Q.I.- Fanfic Interativa

2 Sorrisos Mentirosos - Rose Annebelle Danvers


Notas iniciais
Espero que gostem ^-^ Aqui é a Meell! O Murilo vai viajar e por isso não postará os próximos capítulos, mas logo ele voltará para nossa alegria! Enquanto isso, contenham-se comigo!

Rose Annebelle Danvers

“O homem crê porque tem medo de não crer”

Linkin Park — Numb

Enquanto a tarde se desprendia do quadro que mamãe estava pintando, com pinceladas suaves de laranja e amarelo, vermelho fogo e uma simples lua surgindo no alto, Rose a observava, enquanto não dava hora de papai vir até a varanda a chamar as duas mulheres da família para a diária leitura da bíblia. Constantemente papai e mamãe liam a Bíblia para Rose, numa chance de que a menina entendesse que seu dom não era simplesmente errante, mas sim um poder divino de Deus concedido a ela.

Rose não sabia se acreditava, mas nunca disse que não acreditava em Deus. Ela acreditava, sim. Mas não sabia se aceitava que seus poderes eram presentes de Deus. Talvez Deus não precisasse mesmo lhe dar aquilo, afinal ela não era uma garota especial, não fazia outras coisas especiais. Ela era uma garota comum. Uma garota comum que possuía o dom de controlar objetos sólidos utilizando a mente e possuía um cálculo incrível que lhe permitia concluir qual o tempo que um objeto levaria para atingi-la e assim pegá-lo no ar.

Eram habilidades muito diferentes e seus pais insistiam em treiná-la. Abandonou a escola ainda muito jovem e teve aulas em casa. Aprendeu a ler e escrever junto com a mãe e a fazer contas de matemática com o pai. Também aprendeu histórias como a de Davi, Samuel e Salomão. Decorou o nome dos primeiros parágrafos de Números e depois leu Gêneses inteiro em um dia. Se dedicava muito, na verdade, pois queria que os pais se sentissem satisfeitos e orgulhosos. Até ali ela os amava e sabia que só faziam aquilo para o seu bem. E se realmente Deus tivesse lhe dado de presente para eles, então queria dizer que papai e mamãe eram pessoas que mereciam o melhor.

O céu do entardecer era uma pintura em si, e mamãe conseguia captar com perfeição cada cor. Ela era uma pintora digna daquele entardecer, já que seria o último com todos reunidos. Enquanto papai aparecia na porta, ele carregava uma xícara de café e os cabelos estavam em desânimos, no roupão azul marinho, e acenou para que as duas entrassem em casa. Mamãe, com sua trança ruiva e os fios rebeldes tentando escorregar pelo vento, parecia respirar o vento mais puro da campina, enquanto o vento batia em seu rosto e lhe acariciava as bochechas em covinhas. Mamãe era muito bonita e na verdade nem parecia ter mais de trinta anos. Rose nunca a tinha visto como uma pessoa velha, diferente de papai, que já tinha cabelos grisalhos.

Logo a Lua iluminaria o carvalho que ficava sobre clareira, onde ela e papai tinham feito um balanço de pneu e lá brincavam todas as noites, admirando a Lua que sempre parecia maior daquele lugar. Rose amava o lago que passava perto de casa. Morar numa fazenda tinha suas vantagens, embora também tivesse desvantagens. Esta noite, porém, a Lua estaria negra, manchada de sangue, enquanto ela chorava de dor.

Mamãe se levantou de sua cadeira, pegando na mão de Rose. Sorriu, um sorriso normal. Mamãe era a dona dos sorrisos, e Rose sempre pensou que era muito artificial ficar sorrindo do jeito que ela fazia. Era quase mentiroso.

– Hoje nós vamos aprender como Daniel resistiu ao manjar do rei. – ela disse, com a voz doce e suave, do jeito que Rose se lembrava. Ela sempre mantinha a imagem de mamãe em sua mente como uma jovem de vinte anos, com cabelos ruivos esvoaçando e uma juventude resplandecendo na pele. Ninguém diria que ela tinha filhos. A voz sempre harmoniosa e os sorrisos mentirosos nos lábios.

Rose assentiu, enquanto subiam a varanda e entravam na casa. Papai estava colocando os biscoitos no prato cor-de-rosa que ele tinha dito “ser um presente da vovó”, sendo que Rose nunca tinha visto sua avó, nem acreditava ter uma. Ele sorriu para Rose, o mesmo sorriso falso de mamãe, e então serviu café em outras duas xícaras. As duas tinham sido pintadas por mamãe. A terceira, que papai usava, era um presente de casamento que eles guardavam.

Rose nunca conheceu ninguém que tivesse ido ao casamento de papai e mamãe, quanto mais alguém que tivesse lhes dado um presente. Não sabia porque os pais nunca tinham falado de amigos ou porque moravam tão afastados da cidade grande, mesmo assim era bom o isolamento e como o silêncio reinava quando os pais iam para a cidade fazer compras. Ela podia se sentar na janela do quarto, com as pernas cruzadas, folheando o livro ilustrado de histórias da Bíblia, que mamãe lhe dera quando tinha apenas oito anos. Rose também gostava de ouvir o som do silêncio de noite, antes de dormir. Era ótimo ouvir grilos e sapos á quilômetros de distância. Lá no lago, onde os animais faziam uma festa particular.

Sentando-se no chão da sala, sobre o tapete que mamãe escovava todos os dias, ela cruzou as pernas finas, enquanto deixava o vestido subir e cobrir os joelhos. Usava normalmente calças jeans surradas e blusas desbotadas, porém aos Domingos era proibido usar calça, por isso ela sempre mantinha um ou dois vestidos limpos no armário, para que papai não brigasse com ela. Rose também era proibida de cortar os cabelos (talvez eles nunca tivessem percebido, mas às vezes, quando estava sozinha, ela pegava a tesoura e cortava as pontas). Rose curvou as costas, enquanto pegava a xícara e a levava aos lábios. Quente como o inferno, pensou. E então tomou mais um gole. O líquido queimava na garganta, e para ela esse era um gosto muito bom. Papai se sentou logo na poltrona mais próxima, mamãe no chão, na frente da filha, enquanto esperavam o grito do primeiro grilo. Era sempre assim. Até um grilo finalmente gritar, eles não começavam um estudo.

O grilo gritou, e Rose virou a cabeça para o lado de onde veio o chiado. Ele estava empoleirado na poltrona que mamãe usava quando queria admirar a lareira. Na janela mais atrás, vagalumes brilhavam e as roseiras que cresciam tomando as paredes da casa estavam visíveis, com suas cores vermelhas com o sangue e com seus espinhos, demonstrando que até a beleza mais pura podia ser perigosa.

Aos doze anos, Rose já sabia que vagalumes eram somente animais, e não estrelas. Mas não podia deixar de compará-los.

– O que olha, Rose? – perguntou papai, enquanto abria a Bíblia.

– Os vagalumes – mentiu. Ela na verdade estava admirando os espinhos grossos, pontiagudos e de tom esbranquiçado.

– São animais adoráveis, de fato – ele concordou com um meneio – Mas nada é mais interessante que o Livro da Vida... – e com isso começou um discurso, que sempre iniciava com “Deus nos concedeu um anjo, para que cuidássemos dele e o ensinássemos, por isso estamos com você hoje, Rose...”. Ela nunca ouvia esse discurso. Gostava das aventuras, de como os reis antigos matavam seus inimigos e de como Deus se vingava. Mas depois de ter estudado o Velho Testamento inteiro e começado o Novo Testamento, percebeu que parecia que Deus tinha mudado, Ele não era mais vingativo, mas parecia um pai com coração derretido. Era quase com papai, mesmo. Rose preferia o outro. Mesmo assim, não tinha dito isso aos pais.

Rose, mais tarde na vida, aprenderia a odiar os livros.

Com uma batida oca e um som forte de cascalho, ela virou o rosto para a janela, novamente. Tudo parecia normal, mas ela sentia que não estava exatamente igual. Tentou ignorar, mas logo ouviu os barulhos de metal batendo, como a porta de um carro sendo fechada, e cascalho debaixo de botas. Ela poderia ter achado que eram os vizinhos chegando da cidade grande, com suas mercadorias. Mas o vizinho mais próximo estava á quinze hectares de distância da fazenda dos Danvers. Seu peito martelava, enquanto o coração fervia o sangue com adrenalina.

– O que foi, Rose? – perguntou mamãe, dessa vez.

– Acho que escutei algo – ela se levantou, indo cambaleante até a janela. Quando agarrou o batente, percebeu que as rosas estavam ainda maiores do que da última vez que as contemplou e o espinho roçou sua pele branca e fina, dos dedos tortos e magrelos. Ela engoliu em seco, enquanto virava os olhos para a entrada da fazenda. Era uma subida íngreme até a colina onde a casa estava, e nenhum carro se aventurava até lá, sendo assim os visitantes (raros, normalmente eram bispos e pastores) tinham de estacionar no começo da subida e se aventurar a pé. Rose não conseguiu ver nada além da típica e comum paisagem, que via todos os dias. – Acho que... Não foi nada.

– Não se preocupe, Rose, você está segura – papai sorriu – Nós moramos aqui exatamente por causa dessa segurança. Ninguém sabe dos seus dons além da igreja.

– Sim. – ela concordou, embora fosse cética perante aquilo.

Voltou a se sentar, um erro que cometeu. Após ouvir quinze minutos de história do pai, com alguns comentários engraçados da mãe, Rose sentiu-se a pior pessoa do mundo, pois a porta se arrombou e uma torrente de vento e gritos invadiu a casa. Coisas como “Deitados, no chão!” e “Onde está a menina?”. Papai se jogou no chão, soltando uma exclamação. Virou o rosto para Rose, com os óculos tortos no nariz.

– Corra, Rose, corra! Lilyan, leve-a daqui! – papai gritou, erguendo-se sobre os calcanhares e jogando seu velho corpo sobre um dos homens mascarados que invadiram a casa. Eles se assustaram, mas Rose não pôde ver o que aconteceu, pois mamãe pegou-lhe pelo braço e a levou correndo pelo corredor e depois a cozinha. Saíram pela porta dos fundos, onde o quadro que mamãe estava pintando ficara. O pôr-do-Sol já tinha se ido, e uma noite negra invadia a fazenda, junto dela estava a Lua de sangue.

Mamãe a empurrou colina abaixo.

– Vá para o lago, Rose, o lago! – ela disse, antes de ser apunhalada nas costas e cuspir sangue. Rose se arrepiou com aquilo, enquanto cambaleava nas próprias pernas. Quem tinha apunhalado sua mãe com uma adaga que brilhava ao reflexo da Lua (agora manchada de sangue) era um garoto de cabelos louros e olhos incrivelmente azuis. Parecia um anjo, com o cachos cindo sobre os cílios longos e dourados. Ele sorriu, avançando sobre Rose. Ela caiu nos calcanhares e tentou achar alguma coisa para se defender. Lançou a mão em direção a uma pedra ao lado do carvalho e a direcionou mentalmente para o garoto. A pedra voou e flutuou em direção ao garoto, atingindo uma velocidade incrível e batendo insignificantemente contra seu ombro esquerdo. Ele soltou uma risada contida, enquanto avançava – Seus poderes já se desenvolveram muito, Rosely Annebelle Danvers. Mas conosco você ficará melhor.

Ela se arrastava para trás, cada vez mais dolorosamente. O corpo da mãe estava caído na relva, como uma boneca sem ter alguém para manipulá-la. O sangue manchava a grama e tornava um misto de negro e verde, que lembrava Rosely de alguma campina que já tinha visitado, onde a relva era tão preta que parecia queimada. Se levantou rapidamente, tentando achar alguma coisa boa o bastante para jogar contra aquele rapaz. Ele, por sua vez, estava avançando lentamente, como se realmente estivesse querendo ver o que ela era capaz de fazer. Vendo o balanço, Rose não teve outra idéia além de usá-lo. Assim, moveu a mão em direção a ele e direcionou sua mente para as cordas que o prendiam. Demorou algum tempo, mas o tronco foi arrancado da árvore, voando numa velocidade ainda mais incrível que a pedra. As cordas do balanço envolveram o garoto da cabeça aos pés e o pneu encaixou em volta de seus braços. Ele cambaleou para frente e caiu sobre os joelhos.

Rose aproveitou aquilo para fugir, não queria mais ficar ali, não podia! Enquanto corria em direção ao lago, ela caiu, ralando o joelho e torcendo o tornozelo. Não se preocupou com isso, enquanto tratava de se arrastar para dentro de um arbusto de morangos. Ficou lá, sentada e encolhida, enquanto a Lua lhe sorria, manchada de sangue. Era uma Lua muito linda, de fato. Talvez a mais bela que Rose já tivesse visto até agora. Enquanto admirava a Lua, percebeu algumas estrelas. Algumas não, inúmeras delas. Todas rondando a Lua maravilhosa, enquanto pareciam dançar conforme o vento. Ela delirava, com a cabeça latejando. Virou e simplesmente desmaiou.

º º º

Rose acordou passando as mãos pelo lençol de linho branco. A cama não tinha travesseiro e por isso seus cabelos lhe serviam de auxílio. Levantou os olhos, tentando focar a luz, mas levou um choque de início. Logo seus olhos se acostumaram com a claridade, enquanto ela levantava uma mão e a apoiava no colchão. Levantou-se, cuidadosamente, sentindo a tontura tomar-lhe pela mão. Com alguns minutos tentando manter-se sentada, ela desistiu e se deitou novamente. Olhou em volta. Várias camas, numa espécie de quarto. Beliches enfileirados. Ela estava em uma beliche, também, na cama debaixo, enquanto a de cima parecia estar quase caindo sobre ela. Rose odiava beliches por causa disso, sempre tinha a impressão de que iria cair em cima dela. Rolou para o lado, colocando os pés no chão frio e arrepiando-se completamente.

Rose, após torcer os dedos do pé um contra os outros, encontrou um chinelo que fora colocado ao lado de sua cama. Talvez fosse de quem dormia em cima dela, mas não faria mal pegar emprestado. Colocou-o e sentiu que estava com o mesmo vestido daquela noite. Novamente olhou em volta. Um quarto grande, como a sala da casa da fazenda. Paredes pintadas de rosa claro, com chão de lâminas frias, sem calor. As janelas estavam com suas persianas fechadas e a escuridão prevalecia. As camas estavam todas arrumadas e parecia que nenhuma era ocupada. Enquanto se colocava de pé, Rose ouviu a porta do quarto rangendo e se encontrou de frente com uma velha, baixinha, de cabelos grisalhos lambidos num coque extremamente apertado. Ela lhe sorriu, um sorriso mentiroso, do jeito que Rose detestava.

– Bem vinda ao Orfanato para Meninas de Lancashire. – a velha a saudou – Rosely Danvers?

– Sim – concordou Rose, assentindo com a cabeça. – O que eu estou fazendo aqui?

– Pensei que seria óbvio – a velha soltou uma risada contida – Você é órfã, está num orfanato.

– Mas... O que houve?

– Não se lembra? Foi encontrada três dias atrás, dormindo dentro de um arbusto de morangos. A casa de fazenda da sua família queimou até não sobrar nada. Uma mulher foi encontrada morta no quintal e os restos mortais de um homem dentro da casa. Sugiro que esses seriam seus pais. Não se preocupe, a maior parte das meninas aqui viram seus pais morrer e sabem como lidar com isso. Se precisar, não se contenha para chorar, temos um quarto especial para isso.

Rose piscou, enquanto digeria as palavras dela. Ótimo, agora seus pais estavam mortos, após terem garantido que a segurança deles era garantida. Se Rose realmente estivesse sendo protegida e se era mesmo um presente de Deus, por que então Ele fez isso com ela? Essas foram as perguntas que se passaram pela mente de Rose durante os primeiros meses. Logo julgou que talvez não tivesse resposta para aquilo.

– ... e luta contra seu desejo de voltar para a superfície – concluiu Rose, enquanto segurava firmemente as mãos da garota menor. Os olhos dela brilhavam.

– Você também vem?

– Claro – Rose acariciou seus cabelos – Depois de você.

A garota assentiu, erguendo a barra do vestido e entrando no pequeno riacho, enquanto caminhava para o fundo. Ela tinha a cabeça loira e cheia de cachos caindo nos ombros. Lembrava o garoto que matara sua mãe, e Rose nunca a perdoou por causa disso. Ela tinha raiva de Aliss Vegga, a novata do orfanato. Usará muitas vezes sua persuasão para conseguir a sobremesa das outras garotas novatas, mas nunca tinha pedido para uma delas se afogar por vontade própria. Ali estava ela, sendo responsável pelo afogamento de Aliss Vegga. E estava feliz por causa disso.

Sentia-se vingada.

Até, é claro, a velha de cabelos lambidos e elásticos, brancos como nuvens, aparecesse e a impedisse de continuar. Aliss foi levada de volta para o orfanato tremendo de frio, mas nunca olhou para Rose com raiva. Na verdade, parecia admirar a outra menina, que teria prazer em matá-la usando as unhas. Rose sentiu os dedos ossudos da velha grudarem em seu braço, apertando-o tanto que uma dor tomou-o. Como aquela velhota era forte!

Sua última lembrança era ser levada até o escritório particular daquela velha que cuidava do orfanato, visto-a ligando para alguém que Rose conheceu somente por “Senhor Brans”, e depois, mantida trancada dentro da sala. Pela segunda vez na vida encontrou um lugar onde pudesse escutar o som do silêncio, enquanto esperava por sua inevitável chegada ao Instituto.

Notas finais
Seguirei a ordem de envio das fichas, ok? Beijos!