Q.I.- Fanfic Interativa

5 Enigmas de Mentira - Alice Dallas & Mary Dallas


Notas iniciais
Espero que gostem! ^.^ Último capítulo de apresentações, o próximo teremos eles reunidos, ou quase isso. Capítulo feito pela Meell (que ainda está falando em terceira pessoa...). E aqui vamos nós, com mais um caso de personagens com problemas de mentira! >.

Alice Dallas & Mary Dallas

“Há só duas famílias no mundo: as que têm e as que não têm”

Birdy — Wings

Segurou fortemente a mão de Mary enquanto caminhavam pelo metrô. Pessoas se movimentavam e andavam apressadas pelas plataformas. Muitas conversando ao celular enquanto nem olhavam para frente. Alice colocou Mary entre suas pernas, na frente de seu corpo, para que a menina não se perdesse. Enquanto isso, o fedor de falta de higiene do lugar impregnava as narinas de Mary, dando-lhe arrepios. Nunca entendia porque era a única que conseguia sentir o cheiro de coisas que nem mesmo Alice sentia. As duas, de mãos dadas e com o corpo se enfiando entre as pessoas, começaram a ver seus homens de preto. Sim, seus homens de preto, pois eles é que as levariam para um local seguro, onde poderiam viver em paz.

Após uma perturbada quantidade de perguntas para concluir o questionário de inscrição para o Instituto, foram empurradas em direção ao trem muito diferente dos outros. Ele era não como um “trem bala”, moderno e nem mesmo como um bonde, antiquário. Era simplesmente uma van grande com cabeça quadrada, mas corpo alongado. Treze quartos altamente decorados com penteadeiras, beliches e outros móveis de madeira rústica. Uma iluminaria estava disposta na cômoda, lançando uma luz fantasmagórica pelo vagão. Mary sentou-se num banco disposto ao lado da janela. Observou o lado de fora enquanto ainda estavam parados e então virou o rosto para Alice, sorridente. Finalmente, pensou a mais velha, paz.

º º º

As irmãs Dallas eram muito conhecidas no mundo da classe alta. Ricas e filhas de Isobel Dallas, finas jovens com uma educação polida e jeitos de moças formadas, embora tivessem menos de dezoito anos e uma diferença de oito anos entre o nascimento de uma para outra. Alice Dallas era a mais velha, de quatorze anos no dia em que tudo se virou do avesso. Mas isso é apenas detalhe, detalhes não são importantes se esse não for o livro do Sherlock Holmes. Ou então são e você só não está muito interessado neles. Alice Dallas viveu uma vida de mentiras. Mentiras boas, mentiras ruins, eram sempre mentiras. Talvez ela devesse duvidar se o nome da mãe realmente era Isobel, ou se Mary não era um robô. Claro que jamais seria, afinal robôs não amam e Mary ama.

Nascidas numa pequena cidade na Inglaterra, as Dallas eram prendadas e sempre polidas. Caso contrário recebiam castigos. O pai das meninas era Charles Adams. Ou pelo menos pai de criação. Alice sempre pensou que ele tinha sido seu pai, mas aos sete anos, enquanto procurava sua certidão de nascimento para poder ir ao passeio do colégio, descobriu que estava enganada. O nome de seu pai verdadeiro era Thomas Collins. Agora sabia porque não tinha o “Adams” como sobrenome. Sua primeira mentira descoberta. Alice com certeza tem mais história que Mary. Mas não podemos menosprezar a menor.

Alice então tomou consciência de que seu “pai” batia constantemente em sua mãe. E olhe que ele nem era seu pai biológico!, raiva encheu suas veias. Mas o que uma criança de sete anos poderia fazer ? Um ano depois sua irmã nasceu. Linda, fofa e muito hiperativa. Um bebê que não agradava em nada Charles. Mas mesmo assim ele nunca ergueu a voz com ela. É claro, até que Mary se tornasse uma garota de dois anos muito mais hiperativa e sensitiva. Alice novamente encontrou os pais tendo uma briga e como já era de se esperar, ele batia em sua mãe. Alguma coisa, um plano... Talvez a polícia e... Seus pensamentos foram interrompidos quando viu o corpo desengonçado de Mary passar por ela na porta e se agarrar a perna de papai, dizendo em sua voz fina de criança:

– Não, papai, não bate na mamãe. – era sua assinatura no papel que condenava sua morte. Charles ergue a mão, dando-lhe um tapa tão violento que os cabelos de Mary voaram junto com ela de encontro para a parede. Foi um encontro duro e não muito carinhoso, talvez a parede não gostasse tanto assim de Mary.

Alice chegou ao ápice da paciência. Desejou com todas as suas moléculas que Charles queimasse até a morte no inferno. Que fogo caísse sobre ele e o fizesse arder e agonizar até... Com os olhos piscando, viu quando Charles começou a cambalear para trás e por fim se apoiar na parede. Meio desorientado, ele virou uma tocha humana. Queimou, mas não foi um fogo lento, foi um fogo de raiva, ódio e que queimava de uma maneira que Alice nunca tinha visto. Cheiro de pessoa queimada inundou a sala e mamãe só conseguia se arrastar para longe, desesperada e assustada demais para se mover mais que aquilo. Mary correu até as pernas de Alice, que a pegou o colo e saiu correndo de lá, abrindo a porta e percorrendo as escadas. Caiu. Seu pé se prendeu num dos degraus e Mary foi ao chão junto com ela. Como se não tivesse sofrido nada a pequena se levantou e puxou Alice até os últimos degraus, exausta. As duas ficaram sentadas, enquanto mamãe começava a sua descida.

A polícia justificou aquilo como “combustão instantânea”. Alice questionou se era assim que eles justificavam seus casos enigmáticos. Sua segunda mentira descoberta foi que CSY era uma farsa. A terceira mentira que descobriu foi que Izobel não se casara por amor, mas sim por ganância. E se casou novamente, pelo mesmo motivo.

– Você vai matá-lo, assim como fez com Charles – a mãe disse, enquanto arrumava o vestido de madrinha de casamento de Alice.

– Mas eu não posso fazer isso, mãe, foi um acidente... – ela tentou se defender, mas a mãe colocou o dedo na frente de seus lábios, calando-os.

– Nem mais um piu. Sou as mãe e você deve me obedecer. Por acaso não sou eu quem zela pelo bem estar de vocês duas? Só estou arrumando o futuro de vocês, para que vivam melhor que eu. Aprenda, Alice, num mundo egoísta, os egoístas se dão bem. – e então puxou os cabelos alisados por escova da menina menor. – Nada de grudar na perna do Alan, está bem, Mary?

A menina menor apenas sorriu, travessa, enquanto deixava a mão arrumar a coroa que lhe enfeitava os cabelos. Alice olhou para elas, com nojo e pena de Mary. Não conseguia ver a bruxa que sua mãe era. Mas, como uma boa filha, obedeceu. Matou Alan. Depois de dois anos, matou mais cinco homens. Izobel subiu na hierarquia da sociedade e se tornou a “Viúva Que Perdia Seus Maridos Pouco Depois de Casar, Suspeitamente”. Mas ninguém nunca conseguia incriminá-la, afinal as câmeras das mansões que moraram nunca conseguiam captar de onde o fogo vinha e como que ele chegava em seus maridos. Alan foi apenas o primeiro da lista. Os nomes iam de Ivan Brosft até Daniel Vivvons. Ela mudou seu nome muitas vezes e no fim sempre acabava com o nome de solteira, Izobel Dallas. Após dois anos de pura morte e destruição, Alice já tinha ido á seis enterros de padrastos que ela mesma tinha matado. Já tinha visto seis avós adotivas chorando pela morte de seus filhos queridos e seis avôs lamentando a perda do único filho.

– Nós vamos fugir – ela tinha dito a Mary, enquanto colocava dentro da mala o ursinho de pelúcia preferido da pequena. – Vamos sair de perto dessa bruxa.

– E o Sam? – Sam era o novo marido que a mãe tinha acabado de arranjar.

– Vamos contar a ele a verdade, acredito que ele nos deixará ir. Talvez até nos ajude – a mais velha segurou Mary pelos ombros – Acredite em mim, Mary, eu ou te dar o futuro que você merece.

– Eu acredito – Mary lhe jogou seu sorriso travesso. Tinha inocência nas bochechas rosadas.

– Ótimo. Agora coloque o agasalho – jogou a roupa por cima da cama.

Sam aceitou os fatos e disse que já suspeitava. Prometeu entregar a mãe das meninas para a polícia sem incriminá-las e até lhes ofereceu dinheiro para que saísse no país. Mas para onde iriam? Não tinha um lugar seguro na Inglaterra que pudesse abrigá-las. Não na Inglaterra.

Uma freada brusca do trem fez com que Alice saísse de seus devaneios. Estava deitada de mau jeito, com o pescoço dobrado e a cabeça apoiando-se no vidro da janela. Olhou para frente, um borrão formava alguns prédios e o lago que Mary e ela já tinham navegado num passeio de escola. Tinha começado a chover e Alice nem percebera. As gotas escorriam pela janela e formavam desenhos engraçados, enquanto desciam até se perderem de vista. Inclinando-se para tentar desenhar alguma coisa no vidro com o dedo, Alice acabou embaçando-o ainda mais. Desistiu, voltando a se sentar e então olhou para Mary, uma menina dormindo, com os cabelos em volta do pescoço e o queixo caído no peito. Estava dormindo ainda mais desengonçada do que Alice, mas a irmã mais velha não ousou incomodar a pequena, não queria tirá-la dos sonhos bons.

Enquanto voltava a apoiar sua cabeça no vidro, fechou os olhos. Talvez conseguisse dormir, como Mary. Mas era impossível. Não sabia se aquilo vinha devido a ansiedade de ir para o Instituto ou se era o simples fato de que logo estariam num lugar onde poderiam chamar de “Lar”. Soltou um suspiro aliviado. Já tinha pensado naquilo por muito tempo e decidira que estava fazendo a coisa certa. Prestes a começar outro devaneio, Alice escutou o som da porta do quarto se abrindo e um homem de preto entrou, fechando a porta e então a encarando, com surpresa.

– Pensei que estivessem dormindo – disse, cuidadosamente.

– Queria que estivéssemos dormindo? – ela perguntou, em seu comum tom de irritação.

– Bem... Sim.

– O que pretendia fazer conosco?

– Coletar um fio de cabelo de cada uma – ele disse, sincero.

Alice ergueu uma sobrancelha, enquanto enfiava a mão entre as madeixas e arrancava um tufo, fingindo que não tinha doído nada.

O homem pegou os fios e agradeceu cortes. Se inclinou sobre o corpo adormecido de Mary. Alice se levantou, nervosa e ainda mais irritada. Ele não podia estar pensando mesmo em acordar a menina somente para arrancar um fio de cabelo.

– Não se preocupe, já tem um aqui, na gola do vestido – mostrou ele, pegando o fio com as pontas dos dedos, delicadamente. – Obrigado.

– Por nada – ela tentou soar mais calma, mesmo assim ainda sentia o coração batendo forte contra o peito. – Só veio fazer isso?

– Gostaria de saber alguma coisa? – ele perguntou, percebendo que a menina estava incomodada.

– Onde é o Instituto?

– Estados Unidos, Carolina do Norte. É o local mais seguro para nós.

– Por que lá? Por que não aqui, na Inglaterra?

– O dono da agência que nos financiou é de lá e a idéia surgiu lá. Na verdade não na Carolina, mas foi o lugar mais seguro. Nesse estado não há muita fiscalização em casarões grandes no meio de plantações. É comum fazendas no meio do nada, ainda mais aquelas que são ocupadas por muitos adolescentes. Casas de shows country... A Carolina do Norte é um lugar de caipiras e lá não acontecem muitos assaltos ou mortes sem ser pela idade. A maior parte da população é idosa ou fazendeira.

– Entendo – Alice refletiu sobre a explicação. Embora não quisesse admitir, aquilo fazia sentido. – E você disse que há muitos outros adolescentes por lá?

– Sim. Crianças e adolescentes. Em sua maioria na faixa da sua idade – ele falou, delicadamente –, o Instituto não é um lugar muito antigo, foi inaugurado seis anos atrás e somente colocado em movimento um ano depois. Os veteranos mais experientes têm cinco anos de casa ou quatro. Mas a maior parte começou ano passado e muitos estão chegando, como vocês.

– Crianças, como Mary? Crianças que têm poderes como nós?

– Isso. Nada muito perigoso, claro. A idade mínima para se inscrever no Instituto é de oito anos e a máxima é de dezoito. Se quiser, depois de completar a maior idade, pode continuar conosco, ou então se aventurar no mundo, começar uma vida. Só treinamos vocês para aprenderem a se proteger e para livrá-los do mundo mau. A maior parte das crianças do Instituto foram salvar de criminosos e de pais doentes querendo usar os filhos como armas. Acho que você entende isso, não?

– Entendo – ela abaixou a cabeça, lembrando-se de Izobel, mas logo afastou aquelas lembranças, eram horríveis e dolorosas. – Vamos de trem?

– É impossível ir da Inglaterra para os Estados Unidos num trem – o homem gordo sorriu, afetuosamente, fazendo Alice ter ânsia de vômito – Mas temos um avião esperando pelas senhoritas e pelos outros que também são da Inglaterra.

– Outras pessoas? Como eu?

– Isso.

– Pensei que eram somente pessoas da Carolina do Norte.

– Não, nada disso. São pessoas do mundo inteiro. – ele sorriu, orgulhoso – Você vai encontrar com quem se enturmar, eu te garanto. Agora preciso ir, só vim coletar.

Saiu sem nem lhe dar adeus. Ótimo, ela pensou, nem queria um adeus mesmo...

Notas finais
Particularmente apaixonada pelas Irmãs Dallas ^.^