Quando O Lobo Uivar
10 Capítulo dez
Notas iniciais
Indiquem para seus amigos!
O Grande Salão fervilhava de movimento. Estava cheio de gente de todos os tipos, formatos e cores. Na mesa principal, Lady Catelyn sentava-se ao lado da Rainha Cersei, Lorde Eddard ao lado do Rei, mas Robb tinha que ficar perto de Joffrey, Tommen e Myrcella.
Sansa conversava animadamente com Jeyne Poole, a filha de Vayon Poole, que sempre mandava olhares úmidos para Robb. Princesa Myrcella gracejava com Tommen e Bran sobre algo, e Arya limitava-se a comer e olhar raivosamente para Sansa. Joffrey, ao lado de Robb, tagarelava de modo arrogante sobre como eram as coisas em Fortaleza Vermelha, e o futuro senhor de Winterfell segurava-se para não meter a mão no garoto. Não o agradava o modo com que ele desprezava tudo em Winterfell.
De vez em quando, olhava na direção das mesas menores e via, apenas de relance, Eileen servindo os homens com pratos generosos de comida e vinho. Muito vinho. O que mais carregava eram odres com a bebida condimentada com especiarias. Alguns dos homens tentavam tocá-la e enfiar a mão pelo seu corpete, mas ela batia delicadamente em suas mãos e eles a largaram em paz. Um dos cavaleiros do rei foi mais longe e pôs a mão por debaixo de suas saias, mas ela se desvencilhou dele rapidamente. Pegou a taça de vinho do homem e jogou todo o seu conteúdo em cima dele, além de chutá-lo para fora do banco. Ele caiu, mas estava tão bêbado que nem se importou, rindo ruidosamente do chão, junto com seus companheiros de bancos. Para não dizer que era mal educada, Eileen ainda encheu novamente a taça de vinho.
Robb ria abertamente com alguns dos cavaleiros que estavam sentados ali, com Vayon Poole, Sor Rodrik e Jory Cassel. Podia até parecer calmo e feliz, mas não estava com cabeça para amenidades.
Um turbilhão de pensamentos corria por sua cabeça. Mais cedo naquele dia, tinha surpreendido Jon e Eileen aos beijos nos estábulos. Aquilo machucara, muito. Mas doeu mais ainda o modo com que conversou com o irmão depois. Foi egoísta, mesquinho, e só agora percebia isso. Como tinha sido injusto. Ellie ama Jon, e não Robb.
Estava pensando em alguma maneira de se redimir. Se pudesse ao menos ajudar os dois a ficarem juntos...
– É tão injusto! – Arya falou, inclinando-se para ele, retirando-o de seus pensamentos. – Sansa fica lá, conversando com as amiguinhas dela, e se esquece de mim completamente!
Arya cruzou os braços sobre o peito, fez uma expressão emburrada e encarou a comida desinteressadamente.
– Já sei. – antes que o irmão pudesse responde-la, ela pegou comida e, usando o garfo como catapulta, a jogou na direção de Sansa. A garota arregalou os olhos para a mancha de comida em seu vestido de seda rosa e ralhou com Arya:
– Sua estúpida! Como pôde? Eu nunca mais vou olhar na sua cara!
Uma única troca de olhares entre Lady Catelyn foi o suficiente para Robb levantar-se, interrompendo drasticamente uma risada, pegar Arya por debaixo dos braços e tirá-la da mesa. Iria escolta-la até o quarto para que não arranjasse mais confusão com Sansa e Jeyne.
A irmã estava carrancuda e silenciosa. Tinha os braços mais uma vez cruzados sobre o peito e andava com passos barulhentos e pesados. Robb pensou em algo para deixa-la mais feliz.
– Você tem sorte. – ele começou. – Não terá que aguentar Príncipe Joffrey e seus lábios gordos falando sobre a Fortaleza Vermelha. Imagine como ele ficará depois de alguns copos de vinho?
Nenhuma reação.
– Se quer saber a minha opinião, aquele vestido sulista da Sansa ficou bem melhor com aquela mancha.
Desta vez Arya soltou um risinho minúsculo, mas apressou-se em refazer a expressão carrancuda. É um começo, ele pensou.
– Você viu a cara da Sansa quando ela viu a mancha?
Desta vez Arya pendeu a cabeça para trás e gargalhou alto. Ela deu dois pulinhos com as pernas magricelas batendo palmas, e Robb riu também. Mais dela do que do comentário que fez.
– Parecia um porco raivoso! – Arya virou-se para ele e o segurou no braço. – Eu fiquei com medo que ela fosse me atacar ali no meio de todos!
– Eu fiquei mais preocupado com o que a mamãe fosse fazer. Me olhou de um jeito, como se dissesse “Tire essa garota daqui antes que ela ataque o Príncipe Joffrey”.
Arya riu um pouco menos com isso.
– Às vezes eu queria ter nascido menino. Aprenderia a usar a espada, andaria a cavalo todas as vezes que eu quisesse, e não teria que aguentar as aulas de Septa Mordane. Além disso, não teria que me casar com nenhum homem, senhor de castelos. Seria ótimo! Ficaria o tempo todo com você, Jon e Ellie, ajudaria Bran e Rickon...
Robb refletiu sobre aquelas palavras, mas não achou resposta alguma para dar a irmã. Pensou no quanto idiota tinha sido com Jon mais cedo. Sentiu vergonha por aquilo, e decidiu que iria conversar com o irmão mais tarde. Ainda naquele dia. Pediria desculpa, imploraria que ele o perdoasse até que desse certo. Diria que ele devia ficar com Eileen. Seria o melhor homem para ela. Diria...
– Robb. Robb! – Arya gritou e parou na frente dele, balançando os braços. – Não me ouviu?
– Não. – ele respondeu. – Eu não ouvi, Arya. Desculpe-me, o que disse? Perguntou-me alguma coisa?
– Sim. Perguntei se você vai mostrar o pátio para Joffrey amanhã.
– Sim. Vou. A Tommen também. Ele viu os lobos hoje, sabia?
– Eu queria estar lá nesse momento. – ela riu enquanto imaginava a cena. – Do jeito que ele é medroso, deve ter se borrado todo quando viu Nymeria. Ele vai ter pesadelos terríveis com os lobos esta noite.
– Vai. – ele concordou, ainda imerso em pensamentos.
E se falasse com Eileen antes? Ela podia estar brincando com Jon tão facilmente quanto Theon brinca com as servas. Não, é claro que não... Ellie nunca faria isso. Devia ser de verdade. Quer dizer que Robb jamais a teria. Ela seria para sempre dele, para sempre de Jon.
“Apenas mais um bastardo Snow, é isso o que quer dizer?”, Robb lembrou-se das palavras do irmão, e bateu na própria testa.
“Idiota, idiota, idiota. Não devia ter falado nada, não devia! Jon a ama, e ela ama Jon. O que esperava que fizesse? Sua besta quadrada, devia tê-los deixado em paz. Quando os viu se beijando, devia ter dado meia volta e saído, e ponto final. Nunca devia ter falado alguma coisa.”
– Você está muito triste hoje. Aconteceu alguma coisa? – Arya segurava a sua mão e tinha um olhar preocupado no rosto. – Ria até das piores piadas de Jory, como se precisasse rir de alguma coisa.
– Eu fiz uma besteira hoje, Arya. Uma grande besteira. E o pior, — ele fez uma pausa, tomando coragem para dizer o que pensava. – é que eu não sei se conseguirei consertar.
– O que você fez? – Ela tentava ser compreensiva, mas os dois já tinham chegado ao quarto dela.
– Isso eu não posso te dizer. – não sabia se podia contar a alguém o caso de Jon e Ellie, e com certeza não confessaria a mais alguém que amava a garota. – O importante é que eu fiz com alguém que eu amo muito.
“Com duas pessoas que eu amo muito”, ele se corrigiu mentalmente.
– Você pode consertar, Robb. É claro que pode. – ela sorriu. Não fazia a menor ideia do que estava dizendo. – Boa noite.
Ele se abaixou para que ela lhe desse um beijo na bochecha, então entrou no quarto, fechando a porta atrás de si.
Robb lutou para acreditar nas palavras dela enquanto andava de volta ao Grande Salão. Tentava dizer para si mesmo que Jon jamais desistiria de Eileen rápido assim. Talvez tivesse sido duro com o irmão, mas ele veria que estava apenas cego de amor. Jamais teria falado aquilo tudo em seu juízo perfeito, o magoado tanto assim. Jon perceberia isso. Certo?
Quando chegou mais uma vez ao Grande Salão, as mesas haviam sido afastadas para que um espaço para dança se formasse. Vários cavaleiros bêbados dançavam com as servas. O rei tinha o rosto enfiado nos seios de uma dessas. Jon não estava em lugar algum para ser encontrado, mas Eileen dançava alegremente com Bran e Rickon no meio da bagunça.
Sentou-se ao lado de Princesa Myrcella desta vez, já que Joffrey estava dançando com Sansa no meio do burburinho, e Jeyne Poole observava aquilo tudo a distância. Beth Cassel dançava com Jory, seus cachos dourados presos em um rabo. Lady Catelyn chamou Robb, e olhou significativamente para Myrcella, que acompanhava a música com os pés.
Felizmente, ele entendeu a mensagem. Levantou-se e fez uma pequena reverência a frente dela, com a mão estendida. Abriu o melhor sorriso que pôde.
– Dançaria comigo, senhora?
– É claro, senhor. – Myrcella sorriu, os olhos verdes brilhando, e pegou a mão de Robb.
Os dois levantaram-se e começaram a dançar. Ele não exatamente prestava atenção na garota enquanto ela recitava cortesias com um sorriso tímido no rosto. Era cordial com ela, e fazia com que risse e se divertisse. Mas ele mesmo não o fazia. Não estava bem humorado para uma festa.
Depois de algum tempo, já com a respiração ofegante, Princesa Myrcella pediu para descansar. Robb deixou-a sentada no banco e atravessou o salão, pensando que seria agora a sua chance de conversar com Jon. Falaria com ele e resolveria aquela situação de uma vez por todas. Ainda o procurava, quando ouviu:
– Ele não está aqui. – era a voz de Ellie. Robb virou-se e a viu, observando-o com tristonhos olhos lilases. Havia manchas de vinho em seu vestido, além de marcas de patas de lobos e gordura da cozinha. – Ele não está em lugar algum para ser encontrado, senhor.
Era estranho o modo com que sua íris era da mesma cor que o hematoma que cobria um de seus olhos. Ele vivia lhe dizendo para chama-lo apenas de Robb, mas ela insistia em chama-lo de “senhor”.
– O que arranjou no rosto? – ele perguntou, e ela retraiu-se. Passou a mão no machucado, como se para apaga-lo.
– Minha mãe. Achou que eu tinha roubado aquela rosa que me deu ontem.
– Desculpe-me por isso.
– Aconteceu alguma coisa entre você e Jon? – ela perguntou, e Robb olhou para o chão. A garota interpretou aquilo de forma errada. – Desculpe-me, senhor, não devia ter perguntado nada.
– Não, está tudo bem. – ele a observou, pensando amargamente que jamais poderia beijá-la. – Não sabia que ia servir o banquete esta noite.
– Não ia. Mas Olive passou mal, e eu tive que servir. – ela sorriu um pouco. – Foi bom, consegui derramar vinho em um cavaleiro qualquer.
– Eu vi. – Robb riu. Ela ainda o olhava com interrogadores olhos violetas, então respondeu: — Eu briguei com Jon hoje.
– Pelos deuses. – ela pôs a mão sobre os lábios. – Fui eu, não fui? Foi por causa daquilo lá nos estábulos? Senhor, não foi culpa dele. Eu... Eu me equivoquei, não devia ter feito nada daquilo, mas é que...
– Deixe para lá, Eileen. Não foi por causa de você. – ele mentiu. – Não foi por nada demais, uma coisinha pequena.
– Não parece que foi uma coisinha pequena. – ela insistiu, aproximando-se dele e pondo uma mão sobre a sua. – Pode me contar, senhor, seja o que for. Talvez possa te ajudar.
– Não pode não. – ele sorriu tristemente, segurando a mão dela com as duas mãos, pensando que aquilo fosse tudo que algum dia teria dela. Fez uma reverência e a ofereceu o braço. – Daria a mim a honra de dançar comigo?
– Adoraria. – ela sorriu, surpresa com a mudança repentina de assunto.
Pegou a mão dele e os dois andaram até o centro do burburinho, dançando ao som das harpas e no ritmo das palavras do bardo. As canções falavam de Florian e Jonquil, do Príncipe Aemon, o Cavaleiro do Dragão, que amava a rainha de seu irmão, e o hino dos Lannisters, Chuvas de Castamere, em homenagem a rainha Cersei.
Dançaram por muito tempo, falando amenidades e rindo um do outro, Jon esquecido por uma noite inteira. Robb não queria mais parar. Até que ela abriu um minúsculo sorrisinho e disse:
– Robb. A música parou.
***
Mas no dia seguinte, não haveria escapatória. Antes de levar Joffrey ao pátio de lutas, procurou Jon por todos os lugares. Foi ao estábulo, ele não estava lá. Foi a biblioteca, também não estava lá. Chegou a ir a torre de Meistre Luwin, mas Jon não estava lá. Eileen não sabia também nada sobre o seu paradeiro.
Foi andando ao acaso que o encontrou sentado no parapeito de um corredor que dava para o pátio, apoiado em uma das colunas de mármore, e absorto em pensamentos. Devia estar de ressaca, a julgar pelos olhos cansados e as profundas olheiras que os emolduravam. Quando viu Robb, virou o rosto teimosamente.
– Jon.
– Saia daqui.
– Jon. – Robb sentou-se ao seu lado no parapeito.
– Eu disse saia. – Jon o empurrou de cima da janela, fazendo com que caísse no corredor. Sua voz soou cortante e alta. Pulou ele mesmo da janela. Quando Robb levantou-se, deu nele um soco tão forte que fez voar sangue de seu nariz.
– Eu estou tentando consertar as coisas aqui. – Robb disse, caído no chão, com a voz rouca e doída. Algo em seu olhar fez com que Jon o ouvisse. – Mil perdões pelo que disse. Eu amo Eileen assim como você a ama, e não é justo que eu faça você desistir. Ela também te ama. Procurou-o como doida ontem, no Grande Salão. Eu não vou mais incomodá-los. Quero que me perdoe, e que, por favor, a faça feliz.
– Já é tarde demais. – Jon disse, a voz embargada. Ele voltou a sentar-se na janela. Robb levantou-se, e franziu as sobrancelhas. Jon continuou: – Vou partir com tio Benjen para a Patrulha da Noite.
– Você não pode fazer isso.
– Eu vou fazer isso.
“Pelos deuses, o que eu fiz?”, Robb pensou.
– Não há nada para mim aqui, Robb. Eu amo Eileen, mas não quero que ela se prenda a um bastardo pelo resto da vida.
– Faz pouco juízo de si mesmo, Jon. – Robb pôs a mão em seu ombro. – Escute-me. Ela te ama, de verdade. Vai ficar junto dela, para sempre. Ela merece você, e você merece ela.
– Eu vou para a Patrulha. Já está tudo decidido com tio Benjen. Partiremos no mesmo dia que o pai para Castelo Negro.
– Não pode desistir dela tão fácil assim. Esqueça todos os comentários idiotas que eu fiz ontem. Estava fora de mim, fui um idiota mesquinho, egoísta e arrogante. – a voz dele agora era aço e ferro. – Você tem que ficar com ela. Tem que fazê-la feliz. Eu juro pelos deuses, antigos e novos, que não tentarei mais nada com ela. Jamais a beijarei ou nada do tipo. Deixarei vocês dois em paz.
– Robb, não entende. – Jon riu, um riso estranhamente triste. – Não estou desistindo dela. Estou desistindo de Winterfell. Meu lugar não é aqui.
– Você é um Stark, e o lugar de Starks é em Winterfell. Você deve ficar aqui.
– Eu sou Snow, e não Stark. – ele balançou a cabeça. — Já está decidido, Robb. Não há nada mais que possa fazer.
***
Lorde Eddard havia chamado Robb para seu escritório. Era uma sala ampla, toda de mogno, repleta de livros e mapas nas paredes. Lorde Stark estava sentado em uma cadeira, escrevendo uma carta qualquer quando o filho entrou, e a escondeu com uma pilha de livros.
Antes dali, Robb estava no pátio, enviando pragas para Joffrey. Bran e Tommen já tinham lutado, com vitória de Bran, e era a vez dos dois filhos mais velhos se enfrentarem. Joffrey se acovardou, e escondeu isso por trás de vários insultos que dirigiu a Robb. O garoto, com todo o bom humor sugado pela conversa com Jon mais cedo, começou a praguejar sem parar, e agora até se sentia envergonhado por isso. Imaginava se esse era o motivo de lorde Eddard tê-lo chamado ali.
– Robb. – o pai começou, com a voz grave e olhos enevoados. – Sente-se.
O garoto se sentou, mas não ficou muito confortável. Temia que fosse ouvir sermões longos e exaustivos sobre hospitalidade, ou talvez sobre os irmãos. A única coisa que não esperava era o que acabou por ouvir.
– Rei Robert me convidou para ser a sua Mão. Partirei em uma semana para Porto Real com Bran, Arya e Sansa. Neste acordo, foi decidido também o casamento entre Sansa e Joffrey.
– É uma honra para todos os Stark, especialmente porque ela será a futura rainha. – Robb concordou, com um olhar igualmente grave para o pai. Sentiu pena de Sansa, não gostava de Joffrey. Mas jamais tinha imaginado o pai em algum lugar que não fosse o Norte, com as árvores sagradas a rodeá-lo, os deuses a observá-lo.
Lorde Eddard o analisou com a cabeça tombada, como se imaginando se deveria ou não entregar-lhe seus segredos.
– Mas, antes disso, Robert quer caçar. – ele fez uma careta. – É óbvio que ele quer caçar. Uma grande caçada. Sairemos ao amanhecer. Eu queria saber, como estão seus lobos?
– Estão ótimos. Eileen está ajudando a cuidar deles. — um calafrio percorreu sua espinha ao lembrar da cena nos estábulos — Arya está treinando Nymeria. Bran ainda não escolheu um nome para o lobo dele.
– Lembra-se de nosso lema? – lorde Eddard começou após uma pausa, levantando-se e aproximando-se de um mapa na parede que mostrava todos os Sete Reinos.
– O inverno está chegando.
– Não é um lema meramente pessimista, Robb. É um lema que prega a fraternidade. Somos família, e devemos ficar juntos quando o inverno chegar. E é por isso que preciso que você seja adulto agora. Ajudará sua mãe em qualquer coisa que ela precise. Orientará Bran e Rickon. Tomará conta de Theon. Em minha ausência, será o Senhor de Winterfell. – Robb arregalou os olhos, sentiu o peso das palavras.
– Mas, pai... – era o esperado que acontecesse, mas só na voz de seu pai que a verdade pesou.
– Você o seria em algum dia. E é por isso que peço que seja responsável. Sábio. O Sul é bem diferente do Norte. – o pai estava praticamente admitindo que talvez não voltasse de Porto Real. — O inverno está chegando, Robb. E temos que permanecer juntos. Uma família. Você tem que nos manter juntos.
***
Eileen estava ajoelhada no chão. Mudara o vestido, desta vez era um azulado. Lembrava os outros, o tecido leve de mangas curtas que não a protegia contra o frio. Ela esfregava o chão com uma bucha, mas parecia raivosa. Quando ele se aproximou, ela levantou-se repentinamente segurando a bucha em frente de si.
– Se você me tocar, eu juro que eu... – então ela viu quem era. Arregalou os olhos. – Robb. Quer dizer, senhor.
Fez uma reverência, e Robb riu.
– Pensei que estivesse quase conseguindo. – ela sorriu para ele, mas viu olheiras em seus olhos e o hematoma ainda estava lá. Robb pensou ter visto outro no pescoço, mas era apenas impressão. Ele lhe entregou a rosa branca que segurava.
– Obrigada. – ela prendeu a rosa no cabelo, e apontou para o chão. – Tenho que continuar a esfregar, me desculpe.
Ele assentiu com a cabeça e sentou-se no chão com as costas apoiadas contra a parede, perto dela. Pegou uma maçã do bolso e deu uma mordida. Olhou para o teto, pensando em algo para dizer. Não podia ficar simplesmente na companhia dela em silêncio sem que se imaginasse beijando-a. De qualquer jeito, era errado, mesmo parecendo certo, desejá-la. Fizera um juramento ao irmão, pelos deuses antigos e novos.
– Como está sua mãe?
– Estranhamente feliz. – ela soltou uma risada triste, esfregando o chão.
– E o padrasto?
– O de sempre. – pelo modo com que ela disse dele, Robb desconfiou da história que ela contou ontem sobre o hematoma. Como era apenas uma intuição, decidiu ignorar a ideia.
– Por que quase me atacou quando eu cheguei? – ele perguntou, dando a ela um olhar curioso.
– Ah. – ela sentou-se e tirou uma mecha de cabelo da frente do olho. – Uns cavaleiros tentaram... Nem sei o que tentaram fazer. Só sei que vieram implicar comigo. A minha sorte foi que saí correndo.
– Por que não avisou Madame Windstone?
– Ela não acreditaria em mim. E, também, o que alguém faria? – ela riu, fungou, e voltou a concentrar-se no chão.
– Quem eram esses cavaleiros? Eram nortenhos?
– Não. Usavam mantos vermelhos. – Lannisters, Robb pensou.
– Se eles mexerem com você de novo, me avise.
– Está bem. – ela assentiu com a cabeça, esfregando o chão, mas Robb sabia que ela não o faria.
– Partirei antes do amanhecer para caçar.
– Caçar. – Eileen sorriu para si mesma.
– Meu pai partirá para Porto Real. – Robb nem sabia se podia contar essas coisas a ela, mas contava de qualquer jeito. – Será a Mão do Rei.
– Mão do Rei? – Eileen sentou-se no chão abruptamente. Ela ergueu a mão e a deixou pender no ar. – Como... Mão do Rei e — então apoiou-se nos braços e levantou o pé. – Pé do Rei?
– É um cargo. O braço direito do rei. – Robb gargalhou com o comentário.
– Não quero nem imaginar o que o Pé do Rei faz. – ela revirou os olhos, algo como o que Arya faz. Continuou a esfregar o chão.
– Não existe Pé do Rei. – Robb riu ainda mais. – E não, ele não é aleijado.
– Por que achou que eu ia perguntar isso? – ela fixou os olhos arregalados nele. – Eu nunca perguntaria isso.
– Sim, perguntaria.
– Talvez. – ela soltou mais um risinho.
– Eu serei o Senhor de Winterfell em sua ausência. – Robb contou, observando o teto com demasiado atenção. Não viu sua reação, mas o som da bucha raspando o chão cessara. Deu mais uma mordida na maçã.
– Senhor de Winterfell? – ela repetiu. Sentou-se ao lado dele, e olhou para o teto também. Pegou a maçã da mão dele, deu uma mordida, e a entregou de volta. Dessa vez Robb tirou os olhos do teto e virou-os para ela. – O que tem no teto de tão interessante?
Ela falara de boca cheia. Virou os grandes olhos violetas para ele, amendoados e brilhantes como fogo. Mas voltou-os para o teto logo depois. Robb percebeu que era o momento perfeito para beijá-la, mas segurou-se com a lembrança de Jon.
Ela era tão linda. Os cachos negros escorriam pelas costas, sempre soltos, e caíam até a sua cintura delgada. Era baixinha, quase uma cabeça menor que Robb. Por isso, na hora de dançar, encaixavam de modo fácil: ela podia perfeitamente apoiar a cabeça contra o peito de Robb.
– Tenho medo de ser o senhor. – confidenciou a ela.
– Não precisa ter. – ela aproximou seu rosto do dele. Robb sentiu o seu hálito doce e frio. – Nasceu para isso, Robb. Nasceu para ser senhor, nasceu para ser um rei. E vai fazê-lo do melhor jeito que há.
Suas palavras o acalmaram significativamente. Suspirou e mordeu a maçã. Ela já estava quase terminada. A ofereceu para Ellie, que a pegou e deu uma grande mordida. Devolveu o resto a ele.
Rindo, Robb levantou-se e começou a ir embora, mas sentiu dedos finos e longos sobre seus ombros. Era Ellie. Quando virou-se, ela o presenteou com um sorriso encantador, um daqueles que destinava apenas a Jon. Apoiando-se nele, pôs-se na ponta dos pés e o beijou na bochecha.
– Para dar sorte.
Depois daquilo, Robb foi embora, acariciando a bochecha com um olhar e um sorriso sonhador no rosto.
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