QUANDO O CORAÇÃO RECONHECE

10 CAPÍTULO 10 - Quando os olhos não sabem


Passei dezoito meses me preparando para aquele momento.

Não ajudou em absolutamente nada.

Eu estava parada diante da Black Corporation havia quase três minutos e não conseguia abrir a porta do carro.

Alice, sentada ao meu lado, esperava.

Não me apressou.

Isso era pior.

— Pode dizer.

Ela virou o rosto.

— Dizer o quê?

— Que eu preciso sair do carro.

— Você precisa sair do carro.

— Obrigada.

— Disponha.

Olhei para o prédio.

Dezoito meses.

Durante anos, eu entrara ali praticamente todos os dias.

Conhecia os seguranças.

Conhecia as recepcionistas.

Conhecia o café ruim do terceiro andar.

Sabia qual elevador demorava mais.

Sabia onde Paul escondia comida.

Sabia que Emmett roubava canetas e jurava que eram dele.

Sabia exatamente quantos passos havia da porta do elevador até a sala de Jacob.

Era meu lugar.

E naquele momento eu precisava entrar como se nunca tivesse estado ali.

— Sarah.

Olhei para Alice.

— Hoje você não precisa provar nada.

— Preciso convencer meu melhor amigo de que nunca o vi na vida.

— Certo. Talvez precise provar uma coisa.

Respirei fundo.

Alice segurou minha mão.

— Você treinou.

— Eu sei.

— Sabe quem você é.

— Sarah Swan.

— Hoje não.

Fechei os olhos.

— Emma Taylor.

— Isso.

Abri.

— Emma Taylor não tropeça.

Alice sorriu.

— Preferencialmente.

— Emma Taylor não rouba comida.

— Essencial.

— Emma Taylor não chama Jacob de Jake.

— Muito importante.

— Emma Taylor nunca viu Paul e Emmett.

— Mesmo que tenha vontade de bater nos dois.

— Especialmente nesse caso.

Sorri.

Alice apertou minha mão.

— E Emma Taylor está indo a uma entrevista de emprego.

Olhei novamente para o prédio.

— Só uma entrevista.

— Só uma entrevista.

Abri a porta.

Antes de sair, Alice chamou:

— Sarah.

Virei.

— Respira.

Assenti.

Saí.


A primeira vitória aconteceu antes mesmo de eu entrar no prédio.

Não tropecei.

Parecia ridículo considerar aquilo uma vitória depois de tudo que tinha vivido, mas era.

Atravessei a calçada usando salto, bolsa no braço, postura ereta.

Alice havia escolhido um conjunto elegante e discreto: calça de alfaiataria escura, blusa clara, blazer ajustado.

Nada chamativo.

Nada que parecesse esforço.

Meu cabelo caía sobre os ombros em ondas suaves.

A maquiagem era leve.

Eu não usava óculos.

Não havia aparelho.

E cada passo havia sido treinado.

Entrei.

O segurança olhou para mim.

— Bom dia.

Meu coração apertou.

Eu o conhecia.

Ele não me conheceu.

— Bom dia.

Minha voz saiu exatamente como treinara.

Mais baixa.

Mais lenta.

Controlada.

— Tenho uma entrevista às dez. Emma Taylor.

Ele consultou o sistema.

— Vigésimo segundo andar, senhorita Taylor. Pode retirar a identificação na recepção.

— Obrigada.

Continuei.

Não olhei para trás.

Não podia.

Cheguei à recepção.

Disse meu nome.

Recebi o crachá.

Entrei no elevador.

E, pela primeira vez, permiti que minhas mãos tremessem.

Apenas alguns segundos.

Fechei os olhos.

— Você consegue.

As portas se abriram.

Saí.

E quase dei de cara com Paul Lahote.

Meu coração parou.

Paul vinha olhando o telefone.

Levantou os olhos.

Parou.

Eu também.

Por um segundo, esqueci Emma.

Era Paul.

Meu Paul.

O homem que me infernizara durante anos.

Que roubava minha sobremesa.

Que aparecia na minha mesa para reclamar da vida.

Que provavelmente tinha chorado no meu funeral sem corpo.

Meu primeiro impulso foi abraçá-lo.

O segundo foi dizer alguma idiotice.

Não fiz nenhum dos dois.

Paul me olhou.

De cima a baixo.

Meu coração bateu mais forte.

Ele não me reconheceu.

— Bom dia.

— Bom dia.

Tentei passar.

Paul abriu um sorriso.

Conhecia aquele sorriso.

Era péssimo sinal.

— Você está perdida?

Não.

Não estava.

Sabia exatamente onde ficava cada sala daquele andar.

— Espero que não.

Mostrei o crachá.

— Tenho uma entrevista.

— Auditoria?

— Sim.

Paul sorriu mais.

— Então talvez esteja no lugar certo.

— Fico aliviada.

Continuei andando.

Ele acompanhou.

Claro que acompanhou.

— Paul Lahote.

Estendeu a mão.

Olhei para ela.

Tive vontade de rir.

Apertei.

— Emma Taylor.

— Emma.

Ele repetiu meu nome.

— Bonito.

Meu Deus.

Eu havia passado dezoito meses sentindo falta daquele homem.

E ele precisou de quinze segundos para me fazer reconsiderar.

— Obrigada.

— É inglesa?

— Não.

— Americana?

Olhei para ele.

— Isso é uma entrevista paralela?

Paul sorriu.

— Curiosidade.

— Costuma interrogar todas as candidatas?

— Só as que parecem interessantes.

Eu quase revirei os olhos.

Quase.

Emma Taylor não revirava os olhos.

Sarah Swan queria acertá-lo com a bolsa.

— Imagino que o departamento de recursos humanos ficaria fascinado por essa informação.

Paul soltou uma gargalhada.

Meu coração doeu.

Eu conhecia aquela risada.

— Gostei de você.

— Isso é preocupante?

— Geralmente.

Antes que eu respondesse, ouvi outra voz.

— Lahote, você está assediando a candidata antes ou depois da entrevista?

Fechei os olhos por uma fração de segundo.

Emmett.

Quando virei, ele vinha pelo corredor segurando uma caneca.

Exatamente como eu lembrava.

Um pouco mais sério.

Talvez mais magro.

Mas era Emmett.

Meu Emmett.

Ele olhou para mim.

Parou.

E então abriu aquele sorriso enorme.

Também não me reconheceu.

— Bom dia.

— Bom dia.

Ele estendeu a mão.

— Emmett Cullen.

— Emma Taylor.

— Emma?

— Sim.

Emmett olhou para Paul.

— Você já tentou alguma cantada ruim?

— Não.

— Mentiroso.

Olhei para Paul.

— Tentou.

Emmett assentiu solenemente.

— Peço desculpas em nome da empresa.

— Você não representa a empresa — Paul protestou.

— Neste momento represento.

Emmett voltou para mim.

— Ele está emocionalmente carente.

Paul fechou a cara.

— Cala a boca.

— Perdeu uma amiga há algum tempo. Desde então ficou ainda mais idiota.

Meu sorriso desapareceu.

Emmett percebeu apenas a mudança, não a razão.

— Desculpa. Informação demais.

— Tudo bem.

Minha voz quase falhou.

Controlei.

Paul mudou de assunto.

— Você vai entrevistar com Jacob.

O nome bateu em mim.

Consegui apenas assentir.

— Senhor Black.

Dizer aquilo foi estranho.

Paul continuou:

— Não se assusta.

Emmett concordou.

— Ele parece bravo.

Paul completou:

— Ultimamente parece bravo até quando está respirando.

Meu coração apertou.

— Mas é um bom chefe — Emmett acrescentou.

— Excelente — Paul corrigiu. — Só não conta para ele que eu disse isso.

Eu precisava sair dali.

— Vou tentar lembrar.

Paul sorriu.

— Depois da entrevista, se quiser, posso mostrar o prédio.

— Ela não quer — Emmett disse.

— Como sabe?

— Porque eu tenho olhos.

Olhei para os dois.

— Senhores...

Os dois ficaram em silêncio.

— Agradeço muito a calorosa recepção.

Emmett começou a sorrir.

— Mas eu gostaria de chegar à entrevista antes de ser demitida de um emprego que ainda não consegui.

Emmett gargalhou.

Paul levou a mão ao peito.

— Ela é engraçada.

— E você continua sem chance — Emmett respondeu.

Eu me afastei.

Caminhei pelo corredor.

Um passo.

Outro.

Não tropecei.

Não olhei para trás.

Só quando dobrei o corredor permiti que um sorriso escapasse.

Pequeno.

Dolorido.

— Idiotas.

Eu tinha sentido tanta falta deles.


Então cheguei à porta.

JACOB BLACK

PRESIDENTE

Meu sorriso desapareceu.

A mão ficou gelada.

Durante dezoito meses, imaginei aquele momento.

Nenhuma versão chegava perto.

A assistente levantou-se.

— Senhorita Taylor?

— Sim.

— O senhor Black está esperando.

Meu coração batia tão forte que tive certeza de que ela podia ouvir.

— Obrigada.

A porta abriu.

E eu o vi.


Jacob estava atrás da mesa.

Por um segundo, o mundo simplesmente desapareceu.

Ele estava mais magro.

Foi a primeira coisa que percebi.

O rosto estava mais marcado.

Os ombros ainda largos, a postura ainda segura, mas havia alguma coisa diferente.

Ausência.

Era essa a palavra.

Como se uma parte dele tivesse sido retirada e o restante tivesse aprendido a continuar funcionando.

Ele levantou os olhos.

E eu quase esqueci como respirar.

Jake.

Meu Jake.

A vontade de atravessar a sala e abraçá-lo foi tão forte que precisei prender os dedos ao redor da bolsa.

Não.

Emma.

Eu era Emma.

Jacob levantou-se.

— Senhorita Taylor.

A voz.

Meu Deus.

Ao vivo era pior.

— Senhor Black.

Consegui dizer.

Ele veio até mim.

Estendeu a mão.

Olhei para ela.

Quantas vezes aquela mão havia segurado a minha?

Quantas vezes me levantara do chão?

Quantas vezes afastara meu cabelo do rosto?

Quantas vezes eu a segurara sem pensar?

Estendi a minha.

Nossos dedos se tocaram.

Meu coração disparou.

Jacob ficou imóvel por uma fração de segundo.

Só uma.

Apertei sua mão profissionalmente.

— É um prazer conhecê-lo.

Mentira.

A maior mentira da minha vida.

Os olhos dele permaneceram nos meus por tempo demais.

— Igualmente.

Soltei.

Precisava soltar.

Sentei quando ele indicou a cadeira.

Cruzei as pernas.

Coloquei as mãos sobre o colo.

Emma Taylor.

Eu havia treinado aquilo.

— Analisei seu currículo — ele começou. — É interessante.

— Espero que no bom sentido.

Um pequeno movimento surgiu no canto da boca dele.

Quase um sorriso.

Meu coração apertou.

— No bom sentido.

A entrevista começou.


Nos primeiros minutos, concentrei-me apenas nas perguntas.

Formação.

Experiência.

Auditoria.

Análise de risco.

Compliance.

Investigações internas.

Eu sabia responder.

Aquelas eram minhas competências.

Emma podia ter outro nome, mas o conhecimento era meu.

Quanto mais técnico o assunto se tornava, mais fácil era esquecer que o homem diante de mim era Jacob.

Até ele inclinar a cabeça.

Era um gesto antigo.

Fazia aquilo quando estava interessado.

Precisei olhar para os documentos.

— Por que auditoria?

Ele perguntou.

Respirei.

— Porque números raramente mentem sozinhos.

Jacob ergueu os olhos.

— Como assim?

— Pessoas mentem. Documentos podem ser alterados. Explicações podem ser construídas. Mas, quando você acompanha dinheiro por tempo suficiente, ele acaba contando uma história.

Jacob ficou em silêncio.

— Interessante.

— É uma maneira menos romântica de dizer que gosto de descobrir onde as coisas deixam de fazer sentido.

— E quando encontra?

— Não começo acusando.

Olhei diretamente para ele.

— Primeiro descubro se existe uma explicação razoável.

A expressão dele mudou.

Eu sabia por quê.

Aro.

— E se não existir?

— Continuo seguindo.

— Até onde?

Meu coração acelerou.

— Até encontrar a verdade.

Jacob recostou-se.

— Mesmo que seja inconveniente?

— Principalmente quando é inconveniente.

Ele me observou.

Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.

Eu sabia que precisava desviar.

Não desviei.

Era perigoso.

Porque olhar para Jacob sempre fora fácil demais.

E, naquele momento, alguma coisa no rosto dele mudou.

Não reconhecimento.

Não podia ser.

Era outra coisa.

Uma espécie de perplexidade.

Ele desviou primeiro.

— A vaga responde diretamente à presidência.

— Eu li.

— Terá autonomia.

— Também li.

— Isso significa que, se encontrar algo errado, traz diretamente para mim.

Quase disse:

Foi o que eu tentei fazer.

Engoli.

— Entendido.

— Algum problema?

— Nenhum.

Minha voz não tremeu.

Dezoito meses.

Valeram por aquilo.


A entrevista durou quase uma hora.

Quando terminou, eu estava exausta.

Não fisicamente.

Emocionalmente.

Jacob levantou-se.

Eu também.

— Recursos Humanos entrará em contato.

— Perfeito.

Ele estendeu a mão novamente.

Dessa vez eu estava preparada.

Ou pensei que estivesse.

Segurei.

— Obrigada pelo seu tempo, senhor Black.

Jacob olhou para mim.

— Senhorita Taylor.

Sorri.

Profissional.

Educada.

Controlada.

— Até logo.

Virei.

Caminhei até a porta.

Não tropecei.

Não corri.

Não olhei para trás.

Fechei a porta.

Continuei pelo corredor.

Passei pela assistente.

Entrei no elevador.

As portas fecharam.

Meu corpo começou a tremer.

— Aguenta.

Térreo.

Só precisava chegar ao térreo.

Saí.

Atravessei o saguão.

Paul estava longe conversando com alguém.

Não me viu.

Graças a Deus.

Atravessei a porta.

Andei até o carro.

Alice destravou antes que eu chegasse.

Entrei.

Fechei a porta.

E desabei.


— Sarah...

Alice mal conseguiu terminar.

Comecei a chorar.

Não um choro delicado.

Chorei como não chorava havia meses.

Alice tirou meu cinto e me abraçou.

— Ele está tão diferente.

— Eu sei.

— Está magro.

— Eu sei.

— Ele não sorri.

Minha voz falhou.

— Eu fiz isso com ele.

— Não.

— Eu estava na frente dele, Alice.

Chorei contra seu ombro.

— Ele olhou para mim e não sabia que era eu.

— Era o plano.

— Eu sei!

Afastei-me.

— E funcionou.

Olhei pela janela para o prédio.

— Funcionou perfeitamente.

Essa era a parte que doía.

— Paul não me reconheceu.

Limpei as lágrimas.

— Emmett não me reconheceu.

— Sarah...

— Eles deram em cima de mim!

Alice arregalou os olhos.

— Os dois?

— Paul primeiro. Emmett foi menos descarado.

Ela começou a rir.

— Não ri!

— Desculpa.

— Eu passei dezoito meses com saudade daqueles idiotas e em menos de dois minutos queria bater nos dois.

Alice riu mais.

Eu também.

Por alguns segundos, chorei e ri ao mesmo tempo.

Depois fiquei séria.

— Jacob apertou minha mão.

Alice parou de rir.

— E?

Olhei para ela.

— Eu quis abraçar ele.

Minha voz saiu baixa.

— Quase esqueci tudo.

— Mas não esqueceu.

— Não.

Respirei.

— Eu consegui.

Alice segurou minha mão.

— Conseguiu.

Olhei novamente para o prédio.

— Agora só precisamos que me contratem.


Jacob

A porta fechou.

Jacob permaneceu em pé.

Não sabia por quê.

Olhou para a porta por alguns segundos.

Depois para a própria mão.

Estranho.

Voltou para a cadeira.

Tentou olhar o currículo.

Emma Taylor.

O nome não significava nada.

Nunca tinha visto aquela mulher.

Tinha certeza.

Lembraria.

Era impossível não lembrar.

Emma Taylor era bonita de uma maneira que chamava atenção sem esforço.

Elegante.

Segura.

Controlada.

Cabelos escuros longos e bem cuidados.

Olhos verdes.

Postura impecável.

Roupas discretas e sofisticadas.

Absolutamente diferente de...

Jacob parou.

Sarah.

Franziu a testa.

Por que diabos tinha pensado em Sarah?

Olhou novamente para o currículo.

Não havia relação.

Nenhuma.

Sarah odiava salto.

Na verdade, salto odiava Sarah.

Sarah usava roupas que pareciam escolhidas durante uma queda de energia.

Tinha óculos tão grossos que Emmett dizia que poderiam ser utilizados como equipamento astronômico.

Quando ficava nervosa, falava rápido demais.

Gesticulava.

Derrubava coisas.

Tropeçava em móveis imóveis e depois culpava o móvel.

Emma Taylor entrara naquela sala como se tivesse nascido sabendo exatamente onde colocar cada passo.

Jacob sentiu alguma coisa no peito.

E, inesperadamente, quase sorriu.

Lembrou-se de Sarah caindo no tapete de sua sala.

Esse tapete está torto.

Sarah, ele está preso no chão.

Então está preso torto.

O canto de sua boca subiu.

Um sorriso pequeno.

O primeiro que surgia sem esforço em muito tempo.

E isso o fez voltar imediatamente à realidade.

O sorriso desapareceu.

Jacob olhou para a cadeira onde Emma estivera.

Não entendia.

Não era aparência.

Como poderia ser?

Aquelas duas mulheres não se pareciam.

Mas havia alguma coisa.

Talvez os olhos.

Verdes.

Não exatamente da mesma forma.

Ou talvez fosse o jeito como ela o encarava quando falava.

Não.

Era absurdo.

Talvez a voz.

Em alguns momentos, o timbre produzira uma sensação estranha.

Familiar.

Não a voz em si.

Alguma coisa por baixo dela.

Jacob recostou-se.

Fechou os olhos.

E percebeu outra coisa.

Durante quase uma hora, alguma coisa dentro dele estivera quieta.

A dor não desaparecera.

Sarah continuava morta.

O vazio continuava ali.

Mas, desde o instante em que Emma Taylor entrara naquela sala, ele sentira algo que não sentia havia dezoito meses.

Paz.

Não felicidade.

Não exatamente.

Pertencimento.

Como se uma parte dele, que permanecera em alerta desde a noite do acidente, tivesse parado de procurar alguma coisa.

Aquilo não fazia sentido.

Abriu os olhos.

— Ridículo.

Pegou o currículo.

Tentou voltar ao trabalho.

Não conseguiu.

Os olhos verdes voltaram à memória.

A voz.

Aquela frase sobre números.

A sensação quando apertara sua mão.

Não conhecia Emma Taylor.

Nunca a tinha visto.

E, ainda assim, por um momento absurdo, seu coração reagira como se a conhecesse havia muito tempo.

Jacob passou a mão pelo rosto.

Devia estar cansado.

Era isso.

Luto fazia coisas estranhas com as pessoas.

A porta abriu sem bater.

— E aí?

Jacob ergueu os olhos.

Paul entrou.

Emmett atrás.

— O quê?

Paul apontou para a porta.

— Emma Taylor.

Jacob fechou o currículo.

— O que tem?

Emmett sentou.

— Foi bem?

— Foi uma entrevista.

— Isso não responde.

Jacob olhou para ele.

— Ela é competente.

Paul sorriu.

— E bonita.

Jacob fechou a cara.

— Isso é irrelevante.

— Muito bonita — Emmett acrescentou.

— Vocês têm trabalho?

— Temos — Paul respondeu. — Mas isso é mais interessante.

Jacob respirou fundo.

— Saiam.

Emmett olhou para Paul.

— Ele gostou dela.

— Profissionalmente — Jacob respondeu.

Paul sorriu.

— Eu não perguntei.

Jacob ficou em silêncio.

Paul e Emmett trocaram um olhar.

— Saiam.

Os dois levantaram.

Emmett chegou à porta.

— Eu contrataria.

— Você tentou dar em cima dela?

Paul apontou imediatamente.

— Ele também.

Emmett virou.

— Você começou!

Jacob olhou para os dois.

Por um segundo, aquela discussão era tão familiar que quase parecia outro tempo.

Um tempo em que Sarah estaria ali para chamar os dois de idiotas.

E talvez fosse por isso que a lembrança dela voltara com tanta força.

Talvez não tivesse nada a ver com Emma.

Precisava não ter.

— Fora.

Paul abriu a porta.

— Está bem.

Emmett saiu.

Paul foi atrás.

Antes de fechar, Emmett colocou a cabeça para dentro.

— Só para constar, se você não contratar, talvez eu...

Jacob jogou uma caneta.

Emmett fechou a porta rindo.

Silêncio.

Jacob olhou para a caneta caída.

Depois para a porta.

E percebeu que, por alguns segundos, quase tinha se sentido como antes.

Olhou novamente para o currículo.

Emma Taylor.

Passou o polegar pela borda do papel.

Não sabia quem aquela mulher era.

Não sabia por que sua presença havia despertado lembranças de Sarah.

Não sabia por que os olhos dela pareciam carregar alguma coisa que sua memória insistia em perseguir.

E certamente não sabia por que, quando ela saiu pela porta, o vazio pareceu voltar.

Jacob ficou olhando para o nome.

Depois apertou o botão do telefone interno.

— Sue?

— Sim, senhor Black?

— Sobre a candidata que acabou de sair.

— Emma Taylor?

Ele hesitou por uma fração de segundo.

— Sim.

Olhou para a cadeira vazia.

— Coloque-a na próxima etapa.

Desligou.

Tentou voltar aos documentos.

Cinco minutos depois, ainda estava na mesma página.

E, sem perceber, voltou a pensar em olhos verdes.

Não nos de Emma.

Nos de Sarah.

Jacob fechou os olhos, irritado consigo mesmo.

Aquilo não fazia sentido.

Mas, pela primeira vez em dezoito meses, alguma coisa dentro dele parecia ter reconhecido um lugar antes que sua mente soubesse onde estava.

E isso o assustou muito mais do que deveria.