Notas iniciais
Certo, certo, este capítulo não teve tanta explicação (um pouquinho), mas dá pra adivinhar como é o convívio dos nossos veteranos ^.^

Luccina Astrolov

“A inocência genuína rende-se; não sabe defender-se” – Camilo C. Branco

Tom Odell – I Know

Brincando ligeiramente com os dedos de Edgar, ela se ocupava. Não gostava de climas tensos e aquele era um clima tenso. Embora também não gostasse de ficar de fora de algo, não queria participar da conversa nauseante. E os dedos magrelos e ossudos de Edgar com certeza eram bem divertidos quando cruzados um sobre o outro. Ela soltou uma risada fraca, enquanto os trançava. O menino reclamou e ela tentou pegar mais leve. Edgar também não gostava de ambientes como aquele e por isso Luci sabia que poderia se entreter com ele. Mas não era isso que Edgar queria no momento, ele estava bem interessado na conversa, na verdade, o que a deprimiu um pouquinho.

–... e os novatos são cerca de treze crianças. – continuou Madame Gláucia, com seu tom enjoativo – Já sabem seus lugares. Coloquei uma lista no quarto de cada um. Ariel será a responsável por vocês.

– Se ela cuidasse do próprio nariz então seria até aceitável – concordou Edgar, em seu tom de sarcasmo.

Ariel lhe lançou um olhar de irritação e enjôo. Luci não gostava dela. Ariel não gostava de Edgar. Luci na verdade não gostava de nenhum dos veteranos, com exceção de Gloss e Edgar, que para ela eram pessoas muito interessantes.

– Você concorda, Luci? – perguntou Madame Gláucia.

– Tanto faz – a menina respondeu, ríspida e indiferente, enquanto apertava ligeiramente o polegar de Edgar.

– Não seja malcriada, Luci – interveio Khaos, com sua voz sempre parecendo uma piada. Era detestável na opinião de Edgar e se Edgar achava ser detestável, então Luci também achava. Edgar era forte, então Luci também seria.

– Vá tomar no... – foi cortada com o gesto da mão de Madame Gláucia. Luci jamais falaria aquilo, mas ela tinha aprendido que desse jeito seria melhor, para evitar ser fraca, claro. Já estava cansada de ser fraca. Por isso se espelharia nas pessoas fortes que conhecia. Como Edgar.

Pegou a mão de Edgar, agora com mais liberdade, e a colocou contra a sua, medindo os dedos esticados do garoto. Ele estava cooperando. Era incrível que talvez Luci fosse a única que Edgar deixasse tocar-lhe. Ele era conhecido como “Senhor Não-Me-Toque”. Dizia ter nojo de todos e assim Luci também teria. Ela tinha aprendido metade de seus palavrões junto com Ariel e mais metade de seu sarcasmo com Edgar. Tinha aprendido a fazer piadas para ofender as pessoas, com Khaos, e também como dar respostas ríspidas, com Gloss. Poderia se proteger desse jeito. Assim ninguém saberia que era fraca.

– Então está combinado – Madame Gláucia cortou o clima tenso – Por favor, os novatos chegarão amanhã durante o café da manhã. Edgar, pode ficar responsável pela entrada deles no Instituto?

– Por que eu? – ele fechou os braços, puxando sua mão de Luci, decepcionando-a.

– Porque você é o único que não tem aula de manhã – Ariel respondeu, antes que Madame Gláucia dissesse. – Todos temos aulas de manhã. Aula de combate corpo-a-corpo, e com você é fraquinho...

– Correção: — Edgar se enfureceu, mas manteve o mesmo tom calmo. Luci admirava aquilo que ele conseguia fazer, o jeito como controlava as próprias emoções. Queria conseguir fazer isso, mas na verdade ela era impulsiva e nunca conseguia ter controle. – Eu sou um aluno de inteligência avançada. Você é uma aluna de combate e blá-blá-blá. Se um de nós tiver de desarmar uma bomba de alta tecnologia, adivinhe quem vai morrer.

Ariel trincou os dentes, quase como um rosnado. Com os punhos cerrados, ela se levantou, pedindo licença e se retirando do escritório de Madame Gláucia. Ariel era, talvez, muito esquentadinha, mas conseguia cortar uma briga antes que ela de fato começasse, e por causa disso Luci também a admirava. Era incrível como todos no Instituto eram incríveis.

Luccina virou os olhos verde petróleo em direção a todos os outros na sala. Queria sair dali, junto com Ariel, mas não tinha achado alguma boa desculpa para fazê-lo. Não ficou desesperada, mas um tanto desconcertada. Edgar se levantou, por fim, quebrando a tensão. Ele disse que sairia também e até chamou Luci para ir junto, ela, muito obediente, o seguiu. Do lado de fora, soltou um suspiro.

– Obrigada.

– Tem de aprender a se virar sozinha – ele ignorou o agradecimento da menina.

– Eu sei – ela bufou, tentando parecer durona. Em vão.

– Por que não aceita de uma vez que você é fofa em vez de durona?

– Ser fofa é ser fraca.

– Ser fofa é ser inocente. E você é inocente. – ele olhou para o lado, quase que querendo evitar encará-la – E eu acho muito legal as pessoas inocentes.

Ela não sabia como reagir. Se fosse para agir como a verdadeira Luccina, ela iria apenas sorrir de forma encabulada e dizer um obrigada trêmulo, mas com certeza aquele não era o melhor jeito de reagir, talvez se...

– Eu estou indo – avisou ele, dando as costas.

Perdeu sua chance. Ela entendeu o que Edgar tinha dito.

Ed tinha entrado no instituto um ano depois que ela e talvez fosse a única pessoa que descobriu seu verdadeiro segredo. A única não. Ainda tinha Gloss. Mas ela conhecia tudo, sobre todos, somente de olhar para essas pessoas, por isso não contava muito. Ao contrário do que Luci pensava que reagiria quando alguém lhe dissesse que sabia da verdade, ela não odiou Edgar. Na verdade passou a gostar ainda mais dele. Como se ele fosse uma espécie de diferencial na multidão de pessoas que acreditavam em sua máscara. Ela gostava do diferencial.

– Luccina? – ouviu seu nome vinda da boca de Madame Gláucia e logo se virou. Madame, para ela, era a pessoa mais aterrorizante da face da terra. Seus dentes pontiagudos era, entretanto, um tanto engraçados, e por isso Luci gostava de encará-los.

– Sim. – respondeu, logo percebeu que tinha soado simpática demais. – O que você quer? – acrescentou, em tom grotesco.

– Vim avisar que, como você tem uma habilidade única, não será uma professora, mas sim uma supervisora. Se alguma coisa anormal ou se algum dos alunos estiver dando aulas errado, me avise.

– Claro – ela cruzou os braços, assoprando uma madeixa de cabelo – Como quiser – acrescentou com sarcasmo – Posso ir agora?

– Sim, pode.

– Ótimo – virou-se, tentando formular algum lugar para ir. Decidiu visitar os estábulos, lá era o local mais seguro e divertido que Luci conhecia, e na verdade era o lugar onde constantemente se encontrava com Gloss. Os outros alunos não tinham aulas de adestramento durante a semana, somente aos sábados, assim o estábulo ficava solitário durante todo esse tempo.

Luccina passou pelo corredor dos quartos e chegou até o salão principal, saindo pela porta do jardim e andando por entre o cascalho, até chegar na construção de madeira já velha e vermelha, onde os cavalos passavam a maior parte do tempo. Gloss, a veterana responsável pelos animais do Instituto, cuidava muito bem deles. Sempre estavam escovados, saudáveis e eram dóceis, domesticados para amar os novatos e se apegar aos veteranos. Ela entrou, logo sentindo o cheiro de esterco e de pelo molhado, o que era inevitável nos estábulos, mesmo que se passasse perfumes. Os cavalos bufavam e relinchavam, saudando-a. Sorriu para alguns, para outro apenas meneios de cabeça. Encontrou Gloss escovando o potrinho, o mais novo do clã dos cavalos de raça. Gloss o nomeara Timão, e Luci o chamava de Tim.

– Olá, Gloss. – cumprimentou a menina, que não olhou para cima ou respondeu. Ela era assim, um fantasma visível aos olhos humanos.

Gloss tinha vindo da França e se recusara a aprender o inglês, até que foi preciso. O fato mais chamativo dela, porém, não era como ignorava a presença dos outros, mas sim seus cabelos brancos, a pele pálida como de um cadáver e os olhos sem melanina. Era albina e por isso não podia ficar exposta ao Sol forte demais. Assim, passava a maior parte do tempo cuidado dos animais que ficavam em alojamentos. E havia ainda mais um motivo para ser introvertida: ela era autista. Tinha dificuldade em se relacionar e normalmente fugia da sociedade. Sendo assim, era a pessoa que Luccina mais gostava, pois Gloss era mais fraca que ela.

– Como vai o Tim?

– Cresceu – Gloss respondeu, com sua voz fina e suave. Quase melodiosa.

– Ainda está mamando?

– Sim.

– Que legal. Você já deu comida para ele? Posso segurar a mamadeira dessa vez?

– Sim – concordou Gloss, indo até a parte de trás do potrinho e pegando uma grande mamadeira especializada para aquilo. Entregou o objeto nas mãos de Luci, que enfiou o bico goela abaixo do animal, quase afogando-o. – Cuidado.

– Claro – ela ruborizou, sentindo-se ridícula por ser tão estabanada.

– Não precisa vergonha – Gloss não a olhou, continuou a escovar Timão – Eu não ligo.

– Ah, claro – concordou Luci, sentindo-se ainda mais ridícula.

Gloss não disse mais nada. A albina tinha um poder um tanto quanto único: ela conseguia sugar as lembranças das outras pessoas apenas por tocar nelas com as mãos nuas, por isso sempre andava com luvas para se proteger. Também podia descobrir se o humor dos outros era bom ou não e às vezes parecia ler pensamentos, mesmo que não tivesse nada confirmado. Luccina não podia deixar de ter medo dela, mas não tanto medo quanto tinha de Ariel e Edgar. Sim, medo deles. Além de admiração havia temor. Eles eram fortes, ela era fraca. Era racional que se sentisse intimidada pelos dois.

– Jantar. – avisou Gloss, quando terminou de escovar Timão.

– Certo, estou indo. Você vem?

– Depois.

– Ok. Vou esperar por você na mesa.

Luccina não se lembrava de ter corrido, mas chegou no salão principal transpirando e ofegante. Enquanto entrava, reparou que os veteranos estavam todos dispostos em sofás e divãs no salão principal. A maioria nem reparava nela, o que ela agradecia. Enquanto procurava insistentemente com os olhos alguém que reconhecesse, encontrou Edgar num canto, sentado numa poltrona reclinável. Parecia muito cansado, como geralmente estava. Constantemente fazendo exercícios para a mente lhe desgastavam muito, por isso Edgar nunca estava de bom humor. Ela se aproximou, sorrateira, tentou não acordá-lo. Mas quando ele abriu um dos olhos azuis, ergueu as sobrancelhas, do jeito que divertia Luci. Ela soltou uma risada.

– Não fique agindo como uma idiota perto de mim – ele resmungou, voltando para seu sono – O que foi?

– Suas sobrancelhas – ela sorriu, sabendo que ele odiava que falassem de suas sobrancelhas em espasmos aleatórios.

Edgar abriu os olhos azuis faiscantes, com os cílios louros e dourados encarando-a com força. Por fim soltou um suspiro e se levantou da poltrona. Com um gesto de mão, a ofereceu.

– Não, eu estou bem em pé – Luci rejeitou, docemente. – E, além disso, o gordo aqui é você – ela tentou arrumar sua frase. Era terrível ter de se concentrar tanto para não ser doce.

– Eu já disse para parar de agir como uma idiota – Edgar grunhiu – Agora tira essa cara emburrada e se senta, garota.

Ela encolheu os ombros, que começavam a tremer, sentando-se com delicadeza. Edgar jogou-se no braço da poltrona, fazendo um leve balançar nela. Luccina tentou ignorar o jeito como o joelho de Edgar roçava em seu braço. Era incrivelmente ossudo. Ele não olhava para frente, mas sim para as mãos cruzadas sobre a perna.

– O que houve? – Luci adivinhou ser algo terrível.

– O estofado da minha poltrona estava vazando. Se ela fosse uma pessoa e o estofado fosse sangue, ela teria morrido.

– Que irresponsabilidade – ela comentou, com um sorriso divertido nos lábios – E depois reclama que a Ariel é irresponsável.

– Mas nós estamos falando de crianças novatas e poltronas! São coisas diferentes.

– As duas coisas são sobre responsabilidade, e responsabilidade não muda em nenhum aspecto. Quando você a tem, não importa se são crianças ou poltronas.

Edgar a encarou, um tanto esgotado. Ele não iria abrir uma discussão, não agora. Tirando a atenção de Lucy, Madame Gláucia surgiu batendo palmas e chamando o resto dos veteranos. Alguns tinham entrado aquele ano, mas já tinham se acostumado com a rotina e o Jornal.

– Já sabem as notícias de hoje, não? – Madame Gláucia sorriu – Novatos chegarão, por isso vocês terão de ficar de prontidão. Não aceitarei mortes ou pessoas perdidas. Quero organização. – ela voltou os olhos para cada um, parecendo uma víbora escolhendo qual ratinho seria mais delicioso matar. – Os Mentores e o Senhor Duncan estarão voltando para casa dentro de uma semana. Eles estão num Conselho junto com o presidente do Instituto. Notícias de Sebastian? Sim, temos notícias de Sebastian – ela olhou para os olhos brilhantes dos alunos e também para a ansiedade – Ele está recuando.

Animação tomou conta dos adolescentes. Luci sorriu, virando o rosto para cima, para olhar a reação de Edgar. Mas ele estava neutro, não parecia feliz pela notícia. Às vezes Edgar era inabalável demais e isso a irritava levemente. Não o suficiente para fazê-la deixar de gostá-lo.

Nada poderia fazê-la parar de gostar de Edgar.

Notas finais
Será que hoje eu posto mais? Bati meu recorde de velocidade >.< E estou particularmente apaixonada pela Luci. E já estou shippando esses dois *u* Desculpa, Carpe, mas seus personagens são tão legais que eu sempre preciso colocar romance!