Q.I.- Fanfic Interativa
31 V de Vingança- Parte Um
Notas iniciais
Kjirsten Milani
“Ideal seria se as pessoas soubessem amar, o tanto que sabem fingir.”- Bob Marley
Ela cobriu o rosto com um capuz para passar despercebida, ninguém a reconheceria em meio aos destroços do local que ainda exalavam fumaça e poeira embora o lugar já tivesse sido destruído a um bom tempo. Ela não encontrou nenhum corpo entre os destroços e nem nas proximidades. O máximo que pode encontrar foram marcas de luta em um barracão próximo ao Instituto e estátuas de leões e gárgulas destroçadas, o que indicava que eles haviam lutado com Volúpia e seus monstrinhos de pedra.
Ela se repreendeu por ter adiado a viagem, talvez se tivesse chegado ali dias antes talvez ainda pudesse encontra-los e convence-los a se juntar a ela. Não era fácil, ela sabia que os veteranos do Instituto já haviam lutado contra os monstros de Sebastian e poucos tinham sobrevivido, mas de que adiantava ter tantas habilidades se eles não pensavam em usá-las contra o verdadeiro vilão? A cada dia Sebastian criava mais um monstro e aumentava seu exército.
Kjirsten tem uma habilidade rara, ela consegue controlar o fogo. Seu corpo pode entrar em combustão completa sem que ela sofra nenhuma queimadura, ela suporta calores intensos e resiste ao frio como se aquilo não fosse nada. Mesmo que mergulhasse em um vulcão ou ficasse nua na Antártida não faria a mínima diferença, ela consegue criar faíscas e labaredas com as palmas das mãos e criar um incêndio, sem contar que pode formar figuras com o fogo. Ela conseguiu essas habilidades após anos de treinamento árduo e cansativo.
Ela começou a treinar com oito anos de idade, Sebastian matou seus pais para tentar captura-la, mas ela conseguiu fugir e chegou ao Instituto onde treinou até fazer quatorze anos, mas nessa época ela criou um ódio enorme de Sebastian, não era rancor por ter matado seus pais, era um ódio nocivo e perigoso. Ela fugiu do Instituto e foi em busca dos pupilos de Sebastian para conseguir extrair informações, depois chegou a invadir a base principal dele e roubar muitos dados sem ser percebida, no final ela apenas deixava um bilhete em cima de alguma mesa com a escrita, “A perigo vermelho, esteve aqui!”.
Agora ela tinha dezenove anos, com cinco anos de experiência, ela era uma notável espiã, ninguém conseguia ver quando ela entrava, nem quando ela saía. Sabia os pontos fracos dos monstros de Sebastian e as passagens secretas para todas as suas fortalezas, sabia toda a rotina dele e sabia como entrar na base sem ser vista. Ela tinha todo o plano traçado em sua mente para derrota-lo, mas ela sozinha não conseguiria lutar contra tantos monstros, mesmo que quisesse. Ela precisava de ajuda, mas o Instituto estava destruído e ela não sabia onde eles deviam estar.
Ainda com a face oculta pelo casaco ela entrou no bosque novamente, seguindo a trilha de poeira e árvores destruídas. Por sorte ela não encontrou nenhum dos soldados de Sebastian, com certeza eles estavam interessados em coisas mais interessantes. Resolveu deixar o Instituto para depois e focar-se nos aliados mais poderosos. Ela ouviu relatos de pessoas terem visto mulheres com habilidades incríveis escondidas em diferentes florestas do mundo. Ela sabia muito bem que se tratava do Clã Perdido. O clã Fantasma sempre foi um motivo de discussão, pois não se sabia se ele existia ou era apenas uma mera lenda. Mas se fosse real, Kjirsten não tinha certeza se elas a ajudariam, afinal aquela luta era dela e não das outras pessoas, mas deixar Sebastian matando pessoas inocentes apenas para construir o sonho dele não era aceitável. Mesmo que não fosse aceita e fosse expulsa da cidade, ela pelo menos teria tentado. E se conseguisse a lealdade delas, teria um exército poderoso ao seu lado, faltando apenas convencer o Instituto e todos os jovens que sofrerem do distúrbio que ela pudesse encontrar em seu caminho.
Mas ela não era burra, tinha uma estratégia em mente a qual passou meses planejando. Primeiro ela tinha de atacar os aliados de Sebastian, um a um, enfraquecendo as forças dele. Matariam secretamente cada um deles para que Sebastian não desconfiasse de nada e por fim o atacaria com seu exército sem que menos esperasse. Ela sabia que se ele morresse todo o seu exército se transformaria em fumaça em questão de segundos.
Mas tudo tinha de ser minunciosamente repensado para que não houvesse baixas significativas durante o assassinato da “panelinha” de Sebastian, eles precisariam de toda a força para atacá-lo e derrota-lo. Mas os aliados dele também não eram fracos e seus castelos e fortalezas eram protegidos a ferro e a fogo. Precisariam atraí-los para fora de seus fortes e mata-los discretamente.
Para a “Perigo Vermelho”, aquilo não era mais uma vingança em nome de sua família, era uma obsessão, ela precisava vencer Sebastian mesmo que para isso tivesse de entregar cada gota de seu sangue, mesmo que tivesse que se sacrificar, ela não ligava, partiria em paz no dia em que soubesse que Sebastian estava morto e sepultado.
° ° °
Isabel Lins
“A verdade dói, a mentira mata, mas a dúvida tortura.”
Florence and the Machine- Drumming Song
Já dava para ver as dunas de areia lá embaixo, metros intermináveis de calor e também de maravilhas. Os egípcios eram e ainda são umas civilizações mais enigmáticas. Cheias de lendas, mistérios e maldições. Ela não sabia muito sobre a história egípcia, mas bastava falar em Egito que já vinham em sua mente as enormes pirâmides, as cidades ocultas e as lendas que faziam parte da cultura daquele povo.
Ela sempre quis ir ao Egito, viver uma aventura parecida como a do filme “A Múmia” ou descobrir a tumba perdida de algum faraó esquecido pelo tempo. Mas ela não estava ali para descobrir as maravilhas da terra dos faraós, e sim para convencer três jovens a se juntarem ao Instituto e treinarem arduamente para um dia lutarem contra Sebastian. Até onde sabiam, eles eram os ladrões mais procurados do Cairo, e era um trio de adolescentes o que dificultava as coisas.
Eles não aceitariam a ajuda deles e possivelmente os atacariam quando tivessem oportunidade. Para adolescentes que vivem na rua, confiar nas pessoas é difícil afinal eles poderiam ter sido rejeitados pela sociedade por aparentarem ter habilidades novas. Deviam ter sido abandonados pelos pais, amigos e familiares, abandonados pelas pessoas em quem eles mais confiavam. Mas se eles tivessem mente fraca seria fácil hipnotiza-los já que tanto Clevence quanto Mary e até ela mesma possuíam esse tipo de habilidade, mas se eles eram os ladrões mais procurados do Cairo não deviam ter mentes tão vulneráveis assim.
Após alguns minutos o avião pousou e o grupo de seis pessoas desembarcou- ela, Alice, Mary, Clevence, Machael e uma garota asiática que ela sabia se chamar Tabitha- o aeroporto era decorado com diversas imagens egípcias e artefatos antigos.
– Estamos procurando por um homem magro, moreno e que geralmente gosta de nos esperar com um cartaz amarelo-queimado- Clevence comentou enquanto entregava as malas de cada um, a memória dele era mesmo fascinante- ele sempre chega alguns minutos atrasado por isso temos tempo. Querem comer alguma coisa?
Isabel fez um sinal negativo com a cabeça, apenas Mary e Machael tinham fome, eles comeram alguma coisa enquanto esperaram pelo homem que os levaria ao instituto do Cairo, que estava para ser inaugurado. Depois de comerem uma coisa qualquer de uma das lanchonetes do aeroporto apenas esperaram que o homem aparecesse. Após uma hora de espera, foi que o dito homem apareceu para busca-los. Já não era tão novo, tinha uma rala barba esbranquiçada que decorava seu queixo, seus cabelos eram pretos mesclados com fios grisalhos, usava uma túnica em amarelo-ouro cheia de desenhos hieróglifos que Isabel não conseguia identificar qual era, e como Clevence havia dito, ele estava segurando um cartaz amarelo-queimado com uma mensagem de boas-vindas.
O homem os levou até o estacionamento do aeroporto que estava lotado de pessoas e carros.
– Desculpem ter feito vocês esperarem- o homem era egípcio mais falava inglês normalmente, embora Isabel ainda não tivesse se acostumado com uma língua diferente do português, eles andavam na direção do carro que os levaria até o Instituto do Cairo- Mas eu tive uns pequenos imprevistos no caminho, a propósito sou Gullar. Como foi a viagem?
– Foi cansativa, mas foi tranquila- Clevence respondeu- e então, me fale sobre esses jovens.
– Andam dando muita dor de cabeça para os policiais do Cairo são rápidos e tem habilidades fora do comum, até onde eu sei são duas garotas e um rapaz são um trio perigoso. Mas acho que podemos convencê-los a se juntarem a nós.
– Acha?- comentou Alice- E se eles tentarem nos matar?
– Até agora eles ainda não fizeram nada de perigoso, mas se continuarem nessa vida de furtos em breve serão os mais procurados do Egito- Gullar abriu o porta malas e guardou a bagagem dos seis.
– E se eles estiverem do lado de Sebastian- disse Alice, sua voz tinha certo tom de preocupação- com certeza não vão se juntar a nós.
– Não acho que a notícia tenha chegado aos ouvidos de Sebastian e se chegou ele deve ter mandado um de seus ajudantes para investigar a autenticidade das informações, mas eu acho que não!
Eles entraram no carro, que embora não fosse tão grande, couberam todos confortavelmente. Eles saíram da avenida que dava acesso ao aeroporto e tomaram o caminho por uma rua erma e quase deserta que embora fosse a plena luz do dia, as ruas davam um ar melancólico e sombrio.
– O Egito é uma terra fascinante- comentou Gullar- as maldições, as lendas, tudo aqui tem um quê de dúvida e isso me fascina!
– Aqui é muito quente- disse Isabel- como aguenta ficar com essa roupa.
– No começo era difícil- eles viraram por uma rua cheia de prédios em construção e sem nenhum sinal de vida- mas o ser humano tem a brilhante capacidade de se acostumar. E pode fazer frio alguns dias, acredite nunca se sabe o que pode acontecer no Egito.
Mal o homem disse isso, o pneu traseiro do carro explodiu. O carro deu algumas voltas na rua, mas parou magicamente antes de bater contra um muro, Machael havia conseguido pará-lo, o garoto havia aprimorado suas habilidades desde a primeira batalha. O grupo saiu do carro assustado.
No meio da rua estava um jovem moreno e aparentemente egípcio, tinha os cabelos castanhos e bagunçados e um sorriso sádico brotava em seus lábios, ele mexia a boca freneticamente, mas não produzia nenhum som audível, pelo menos não para os humanos. Em questão de segundos diversos insetos começaram a rodear o jovem fazendo uma espécie de barreira natural. Duas garotas se puseram ao lado do jovem, uma delas parecia ser mais jovem, tinha os cabelos cacheados e curtos, aparentava ser frágil, mas uma bola luminosa apareceu magicamente em sua mão, Isabel sabia que foi ela quem explodiu o pneu do carro.
A última garota era ruiva e parecia séria, sequer encarava o grupo, apenas mexia os dedos gentilmente fazendo com que água se acumulasse ao redor dela. Eram os jovens que eles estavam procurando.
– Sabemos por que estão aqui- disse o rapaz- não queremos ajuda de vocês, não precisamos de vocês. Por isso ou vocês vão embora, ou serão mortos aqui e agora!
O senhor Gullar pôs-se a frente do grupo e começou a conversar com eles em árabe, Isabel não entendeu nada do que foi falado, mas sabia que o homem devia estar tentando convencê-los a pararem com aquilo.
O garoto gargalhou e olhou furioso para o homem, eles não queriam ajuda, pelo contrário, queriam apenas mata-los e nada mais do que isso.
° ° °
Kjirsten Milani
“A vingança é como feitiço, por mais que seja bem elaborada, sempre se volta contra o feiticeiro.”
Uma garoa fina caía sobre a cidade, à luz dos postes cintilava sobre ela transformando a rua deserta em um local brilhante e finamente belo. Com os cabelos ruivos escondidos em seu casaco verde-musgo os olhos de Kjirsten tinham um belo contraste com as gotas de água. Ela abraçava o próprio corpo para aquecer-se mais rápido. A rua era deserta e silenciosa, local ideal para ela poder conversar livremente com seu informante.
Em poucos minutos chegou à biblioteca, bateu na porta com força, mas não obteve nenhuma resposta. Voltou a bater diversas vezes, mas parecia que não havia ninguém lá dentro. As luzes estavam apagadas e ela não podia escutar nenhum som vindo de dentro. Ela escalou até a janela utilizando-se das falhas que havia na construção. Quebrou o vidro com o cotovelo e saltou como um gato para dentro do prédio.
O silêncio continuava a reinar soberanamente, as prateleiras cuidadosamente limpas e alinhadas criavam diversos corredores. Ela começou a andar pela biblioteca a procura de algum interruptor, ou até mesmo algum bilhete que justificasse a saída do bibliotecário.
Estava pensando em voltar outra hora quando pisou num líquido enegrecido, ela já havia visto aquilo antes, com toda certeza não era água ou suco. Estava seco e grudado ao chão, como se estivesse coagulado. Era sangue. Ela seguiu a trilha feita pelo sangue até chegar ao corpo caído do bibliotecário. Seus olhos castanhos estavam sem cor e sua barriga flácida tinha um enorme corte, outro corte também fora feito em sua garganta.
A jovem abaixou-se e examinou o padrão dos cortes. Ela sabia quem havia feito aquilo: Jean. Ela se vingaria dele mais tarde, fechou os olhos do homem deixando uma singela lágrima prateada deslizar pelo seu rosto. Ela puxou o celular das mãos do homem e ligou para a polícia, contando toda a história- omitindo algumas partes é claro- depois saiu pela mesma janela e ao chegar ao chão começou a sair dali a passos duros e rápidos, mas não sem antes pegar o que fora buscar com o homem.
A morte dele era mais um motivo para ela encontrar os fantasmas e o Instituto e dar fim a Sebastian.

Kjirsten Milani
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