Q.I.- Fanfic Interativa
4 Nascido no Véu Rasgado - Macheal Bernhardt
Notas iniciais
Macheal Bernhardt
“O Casamento é o berço ou o túmulo da Felicidade”
A Banda Mais Bonita da Cidade — Terminei Indo
Estava longe, enquanto sua mãozinha gorducha de bebê tentava alcançar o bloco de montar. Papai lia um jornal, sentado em sua cadeira de balanço, tomando seu café já frio. A janela do precário apartamento estava aberta, trazendo vento gelado do inverno, e também trazendo frio ao corpo nu de Macheal. Deixar uma criança de dois anos somente de fraldas era uma coisa muito irresponsável durante o frio. Mas era típico de John Bernhardt. O papai.
Enquanto se esforçava, Macheal quase caiu para frente, apoiando-se com o joelho e a mão que não estava usando. Agachado, ele chegou mais perto, com a mãozinha gorducha aberta e estendida em direção ao bloco. Mordeu a língua levemente, enquanto abria a boca. Bebês sempre fazem caretas quando se esforçam. Seus olhinhos, fundo como contas, estavam fixos no bloco. Era o objetivo de sua vida até agora. Com um leve ar de satisfação, pegou o bloco que estava á cinco metros de distância, do outro lado da sala, na cozinha. Piscou os olhos. Como tinha conseguido pegar algo tão longe? Mordendo os lábios molhados de saliva, Macheal colocou o bloco no chão e então olhou para ele. Estendeu a mão e a peça de montar voou para seus dedos redondos. Piscou os longos cílios novamente. Atônito, começou a rir consigo mesmo, jogando a peça de montar para longe e então fazendo-a voltar para sua mão. Papai, ainda entretido com seu jornal, pouco se importava com alegria alheia daquela casa.
Macheal colocou a peça de montar para levitar, jogando-a de um lado para o outro. Muito entusiasmado com a nova descoberta, sem querer colocou força demais sobre o objeto e ele disparou em direção ao pai, perfurando o jornal e lhe atingindo no óculos, quebrando a lente em seu olho semi-aberto. Macheal parou de sorrir.
John Bernhadt tirou rapidamente os óculos dos olhos, soltando o jornal. Embora tivesse sido violento o impacto, nada afetou sua visão. Voltou os olhos verdes para o filho. O único filho, o qual ele nem se importava se iria ou não para a escola ou se era ou não da família. Ele enrugou a testa, fechando o rosto numa carranca enraivecida e pegou Macheal pela orelha, arrastando-o em direção ao quarto.
– Castigo! – gritou – E sem choro!
Claro que uma criança de dois anos se derramou em lágrimas naquele momento. John não ligou para o fato de Macheal ter apenas dois anos, aliás, pegando-o pelo bracinho e dando três tapas em suas pernas, deixando uma marca vermelha de seus dedos. O empurrou novamente para dentro do quarto, enquanto o menino esperneava de dor. Queria pelo menos que papai lhe desse atenção.
Macheal continuou com seus truques que o divertiam tanto. Quando a janela se encontrava novamente aberta, após uma semana do ocorrido, papai estava preparando seu diário café da tarde, com o jornal em mãos, mas na cozinha e não na cadeira de balanço. Macheal, sem nem mesmo perceber, esticou seu bracinho gorducho e fez as persianas da janela se fecharem, assim parando o vento frio que entrava na casa e o atingia em cheio no peito nu. Papai engasgou com a xícara de café nos lábios e acabou se queimando.
– Filho do Coisa-Ruim... – ele resmungou, largando o jornal e caminhando pesadamente até Macheal. Pegou-o pelo braço, apertando tanto que o menino começou a reclamar de dor. – Nunca mais faça isso, meu ouviu? Nunca.
Macheal não prometeu nada. Na verdade ele não parou. Sorte sua que papai arranjou uma babá para ele. Macheal então ganhou sua primeira mãe de criação: Batty. Ela era uma mulher que beirava os quarenta anos, solteira e feia. Trabalhava durante o dia numa lanchonete e de noite ficava com Macheal. No começo a mulher teve receio de deixá-lo sozinho em seu apartamento, mas depois que percebeu que ele era uma criança muito mais esperta que as outras, não hesitou. Michael brincava sozinho por horas a fio, enquanto sua mãe não voltava para casa. Ela sempre chegava perto das oito da noite e ele sempre estava esperando junto à porta, engatinhando. Sabia andar, mas preferia agir como um bebê, pois assim ganhava mais carinho.
Macheal amava aquela senhora de cabelos crespos e negros, pele azeite e olhos grandes e pretos como carvão. Gostava de quando ela o pegava no colo e o abraçava, fazendo seu cabelo de algodão-doce-preto afagar o rosto do menino. Ele gostava também de brincar com as madeixas quando a senhora estava deitada na cama, lendo seus romances eróticos. Macheal, uma criança muito hiperativa, sempre lhe trazia um copo de limonada de dentro da geladeira. Batty tinha reagido muito bem diante de seus poderes, na verdade.
Batty foi encontrada morta na cozinha de sua casa, enquanto preparava-se para ir ao trabalho. Macheal estava dormindo no berço ao lado da cama da senhora e quando não a viu, não chorou, mas sim se escondeu nos braços do policial. Sem terem uma prova do que tinha acontecido e com o bebê são e salvo com eles, abafaram o caso, afinal aquela senhora nem era tão conhecida assim e não tinha família, nem amigos, nem marido. Somente um afilhado de agora quatro anos de idade. Era melhor deixar por oculto.
John, por sua vez, achou mais uma mãe de criação para Macheal.
Eram os vizinhos síndicos do prédio precário. Senhor e Senhora Jackson, do primeiro andar. Um casal de velhinhos muito bem preservados. Samara, a senhora, tinha cabelos pretos, incrivelmente lisos e saudáveis, sem nenhuma ponta dupla, enquanto os olhos se puxavam em duas contas pretas. Era de pele amarelada, como o pôr-de-sol. Macheal gostava muito dela. Era alta e magra como um palito, seu coque sempre apertado no alto da cabeça e um vestido florido vermelho ou amarelo. Berto, o senhor, tinha uma careca brilhante e sobrancelhas esbranquiçadas. Barba rala e sempre um chapéu empoeirado na cabeça. Ele tinha olhos cinzentos, de um cinza tão claro que Macheal nunca viu outro igual. Os dois cuidavam dele como se fosse seu verdadeiro neto, embora não tivessem tido filhos durante a vida fértil por escolha própria.
Samara gostava de cozinhar, cozinhava qualquer coisa!, e sempre fazia as comidas preferidas de Macheal. O menino a adorava, sempre comendo com gosto a comida feita com tanto carinho. Berto o ensinou a fazer palavras cruzadas, e mesmo que Macheal tivesse saído do jardim de infância ainda muito novo, logo aprendeu a ler e escrever com os velhos, se saindo muito bem nos jogos de caça palavras. Jogava xadrez junto com Berto no parque perto da vizinhança (tão violenta que obrigava seus moradores a freqüentarem parques de outras partes da cidade). Ficou com os Jackson por três anos, até que um ladrão entrou no apartamento deles e os matou com tiros no peito e na cabeça. Macheal estava tomando banho no banheiro durante isso, e novamente não foi afetado.
Nos braços do policial, outra vez, ele não chorou e na verdade aninhou. Foi levado até o pai, que estava no momento ocupado com algo parecido com cigarros. Ele atendeu a porta, quase caindo nela, e Macheal viu pela primeira vez o que era alguém bêbado. Macheal tinha seis anos quando isso tudo aconteceu. Tinha idade suficiente para guardar aquilo na memória.
Passou a não abrir a boca e manter silêncio dentro de casa. Não fazia nada quando o pai estava por perto, não brincava com os blocos, não mexia na televisão (que mal pegava no canal de desenhos) e menos ainda usava seus poderes. Em um belo dia, após meses de surras dadas por nenhum motivo aparente, ainda com seis anos, Macheal foi posto para a rua, para virar um homem de verdade e começar a andar com as próprias pernas. Ou somente morrer jogado num beco escuro, dentro de uma lata de lixo vazia. Ele começou a freqüentar diariamente a biblioteca pública, onde se sentia a vontade para se aventurar por mundos de fantasia, onde sua realidade não era tão deprimente. Ele descobriu heróis, odiou vilões, salvou mocinhas em perigo... Após três dias consecutivos indo até a biblioteca, descobriu que a bibliotecária na verdade tinha uma imaginação e uma paixão pela literatura ainda maior que de Macheal, e assim praticamente formulou que Macheal e seus poderes eram criações de um livro particularmente real e que fazia parte de sua vida. O adotou e lhe deu comida, por caridade. Mas ela sumiu, não se sabe para onde foi.
Hoje, neste exato momento, uma criança pálida, de cabelos louros, acabou de causar uma explosão num beco na grande Nova York, e acabou machucando a si mesma. Está sendo levada ao Instituto Dórean Mind, pelos braços de um policial. Veja como é uma graça o jeito como ele se aninha, como se já estivesse acostumado a ser carregado por um oficial da lei.

Fale com o autor