Q.I.- Fanfic Interativa
12 O Cheiro da Chuva
Notas iniciais
Rose Annebelle Danvers
“O Silêncio é o pudor das almas sábias e prudentes” – Antero de Figueiredo
Nickelback — How You Remind Me
Rose estava sentada na poltrona no quarto de Edgar, enquanto os outros se sentavam na cama ou na mesa de centro. Tinham acabado de dizer algo sobre “Resistência” e isso martelava na cabeça de Rose. Qual o significado daquilo? Enquanto tentava descobrir por si mesma, ouviu a voz de Ariel chamando-a para o mundo real.
– Você deve estar se perguntando o que é isso. – ela começou – A Resistência é simplesmente a nossa resistência. Entenda: O Instituto é formado por ambientes que possuem vários truques. No quarto dos novatos colocamos algumas substâncias no ar para que eles possam dormir mais rápido e não terem pesadelos. Mas alguns não se sentem tocados por esse ar e por isso podem acabar acordando aos gritos, como foi o seu caso. Mas a Resistência não é simplesmente resistir aos soníferos que nos são dados. É bem maior. – Ariel se preparou para, talvez, dizer a coisa mais importante da vida de Rose – Seus pesadelos podem se tornar reais. Se sua mente for forte o suficiente para burlar algum truque do Instituto, então ela é forte o suficiente para tornar real os seus maiores medos.
– Não entendo – disse Rose, por fim.
– Rose, você nunca irá entender se não explicarmos tudo para você – o garoto de olhos claros então disse. Ele tinha se apresentado como Clevence – Tudo está voltado para Sebastian. Sebastian já foi um dos fundadores do Instituto, anos atrás, mas ele se voltou contra nós. Acredita-se que quando um de nós chegar ao 100% de ativação do cérebro, seremos imunes a qualquer doença do mundo e isso despertou nele desejo de fazer uma sociedade perfeita. Sebastian tinha um dom extremamente incomum; ele podia entrar nos sonhos das pessoas enquanto elas dormiam e então formar pesadelos são apavorantes que eles se transformavam em realidade. Ninguém nunca conseguiu fazer isso e talvez seja o poder mais perigoso. Você resistiu á Sebastian e seu medo, você resistiu ao pavor e nada de ruim aconteceu, por isso você tem uma mente forte e mentes fortes podem ser boas ou más. Dependendo do jeito como as usa. Estamos te convidando para a Resistência, um círculo de alunos com mentes fortes que usam sua força para o bem. Vamos destruir Sebastian e seu exército de pesadelos.
– Uma guerra?
– Basicamente isso – Clevence concordou com um meneio de cabeça -, Sebastian está disposto a destruir qualquer um que se opor ao seu plano de tornar o mundo “melhor”.
– Mas isso não é verdade? O mundo não pode se tornar melhor? – Rose perguntou.
– Ele pode – Edgar entrou no meio da explicação – Mas não desse jeito. Muito tempo atrás, quando epidemias tomavam conta do mundo humano, eles rogaram para Deus que os ajudasse. Deus, em todo seu poder, concedeu aos homens um livro que dizia como se livrar de todas as doenças que existiam e existirão. Mas a arrogância e ganância de alguns homens fizeram com que o livro de perdesse. Esse é o jeito correto de alcançar a saúde da humanidade, achar o livro. Não o que Sebastian quer fazer. Para construir uma sociedade de mentes evoluídas é necessário evoluir as próprias pessoas e isso quer dizer nascer de mentes evoluídas. Como as nossas. Nós nascemos de pais que já tinham tendências á isso e somente nossos filhos serão mais evoluídos que nós, assim como todo o resto. Essa evolução pode durar séculos até atingir a perfeição, afinal a raça humana demorou muito para chegar ao que é hoje. – ele deu uma pausa entre as falas – Sebastian quer investigar o nosso corpo para descobrir o que faz de nós mais evoluídos e assim transmitir isso para as outras pessoas, com transplantes ou até mesmo matando-as. Ele já conseguiu até mesmo introduzir isso no próprio filho. Algumas pessoas raptadas para os testes dele morreram em suas mãos e não podemos deixar que ele use almas inocentes para descobrir o que quer. Temos de achar o livro e destruir Sebastian.
– Então vamos fazer isso. – Rose disse – É somente encontrá-lo. Somos em mais números, não?
– Sebastian consegue transformar os próprios pesadelos em realidade e assim ele possui um exército de trevas ao seu lado. Já tentamos uma vez e muitos alunos do Instituto morreram. Por que acha que somente nós somos os veteranos mais especiais? Fomos os únicos sobreviventes. Luci, que era da turma dos mais velhos do Instituto, com cinco anos de casa, foi a única entre sua turma a voltar. – Edgar olhou para a amiga e então voltou os olhos para Rose – seria suicídio levar novamente nossas forças ao encontro de Sebastian, por isso treinamos diariamente. Sebastian precisa de mentes evoluídas para gerar monstros mais espertos e perigosos, por isso nós protegemos os sonhos de vocês, bloqueando a entrada dele. Mas algumas mentes, fortes como já dissemos, iguais a sua são uma vítima fácil. Você tem de aprender a bloquear isso. Nós, veteranos, temos nosso quartos pois já aprendemos a bloquear as ondas de Sebastian, mas os novatos ainda não. São frágeis. – ele parou, encarando Rose para ver se a menina tinha entendido.
– Então quer dizer que... Sebastian está atrás do livro e também tem um exército de pesadelos ao seu lado. – ela deu uma pausa – Deus existe.
– Não diria que isso é verdade – Edgar colocou a mão entre as pernas – Não sabemos se foi Deus, ou alguma outra divindade que existe no universo. É um lugar amplo e ninguém sabe se existe mesmo coisas como anjos, arcanjos e serafins. Sabemos que existem pégasos que possuem asas para voarem e corpo de cavalo para trotarem. Sabemos que existem fadas para cuidar dos rios e lagos e balkars que lutam todos os dias contra o apodrecimento da colheita. Sabemos também que somos apenas uma raça entre milhões pelo universo. Sabemos que Gliese 581 G pode abrigar nossa espécie.
– Gisele?
– Gliese – corrigiu Edgar – Um planeta, ou semi-planeta, com condições para abrigar a raça humana, ele é basicamente como a Terra, porém maior.
– Continue – Ariel o interrompeu.
– Sim – concordou Edgar – Enfim. Se você quer escolher alguma coisa para acreditar, acredite em nós, pois nós existimos. Mas se quer alguma religião, então pode escolher qualquer uma.
Rose abaixou os olhos.
– Eu não acredito em Deus.
– Essa é uma escolha sua – Ariel interrompeu algo que Edgar estava prestes a falar – Assim como eu prefiro acreditar em Buda e Luci em Papai Noel.
Luccina ergueu os olhos, encarando Ariel indignada. Ariel apenas soltou uma risada divertida, enquanto voltava os olhos para Rose.
– Você entendeu? O verdadeiro objetivo da Resistência é encontrar o livro e acabar com Sebastian, ajudar a humanidade em vez de destruí-la.
Rose assentiu.
– Mesmo assim – ela completou após um silêncio – Acredito que alguns poderiam ser destruídos sim. – ela se lembrou do menino de cabelos louros e olhos azuis vívidos que apunhalava sua mãe sem dó.
º º º
Rose sentiu o vento e o cheiro de chuva. Reconhecia aquilo como uma tempestade que se aproximava. Ela aprendeu a identificar isso na fazenda, junto com papai. Eles sempre tinham de olhar para o céu para descobrirem o que aconteceria e assim programavam o que seria permitido fazer naquele dia ou não. Mamãe gostava de sentir o cheiro de chuva e principalmente de se sentar num cobertor de frente para a lareira quando uma tempestade pesada tomava a fazenda. Era adorável, na verdade. Rose sempre achou que tempestades fossem maravilhosas e avassaladoras, de alguma forma românticas e serenas. Acalmavam seu peito sempre que ela se sentia ansiosa ou temerosa.
Agora, porém, não era uma tempestade do qual ela gostasse. Ela não estava em casa, enrolada no cobertor com a mãe, vendo as labaredas na lareira, mas sim na janela do alojamento, observando os vastos campos de morangos e laranjas que se estendiam por quilômetros. Odiava aquele lugar, porém o cheiro que o vento trazia das laranjas era maravilhoso. Ao sair do parapeito da janela, notou que a maioria dos novatos ainda não tinha acordado. Na noite anterior ela tivera um pesadelo horrível onde era perseguida por algo humanóide e depois quando voltara para o quarto ele estava repleto de luzes coloridas e música alta. Mas já no fim. Quando a festa acabou (aproximadamente onze horas da noite), eles arrumaram as camas e as enfileiraram de volta para o lugar e então os novatos puderam dormir em paz. Alguns ainda animados com a festa, outros extremamente cansados. Rose estava neutra. Ainda absorvendo o que tinha escutado dos veteranos. Eles disseram que pela manhã, antes do café, iriam buscá-la em seu quarto para que ela fosse apresentada como membro da Resistência. Ela concordou. A Resistência parecia o lugar mais próximo a um lar, no momento, e ela gostava disso.
Com sorte poderia até arranjar uma nova família. O que ela duvidava muito.

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