Quando O Lobo Uivar
1 Capítulo um
Notas iniciais
"A garota dos olhos violetas..."
A luz pálida e azulada do sol, atravessando as espessas nuvens que cobriam Winterfell, iluminava o rosto de Eileen. A serva fitava admirada a folha vermelha das árvores sagradas. Nunca poderia se acostumar com o jardim de Eddard Stark, com suas anormais folhas de fogo que refletiam o sol e brilhavam como cobre.
De volta ao pátio de Winterfell, Brandon Stark, ou o simples Bran, corria em sua direção. O garoto tinha as pernas saudáveis e fortes, correndo com sua animação infantil de onze anos. Os cabelos ruivos e grossos caíam-lhe sobre a face, enquanto que os olhos azuis faiscavam na direção de Eileen.
– Vamos, Ellie. — disse Bran, puxando a manga roxa do vestido da serva. — Robb está chamando. Ele e Jon vão me ensinar a usar o arco e flecha. Venha.
– Está bem, vamos, Bran. Espere! – Ellie respondeu, levantando as saias para seguir o garoto. Ele ainda puxava-a insistentemente, ansioso com a aula.
Os dois de mão dadas correram pelo pátio e atravessaram Winterfell, pisando no chão gelado de pedras do castelo. E era apenas verão. Durante o inverno, uma camada de neve ou de gelo cobria o piso. Mas aquele dia estava mais quente do que os outros, o calor que antecede o gelo. O pátio estava agitado, enquanto que outros servos andavam de um lado para o outro, preparando-se para obedecer qualquer ordem que tenha sido a de Ned Stark.
Robb Stark, seu filho mais velho, e Jon Snow, seu filho bastardo, lutavam no centro do pátio de luta. Sor Rodrik Cassel observava-os, alisando as suíças esbranquiçadas, com as sobrancelhas franzidas e os braços cruzados em uma expressão concentrada. Por vezes comentava algo, enquanto que os dois irmãos se enfrentavam, concentrados. Theon Greyjoy também estava ali, como um corvo que nunca se afastava muito.
Bran olhava-os também, fitando admirado. Seu sonho era ser como os irmãos, Ellie se lembrou. Mas, como sua babá, notou que o garoto se aproximava demais do ponto onde a luta se desenrolava. Assim, ela colocou as mãos protetoramente nos ombros do menino e puxou-o levemente para trás:
– Bran, chegue um pouquinho para trás, assim.
Imediatamente, os dois irmãos pararam de se enfrentar e viraram-se para ela. Abriram um sorriso, bobos e Jon falou:
– Desculpe-me, Ellie. Não te vi aí. — ele tinha seu característico sorriso travesso nos lábios suavemente roxos. — Eu só estava terminando aqui com o pequeno Robb.
– Fique quieto. — o jovem respondeu, com os olhos azuis faiscando. — Eu estava ganhando de você.
– É, Jon. Você não parecia muito bem. — Eileen comentou.
– Assim você me ofende. — ele fez uma careta afetada.
– Então, vocês vão me ensinar agora? — Bran perguntou, cruzando os braços impaciente.
– É claro. — Robb limpou o suor da pele de alabastro da testa. Ele se virou para Sor Rodrik- Acho que já terminamos, não é?
– Terminem a luta, agora que pararam de repente. — o homem mostrou a expressão irritada. Eileen deu um passo para trás, sentindo-se culpada por ter interrompido. — Já é a última.
Os dois voltaram a se enfrentar, enquanto Eileen os observava. Os dois garotos de 16 anos eram tão parecidos, e ao mesmo tempo, tão diferentes. Stark e Snow, juntos e separados pelo sangue. Robb tinha os cabelos ruivos e grossos dos Tully, os olhos azuis faiscantes e o sorriso caloroso de Lady Catelyn, mas havia algo em sua expressão tão fria e impávida quanto o Norte de Eddard Stark. Já Jon era inteiramente Stark, com os olhos negro-acinzentados, cabelos negros e ondulados que caíam até os ombros e pele pálida. Ambos, entretanto, tinham as bochechas vermelhas pelo frio e pelo esforço no momento.
Depois de alguns movimentos mais rápidos, Robb conseguiu fazer com que Snow caísse no chão. Robb ganhou. Sor Rodrik Cassel o parabenizou, Jon fez uma careta, Bran riu. Mas Eileen permaneceu olhando para o chão, entrelaçando e desentrelaçando os dedos, nem mesmo prestando atenção no que acontecia.
A serva vinha de uma das vilas dos selvagens do norte. Tinha quinze anos, mas o dia de seu nome se aproximava. Tinha a pele branca e pálida, como a neve que cobria o chão. Os olhos eram violeta-escuros, grandes e amendoados, brilhando o tempo todo. O nariz era pequenino e empinado, os cílios longos e negros. Os cabelos eram da mesma cor que o carvão e que os corvos, caindo em um emaranhado de cachos até sua cintura fina. A voz era suave e melodiosa, tanto que as vezes servia de bardo em jantares e festas entre os servos. As mãos eram delicadas, com dedos longos e finos, tanto que muitas vezes fazia a barba e o cabelo dos filhos de Ned Stark e de algum dos servos. Mas sua principal função era tomar conta de Bran Stark, o menino do meio. A mãe, selvagem nortenha, e o padrasto, um homem que cuidava dos cavalos nos estábulos de Winterfell, moravam em uma casa no vilarejo a meia hora do castelo.
– Venha, Bran. — Robb finalmente chamou o garoto. Ele segurava um arco e flecha. — Tente.
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