Q.I.- Fanfic Interativa
10 Um Começo Nada Espetacular
Notas iniciais
Macheal Bernhardt
“Saber morrer é a maior façanha” – Pe. Antônio Vieira

Macheal começou com sua explicação de como mover objetos. Direcionou a mão (ainda gordinha, embora já tivesse oito anos) e fez com que a escova de cabelo de Mary descrevesse um círculo no ar.
– Incrível. – ela bateu palmas – Eu consigo te hipnotizar, quer ver?
– Não, obrigado – Macheal recusou com um aceno da mão gorda. Levantou os olhos profundos em direção ao beliche que Mary dividia com a irmão mais velha, Alice. A moça, deitava em sua cama no lado de cima, lia um livro qualquer que Macheal não se deu ao trabalho de desvendar o nome. Voltou os olhos para Mary. Ela estava observando-o.
– O que foi?
– Somos os mais novos da turma de novatos – ela comentou – E você é legal. Somos amigos?
– O que é ser amigo? – ele a encarou. Macheal adorava aprender mais coisas, e essa tinha lhe chamado a atenção.
– Você não sabe o que é amizade? – Mary parecia divertida – Amizade é quando duas pessoas confiam tanto uma na outra que seriam capaz de se pendurarem num abismo confiando que a outra segurará sua mão. Você conta tudo para ela e ela conta tudo para você, não há segredos entre amigos. São uma das oito maravilhas do mundo. – resumiu Mary.
– Você confia em mim para se jogar num abismo? – Macheal perguntou, espantado.
– Não. – Mary admitiu – Mas a confiança a gente ganha com o tempo. Não podemos forçar uma amizade, é verdade. – ela o encarou – Você é muito estranho. O que mais você não sabe?
– Como vou saber de algo que não sei? – Macheal coçou os cabelos louros.
Mary ficou pensativa e por fim disse o óbvio:
– É, você tem razão.
Eu diria que isso não é um começo espetacular de uma amizade. Já vi amizades começarem no balanço da escola, num beco sem saída, até mesmo com uma bolada de neve na cara, mas um simples “você tem razão” é novo para mim. E para Micheal também era. Ele nunca tinha ouvido que tinha razão. Ficou feliz. Quis apertar as bochechas de Mary (como vinha querendo desde que a viu pela primeira vez no alojamento). Quis que ela repetisse aquilo. Porém não repetiu.
No meu ponto de vista, Mary tem razão em dizer que amigos são aqueles que confiam cegamente um no outro, porém só os melhores amigos. Neste mundo de impureza (onde a inocência dessas duas crianças não ataca) amizade virou algo como companheirismo “você pega a loira e eu pego a morena” para homens. “Você compra o top e eu a saia, me empresta depois”, para mulheres. Companheirismo por vantagens individuais. São “amigos” que espalham segredos, amigos que roubam amores antigos de outros. Simples amigos que não se consideram amigos de verdade, mas mesmo assim estão lá para colocar a mão no seu... Ah, você entendeu. Não sou o especialista em amizade, nunca tive uma que durasse mais de poucas linhas. Normalmente (e constantemente) sou esquecido após minha narração. Você tem tanta coisa para fazer que minha única tarefa da narrar o enredo acaba sendo meio fácil. Por isso eu odeio os seres humanos.
– Você tem alguma cor preferida? – Mary quebrou o silêncio com sua voz gentil, que tocava os ouvidos de Macheal como e fosse melodia.
– Amarelo. – Macheal se iluminou – Minha cor preferida é amarela. É a cor da alegria, o sol é amarelo e... Meu cabelo também.
Mary sorriu, assentindo e logo dizendo, mesmo sem Machael perguntar:
– Minha cor preferida é o marrom. É a cor que mais combina com a minha pele e a pele da minha irmã – Mary parecia iluminada – Meus olhos são marrons também.
– Castanhos – Macheal corrigiu-a.
– Você disse que seus cabelos eram amarelos. – ela torceu o nariz, mesmo assim conseguiu soltar uma risada fraca.
Macheal acompanhou-a na risada. Era ótimo rir com Mary, ela era uma companhia agradável, de fato.
º º º
– A primeira aula de vocês é de autoconhecimento – Madame Gláucia levou os novatos até a área com salas (que não fizeram parte do tour pelo Instituto do dia anterior) e os deixou na porta de uma no final do corredor. – Professor Rafael os ajudará nisso. Ele é um veterano separado para substituir o professor oficial, que está em viajem junto com o Conselho. Boa aula aos alunos do horário um. – Madame Gláucia deixou que os separados entrassem na sala.
Pela manhã tinham recebido um horário enrolado num papel junto com um laço vermelho e o uniforme do Instituto para vestirem. Mary era da classe 3, sendo que Macheal era da 2. Ele tinha ficado muito desapontado quando vira que não iria ficar junto de Mary, é verdade, mas sua turma não era totalmente desconhecida. Ele teria aula de equitação no primeiro horário, e estava muito animado com isso. Andar em cavalos parecia maravilhoso. Madame Gláucia deixou os alunos da classe 3 na sala de artes, onde teriam aula. Depois levou os últimos novatos em direção ao estábulo. A construção antiga de madeira vermelha já desbotava, mas parecia muito agradável aos olhos de Macheal. Ele adorava o rústico. Com um andar em salto, ele saltitava ao encalço de Madame Gláucia, que explicava como funcionava a aula. E o professor deles.
– Como Professor Manoel não está conosco, mas sim com o Conselho, teremos um substituto também. Gloss Violett cuidará de vocês durante a aula. – Madame Gláucia se virou – Gloss não pode sair na luz do Sol nem um momento sequer. Não fiquem perturbando-a, ou poderão acabar chorando e pedindo por suas mães. Gloss é autista, os cavalos significam bem mais para ela do que para qualquer outra coisa. Nada de chicletes, luzes fortes ou conversas. Silêncio em toda a aula. E, pelo amor que têm pelas vidas de vocês, não olhem nos olhos dela.
Com isso, abriu a antiga porta do estábulo, fazendo um rangido irritante. Eles observaram, fascinados, os cavalos relinchando e se inclinando em um “bem vindos”. No interior do estábulo os cercados para cavalos era bem encostado na parede, dos dois lados dela, enquanto o meio ficava livre e com bastante espaço para correr montado de um lado para outro. Um potrinho chamou a atenção de Macheal, ele estava fora do cercado, diferente dos demais, saltitando e vindo saudar os novos visitantes. Ele roçou a crina na mão de Macheal quando passou pelo garoto.
– Segurem! – ouviram uma voz se erguer no final do estábulo. Madame Gláucia foi a única que não ficou assustada. Se grudou no pescoço do potrinho e o levou entre tapas até onde a menina estava. Ela se levantou, quase duas vezes maior que Macheal (o que não era muito difícil, já que ele tinha apenas oito anos) e com os cabelos brancos presos num coque alto na cabeça. Os olhos pareciam pretos como carvão e os lábios dela estavam com feridas abertas. – Ele gosta de fugir – ela comentou, pegando o potrinho cuidadosamente pela orelha e o puxando – Menino feio. – disse com a mesma voz monótona, sem animação ou exclamação. Uma simples nota contínua.
Aquela deveria ser Gloss. Gloss vestia uma saia preta que ia até o final dos joelhos, uma camiseta vermelho-vivo e ainda por baixo uma camisa de botão branca. As mangas da camisa arregaçadas e botas de cavalgar em seus pés. Ela prendeu o potrinho e caminhou até o lado de Madame Gláucia, o tempo todo com a cabeça baixa e os olhos fixados no chão.
– Está, novatos, é Gloss Violett, a instrutora de vocês. Gloss vai ensiná-los como dominar os cavalos. – Madame Gláucia sorriu – Principalmente como manobrá-los.
– Eu sei andar a cavalo – um menino mais alto que Macheal disse enquanto caminhava para a frente da turma. – Andei quando era criança, também sou autista.
– Claro, andar de cavalo desse jeito é fácil – Madame Gláucia concordou – Mas e se ele estiver no céu?

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