Q.I.- Fanfic Interativa
11 Prata de Lobisomem
Notas iniciais
Alice Dallas
“O universo não é um espetáculo, é uma integração” – Graça Aranha

As luzes piscavam por todos os lados enquanto o som era alto e as vozes femininas harmoniosas juntas. Manchas de azul, amarelo e rosa faiscavam por todos os lados. Estavam debaixo de um forro muito mal-feito e com o calor batendo nas costas. Suor e empurrões eram comuns enquanto se moviam tentando chegar a um lugar mais afastado do resto das pessoas. Alice colocou Mary em cima de uma barra de ferro que se erguia na parede para proteger os fios que ligavam os alto-falantes. Ela se colocou ao lado de Mary, servindo de apoio para a irmã não cair. Elas respiravam com dificuldade pois a fumaça e o ar estavam pesados lá embaixo.
– Eu não sabia que festas eram permitidas – Alice gritou por cima do barulho para o ouvido de Mary, que apenas soltou uma risada.
– Não são – a menina respondeu gritando – Mas faz parte da juventude essas coisas.
– Madame Gláucia não irá repreender?
– Acho que já é comum – Mary tentou parecer convincente. – Vamos embora, eu não gosto de lugares assim!
– Certo. – Alice virou de costas para a pequena, que se agarrou na maior e deixou que a levasse para fora do alojamento. A festa, do lado de fora da porta, parecia inexistente, como se as paredes reprimissem todo o som que deveria sair. Alice se surpreendeu com isso, embora não se importasse, ela só queria dormir, mas não poderia já que seu quarto era uma festa escarlate. Por fim, deixou Mary escorregar até o chão. A menina sorriu, com os cabelos grudando na testa.
As vozes das garotas ainda eram ouvidas, talvez as únicas coisas que escapassem do quarto. Elas cantavam em uma língua que Alice não conhecia e na verdade eram perfeitas para animar festas. Vestidas com versões mais ousadas do uniforme do Instituto, as seis garotas dançavam sincronizadamente (como se tivessem ensaiado o ano inteiro) e suas vozes se completavam. No começo do show elas foram aplaudidas ao subirem no palco improvisado. Se apresentaram como Roena, Cay e Caty, Tabitha, Sufla e Sakura. Todas com olhos puxados e cabelos muito bem arrumados. Mary tinha até dito que elas eram bem bonitas.
– Para onde vamos agora?
– Eu não conheço o Instituto – Alice admitiu – Hoje foi nosso primeiro dia aqui e... Não deu pra decorar nenhum cômodo. Você lembra para onde era a biblioteca?
– Não – Mary encolheu os ombros.
– Tudo bem – a mais velha tocou seu ombro, confortando-a – Vamos encontrar algum lugar para dormir. Venha, vamos andar.
Mary segurou a mão de Alice, enquanto as irmãs caminhavam em direção ao salão principal. Saindo debaixo da escada, onde ficava o alojamento, e se direcionando para a escada que levava até os quartos dos veteranos. Lá, Alice observou um movimento quase imperceptível neles. Os veteranos já estavam dormindo e nem se preocupavam com a festa que acontecia lá embaixo. Após alguns segundos observando, Alice notou três meninas saindo correndo de um quarto no corredor feminino, todas com saias curtas e blusas de decote ousado. Desceram as escadas, tropeçando em seus saltos e entraram debaixo da escada. Alice soltou uma risada fraca. Encontrou um garoto que subia as escadas.
– O que está fazendo? – ele perguntou, quando viu as irmãs grudadas.
– Queremos dormir – Alice respondeu – Mas nosso alojamento está sendo usado como um lugar para festas.
– Certo. – o menino coçou os cabelos cacheados e louros, parecia um anjo com aura dourada. – Não conheço muitos dos veteranos, comecei ano passado aqui, mas... Veja com o Edgar, ele é especialista em acabar com a festa dos outros, aposto que vai te ajudar a recuperar seu alojamento – e então sorriu para Mary. Um sorriso radiante, como um raio de Sol. – Está com sono, baixinha?
Mary se escondeu atrás de Alice. Mary não era de fugir das pessoas, porém aquele menino era bonito demais para se ficar encarando. Até Alice reconhecia e admitia isso.
– Tudo bem, você é tímida – ele levantou os olhos para Alice – Eu preciso ir logo, já era pra eu estar dormindo. Acho que Edgar pode te ajudar, mas ele estiver dormindo e com os olhos inundados em olheiras então corra em direção ao estábulo, Gloss costuma ser mais amigável que ele.
– Entendi, obrigada. – Alice fez um gesto de cabeça.
– Por nada – o menino sorriu, novamente seu sorriso repleto de calor, que invadiu Alice e a levou até as nuvens, depois a abaixou de novo enquanto ele terminava de subir as escadas e se virava em direção ao corredor masculino. – Ah, e o quarto do Ed é esse aqui – ele indicou a terceira porta do corredor. – Caso não saiba.
Alice assentiu, puxando a irmã pela mão e indo em direção ao quarto do garoto. Ergueu a mão para bater na porta, porém ela se abriu sem que fosse preciso terminar o ato. Ele a inspecionou com as sobrancelhas arqueadas e os olhos faiscando. Não parecia cansado, somente muito vermelho e deprimido. Edgar a reconheceu, enquanto tentava abrir um sorriso surpreso.
– O que faz aqui, novata?
– O alojamento foi transformado em uma balada. Vim ver se você podia fazer alguma coisa a respeito disso.
– Vejamos – Edgar coçou os olhos – É o terceiro ano seguido que vêm bater na minha porta pelo mesmo motivo... Céus, isso é deprimente. Eu não posso fazer nada a respeito disso. Porém, como já sugeri para outros novatos antes de você, vá para o estábulo, Gloss fica nele até o sol começar a subir de novo e ela vai arranjar um pouco de palha, feno e pelos de cavalo para vocês dormirem.
– Dormir com os cavalos? – Alice piscou, surpresa.
Edgar soltou o ar, ainda mais deprimido.
– Ou então – completou – entrar no quarto de algum outro veterano, pedir pra ele deixar você dormir no tapete do quarto e passar frio com a sua irmãzinha. Se eu fosse você escolheria os estábulos. Além do fedor insuportável, eles são mais hospitaleiros.
Alice piscou recebendo o desafeto de Edgar. Não queria discutir com aquele menino, mas já tinha se decidido sobre ele, era uma má influência para Mary, era má influência para ela. Deveriam ficar longe dele. Com isso assentiu e resmungou com agradecimento, descendo as escadas novamente e atravessando o salão principal. Encontrou a porta de arco que levava até o jardim, um lugar muito belo, porém pequeno. Logo estavam indo pela trilha que as levava até o estábulo. Antes que chegasse lá, porém, sentiu o vento quente mudando de direção, e logo um vento frio atravessou suas roupas, arrepiando-a. Teve de se jogar no chão para que as patas do cavalo não atingissem seu rosto. Se virou rapidamente, vendo o alazão pousando suavemente na relva. Seu cavaleiro era alguém de cabelos prateados e roupas do uniforme do colégio. Ela desceu do animal e se virou em direção as duas novatas.
– O quê? – perguntou — Aqui?
– Estamos indo dormir nos estábulos – Mary respondeu antes de Alice, surpreendendo a própria irmã.
A menina de cabelos prateados, refletindo na luz da Lua, apenas tocou o lombo de seu cavalo castanho e o soltou. Ele tinha asas longas e duas vezes maiores do que se corpo. O cavalo bateu as asas, fazendo o vento levar os cabelos das três garotas, se levantando no ar e subindo até as nuvens, depois sumiu na escuridão da noite. Alice olhou para aquilo maravilhada. Por fim, disse:
– O que ele era?
– Um pégaso – a menina de cabelos prateados respondeu. – Gloss.
– É uma fêmea?
– Não. – ela pareceu irritada – Meu nome é Gloss.
– Ah, sim – Alice ruborizou – Eu sou Alice, e essa é minha irmã Mary. Nós viemos de...
– Uma cidadezinha na Inglaterra. – completou Gloss – Eu sei. – e então começou a tossir forte. – V-V-Você pode entrar. – ela tentou controlar a língua, porém parecia que a própria estava lutando contra a boca.
Alice colocou as mãos nos ombros de Mary e arrastou a irmã em direção ao estábulo, enquanto a pequena olhava para Gloss por cima do ombro. Mary tinha se interessado muito por aquele cabelo prateado, ainda mais pela língua que travava sua própria luta. Por fim, entrou no estábulo e sua visão de Gloss se perdeu, dando espaço aos cavalos que dormiam de cabeça escorada nos cercados. Alice encontrou uma pilha de feno e disse que serviria de cama. Realmente era muito confortável, e logo Mary começou a dormir. Olhando para o forro do estábulo, Alice também se perdeu em sonhos.

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