QUANDO O CORAÇÃO RECONHECE
9 CAPÍTULO 9 -A mulher no espelho
Dezoito meses.
Se alguém tivesse me dito, na primeira noite naquela casa, que eu passaria dezoito meses escondida do mundo, eu teria dito que era impossível.
Naquela época, eu ainda contava os dias.
Depois comecei a contar as semanas.
Em algum momento, parei.
O tempo deixou de ser uma sequência de números e passou a ser medido de outras maneiras.
O dia em que consegui levantar da cama sem sentir uma pontada nas costelas.
O dia em que atravessei a sala sem me apoiar nos móveis.
O dia em que dormi quatro horas seguidas sem acordar dentro daquele carro outra vez.
O dia em que consegui entrar num veículo sem sentir as mãos suarem.
O dia em que Alice me levou para uma consulta e eu não passei todo o caminho procurando Aro nos carros ao redor.
O dia em que consegui falar sobre o acidente sem tremer.
E, principalmente, os dias em que precisei me impedir de ligar para Jacob.
Esses foram muitos.
Nos primeiros meses, não houve transformação.
Houve recuperação.
Meu corpo estava fraco.
Eu havia perdido peso rapidamente depois do acidente, mas não da forma saudável que Alice queria. Era perda de massa, falta de apetite, noites mal dormidas e medo.
Por isso, quando Alice apareceu certa manhã com uma nutricionista, um fisioterapeuta e uma pasta que parecia conter o planejamento estratégico de uma invasão militar, eu soube que minha vida tinha acabado.
— O que é isso?
Alice colocou a pasta sobre a mesa.
— Sua recuperação.
— Isso tem abas coloridas.
— Naturalmente.
— Alice, ninguém precisa de abas coloridas para se recuperar de um acidente.
Ela abriu a pasta.
— Você precisa.
— Por quê?
— Porque, se depender de você, vai viver de café, biscoito e ansiedade.
— Eu sobrevivi assim durante anos.
— Seu conceito de sobrevivência é assustadoramente baixo.
Revirei os olhos.
— E depois diz que sou dramática.
— Você quase morreu num rio e continua discutindo comigo sobre biscoito.
— Biscoito é importante.
— É exatamente por isso que existe uma aba chamada alimentação.
Olhei para ela.
— Eu odeio você.
— Vai odiar mais daqui a três meses.
Ela estava certa.
A fisioterapia evoluiu para exercícios.
Os exercícios se tornaram treinamento.
Meu corpo mudou.
Não rapidamente.
Não magicamente.
Mudou porque durante meses eu aprendi a usá-lo novamente.
Perdi o excesso de peso que carregara durante anos, mas também ganhei força.
Minhas pernas ficaram mais firmes.
Minha postura mudou.
Minhas costas deixaram de se curvar automaticamente quando eu tentava desaparecer dentro de uma sala.
E então Alice descobriu uma nova missão.
Fazer com que eu andasse.
Segundo ela, até aquele momento eu apenas me deslocava.
— Pessoas caminham — declarou.
Eu estava no meio da sala usando sapatos de salto pela primeira vez.
— Eu caminho.
— Você avança em direção ao perigo enquanto torce para nenhum móvel entrar no caminho.
— Isso é caminhar.
— Não é.
Dei dois passos.
Tropecei.
Alice me segurou.
— Viu?
— O tapete levantou.
— O tapete não se mexeu.
— Você não pode provar.
— Emma Taylor não culpa o tapete.
Parei.
— Quem?
Alice também parou.
Ainda não tínhamos decidido definitivamente meu novo nome.
Havíamos testado vários.
Alguns pareciam nomes de personagens de novela.
Outros pareciam falsos demais.
— Emma Taylor — Alice repetiu.
Experimentei mentalmente.
— Emma Taylor.
— Gostei.
— Parece uma mulher que sabe andar de salto.
Alice sorriu.
— Exatamente.
Olhei para os meus pés.
— Então precisamos escolher outro nome.
Alice começou a rir.
Foi assim que Emma Taylor nasceu.
Não num momento dramático.
Não diante de documentos secretos.
Mas porque eu quase caí usando um sapato de salto.
O aparelho foi retirado meses depois.
Eu já deveria tê-lo retirado antes do acidente, mas sempre adiava consultas.
Alice ficou mais emocionada do que eu.
Olhei para meu sorriso no espelho.
Parecia estranho.
— Meus dentes estão enormes.
— Seus dentes estão normais.
— Tem certeza?
— Sarah, você passou anos olhando para metal.
Passei a língua pelos dentes.
— Estou pelada.
Alice fechou os olhos.
— Por favor, nunca diga isso no consultório odontológico.
Ri.
Era estranho.
Meu sorriso parecia meu.
E ao mesmo tempo não parecia.
Depois vieram os olhos.
Minha miopia sempre fora alta.
Muito alta.
Os óculos faziam parte do meu rosto desde a infância.
Eu não me lembrava de como era acordar e enxergar o quarto.
Depois de avaliações médicas e de finalmente estar em condições adequadas, fiz a correção.
Na primeira manhã em que abri os olhos e consegui enxergar o relógio sem procurar os óculos na mesa, chorei.
Alice entrou no quarto e me encontrou sentada na cama.
— Está doendo?
Balancei a cabeça.
— Eu consigo ver.
Ela sorriu.
— Eu sei.
Olhei pela janela.
As folhas das árvores tinham contornos.
As casas tinham detalhes.
O mundo estava inteiro antes mesmo que eu colocasse os pés no chão.
— Passei a vida acordando dentro de uma mancha.
Alice sentou ao meu lado.
— E agora?
Sorri.
— Agora está tudo em foco.
Por algum motivo, aquela frase me fez pensar em Jacob.
Desviei o olhar.
Alice percebeu.
Não disse nada.
Meu cabelo cresceu.
Muito.
Alice recusou-se a cortá-lo durante meses.
— Estou esperando.
— Esperando o quê?
— Material.
— Meu cabelo é material agora?
— Para mim, tudo é material.
Quando finalmente decidiu que estava longo o suficiente, chamou alguém de confiança.
Não cortaram muito.
Deram forma.
Camadas.
Movimento.
Meu cabelo escuro passou a cair abaixo dos ombros de uma maneira que eu nunca tivera paciência para manter.
Minhas sobrancelhas foram corrigidas.
Minha pele recebeu cuidados que eu nem sabia que existiam.
Aprendi maquiagem.
Ou, mais precisamente, Alice tentou me ensinar maquiagem.
— Isso é corretivo.
— Parece tinta.
— Não é tinta.
— Quanto custa?
Ela disse.
— É tinta.
— Sarah.
— Por esse preço, deveria corrigir minhas decisões amorosas também.
Alice riu.
— Para isso não existe cosmético suficiente.
— Grossa.
Aprendi.
Primeiro devagar.
Depois melhor.
Aprendi a destacar meus olhos sem escondê-los.
A usar maquiagem sem parecer que tinha brigado com uma caixa de lápis de cor.
Aprendi que elegância não precisava significar excesso.
Emma Taylor não seria extravagante.
Seria discreta.
Sofisticada.
Segura.
As roupas foram outra guerra.
— Não.
— Sarah.
— Não.
— Experimenta.
— Isso não tem tecido suficiente.
Alice olhou para o vestido.
— Tem tecido até abaixo dos joelhos.
— Está grudado.
— É o modelo.
— O modelo me odeia.
— O modelo está perfeito.
Saí do provador.
Alice ficou em silêncio.
— O quê?
Ela sorriu.
— Nada.
— Alice.
— Olha no espelho.
Olhei.
Não gostei da sensação que veio.
Porque gostei da mulher que vi.
E senti culpa por gostar.
O vestido acompanhava meu corpo agora muito mais magro.
Minha postura estava diferente.
Meu cabelo caía bonito.
Meus olhos apareciam sem as lentes grossas.
— Parece outra pessoa.
Alice se aproximou.
— Ainda é você.
— Não parece.
— Sarah...
— Não estou dizendo que é ruim.
Toquei o próprio reflexo.
— Só estou dizendo que não parece comigo.
Alice ficou ao meu lado.
— Talvez porque você tenha passado a vida acreditando que só existia uma versão possível de você.
Não respondi.
Mas a parte mais difícil não foi cabelo.
Nem maquiagem.
Nem peso.
Nem roupa.
Foi aprender a esconder Sarah.
Alice percebeu antes de mim que mudar meu rosto não seria suficiente.
Aro me conhecia.
Jacob me conhecia ainda mais.
Paul e Emmett sabiam como eu reagia.
Como ria.
Como ficava irritada.
Como mexia as mãos quando estava nervosa.
Como inclinava a cabeça quando desconfiava de alguém.
Como mordia o lábio quando tentava não dizer alguma coisa.
— Precisamos mudar isso — Alice disse.
— Minha personalidade?
— Não.
— Ainda bem.
— Precisamos ensinar você a controlá-la.
— Isso parece pior.
Foi.
Aprendi a falar mais devagar.
Eu sempre falara rápido quando estava nervosa.
Emma não.
Aprendi a esperar antes de responder.
Aprendi a controlar minhas expressões.
Alice fazia perguntas inesperadas.
— Jacob está namorando.
Meu rosto mudava.
— Reprovada.
— Isso foi golpe baixo!
— Aro descobriu que você está viva.
Eu congelava.
— Reprovada.
— Alice!
— Rosalie está na casa de Jacob.
— Eu não me importo.
Alice levantava uma sobrancelha.
— Reprovada.
— Vai para o inferno.
— Sarah diria isso.
— Emma também pode mandar alguém para o inferno.
— Emma faria isso com elegância.
Respirei fundo.
— Alice, por gentileza, considere a possibilidade de ir para o inferno.
Ela sorriu.
— Melhorando.
Aprendi a conter.
A observar.
A pensar antes de reagir.
A não interromper.
A não gesticular tanto.
A não rir tão alto.
E, principalmente, aprendi a andar.
Demorou meses.
Ainda tropeçava ocasionalmente.
Mas agora conseguia atravessar uma sala de salto sem ameaçar a integridade física das pessoas ao redor.
Alice considerou aquilo sua maior conquista.
— Você está emocionada?
— Muito.
— Porque eu aprendi a andar?
— Porque desafiei a genética.
— Idiota.
Durante todo aquele tempo, eu acompanhava Jacob à distância.
Não diretamente.
Alice havia imposto limites.
Ela sabia que, se eu acompanhasse cada passo dele, enlouqueceria.
Então me contava apenas o necessário.
Ele continuava trabalhando.
Continuava mais magro do que antes.
O sorriso que eu conhecia quase nunca aparecia.
Paul e Emmett permaneciam perto dele.
Billy também.
Aro continuava presente.
Essa era a parte que importava.
O homem que tentara me matar continuava orbitando Jacob.
Com o passar dos meses, Aro provavelmente começou a acreditar que estava seguro.
Sarah Swan estava morta.
O pendrive desaparecera.
A investigação morrera comigo.
Era exatamente o que eu precisava que ele acreditasse.
Mas cada mês que me aproximava do retorno também significava mais um mês em que Bella acreditava que eu estava morta.
Essa culpa nunca desapareceu.
Aprendi a conviver com ela.
O que não era a mesma coisa.
Dezoito meses depois do acidente, Alice entrou no quarto carregando uma caixa.
— O que é isso?
— Última etapa.
— Se tiver salto de quinze centímetros, vou usar como arma.
— Não tem.
Ela colocou a caixa sobre a cama.
Dentro havia uma roupa.
Calça de alfaiataria.
Blusa clara.
Blazer.
Sapatos.
Tudo elegante.
Sóbrio.
Profissional.
— Coloca.
— Para quê?
— Quero ver uma coisa.
Troquei de roupa.
Alice fez minha maquiagem.
Arrumou meu cabelo.
Depois me fez ficar diante do espelho de corpo inteiro.
— Abre os olhos.
Abri.
E não reconheci a mulher diante de mim.
Não imediatamente.
Meu coração pareceu parar.
Ela era alta.
Magra.
O corpo estava firme depois de meses de exercícios.
O cabelo escuro e comprido caía em camadas bem cuidadas.
As sobrancelhas estavam desenhadas.
A maquiagem era discreta.
Os olhos verdes pareciam enormes agora que não existiam lentes grossas diante deles.
Meu sorriso não tinha metal.
As roupas se ajustavam ao meu corpo.
Minha postura era ereta.
Até a maneira como eu mantinha as mãos havia mudado.
Olhei para Alice pelo espelho.
— Quem é ela?
Alice não sorriu.
— Você.
Balancei a cabeça.
— Não.
Toquei meu rosto.
— Eu não pareço eu.
— Esse era o objetivo.
Virei novamente para o espelho.
Era verdade.
Sarah Swan tinha desaparecido.
A mulher refletida ali poderia entrar numa sala com Aro e ele provavelmente passaria por ela sem perceber.
Paul faria alguma piada.
Emmett provavelmente tentaria descobrir se eu era solteira.
Bella...
Meu coração apertou.
Bella poderia passar por mim na rua.
Talvez não me reconhecesse.
E Jacob...
Não consegui terminar o pensamento.
— Eu estou feliz.
Alice ficou ao meu lado.
— Pode estar.
— Isso me faz uma pessoa horrível?
— Não.
— Eu gosto.
Olhei para meu reflexo.
— Gosto de enxergar sem óculos. Gosto do meu cabelo. Gosto de conseguir andar sem tropeçar a cada três metros. Gosto das roupas.
Uma lágrima desceu.
— E odeio gostar.
Alice segurou minha mão.
— Por quê?
— Porque Bella acha que eu morri enquanto eu estava aprendendo maquiagem.
Minha voz falhou.
— Jacob passou dezoito meses sofrendo enquanto eu estava escolhendo vestido.
— Não foi isso que você fez.
— Parece.
— Você passou meses reaprendendo a viver depois de alguém tentar matar você.
Alice virou-me para ela.
— Você investigou. Recuperou seu corpo. Fez fisioterapia. Tratou seus olhos. Terminou seu tratamento dentário. Aprendeu a controlar coisas que poderiam denunciar você. Isso não foi uma brincadeira de transformação.
As lágrimas continuavam.
— Eles não sabem.
— Ainda.
— Jacob não sabe.
— Ainda.
Olhei para o espelho novamente.
— Ele não vai me reconhecer.
Alice não respondeu imediatamente.
— Provavelmente não.
Aquilo deveria ter me tranquilizado.
Em vez disso, doeu.
— É o que precisamos.
— Eu sei.
— Sarah...
— Eu sei.
Respirei fundo.
Olhei para aquela mulher.
— Emma Taylor.
Alice sorriu.
— Emma Taylor.
Repeti.
— Emma Taylor.
Pela primeira vez, o nome pareceu pertencer à mulher no espelho.
Só havia um problema.
Como colocar Emma Taylor dentro da Black Corporation?
Durante meses, discutimos possibilidades.
Consultoria externa.
Fornecedor.
Auditoria independente.
Cargo temporário.
Nenhuma parecia perfeita.
Eu precisava ter acesso suficiente para investigar sem despertar suspeitas.
Não podia aparecer simplesmente pedindo emprego.
E, principalmente, não podia parecer interessada demais na Black Corporation.
Então Jacob resolveu o problema sem saber.
Alice entrou em casa numa manhã praticamente correndo.
— SARAH!
Saí da cozinha.
— Meu Deus, o que aconteceu?
Ela colocou o notebook diante de mim.
— Olha.
Li.
Black Corporation.
Processo seletivo.
Auditoria interna independente.
Franzi a testa.
— O que é isso?
— Jacob abriu uma vaga.
Sentei.
Li novamente.
Ele estava criando uma estrutura própria de auditoria ligada diretamente à presidência.
Não responderia ao financeiro.
Não responderia aos antigos departamentos que Aro conhecia tão bem.
O profissional trabalharia diretamente com Jacob.
Meu coração acelerou.
— Por quê?
— Pelo que descobri, ele nunca desistiu completamente de entender o que você estava investigando.
Olhei para a tela.
A descrição da vaga parecia ter sido escrita para mim.
Experiência financeira.
Auditoria.
Análise de risco.
Revisão de processos.
Investigação de inconsistências.
Contato direto com a presidência.
— Alice...
Ela sorriu.
— Eu sei.
— Isso significa que eu ficaria perto dele.
— Muito.
— Todos os dias.
— Provavelmente.
— E de Aro.
— Esse é o objetivo.
Levantei.
Comecei a andar pela sala.
— Não.
Alice franziu a testa.
— Não?
— Eu não consigo.
— Você passou dezoito meses se preparando.
— Para entrar na empresa. Não para sentar na frente de Jacob e fingir que nunca o vi na vida.
— É exatamente isso que você precisa fazer.
— Alice, ele me conhece desde criança.
— Conhecia Sarah Swan.
— Eu sou Sarah Swan!
— Mas ele vai conhecer Emma Taylor.
Parei.
— E se ele perceber?
Alice ficou em silêncio.
— E se eu olhar para ele e esquecer?
— Você não vai.
— Como sabe?
— Porque você sabe o que está em jogo.
Olhei novamente para a vaga.
— Eu vou ter que apertar a mão dele.
— Sim.
— E chamar ele de senhor Black.
Alice quase sorriu.
— Recomendo fortemente não chamar de Jake.
— Não tem graça.
— Um pouco.
— Alice.
Ela ficou séria.
— Sarah, essa é a oportunidade.
Olhei para o notebook.
Era.
A oportunidade perfeita.
Quase como se Jacob tivesse aberto a porta e me convidado a entrar.
Sem saber.
— Precisamos de um currículo.
Alice ficou estranhamente quieta.
Olhei para ela.
— O quê?
Ela virou o notebook.
Havia um arquivo aberto.
EMMA TAYLOR — CURRÍCULO PROFISSIONAL
Meu queixo caiu.
— Você já fez?
— Há três meses.
— Alice!
— Eu gosto de planejamento.
Comecei a ler.
O currículo havia sido cuidadosamente construído sobre competências reais minhas, com uma identidade profissional plausível e referências que poderiam ser verificadas sem chegar a Sarah Swan.
— Isso é assustador.
— Obrigada.
— Não foi elogio.
Alice sentou.
— Só precisamos enviar.
Olhei para o botão.
Meu coração disparou.
— Espera.
— O quê?
Olhei para meu reflexo apagado na tela.
Depois para a mulher que aparecia na pequena fotografia profissional no currículo.
Emma.
Não Sarah.
Pensei em Bella.
Em Paul.
Em Emmett.
Em Billy.
Pensei em Jacob.
Na última vez em que o vira.
No estacionamento.
No abraço.
No beijo em meu rosto.
Até daqui a pouco.
Dezoito meses.
Meu Deus.
Fechei os olhos.
— Eu sinto tanto a falta dele.
Alice segurou minha mão.
— Eu sei.
— Vou estar na frente dele e não vou poder abraçar.
— Não.
— Não vou poder dizer que estou viva.
— Ainda não.
— Ele pode falar de mim.
— Pode.
Abri os olhos.
— Isso vai ser horrível.
Alice assentiu.
— Provavelmente.
Respirei profundamente.
— Faz.
— Tem certeza?
Olhei para o currículo.
Depois para Alice.
— Envia.
Ela clicou.
Foi simples.
Um movimento.
Um clique.
Dezoito meses de dor, medo, recuperação, culpa e preparação atravessaram uma tela em menos de um segundo.
Candidatura enviada com sucesso.
Fiquei olhando para a mensagem.
Alice apertou minha mão.
— Pronto.
— Não.
Minha voz saiu baixa.
— Agora começa.
Levantei e caminhei até o espelho.
Parei diante dele.
A mulher que me encarava tinha cabelos longos e bem cortados.
Olhos verdes livres das lentes que os esconderam durante quase toda a vida.
Sobrancelhas perfeitas.
Maquiagem discreta.
Dentes alinhados.
Corpo diferente.
Postura diferente.
Roupas diferentes.
Até a maneira de permanecer parada era diferente.
Eu tinha aprendido a caminhar.
A falar.
A respirar antes de responder.
A esconder o medo.
A conter a raiva.
A não deixar meu rosto contar tudo antes que minha boca pudesse impedir.
Aro não reconheceria Sarah Swan.
Paul não reconheceria.
Emmett não reconheceria.
Bella talvez não reconhecesse.
E Jacob...
Fechei os olhos por um instante.
Quando os abri, Emma Taylor estava diante de mim.
— Olá, senhor Black.
Minha própria voz soou estranha.
Controlada.
Profissional.
Alice apareceu atrás de mim no espelho.
— Muito bom.
Respirei.
Tentei outra vez.
— É um prazer conhecê-lo.
Dessa vez minha voz não tremeu.
Alice sorriu.
Eu não.
Porque naquele instante compreendi qual seria a parte mais difícil de toda aquela transformação.
Não era convencer Aro de que eu era outra pessoa.
Era olhar para o homem que eu amava desde os quinze anos...
e convencê-lo também.
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