Q.I.- Fanfic Interativa
3 3,14... - Edgar Monroe Lewis
Notas iniciais
Edgar Monroe Lewis
“Se é verdade que toda filosofia precisa de uma base científica, não é menos verdade que todo pesquisador da ciência deve ter uma base filosófica” – Leôncio Basbaum

Edgar estava sentado na poltrona de seu quarto, que tinha mandado trazer de sua biblioteca particular, em casa. A poltrona era sua “companheira”, enquanto ele sempre a usava para se sentir relaxado e ler um bom livro. Talvez ele fosse um tanto despreocupado com a poltrona, mas ela jamais fora despreocupada com ele. Nos momentos que mais precisava, deu-lhe apoio. Talvez a única criatura que já lhe tinha apoiado fosse ela, embora morta e irracional, ela poderia lhe confortar, mesmo que suas carícias fossem pó e seus suspiros um silêncio infinito.
– “Na ironia há um fundo de crença na possibilidade de corrigir a existência lá onde sua revolta lhe denuncia as imperfeições”... – leu Edgar, enquanto folheava aleatoriamente seu livro de pensamentos – “O filósofo observa e medita. É um espelho que pensa”. – involuntariamente, ergueu uma sobrancelha. Era como um espasmo, suas sobrancelhas tinham vida própria, arqueando-se quando quisessem. – “Ainda há no mundo alguma coisa mais terrível do que um canhão quando dispara: é um sábio que raciocina”. – parou, enquanto refletia o quanto estava cansado. Pousou a mão no colo e com a outra pressionou as pálpebras, bocejou.
Tinha tido um dia exaustivo, enquanto fazia exercícios para expandir sua atividade. Cada ano que se passava era mais 10% de atividade e quanto mais atividade, mais pressão. Eles o estavam forçando demais. Enquanto descansava o livro de pensamentos na mesa de cabeceira, ficou observando o quarto que ganhara de presente de aniversário aquele ano. O pai, contador da prefeitura de Leeds, tinha lhe garantido que aquele quadro era uma típica pintura moderna, mas Edgar simplesmente detestou o quadro. Parecia quase abstrato, levando em consideração que era um entardecer cheio de pontas vermelhas e laranjas. Isso o lembrava do verão, e o verão não o agradava. Mas tinha prometido pendurar o quadro no quarto do Instituto, e assim o fez. Edgar nunca quebrava uma promessa. A artista que fizera o quadro morreu no mesmo dia em que o terminou, por isso Edgar ainda tinha alguma afeição por aquela pintura. Chamava-se Lilyan Mars e era com certeza a pior artista que Edgar já tinha visto.
Lembrava-se de que, quando chegou ao Instituto, era um garoto de treze anos, tremendo e morrendo de frio por causa do inverno forte da Carolina do Norte. Já tinha cursado Física e Física Quântica nessa idade e com certeza era a alma mais jovem da Cambrigde. Não sabia se se orgulhava do feito ou se sentia misericórdia pelas outras pobres almas que teriam de passar a juventude toda para poder chegar até onde ele chegou. Lembrava-se, também, de como as crianças olhavam para ele no jardim da infância, enquanto Edgar colocava na ponta do giz o π.
Charlotte Edwiges tinha lhe feito um desafio, e naquele dia provou que era o melhor do colégio, enquanto todas as outras crianças de cinco ou oito anos se amontoavam na porta da sala. Charlotte, após vê-lo fazendo aquilo, não saiu de seu pé. Chamava-o de “Grande Gênio”, sendo que Edgar nem tinha mostrado seu maior feito ainda. Ela simplesmente tinha decidido virar sua sombra, elogiando-o de qualquer coisa que fizesse, até se ele comesse o último grão de arroz do prato, ela aplaudia. Isso o irritava profundamente, embora Edgar nunca tivesse contado. Charlotte voltou para a França, onde nascera. Seus pais tinham se divorciado. Ela chorou quando foi contar a ele. E Edgar tentou não dizer “Boa viagem”, embora estivesse muito feliz por ela ter ido. As crianças sempre olhavam para ele como se fosse ou muito chato ou muito legal. Era um desses extremos. Era xingado pelas costas, mas também elogiado pelos demais. Isso gerou dentro dele a crença de que “eu sou mesmo o melhor”. E isso não foi violado até aquele dia. Ainda tinha essa mentalidade e continuaria até o fim da sua vida, afinal ninguém jamais conseguiria superá-lo.
Era o que achava.
– Lewis? – ouviu na porta alguém chamá-lo suavemente. – Um minuto?
– Claro, entre. – ele se virou na poltrona, levantando-se e parando ao lado dela.
Quem entrou em seu quarto foi Madame Gláucia, a orientadora do Instituto, junto com Ariel Meylle Clitwood, Clevence Menethil e Kayser Sagara (que se autodenominava ‘Khaos’). Eram os três veteranos que tinham entrado no Instituto no mesmo período que ele. Edgar tinha conversado pouco com todos ali, até mesmo com Madame Gláucia. Ela era uma mulher beirando os cinqüenta anos, com cabelos louros e esticados num elástico, retos como palha, até as orelhas, olhos lilases, uma boca grande demais para humanos e dentes afiados. Parecia uma aberração, mas era apenas a orientadora. Ela não era muito especial, aliás.
– O que desejam? – ele perguntou, após todos na sala se encararem por longo tempo.
– Uma nova manada de estudantes será mandada durante a Semana do Conselho e os responsáveis pelo Instituto terão de ir para a Capital. Madame Gláucia ficará responsável por nós, mas ela não tem experiência com aulas para superdotados – como eles fossem apenas superdotados – Então seremos nós responsáveis pelos novatos. – Ariel terminou.
Madame Gláucia assentiu, reafirmando as palavras de Ariel. Ariel era uma garota ariana e mesquinha, sobrancelhas grossas e cabelo castanho-avermelhado. Parecia uma anã. Não que fosse baixa demais, mas lembrava a Edgar de um daqueles anões da Branca de Neve, o que o divertia muito. Sempre que olhava para ela, tinha de segurar uma risada. Ariel era a garota do combate corpo-a-corpo, normalmente classificada por seus reflexos apurados, coordenação motora elevada e audição aguçada. Algo desnecessário, de fato, sendo que era tão burra quando o próximo da lista de veteranos: Clevence. Clev, seu apelido muito carinhoso, tinha cabelos pretos, ligeiramente castanhos quando no Sol, olhos que faiscavam um azul límpido e óculos que pareciam grandes demais pra seu rosto magrelo. “Memória fotográfica, persuasão, visão aguçada”, assim foi classificado. Memória não queria dizer inteligência. E por fim, mas não menos desprezível, Kayser, cujo nome lhe lembrava uma cerveja sul-americana. Asiático, olhos puxados, cabelo preto e um nariz enjoativo. Típico de asiático, pensava Edgar.
Enquanto digeria aquelas palavras, ergueu uma das sobrancelhas, e depois a outra. Involuntariamente, claro.
– Então querem me colocar entre os professores?
– É o único no nível de inteligência – acrescentou Ariel, tentando soar amigável, mas era claro que Edgar não ia com a cara dela. – Pode ser professor dos novatos, é por pouco tempo.
– Esperam que eu aceite, certo? – perguntou, com um leve sorriso nos lábios. Era ótimo acariciar o braço da poltrona, pedindo uma opinião dela. – Certo. Mas se algum desses pirralhos nojentos me desprezar... Vocês já sabem.
– Vai jogá-lo na parede e pedir para recitar a ordem dos números sem raiz quadrada? – perguntou Kayser, com uma risada contida, mas logo percebeu que ninguém estava rindo com ele, e logo parou, envergonhado.
– Ótimo – concluiu Madame Gláucia. – Lewis, arrume alguma coisa para dar àquelas crianças e... Desça para o jantar, por favor.
– Certo – ele disse, enquanto se virava para a poltrona – Podem, por favor, sair do meu quarto? É um lugar sagrado, para mentes sagradas. Obrigado.
Escutou a porta se bater com um rangido irritante. Soltou um suspiro. Aquelas pessoas lhe davam asco. Enquanto se sentava na poltrona, acariciou novamente seu braço, sentindo sua cor verde entre os dedos. Era bonita e pertencera a sua família, tinha passado de geração para geração, sempre nas bibliotecas particulares dos homens Lewis. Ela transpirava sabedoria e literatura, tudo o que Edgar admirava.
Como um livro de poesia aberto em página aleatória, ela o acaricia. Como se estivesse confundindo-o com um outro Lewis, numa aleatória melodia silenciosa. Ele odiava-a por isso.
Enquanto afundava em devaneios junto com a poltrona, percebeu que seus pés não vestiam meias e tomou frio. Odiava ficar sem meias. Correu ligeiro até o armário, pegou um par de meias e as colocou, sentindo o calor aconchegante. Libertou-se da poltrona, jogou-se na cama. Fechou os olhos azuis pálidos e sentiu o cansado consumidor. Era terrível aquele Instituto. Odiava as mentes bestas que ali vagavam.
Talvez algum dos novatos lhe trouxesse mais carícias do que a poltrona velha. Talvez, quem sabe, encontrasse alguém que o desafiasse, como Charlotte, e então provasse novamente que era a mente mais brilhante que o mundo já teve honra de ostentar.
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