Quando Nossos Caminhos se Cruzaram
4 Entre Conversas e Risos
Notas iniciais
Ruan On
O sol da manhã atravessava a cortina leve do meu quarto, formando listras douradas sobre o chão de madeira. O relógio marcava pouco depois das sete, e mesmo com o corpo cansado da noite anterior, senti uma energia diferente ao acordar. Algo dentro de mim ainda ecoava o olhar de Suellen... Naquele instante. Aquele impacto.
Respirei fundo, me espreguicei e fui direto para a cozinha preparar o café. Meus pensamentos dançavam entre o que havia para fazer na escola e as perguntas que martelavam minha mente desde o dia anterior: “Porque aquela garota me passa uma sensação tão nostálgica? Será que ela sentiu o mesmo?”
Me vesti com o uniforme da empresa, peguei minha mochila e segui para mais um dia de trabalho.
Na escola, os corredores ainda estavam calmos quando cheguei. Os técnicos já estavam espalhados pelos setores, e fui cumprimentado por Lucas, que tinha um sorriso fácil e parecia gostar de conversar. Ele me levou até uma sala onde ficava o servidor de rede, e lá reencontrei Adriana, uma analista metódica, porém simpática.
Passamos a manhã inteira trabalhando nos cabos, testando sinal, anotando necessidades de substituição. A escola tinha uma estrutura grande, com muitos ambientes tecnológicos, o que era empolgante do ponto de vista profissional. Mas meu coração... ainda estava naquele esbarrão, ainda estava nela.
Por volta das dez horas, quando passávamos pelo corredor principal, vi de relance Suellen com as amigas. Elas vinham do pátio, rindo alto, carregando livros, como se fossem protagonistas de uma novela colegial. O grupo parecia sempre chamar atenção.
Lilian, alta e dona de um corpo chamativo, ria exageradamente de algo que Emily dizia. Era claramente a mais leve do grupo, um pouco boba às vezes, mas de coração mole.
Cecília, com seus óculos e expressão fechada, parecia mais preocupada com as fórmulas da aula do que com fofocas. Tinha um jeito briguento, mas escondia um lado protetor.
Beatriz, discreta e calada, andava sempre um pouco atrás das outras. Era fácil ver que seu mundo era silencioso, feito de observações e pensamentos. Os olhos, porém, sempre estavam atentos.
Evelyn era escandalosa, provocativa, do tipo que falava alto, sempre com um novo assunto envolvendo garotos ou festas. Era claro que ela gostava de estar no centro.
No meio delas, Suellen. Com seu andar firme, quase ensaiado, cabelos cacheados balançando levemente e olhos atentos a tudo ao redor. Usava o uniforme com elegância, como se fosse uma peça de desfile. Ela não me olhava diretamente, mas era impossível não notar como seus passos desaceleraram ao passar por mim.
Continuei andando com Lucas, tentando manter o foco no trabalho. Visitamos outras salas, conferimos equipamentos, e em uma delas reencontrei Igor — um estudante do segundo ano com óculos grossos e uma camiseta com referências à programação.
— Igor, esse aqui é o Lucas, a gente vai cuidar juntos da parte de rede — falei, apresentando meu colega.
— Opa, prazer! — Igor estendeu a mão para Lucas, sorrindo. — Eu tinha te visto ontem, mas nem deu pra falar muito.
— O prazer é meu — disse Lucas, simpático. — Você manda bem na programação, né? O Ruan me falou.
— Ah, eu tento — respondeu Igor, rindo. — Estou aprendendo Python. Queria fazer uns aplicativos aqui pra escola.
— A gente podia marcar um horário e trocar umas ideias — sugeri, já animado com a possibilidade.
Conversamos mais alguns minutos, trocando experiências e sugestões. Era bom ver aquele brilho nos olhos de alguém apaixonado pela tecnologia. Dava até mais ânimo para o dia.
Hora do almoço.
O refeitório estava agitado, os grupos já se formavam, as risadas ecoavam pelos corredores. Mas meu foco agora era outro. Após almoçar rapidamente, peguei meu crachá, os materiais técnicos e segui para uma das salas de informática, onde faria testes de conexão e reinstalações em algumas máquinas.
Ao empurrar a porta, a cena me parou por um segundo: Suellen estava lá dentro, ao lado de Beatriz e Cecília. As três sentadas, com seus notebooks abertos, rindo de alguma conversa boba, mas ao me verem, o riso cessou.
— Oi... — murmurei, forçando um sorriso. — Posso interromper por um instante?
Cecília levantou uma sobrancelha, desconfiada. Beatriz me lançou um olhar curioso, mas gentil. Suellen, porém, congelou.
Me aproximei dela.
— Eu... queria pedir desculpas — falei, com a voz mais baixa e sincera. — Por ontem. Pelo susto. Eu não queria te deixar desconfortável.
Ruan Off
Suellen On
Sentir meu coração disparar de uma forma. Minhas mãos suavam de maneira preocupante. A presença dele tão próxima que me deixava nervosa de um jeito que não sabia explicar.
“Ele veio falar comigo… ele mesmo… depois de tudo.”
As palavras dele me tocaram como um vento leve, suave, e ao mesmo tempo intenso. Mas as presenças de Cecília e Beatriz me deixavam inquieta. Cecília com seu olhar julgador, Beatriz observando tudo em silêncio.
“Por que justo agora? Por que aqui?”
Queria sorrir. Queria dizer que estava tudo bem. Que sim, eu lembrava dele. Que nunca o esquecerá. Mas tudo parecia travado, Minha garganta, Minha mente, a vergonha, o medo, a dúvida.
“Será que ele sente o mesmo? Será que ele também lembra?”
Apesar do desconforto inicial, senti uma alegria silenciosa dentro de mim. Uma chama acesa, mesmo em meio ao receio.
— Tudo bem — disse baixinho, desviando o olhar para o monitor, tentando esconder o sorriso que ameaçava surgir.
Suellen Off
O silêncio se alongou por mais alguns segundos, o peso das palavras de Ruan ainda pairando no ar. Suellen tentou controlar a ansiedade, mas algo dentro dela não permitia que os pensamentos se organizassem. O simples fato dele ter vindo até ela, pedido desculpas... tudo aquilo parecia surreal. Ela sentia que, por um momento, o mundo ao seu redor havia diminuído. Seus amigos, o ambiente da escola, tudo parecia se distanciar. Só existia aquele instante entre eles.
A tensão entre eles era palpável. Suellen queria, com toda a força do seu coração, sorrir, olhar para ele e dizer que estava tudo bem. Mas, em vez disso, ela se viu desviando o olhar para o monitor, como se tentasse esconder o turbilhão de emoções que surgiam dentro de si.
Ela era, na maioria das vezes, uma garota forte, acostumada a controlar seus sentimentos e suas ações. Mas agora, diante dele, tudo parecia mais confuso. Como ele havia se aproximado de novo, como ele a havia tocado de um jeito tão profundo? Era como se o destino, ou a vida, tivesse dado uma segunda chance para algo que ela nunca soubera que desejava.
“Será que ele vai me tratar assim o tempo todo? Será que ele vai continuar tentando conversar comigo, ou isso foi só um momento?”
Suellen balançou a cabeça discretamente, tentando afastar os pensamentos. Mas, enquanto isso, suas amigas observavam o encontro com olhares mistos de curiosidade e julgamento. Cecília, com sua postura crítica, não parecia muito convencida da bondade nas intenções de Ruan. Beatriz, sempre reservada, apenas observava em silêncio, como se tudo aquilo fosse algo distante demais para ela se envolver.
Ruan parecia ansioso, como se tivesse a necessidade de confirmar que tudo estava bem entre eles. O olhar que trocou com Suellen foi intenso, e Suellen não pôde deixar de perceber a sinceridade no seu rosto. Era difícil de acreditar, mas ela queria acreditar. Mesmo que, no fundo, uma parte dela ainda estivesse cheia de inseguranças.
Mas antes que qualquer palavra pudesse ser dita, uma leve batida na porta interrompeu o momento. Um dos professores entrou apressado, o que fez a tensão diminuir instantaneamente. A rotina da escola voltou a se impor, e todos seguiram com seus afazeres.
Mas enquanto a porta se fechava atrás deles, Suellen sentiu uma onda de calor invadir seu peito. Algo que ela não poderia explicar, mas que, de alguma forma, a fazia querer mais. Mais desta conversa, mais desse olhar, mais dessa curiosidade que ela sentia crescer dentro de si.
Ela respirou fundo, tentou se concentrar, mas não pôde evitar a sensação de que algo tinha mudado ali. De que, a partir daquele momento, tudo seria diferente.
Ruan, por outro lado, sentiu uma mistura de emoções. Ele ainda não sabia o que pensar sobre tudo aquilo. Era algo novo, algo diferente de tudo. Ele podia perceber, que alguma coisa nela o fascinava. Mas o olhar dela, os poucos sorrisos contidos, as palavras silenciosas... era tudo muito misterioso e intrigante, ele não a conhecia bem, mas queria descobrir. Ela estava em sua mente, o que parecia impossível de ignorar.
Ruan olhou para a porta da sala e fez uma mentalidade rápida: ele precisava trabalhar. Não podia deixar que esses pensamentos o paralisassem. No entanto, no fundo, uma coisa estava clara para ele: aquilo que tinha acontecido entre eles não poderia ser só um acaso. Algo mais estava ali. Ele não sabia o que, mas sabia que precisava explorar.
Quando o professor saiu da sala, Suellen tentou se recompor, mas seu corpo ainda estava tenso. O silêncio que se seguiu foi interrompido por Cecília, que, com uma expressão de dúvida, perguntou:
— Vai ficar tudo bem com ele, Suellen?
Suellen não respondeu de imediato. Seu coração ainda estava acelerado. Era difícil admitir para si mesma, mas ela sentia algo por Ruan, algo que ela não podia ignorar. Algo que ela nunca imaginou sentir por alguém como ele.
— Vamos ver, Cecília. Vamos ver... — foi tudo o que ela conseguiu dizer, desviando o olhar e tentando se concentrar novamente.
O que aconteceria agora, entre ela e Ruan? Estava claro que algo estava se formando, mas o que exatamente? As respostas ainda estavam em algum lugar distante, em um futuro incerto, mas que ela sentia estar mais perto a cada dia que passava.
(continua…)
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