Q.I.- Fanfic Interativa
26 Os Gritos dos Fantasmas - Parte Dois
Notas iniciais
Os Gritos dos Fantasmas – Parte Dois
Um Menino Mau
“O homem vive de ilusão; é o pão nosso de cada hora” – Antero de Figueiredo
Kano Shuuya
Convencê-los de que era um bom menino foi difícil, mas ninguém poderia culpá-los. Se Kano tivesse de se julgar, não seria algo muito positivo. E ele gostava disso. Enfiou as mãos no fundo dos bolsos do casaco, suspirando e vendo a brancura no ar que tinha acabado de jogar para fora de seus lábios. Sua pele estava avermelhada, enquanto frio consumia as partes expostas de seu corpo. Assoprou a franja loira para cima, mas ela voltou para o mesmo lugar, rebelde.
Com o cotovelo, questionou a cortina se já tinha parado a rajada de vento, mas quando olhou por ela percebeu que não. Odiava ter de ficar preso lá dentro enquanto o mundo acabava do lado de fora. A neve cobrira os carros e placas de sinais de trânsito. Tocou as bochechas geladas e avermelhadas. Kano tinha de sair daquela janela se não quisesse morrer congelado. Tratou de caminhar até o lado oposto da sala, onde as prateleiras eram repletas de livros até o teto. Sebastian estava debruçado sobre sua escrivaninha, lendo algum livro, como normalmente fazia quando não estava no escritório. A biblioteca servia como seu santuário.
– Shuuya... Você se lembra do rosto desse menino que o nocauteou?
– Não, Senhor Sebastian.
– Não gosto que mintam para mim. Não tão explicitamente. – Sebastian se virou na cadeira – Você sabe que não gosto, jovem Shuuya. E sabe que não gosto de você.
– Sei. – concordou ele.
– Então facilite as coisas, caso, é claro, queira ver ela de novo.
Kano sentiu a garganta secando. Ele sempre usava a mesma ameaça, e embora Kano não soubesse se era verdade, sentia uma dor profunda sempre que Sebastian se referia a ela. Sentiu o suor escorrendo entre os dedos da mão dentro do bolso do casaco.
– Eu não me lembro – ele abaixou os olhos – Se me lembrasse, contaria.
– Então não se importa se eu vasculhar sua mente? – Sebastian se levantou, com o casaco batendo nos joelhos.
Kano deu um passo para frente, quase tremendo. O medo que sentia por Sebastian era quase tão avassalador quanto o frio da Rússia. O inverno era um castigo. Sebastian era o próprio pecado. Enquanto media as palavras que deveria usar para recusar aquilo gentilmente, a porta se abriu numa salvação. Oh, Deus tinha lhe enviado um milagre, pensou, mesmo que ele não acreditasse em Deus. Um dos guardas do terceiro andar deu um passo para frente. Se curvou diante de Sebastian e então ergueu sua voz deformada.
– Temos os filmes, senhor.
– Ótimo – Sebastian bateu as luvas. – Não precisarei vasculhar sua mente, jovem Shuuya, poderei ver com meus próprios olhos o que de fato aconteceu. Gahlo – ele se virou para o guarda-fumaça – Traga-me um copo de café, por favor, e a fita, claro.
– Sim, senhor – Gahlo se curvou e virou as costas, partindo em direção a cozinha.
Mais uma vez Kano sentiu a garganta secar e se fechar. Agora é que não sabia como iria sofrer pela traição. Mesmo enquanto os Resistentes tinham dito que era melhor que Kano ficasse no Instituto com eles, o menino declinou do convite. E agora se arrependia veemente. Enquanto observava Sebastian voltar para sua cadeira almofadada, sentiu o frio invadi-lo.
– Gostaria de um pouco de café também, jovem Shuuya?
– Claro – Kano sorriu, forçado. Talvez assim tivesse uma chance de...
– Que pena, eu me esqueci de pedir ao Gahlo... Se não se sentir incomodado, poderia ir buscar por si mesmo?
– Claro, Senhor Sebastian. – Kano se curvou, tentando conter aquela agitação dentro de seu estômago. Sebastian não poderia prendê-lo caso o seu objetivo fosse fugir. Tinha muita experiência nisso para se sentir ameaçado por um... Um homem de quarenta anos que o chamava de “Jovem Shuuya”.
Deu as costas para Sebastian e saiu da biblioteca, tentando controlar a vontade de sair correndo pelo corredor. Quando chegou ao final dele, virou para a direita em vez da esquerda e começou sua corrida em direção ao elevador. Enquanto mantinha os pés rápidos, desviou de dois guardas-fumaça que tentaram lhe barrar a passagem. Sebastian tinha sido esperto em testá-lo, Kano pensou, mas não esperto o bastante para subestimá-lo.
Avançou sobre um dos guardas e usou o joelho dele para se levantar sobre as paredes e pisar nelas enquanto corria lateralmente. Não poderia voar para sempre e logo caiu, usando o terceiro guarda como escudo contra o chão. Chutou a cara do segundo e virou nos calcanhares, voltando a correr. Adorava aquilo! Aquela adrenalina, o coração fervendo as veias... Era excitante! Era maravilhoso! A melhor parte de seu trabalho!
Enquanto corria, viu um guarda jogar uma corrente no corredor em que passava, apertou o passo sentindo os músculos realmente começarem a trabalhar. Não me subestime tanto, Sebastian, pensou avidamente, quase excitado. Agachou quando a corrente tocou o chão atrás de si, e passou quase deslizando os joelhos no chão e se abaixando até relar a nuca no carpete. Ao se levantar, socou o estômago do guarda e o deixou cair, continuando seu caminho. Mais quatro apareceram pelo segundo corredor, todos com amas de fogo nas mãos. Era raro que os guardas a usassem. Somente em ocasiões especiais. Kano se sentiu honrado.
Quando avistou o elevador segundo guardado por cinco guardas, sorriu maliciosamente. Ele era um menino mau, e meninos maus precisam de atenção redobrada... Sebastian deveria realmente querer sua cabeça. Enquanto virava na direção oposta, indo para a cobertura, passou de raspão pelo gládio de um guarda, rasgando a manga de seu casaco. Sorriu, a pele tinha servido como uma armadura e nada o afetara, somente o tecido se rompeu. Saiu correndo, ouvindo os insultos e os passos de mais guardas que se uniam ao primeiro. Virou para a direita, no labirinto de corredores que era hotel de Sebastian. Quando chegou às escadas que o levariam até a cobertura, apertou o passo. Um pé mais ligeiro que o outro assim que mais um degrau era subido. Seu peito estava explodindo e ele sentia o ligeiro gosto do sangue na boca. Normalmente mordia a parte interna da bochecha enquanto estava na adrenalina.
Abriu a porta, saindo em disparada. Guardas já o esperavam na cobertura e tentara barrá-lo, mas Kano mudou o caminho que seguia e foi em direção ao telhado. Subiu nele e sentiu o vento tomá-lo num abraçado nada carinhoso. O sorriso invadia seu rosto, sentindo que os guardas continuavam a segui-lo. Era tão bom ser um menino mau!
Quando se viu encurralado entre o final do telhado e os guardas, não diminuiu o passo, sua corrida já lhe dava mais coragem e a adrenalina ajudava. Autoconfiante, Kano jogou-se no ar frio da Rússia, caindo mais de trinta andares em direção a morte.
º º º
Retornando das Cinzas
Rebecca Kieran
A vida em Dallas nunca tinha sido muito fácil, mas a vida no Instituto era bem o contrário. Era muito fácil. Levando em consideração que eles não eram lá muito atacados. Mas agora, que tinham sido, Rebecca sabia que era hora de lutar e bater de frente contra a ameaça. Enquanto corria em direção a Madame Gláucia, pedindo armas, lembrou-se de que papai e Math sempre lhe violaram e lhe olharam com olhos não fraternais. Mamãe, com sua irresponsável paixão pela música, nem se preocupava em saber se a filha estava bem, e assim Rebecca aprendeu que o melhor jeito de se resolver algo era fugir. O melhor jeito, não o mais digno.
Não sabia, porém, que morreria tentando.
Abriu os olhos, suando frio e sentindo aquele gosto amargo. Procurou por alguma coisa para se agarrar e encontrou a mão de alguém. A apertou com toda sua força, deixando que seu peito se acalmasse. Ela encontrou aqueles olhos púrpuros e se fixou neles, sem mover mais nem um músculo. Encantada, sentiu as bochechas ruborizando.
Os cabelos negros feito carvão lhe chamaram a atenção. Eram cacheados e alguns cachinhos caiam sobre os olhos esverdeados.
– Você está bem? – ele perguntou, tirando-a de seus devaneios.
– Claro – tentou esboçar um sorriso, mas sentiu o gosto da fome.
– Está bem magra... – ele comentou – Vou mandar trazerem uma sopa para você, tudo bem?
– Claro – Rebecca repetiu, ainda meio atordoada com a beleza a sua frente. – Quem é você? Quer dizer, desculpe, qual seu nome?
O menino sorriu. Aquele sorriso de filmes, onde os mocinhos sempre têm uma pequena parte de brilho nos dentes e a cena fica lenta, mostrando com precisão os detalhes das covinhas e dos lábios. Becca sentiu novamente o rubor em seu rosto.
– E qual o seu nome? – ele moveu as sobrancelhas grossas e negras de um modo que sugeriam pergunta.
– Rebecca.
– Rebecca é um nome bonito. O meu é Alexander, mas me chame de Alex. Como devo chamá-la?
– Becca – ela abaixou os olhos, ainda envergonhada. Nunca um menino tão bonito tinha sido tão simpático com ela.
– Becca me lembra uma velha amiga veterana. – ele mostrou seu sorriso Colgate novamente. – Ela morreu na Batalha do Desamparado. Espero que você não tenha o mesmo destino que ela. Mas duvido que tenha, afinal você sobreviveu a uma lâmina das trevas, sabe o quanto uma coisa dessas é perigosa?
– Não – Becca admitiu. – O que é lâmina das trevas?
– Uma faca ou adaga, até mesmo punhal, mergulhado em sangue de pégaso. É como veneno.
– Quem mataria uma criatura tão boa somente para ter seu sangue? – Rebecca notou o quão sentimental estava parecendo. Com certeza aquele garoto não deveria gostar de meninas fraquinhas e sentimentais. Mas Alex somente sorriu, com aquele encantador rosto.
– Alguém muito mau, Becca. Bom, deixe-me ir buscar sua sopa, afinal você é só pele e osso, precisa se recompor. Está adormecida faz três dias.
– Três dias? – perguntou ela, abismada.
Alexander soltou uma gargalhada divertida enquanto fechava a porta do quarto, e antes de trancá-la, disse:
– Isso é normal na sua nova vida.
Seu tom era sereno.
º º º
O Outro Lado do Monte
Líria Ajej
Soltou a flecha enquanto ela assobiava pelo vento. Atingiu a terceira faixa do alvo, o que a deixou meio satisfeita, embora eu desejo fosse acertar o círculo. Kelen pressionou as têmporas. Ela era uma mulher alta, com os cabelos cacheados esvoaçando e armados. Os olhos azuis claros eram pálidos, mesmo assim ela era jovem e forte. Tinha no máximo vinte e cinco anos, enquanto a maioria das Fantasmas tinham entre dezoito e vinte e três. Kelen era a Guardiã da Torre Norte, a Torre mais importante entre as quatro da Cidade de Torgen. Torgen era a capital das Fantasmas, onde a sociedade sobrevivia ao longo inverno. A cidade não passava de trinta casas grandes, mas não muito altas, no máximo trezentos Fantasmas e mais cem lobos, cem corujas e cem coelhos.
Líria tinha feito seu juramento fazia três dias e já tinha sido escolhida como uma guardiã. Dizia que era o trabalho mais nobre dentro da sociedade, mas também o mais duro. Elas protegiam as fronteiras de Torgen contra homens, animais ou qualquer tipo de ameaça, deviam ser as melhores em tudo. Arco e flecha, espadas ou corpo-a-corpo. Seu treinamento começara hoje, e já fazia duas horas seguidas que Líria treinava com o arco. Seu braço já estava dolorido. Os músculos reclamavam do peso da arma e já estava com a pele em vermelho vivo, quase na carne, sempre que a corda do arco batia contra a parte interna do braço. Era pequena, Líria só tinha treze anos, mesmo assim já acreditavam que ela tinha talento para guardiã. Era melhor que ficar dentro da cozinha, pelo menos. Lá, no alto da Torre Norte, podia ver toda a cidade e a floresta. Até o Monte. O pôr-do-Sol se tornava um espetáculo de manchas vermelhas, laranjas e rosa.
Gostava principalmente quando chovia, embora só tivesse chovido um dia. As gotas pareciam mais gordas e pesadas, quentes. O céu tinha mais nuvens e o vento frio que cortava parecia rasgar seus couros. Os animais ficavam agitados no princípio e depois não se via mais nenhum, todos escondidos em lugares onde a chuva não os atingiria. E Líria se molhava por inteira. E recebia bronca de Kelen. E mesmo assim não parava de pensar quando seria a próxima chuva.
Correu os dedos pelos cabelos ondulados, afastando-os da nuca encharcada de suor.
– Podemos dar uma pausa, Kelen? Estou exausta. – a menina colocou o arco no ombro, sentindo os músculos do braço relaxando.
– Claro – Kelen disse, para sua surpresa, espanto e alegria.
Líria soltou um suspiro cansado, colocando a aljava sobre o suporte e logo em seguida o arco. Acariciou as penas de Serena quando a mesma pousou em seu braço. Suas asas manchadas de marrom e branco eram grandes, porém Serena era a menor das corujas entre as Guardiãs. Na verdade Líria era a mais nova de todas. Há muito que uma guardiã não se juntava a sociedade e assim que ela acordou no dia seguinte a seu juramento, foi convocada pelas irmãs das torres. Kelen era sua mentora. E seria durante um longo tempo, até era ter capacidade de proteger uma ala da Torre Norte sozinha.
Os olhos grandes e amarelos de Serena a encararam. Serena era um nome comum entre as corujas, porém Líria gostou tanto dele e era tão bom em sua coruja que resolveu usá-lo mesmo assim. Tinha pensado em lhe nomear Ativa, mas era algo meio sádico. Também pensou em Astuta, mas a coruja tinha mais cara de arteira do que de sábia. Por fim chegou à conclusão que somente Malícia e Serena seriam bons. E escolheu a mais sensata.
O Brasil estava muito longe e ela sentia falta de todos os dias ouvir seus colegas falando sobre os times do campeonato ou de como seria namorar astros norte-americanos, típico de qualquer colégio. Mas ela gostava mesmo é da Rússia, daquele frio e da Torre Norte. O Brasil não tinha Fantasmas, a Rússia tinha. Embora fosse um clima completamente diferente, fauna muito mais selvagem e flora ainda mais diferente, ela amava aquele frio.
Sentiu Serena abriu as asas e começar seu banho com o bico. Normalmente Serena fazia isso, ela tirava os pequenos gravetos ou folhas que se prendiam em suas penas quando ia caçar perto do rio. Serena era a única coruja que caçava, as outras recebiam comida no bico, e embora Líria tenha tentado fazer o mesmo, a corujinha voou para longe e só voltou quando tinha um rato entre o bico.
Líria não se importou muito com isso, e nem mesmo Kelen. A coruja de Kelen era Abismada, uma criatura tão grande que a dona não conseguia mantê-la em seu braço por muito tempo. Abismada de fato parecia uma coruja abismada, com sua cabeça grande e os olhos pequenos, tão amarelos e arregalados que parecia estar surpresa. Ou... Abismada.
– Bom trabalho, novata. – escutou o sarcasmo atrás de suas costas e ouviu o guincho de Serena. Virou-se, encontrando Cíntia e sua criatura. Era um tigre, ou algo parecido. Um felino. Serena não gostava de felinos.
Cíntia, a menina dos cabelos lisos. Ela estava no clã fazia mais de seis meses e seus cabelos ainda não tinham cacheado. Até mesmo os de Líria já tinham começado, mas os de Cíntia continuavam finos e lisos, sem um frizz sequer. Os olhos azuis e penetrantes da menina viviam dando uma expressão de folga e enjôo para seu rosto, como se estivesse olhando de cima para os outros. Líria não gostava dela.
– O que está fazendo na Torre Norte, Cíntia? – a menina morena questionou, fazendo questão de passar os dedos pelos cachos de seu cabelo, jogando-o para o ombro. – A Torre Norte é lugar de Guardiãs, não de Caçadoras.
– Não sou uma Caçadora, querida. – Cíntia arrastou a última palavra, como se estivesse pesada demais para ela carregar na voz. – Sou livre, ainda, não pertenço a nenhuma sociedade. Nem às Caçadoras, nem às Guardiãs. Muito menos às Mensageiras.
– É sensato que ninguém queira uma menina de cabelos lisos. – concordou Líria, feroz.
– O que quer insinuar com isto, novata? – Cíntia deixou seu tigre cair dos braços e ele rodeou suas pernas, se aninhando nelas. Pobre criatura, conseguia amar uma humana tão terrível como Cíntia. – Tenho tanta honra quanto você.
– Não disse que você não tinha honra – Líria se defendeu, abaixando o braço para que Serena voasse, abrindo suas asas e mostrando seu tamanho real, porém a coruja somente deu um círculo no ar e pousou em sua cabeça, agarrando o couro cabeludo com suas garras. Líria se controlou para não gritar. Serena nunca tinha feito isto antes. A coruja de fato era pesada.
– Mas pensou – Cíntia lhe deu um sorriso de sarcasmo e virou, andando para o outro lado da Torre Norte. Seu tigre lhe seguiu, dando somente mais uma olhada por cima das patas e então correu para seguir sua dona.

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