Q.I.- Fanfic Interativa
25 Os Gritos dos Fantasmas Parte Um
Notas iniciais
Os Gritos dos Fantasmas – Parte Um
“Ilusão é a única realidade deste mundo” – José de Alencar
Anya Pentilivrusky
Embora agora Bran estivesse quase evitando sair do quarto, Anya não entendia porque aquela menina tinha gritado tanto com ele. Enquanto estava deitada na cama do quarto do menino, e ele se enrolava nos cobertores ao seu lado, Anya ficou refletindo sobre como Bran tinha quase matado seu pai. Não entendia porque ele tinha tanto ódio pelo homem que havia criado ela com todo o amor e carinho que um pai poderia dar ao seu filho. Papai nunca fez mal a nenhum ser que ela já tivesse visto, nunca o viu bater em alguém ou fazer outra coisa além de gritar. Não conseguia acreditar que Bran realmente não gostasse de seu pai pois achava que ele tinha matado sua família (o que nunca seria verdade, afinal Anya conhecia papai melhor que qualquer outra pessoa). Não queria mais pensar sobre aquilo, afinal se sentia traidora ao saber que estava com Bran em vez de estar com papai.
– O que te faz ter tanta certeza de que ele matou sua família? – perguntou, por fim.
– Eu sei que foi ele. Não preciso de provas. Os monstros dele, de fumaça, que invadiram minha casa. Eu lembro. – Bran não se virou, continuou mergulhado nas cobertas, tentando se manter aquecido. – Não pode ter sido outra pessoa.
– O que ele fez de tão errado? Ele já deve ter se arrependido.
– Não é como se ele já tivesse feito algo errado – Bran se mexeu, incomodado – Ele está fazendo algo errado. Só você não vê.
– Se alguém me explicasse, talvez eu visse – ela balbuciou, emburrada. Sim, as pessoas não contavam as coisas para Anya temendo que ela fosse nova demais para entender.
Bran se virou para ela, com um sorriso fraco no rosto.
– Sebastian quer construir uma sociedade perfeita, sem doenças ou violência.
– Isso é bom.
– É claro que é bom. – Bran assentiu – Porém os métodos dele se chegar a perfeição são doentias e muitas pessoas já morreram. Inclusive sua mãe, Anya. Petor me contou que sua mãe tinha a mesma habilidade que você, e Sebastian fez experiências usando o sangue dela e aplicando em outros animais e até pessoas para ver se eles conseguiam atingir a imortalidade. Os testes sempre fracassaram. Sua mãe não tinha tanto sangue assim. Foi inevitável. Mas antes de você nascer, ele tomou cuidado para que você tivesse o mesmo dom que ela. Acho que foi a primeira experiência dele que deu certo.
Anya escutava com atenção, tentando associar aquela imagem do pai com a imagem que ela conhecia. Era bem diferente...
– Isso é verdade?
– Sim. – Bran sorriu, fraco e triste. – Se acreditar em mim, então é verdade. Ele nunca quis que você visse esse lado dele pois seria mais fácil mantê-la por perto através dos seus sentimentos fraternais. Na minha opinião ele nunca te amou, ele amava seus poderes, não você. Tanto faz se Anya era filha de Sebastian, ou se era apenas uma mendiga.
Anya refletiu e absorveu aquelas informações sobre seu pai, um pai que ela ainda não conhecia.
– Não a culpo, Anya, sei o que é ver algo e as pessoas lhe contarem algo totalmente diferente... Se eu fosse você também me perguntaria em que acreditar. Em meu pai ou em um simples órfão.
– É o que estou me perguntando agora – Anya se encolheu, abraçando os joelhos e os levando ao queixo. – O que me irrita é que oscilo entre acreditar em você e em meu pai, o que é totalmente inaceitável, afinal ele é meu pai.
Bran assentiu, sem se sentir ofendido. Anya tinha seis meses, e era o bebê mais esperto que já tinha visto. Sentiu desejo de abraçá-la, mas não o fez. Por outro lado, botou Rose da mente para tentar afastar os pensamentos de Anya. Normalmente os dias tinham sido assim: hora pensava em Anya e tentava afastá-la pensando em Rose, hora pensava em Rose e tentava afastá-la pensando em Anya. No final, ficava confuso. Rose nem era importante. Num impulso tinha beijado-a e agora tudo parecia mais tenso perto dela.
Nesses momentos, Anya se sentia fraca. Uma pessoa desprovida de forças. Não conseguia mover-se, não conseguia pensar. Era simplesmente uma coisa parecia com pó. Não o mesmo pó que eu, mas um pó pelo lado negativo.
Eu até poderia gostar de Anya, porém ela é uma pessoa fraca. Uma mente fraca. Seus sentimentos dominam suas ações, e desse jeito é uma pessoa impulsiva. É movida pelas emoções e pelo calor do momento, e eu realmente odeio pessoas assim. Raramente alguém vive pela emoção e acaba intacto.
Por outro lado, eu sou somente um pó, e nada posso dizer sobre sentimentos humanos.
– Fazem dois meses que eu te conheço – Bran comentou – E sinto como se tivesse vivido uma vida inteira com você.
– Intimidade é algo que as pessoas conquistam facilmente comigo.
– De fato. – ele se apoiou nos cotovelos – O que acha que dito para Rose? Beijei-a sem que ela me desse permissão e agora me evita.
– Peça desculpas e diga que nunca mais vai fazer de novo. – ela deu de ombros, indiferente.
– E se eu não quiser “nunca mais fazer isso” – Bran olhou para o nariz da garota, fino e levemente arrebitado.
Ela deu de ombros novamente. Bran queria, de alguma forma, que ela não parecesse tão indiferente. Ou que pelo menos entendesse o que ele queria dizer. Se sentiu irritado.
º º º
Delilah Morgenst
Escutou o uivo de Crystal ao longe, enquanto mantinha o passo perto de Esmeralda. A loba devolveu o uivo, ainda seguindo e abrindo caminho na frente da caçada. Delilah ergueu o arco enquanto caminhava, tomando cuidado para não prender a lã negra nos galhos da floresta. Seus pés pisando nas folhas secas não levantavam um chiado e poderia desaparecer quando quisesse no meio da vegetação. Esticou a corda, mirando em seu alvo. Um servo que Esmeralda tinha farejado horas atrás. Encostando a ponta da flecha nos lábios, soltou-a, fazendo-a voar em direção ao servo. Não era a melhor arqueira, mesmo assim era responsável pela comida aos sábados.
– Boa, Esme – Delilah acariciou as orelhas da loba, que se deleitou do afago. – Vamos voltar.
Prendeu o arco no ombro e andou suavemente até o servo, pegando-o. Tinha acertado da testa, o lugar onde treinara a vida inteira para acertar. Nenhuma outra parte do animal deveria ser sacrificado para seu abate, somente a testa. Colocou-o sobre os ombros, sem se importar com o sangue que lhe escorria da testa e fez um meneio para Esmeralda, para que ela fosse abrindo caminho e certificando-se de que não havia perigo. Todas as caçadoras tinham suas lobas. As mensageiras tinham seus coelhos e as guardiãs tinham suas águias. Todas fêmeas. Todas castradas. Eram donzelas virgens e pra sempre seriam. Delilah ainda se lembrava de seu juramento, quando foi acolhida pelos Fantasmas. Era uma sociedade dura e ao mesmo tempo aconchegante. Gostava de tê-las como família.
Sentia os cabelos cacheados lhe caindo pelas costas. Não era permitido prendê-los nem que fosse caso de vida ou morte, era uma das regras. Cabelos só se eram cortados quando você cometia algum pecado, como comer sobremesa antes da hora ou caçar coelhos só para você.
Até agora, Delilah era a moça com os cabelos mais longos do clã.
Às vezes o Canadá conseguia ser um lugar bem áspero para se morar, mesmo que o clã ficasse perto da fronteira. Moveu-se silenciosamente, como uma sombra, até chegar ao limite dos portões da Cidade de Sombras, onde os Fantasmas morava. Encontrou facilmente a abertura na grade de proteção, onde os Fantasmas usavam para entrar. Elas não tinham portões, pois isso seria uma porta convidativa para intrusos, assim deixaram somente uma falha, quase invisível, na grade. O arco enroscou, mas ela o puxou com força, se abaixando ainda mais. Esmeralda passou rápida como um raio, sem relar um tufo de pelo.
– Bom trabalho – Delilah sorriu para a loba, logo sendo recebida por sua aprendiz, Layla.
– Você caçou? – Layla pulou para ver o animal que trazia nos ombros – É um veado? Uma cabrita? Um leopardo? Ou um lobo do mato?
Esmeralda rosnou, mostrando os dentes.
– Perdão, Esme – Layla acariciou a pelagem da loba. – O que você trouxe? Atingiu bem o meio da testa!
– Um servo – mostrou Delilah – São raros nesta época do ano. Acho que alguém vai ganhar sobremesa a mais hoje. – e então mostrou seu sorriso, que reservava unicamente para Layla.
A menina sorriu de volta. Não era a toa que Layla só gostasse de Delilah. A menina era como uma deusa para Layla. Com seus quase dez anos, já a admirava. Queria ser uma Fantasma tão boa quanto Delilah! E se tornaria. Os cachos tinham começado a aparecer, levemente nas pontas dos fios dourados. Tinha se juntado aos Fantasmas quando a casa em que morara fora incendiada por lobos selvagens. Os Fantasmas a salvaram, e salvaram sua família, da morte. Mas em troca elas exigiram o juramento de Layla, a única filha do casal. E assim que viu as mulheres armadas e com roupas de couro, prontas para proteger a pátria, não hesitou. Mamãe sorriu quando ela prometeu voltar e visitá-los todos os meses. Lady Cecília não tinha ficado satisfeita, mas mesmo assim permitiu.
Layla mal sabia mirar uma flecha, mas sabia que Delilah era a melhor professora para isso. Ela nunca errava, sempre acertava a testa. Isso fazia dela a melhor em arco-flecha, mesmo que ela própria não se considerasse. Todos do clã só falavam disso e de como Darah era boa em esgrima.
Darah era sobrinha de Lady Cecília e a menina mais arrogante e egoísta do clã. Ela conseguia ser pior que Helena, a doida. Se Darah já era amarga com sua personalidade forte, Helena era o caos. Não que fosse chata e irritante, mas ela era... Inconveniente. Maluca. Completamente pirada. Após ter ido numa missão contra o exército de Sebastian, ela ficou desse jeito, não dizia coisa com coisa, nem pensava direito. Era como se estivesse vivendo em seu próprio universo. Às vezes murmurava coisas sem nexo.
Todas as Fantasmas tinham cabelos cacheados. Eles ficavam assim quando você terminava o juramento. Às vezes demorava um pouco, outras era instantâneo. Com Layla só começara quando já fazia duas semanas que tinha feito o juramento. Com Delilah foi instantâneo. Diziam que isso dependia do quanto você era Fantasma. Se você tinha nascido para ser uma, ou se tinha sido escolhida. Se você fosse escolhida, demoraria, se nascesse com sangue Fantasma era num piscar de olhos. Diziam as lendas que Lady Cecília nem terminou de recitar seu juramento e já estava vestida de couro, com um arco nas costas e os cabelos cacheados caindo os ombros. Elas falavam que os espíritos da natureza tinham escolhido Cecília como líder do clã. E Layla acreditava naquilo como se fosse sua religião.
Delilah esticou o braço, levando os longos cabelos para o ombro esquerdo. A roupa de couro estava quase oculta com a manta de lã negra que ela havia colocado sobre o peito. Os olhos negros de Delilah pareciam contas, prontas para perfurar alguém. Com o servo na mão direita, deixou que Layla levasse seu arco e sua aljava, enquanto caminhava em direção a cozinha. Brena, com seus curtos cabelos cacheados, estava preparando um cozido de lebre, quando viu as duas garotas se aproximando com o animal. Pulou para longe do fogão de barro e foi qualificar o animal abatido.
– Magro – disse por fim – Mas é bom. Por favor, deixe-o na mesa. – e deu as costas.
Brena era uma mulher ruiva que já tinha mais de quinze anos de juramento. Ela normalmente roubava comida da cozinha para dar a sua loba, Jéssica, que comia como um urso. Ela sempre estava com os cabelos curtos, mas isso era quase um charme para ela, deixando-a mais alta e mais jovem. Os olhos azuis escuros lhe faziam ainda mais, encurtando os anos de aparência e pele macia e sem linhas também ajudava. Ela deveria ter trinta e oito anos, parecia ter vinte e cinco.
Delilah colocou a mão sobre o ombro de Layla, levando-a para o outro lado da Cidade. Era tão pequena que se poderia atravessar em menos de cinqüenta passos. O chalé de Delilah era bem pequeno, como de todas, só tinha espaço para um quarto e um banheiro. O baú que ela mantinha no chão estava recheado de roupas dos Fantasmas e de algumas armas. Ela deixava o arco em qualquer lugar que pudesse usá-lo com rapidez, porém também manejava espadas, adagas e bestas, que ficavam no arsenal.
Esmeralda pulou na cama de Delilah, sem se importar com Crystal, que já dormia confortavelmente. Crystal era a loba de Layla, aquela que de meia em meia hora questionava com um uivo se Delilah estava bem. Layla se sentou na ponta da cama de Delilah, observando a menina pousar o arco na parede perto do baú e a aljava logo abaixo dele. Com cuidado, passou a mão pela cabeça de Crystal. A loba totalmente branca lambeu gentilmente sua mão, deixando uma sensação de calor e aspereza.
º º º
Quinta estante á esquerda, décima quarta prateleira, Guardas à Porta.

Delilah
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