.
– Eles já passaram do Gargalo há um bom tempo. Devem chegar em uma semana. – Catelyn raciocinou rapidamente. Suas conclusões não foram muito animadoras. — Tenho apenas uma semana para organizar Winterfell para um banquete! O rei vem com toda a caravana!
– Tenho certeza que a senhora e Madame Windstone conseguirão fazê-lo. Eileen poderá ajuda-la a cuidar dos meninos. Septa Mordane com certeza ajudará Arya e Sansa.
– Espero que esteja certo, meistre Luwin. – Catelyn olhou para o horizonte inóspito da janela. – Espero que esteja.
Ela sabia que Robert e Eddard cresceram juntos, eram amigos de infância. Sabia o que significava a visita de Robert logo após a morte da Mão do Rei. Só poderia significar uma única coisa.
Seu Ned partiria para o Sul.
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