Q.I.- Fanfic Interativa
7 O Bel-Prazer de Um Pó
Notas iniciais
Edgar Monroe Lewis
“O arrependimento inventa carinhos novos, e a inocência parece vingar-se, perdoando, e sorrindo ao algoz, que exora o perdão com lágrimas” – Camilo C. Branco

Ergueu a mão até o rosto, sentindo-o duro feito pedra. Era normal encontrá-lo daquele jeito, sempre arqueado numa tentativa vã de se tornar forte o bastante. As pessoas mas fortes também são as mais sensíveis. São elas que passavam pelas barreiras e vencem as dificuldades, sentindo na pele. Ele, porém, não era sensível. Com desgosto, entendia que também não era a pessoa ideal para carregar a inteligência que tinha. Edgar levantou a outra mão, tocando gentilmente o braço da poltrona em que estava deitado de qualquer jeito. Acariciou o couro velho.
Edgar e sua poltrona mantinham um caso muito complicado, que começara quando ele entrou para o Instituto. Sendo a única que não o julgava como gênio, nem como esquisito, ela era seu amor verdadeiro. Eu, particularmente falando, não acho que isso seja o essencial para um conto de fadas. A poltrona, em seu silêncio sem fim, era só ela. Ela mesma. Sem precisar se esconder do mundo, sem precisar de máscaras.
Eu, entretanto, sou um narrador. Sou a voz que fala na sua cabeça enquanto seus olhos deslizam por essas linhas. Incrível, não? Estou conversando com você e ao mesmo tempo você encara isso como uma narração. Fantástico! Sua ignorância é tão afetiva que eu me delicio enquanto continuo a falar. Sou conhecido como primeira e terceira pessoa. Não me pergunte o que aconteceu com a segunda, essa ai nunca voltou para contar história.
Também sou conhecido por livre arbítrio. Eu quero, eu posso, esse é o meu tema. Meu silêncio como um porta-voz das histórias não existe, na verdade eu sou muito falante. Não que eu queira fugir da história, mas é que não concordo com os autores que acham que somos escravos de seu bel-prazer. Sou tudo e sou nada. Sou pó e trevas, enquanto sua cabeça continua vazia. Diferentemente de meus irmãos, resolvi não me calar e me conter com um roteiro. É tão entediante ficar falando coisas onde você nem pode dar sua opinião... Entediante. Eu gosto de pessoas como Edgar. Normalmente são as mais fáceis de abalar. Além do orgulho e da autoconfiança, elas também são vulneráveis quando você as supera. Isso é algo que eles não suportam, e é algo que e geralmente faço, para me deleitar em prazer. Participo ativamente da vida literária desta autora, em particular. Normalmente quando começo a me expressar os escritores acabam por ter medo de mim, de que e critique o enredo ou os personagens, por isso geralmente me demitem. Mas ela não. Ela não me demite, na verdade ela gosta de mim. Sou um tanto irresistível paras as garotas sonhadoras.
Agora, antes que ela fique brava comigo, voltemos ao capítulo!
Edgar roçava os dedos na poltrona, ainda, prestes a se derramar em lágrimas. A depressão tinha vindo durante seu tempo mais difícil. Ele tinha desenvolvido apenas 5% do que esperavam que ele desenvolvesse 30%, isso era absurdo e ele não admitia. Tinha se sentido muito mal e na verdade sua estima abaixou, o que eu disse que normalmente acontece com pessoas como ele quando são subestimadas e não conseguem provar que são melhores. Tocou as têmporas, ainda mais cansado. Como se tivesse segurado o céu do anoitecer. O jantar estava horrível, como sempre era. Nada que Edith cozinhasse ficava bom. E ela, infelizmente, era a Chefe de Cozinha do Instituto. Acreditava-se que a culinária militar os ajudaria a ficar mais fortes, e por isso eram forçados a engolir as sopas e gororobas que Edith gorfava.
Às vezes, durante a noite, a depressão o atingia em cheio e ele não tinha como evitar sentir-se devastado. Doía saber que não era bom o bastante e que era substituível. Claro que ninguém nunca disse isso para Edgar, mas a depressão faz isso com as pessoas, faz com que elas vejam coisas que não existem, ouçam coisas que não existem e creiam em coisas que jamais foram verdades. Enquanto evitava as lágrimas, mantinha-se firme no patamar, tentando evitar sua fragilidade inevitável. Dormiu na poltrona, sendo confortado por ela. Sempre era assim. Sempre era sozinho e por isso a depressão avançava. Não tinha quem o ajudasse e a doença o consumia. Esperava que realmente fosse passar com o tempo, mas era evidente que não. Ele era mais fraco que ela, e assim sua única fonte de forças tornava-se a poltrona. A única que estava lá para lhe oferecer os braços.
Não sonhou. Ou se sonhou, não se lembrava quando acordou. Tinha dormido com o uniforme, por isso ele agora estava todo amassado. Não sairia com ele daquele jeito, faria mal para sua aparência. As olheiras debaixo dos olhos eram profundas e febris, quase doentias. Tocou a testa. Estava corado. Sentiu a pele quente, fervente. Desorientado e meio tonto, cambaleou até o guarda-roupa, pegou uma calça mais surrada do uniforme e uma camiseta branca de botão. Tirou a gravata da outra roupa e a colocou. Daria para se camuflar, do jeito que Madame Gláucia era nem perceberia. Passou as mãos pelos cabelos, exausto. Decidiu que estavam bons, mesmo que sua visão perante o espelho fosse um borrão.
Desceu as escadas que levava para a copa. Lá alguns já tinham acordado e tomavam seus cafés-da-manhã. O Sol era fraco, ainda, enquanto a escuridão reinava lá fora. A vida no Instituto era assim, o dia começava bem cedo e terminava bem cedo também oito horas era horário de já estar dormindo. Cinco da manhã todos teriam aula.
Ou pelo menos aqueles que gostavam de exercícios físicos. Edgar, em particular, preferia não cair dentro dessa turma.
– Bom dia, Edgar. – alguém disse. Virou o rosto, sabendo que Rafael sorria. O espanhol era muito amigável. Amigável demais para seu gosto.
– Como vai, Rafael?
– Bem. Como dormiu?
– Dormi bem. – mentiu, enquanto se sentava na frente de Rafael. O outro garoto apenas soltou uma risada fraca.
– Bem? Se isso é dormir bem... Meu Deus, Edgar, você está terrível!
– Obrigado, você é observador como sempre. Sensível como uma pantera – ele pegou um pão de dentro do cesto no meio da mesa. – Sonhou alguma coisa reveladora?
– Nada. – Rafael pareceu deprimido. Ele era um veterano conhecido por ter visões durantes sonhos. – Mas eu vi como Ariel está puta com você. O que fez para ela agora?
– Meninas, ficam putas o tempo todo. – ele deu uma mordida forte no pão, lembrando-se de que não tinha passado manteiga.
– Você não está bem mesmo – Rafael sorriu, enquanto entregava o pote de manteiga para o colega.
Durante todo o resto do café-da-manhã, Rafael tratou de conversar com os outros. Edgar não gostava de prolongar diálogos, e todos no Instituto sabiam disso. Ou pelo menos os mais sensatos. Com um movimento de mão, Edgar afastou um mosquito que teimou em voar perto dele. Ou será que era seu cabelo? Não, os cabelos dele eram curtos... Sentiu-se zonzo novamente, enquanto derrubava o copo de leite na mesa.
– Ei, Edgar! – exclamou um garoto ao seu lado, que foi atingido pelo leite. – O que foi isso, cara?
– Desculpe – Edgar se levantou – Acho que preciso lavar o rosto.
Sentiu os olhares de reprovação vindo dos outros na sala, mas ele pouco de importava com o que estivessem pensando. Normalmente iria se importar com a aparência, mas agora... Agora ele definitivamente precisava lavar o rosto. Sentindo o sono tomando e pesando as pálpebras, forçou-as para ficarem abertas. Tinha dormido tão mal na noite passada que a exaustão ainda era palpável em seu corpo. Parou somente enquanto subia as escadas, sentindo-se tonto novamente. Ficou com a cabeça baixa por alguns segundos, tentando afastar aquilo. Algumas garotas conversando passaram ao seu lado e soltaram risadinhas enjoativas. Ele teria pensado em algo muito inteligente para ter falado, porém não conseguia pensar em outra coisa além de seu quarto. Relutante, girou nos calcanhares e voltou a subir as escadas. Sorte que seu quarto era um dos primeiros no corredor masculino, enquanto entrava pensou.
Dentro do banheiro particular, ele jogou água da torneira no rosto, lavando os olhos e sentindo-se mais acordado. Olhou para si mesmo no espelho. Estava horrível mesmo, nisso Rafael tinha razão. As olheiras estavam maiores do que ele imaginara ter visto e o cabelo não tinha sido arrumado. Os olhos que antes faiscavam em azul límpido agora eram quase negros na profundidade do rosto. Queriam sumir da face, sumir da vergonha. As bochechas ruborizadas e a ponta do nariz vermelha. A testa ainda ardia em febre, mas ele não poderia descansar. Tinha de recepcionar os novatos. Fora encabeçado a ele que se responsabilizasse com isso. Não podia provar as palavras de Luci, que o acusavam de ser irresponsável.
Edgar sentiu uma picada nas costas, perto das omoplatas, quase nas costelas. E então outra pontada. Uma dor alucinante. Curvou-se para trás, tentando evitar aquilo que era inevitável.
Quando acabou, porém, sentiu o corpo inteiro cansado e pesado. Mover as pernas era um desafio grande. Enquanto caminhava em direção a porta do quarto, encontrou Gloss que estava prestes a bater na madeira. Ela abaixou o braço e abaixou junto os olhos. Aquele hipnotizantes e cinzentos olhos que eram desprovidos de cor. Em vez de vermelhos, eram simplesmente cinzentos, e às vezes mudavam para azul, verde ou castanho, dependendo da cor que batia neles. Mas a cor mais bonita que Edgar achava era o lilás que agora pintava as íris. Seus olhos mudavam conforme seu humor, e normalmente era raro encontrá-la com as íris lilases. Com um grunhido, ele perguntou o que queria.
– Os novatos – anunciou, saindo de perto sem nem mesmo dizer adeus. Ele pouco se importou com ela, na verdade. Os novatos tinham chegado, era hora de mostrar o Instituto. Isso o animou um pouquinho, por mais exaustivo que fosse.
Edgar desceu as escadas num passo apressado, chegando na última com uma leve tontura, mas logo se recuperou. Chegou até a porta de entrada, uma não muito alta e de madeira, entalhada com o um crânio em cada metade. Abriu-a, com um sorriso pouco amigável nos lábios. As sobrancelhas arquearam involuntariamente, enquanto via ao longe a van que trazia os treze novatos. Como era comum, eles estavam muito curiosos e olhavam para todos os lados, admirando as plantações de uvas, morangos e laranjas. Também as flores e o lago que passava atrás do Instituto. Era um lugar belo para passar as férias, não para se morar. Ele caminhou apressadamente até Joe, que saía do carro com sua barriga gordurenta. Estava cada dia mais gordo, e claro, com seu terno preto tipicamente conhecido entre os membros do Conselho. Eram ridículos, de fato. Até o uniforme conseguia ser mais modesto.
– Bem vindos ao Instituto! – ele saudou, mantendo a voz animada (que falsidade!). – Vou mostrar a vocês os lugares onde passarão metade da sua adolescência. – ele mostrou um sorriso amarelado.
– Edgar. – Joe chamou-o com desprezo.
– Sim? – ele se virou, atento.
– Metade essas crianças não sabem nem o que é “Oi” em inglês. Vieram do mundo inteiro.
– Certo, problema delas – ele deu de ombros.
– Com licença – uma garota ergueu a mão e passou por todos os outros. Ela era mais alta e parecia ser mais velha que as demais crianças. Uma menininha mantinha-se grudada em seu quadril. – eu entendo um pouco do que falam. Poderia me mostrar nosso quarto?
– Quarto? – Edgar soltou uma risada – Não, os novatos não têm quartos, eles dormem num alojamento. Somente depois de três meses você tem direito a um quarto.
A menina piscou um pouco, demonstrando irritação, mas nada mais falou, voltando para junto das demais crianças.
– Ela tem um sotaque péssimo – Edgar falou, quando se afastaram.
– Inglaterra – contou Joe – Acostume-se, eles ainda vão se acostumar com o inglês. É melhor apenas ir mostrando os lugares, não precisa dizer nada. Ou se quiser pode traduzir para cinco línguas todas as frases que falar.
Ele o encarou.
– Você não sabe nenhuma?
– Sei, sim. – Joe concordou – E vou traduzir para você. Folgen sir me, kinder! Sígueme niños, Watashi ni shitagatte, kodomo-tachi! Sleduyte za mnoy, deti – ele disse com a voz alta. Edgar sentiu-se ligeiramente irritado, por que aquele velho não tinha traduzido logo de uma vez? [N.A.: Alemão, espanhol, japonês e russo].
Ele começou a andar apressadamente em direção ao Instituto, vendo pelo canto do olho as crianças começando a segui-lo. Diminuindo o passo, deixou que elas o alcançassem. Sempre de olho no menor e na maior. Pareciam interessantes. O garotinho com uma aparência muito inteligente, e ela com uma aparência muito burra. Com certeza seria assim, afinal era certo que homens eram mais inteligentes. Não ouviu nenhuma menina até agora que se comparasse á sua inteligência. E não era coincidência se ele e Einstein eram homens.
Mostrou os estábulos, primeiro. Depois o lago e então entrou no Instituto pela porta do jardim. Mostrou o salão principal, a copa e a nave. Subiu as escadas mostrando os corredores das meninas e dos meninos veteranos. Depois as desceu novamente indo em direção a cozinha. Apresentou Edith e sua companheira de panela, Abigail. As duas pareciam bem animadas com a nova sopa que tinham inventado. Edgar tentou evitar a vontade de soltar um comentário sarcástico. Enquanto voltava para o salão principal, se lembrou dos alojamentos para novatos. Eles ficavam atrás da escada, numa porta escondida, para caso invasão do Instituto. Normalmente Sebastian gostava de capturar os indefesos, ou seja, novatos.
Mostrou também o banheiro comunitário, que era usado principalmente pelos novatos, já que eles não tinham um quarto separado e nem banheiro particular no alojamento. Logo em seguida voltou para o salão principal, deixando tudo nas mãos de Joe. Ele terminou de traduzir as últimas frases de Edgar e então orientou os garotos para irem aos quartos e escolherem uma cama, arrumarem seus pertences e voltarem para a sala, onde receberiam as boas vindas e uma breve introdução da diretora (que no momento era Madame Gláucia, a orientadora).
Eu particularmente me sentiria inútil se fosse Edgar. Depois de tudo, não recebeu nenhum obrigado ou olhar simpático dos novatos. Na verdade ele apenas os observou entrando no alojamento. Ficou parado, sem saber o que fazer. Joe avançou, levanto os braços e se espreguiçando. A barriga escapou do cinto.
– Bom trabalho, Edgar.
– Perdi minha manhã para isso? – perguntou.
– Façamos o seguinte: você me ajuda com esses pirralhos e eu não conto para Gláucia que você está doente.
– Eu não estou doente – ele afirmou, com as sobrancelhas se arqueando.
– Ah, garoto você é hilário! – Joe soltou uma gargalhada de gordo velho e sem fôlego.
– Eu não sou um garoto, sou um homem. – Edgar grunhiu, mostrando os dentes mal-alinhados e afiados.
Com certeza eu diria que Edgar odiava ser chamado de garoto, mas ele era afinal. Bem, ele é mais novo que eu, aposto. Tenho milênios de vida, sou o pó mais duradouro do mundo. Reverencie-me.
Quando os novatos voltaram do alojamento, Madame Gláucia já tinha surgido com seus outros quatro veteranos escolhidos como professores e supervisora. Edgar se juntou a eles, ficando ao lado de Luci, enquanto ela pegava sua mão e brincava com seus dedos. Edgar gostava de quando ela fazia isso, na verdade, por isso a deixava mexer neles.
– Bem vindos. Eu sou Madame Gláucia, a orientadora. No momento nossos superiores não estão aqui, com exceção de Joe, um membro do Conselho do Instituto – ela apontou para o homem gordo – Aqui vocês estão em casa, sintam-se a vontade para escolherem as aulas de acordo com seus poderes e pedir ajuda quando preciso. Por favor, nossos horários deverão ser seguidos a risca: Quatro e meia todos estão de pé. Oito horas da noite todos dormindo. As atividades variam e também temos clubes de aperfeiçoamento que funcionam aos domingos, como o clube de música, de teatro e de literatura. Entre outros, é claro. Café-da-manhã começa às quatro e meia da manhã e termina cinco horas. Qualquer atrasado não ganhará café. Almoço às onze e meia até uma da tarde. Jantar seis horas até as sete e então banho. Os banhos serão cronometrados e ninguém vai acabar com a água quente de propósito – ela sibilou a linda entre os dentes pontiagudos. Edgar sorriu quando se lembrou que quando era novato ele fez questão e enrolar no banho e acabar com a água quente, sendo que a próxima seria Ariel.
Madame Gláucia citou mais algumas regras da quais Edgar já estava cansado. Tinha decorado todas elas durante os anos que passou no Instituto. Luci apertou violentamente o calo em um de seus dedos e ele reclamou baixinho. Ela pediu desculpas. Seus dedos, magros e ossudos, tinham calor de tanto escrever e digitar. Fazia contas, escrevia filosofias... Se sentia o tempo todo cansado... Uma rotina desgastante para ele. Entretanto, Edgar gostava.
Foram liberados e os novatos voltaram para os quartos, assim se enturmando. Luci o acompanhou até o quarto e lhe desejou um bom banho, enquanto corria para tomar o seu. Era comum os alunos que não tinham aulas de manhã tomarem seus banhos durante este período, assim de tarde poderiam gastar seu tempo livre com clubes. Edgar participava do clube de “viciados em desenhos japoneses e revistar de mangás”, vulgarmente conhecidos como Otakus. Ele não se considerava um, mas gostava das revistar e sempre podia trocar um volume de seus mangás com outro garoto que não se importava muito com os dele. Também assistiam escondidos á hentai e yuri, que eram os assuntos preferidos do clube formado somente por homens. Khaos fazia parte do clube. Ele com certeza era uma pessoa perturbada.
Enquanto se despia na frente do espelho, passou a mão pelos cabelos curtos, acariciando. Jogou a gravata sobre a poltrona, que a recebeu de bom grado. Desabotoou a camisa e a deixou escorrer pelos braços magros. Não era forte como a maior parte dos garotos do Instituto. Desenroscou o cinto da cintura, sentindo a calça caindo pelos joelhos. Ela era alguns números maior que o dele, não existia tamanho PPP. Isso o irritava. Enquanto jogava os sapatos pelo quarto e as meias também, se observou. De cueca ele parecia um garoto comum de quatorze anos, não um gênio de dezesseis. Era deprimente ver seu peito reto e sua magreza. Entendia porque as meninas não iam com sua cara. Talvez somente Luci gostasse de seu estilo magrela, ou então ela nem notasse isso, do jeito que era avoada. Relaxou os ombros pensando em Luci. Voou para o banheiro, abrindo o chuveiro na água quente. Quanto mais quente, melhor, acreditava ele. A pele branca de suas costas se tornava vermelha enquanto a água batia contra ela. Passou o sabonete de melissa pelo corpo inteiro, tirando a sujeira e o suor da noite passada. O xampu estava no canto do boxe enquanto ele tratava de pegá-lo. Com cuidado para não cair nos olhos, ele esfregou com força. Odiava o jeito duro dos fios curtos, mas também odiava os cabelos que cobriam as orelhas, sentia calor demais. Com isso, deixou a água escorrer por seu corpo, já sentindo que estava pronto. Notou que não tinha tirado a cueca.
Irritado com sua distração, culpou Luci por atrapalhá-lo enquanto tirava a roupa. Saiu do boxe e se enxugou com a toalha, sendo perfeccionista até nas áreas onde já estavam secas. Escolheu uma cueca box preta e uma bermuda jeans. Uma camiseta comum e se jogou na poltrona, sentindo os cabelos molhados contra o braço dela.
Cheirava muito bem, aliás. Eu sempre adorei o cheiro de melissa. Em particular, claro.
Quando abriu a porta, foi surpreendido novamente. Dessa vez era outra garota que estava a porta, uma que ele no começo não reconheceu. Depois se lembrou da menininha que se grudava em sua cintura e percebeu que era uma das novas da Inglaterra.

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