Q.I.- Fanfic Interativa
28 Os Gritos dos Fantasmas - Parte Três
Notas iniciais
Os Gritos dos Fantasmas – Parte Três
“Fagulhas – espirro do fogo” – Vitor Caruso
Gloss Violett
Sentiu quando a pele se rompeu, deixando o sangue vazar e encher sua boca do gosto metálico. Algumas gotas escorreram por seu queixo. Edgar franziu a testa, unindo as sobrancelhas de uma forma engraçada, fazendo com que Gloss risse e mostrasse seu sorriso vermelho-sangue. Ele torceu o nariz, ainda demonstrando seu nojo perante o vício de Gloss por morder os lábios até sangrarem. Já tinham lhe dito que poderia ter câncer, mas Gloss não conseguia parar, simplesmente.
– Sabe o que está acontecendo com os novatos? Não respondem nenhuma de nossas mensagens – disse Khaos, enquanto embaralhava o jogo de xadrez numa ordem aleatória que fez as sobrancelhas de Edgar se moverem tão irritadas que pareciam querer saltar para fora de sua pele e ir arrumar.
– Parece que estão com dificuldades de receber e-mails. – Professor Petor disse, acariciando o pelo manchado de seu gato.
– Não pode ser isso. – Gloss disse, limpando os lábios com a parte de cima da mão, e vendo o contraste bonito e vívido de seu sangue puro e a pele pálida. – Tento fazer contato com Madame Gláucia ou com algum dos outros novatos e não consigo. Eles estão fora da minha cobertura.
– Isso me lembra plano de telefone... – Khaos pressionou as têmporas. – Cat, pode me fazer uma massagem?
A gata respondeu com um miado doce e se levantou num salto gracioso, se colocando atrás de Khaos e lhe apertando calmamente os ombros tensos.
– Mais forte – ele pediu, com os olhos fechados, tentando se deliciar. – Pode despejar sua raiva.
Cat sorriu. Gatos gostavam de despejar a raiva. Enquanto usava toda a força de seus dedos apertando Khaos e às vezes marcando sua pele com as unhas longas, Gloss observou o jeito como o menino revirava o rosto e suspirava sempre que a gata lhe apertava um ponto de nervos. Nunca tinha recebido uma massagem. Ficou imaginando se Edgar conseguiria fazer, mas logo excluiu isso dos pensamentos. Percebeu que seus olhos estavam lilases ao olhar para Khaos e isso a irritou seriamente.
– Parece avoada hoje, Gloss – comentou Rose, enquanto fazia uma dobradura de pássaro.
– Sim – a albina sorriu, tentando limpar os dentes vermelhos. Engoliu o sangue, como normalmente fazia. No começo o líquido tinha descido ardente e áspero por sua garganta, agora já era normal. Gloss tinha começado a responder os comentários que os outros faziam, mesmo assim não podia afirmar que gostava disso. Era mais por necessidade mesmo, afinal quase ninguém mais comentava sobre o dia ou sobre como os cavalos estavam mansos.
– Estou com medo de Bran ter entrado em depressão... Já fazem três dias que ele está trancado no quarto. Não sai e agora se recusa a comer. – Professor Petor soltou o gato, que se aninhou em seu colo e começou a ronronar. Ao ouvir isso, Cat virou a cabeça na direção da mancha-gato e ronronou de volta. A mancha somente esticou as patinhas e por fim, dormiu.
– Ele está bem. – Rose tentou acalmar o homem, embora Gloss conseguisse ver no interior dela que estava bem mais agitada com aquele assunto do que realmente gostaria. – Aposto que ele está somente se recuperando e tudo. Ele só conhece vocês há dois meses e...
– Não foram só dois meses... – Petor tirou os óculos do rosto. – Uma vida inteira se passou nisso. Dois meses, uma vida. Pode parecer extremo, mas... Nós quatro passamos por muita coisa juntos e nos unimos... Eles são uma família, quando um cai, todos caem juntos.
– Quatro? – Rose parou de dobrar e virou o rosto para Petor, interessada. – Quem é o quarto?
– Joe, morreu enquanto trazia vocês para cá. Era um bom menino. Infelizmente não pude conhecê-lo tanto, mas Anya era bem apegada a ele. Talvez mais do que com Bran. Lembro que ela tinha dito que Joe entraria com ela em seu casamento, para levá-la até o altar, onde seu marido a esperaria. – Petor sorriu de lado – E ela dizia que o marido seria Bran, e assim eu seria o padre.
Gloss moveu o canto dos lábios ao perceber a chama de agitação se intensificando no peito de Rose. A menina poderia ser boa para esconder seus sentimentos do lado de fora, porém por dentro ela era quase palpável, um livro aberto.
– Verdade? Uma menina de seis meses dizendo isso?
– Anya é bem inteligente para uma menina de seis meses. Ela cresce e junto cresce seu conhecimento e seu entendido sobre o mundo. Com dois anos já sabia algumas coisas surpreendentes para uma menina da sua idade. Só gostaria de saber como ela está agora... Bran me disse que Anya avançou para os dezessete anos de repente e então voltou para os nove, o que é de fato muito interessante. Além de conseguir avançar, ela pode retroceder. Controlar sua idade. Só me pergunto se seu cérebro também volta ao normal ou se continua avançado...
– É uma boa pergunta – Rose sorriu, voltando sua atenção para o papel que dobrava. Gloss permaneceu atenta ao interior dela.
Se eles souberem que Anya está aqui, Bran me mata. O pensamento de Rose tomou Gloss de surpresa. Ávida por querer saber mais, ela tentou vasculhar as memórias de Rose. Somente algumas horas atrás. Ela tinha tomado banho, bebido chá. Admirado uma pintura e se lembrado da mãe. E então sentiu um ciúme terrível. Gloss ergueu a sobrancelha, tentando visualizar dentro das memórias de Rose, mas só conseguia entender que ela tinha ficado muito brava com alguma coisa. Por fim, a menina desistiu, voltando os olhos verdes-curiosos para Edgar, sentindo-os se tornarem lilases. Se irritou novamente.
Levantou-se, sentindo os olhos de todos na sala cindo sobre seus cabelos brancos. Ela pediu licença e se retirou pelo corredor, andando em passos apertados e ligeiros em direção aos quartos da casa do Instituto. Escutou outros passos seguindo-a, já sabendo que eles pertenciam a Rose. A menina mantinha o passo acelerado para acompanhar Gloss, sem se importar se seria descoberta ou não. Por fim, Gloss se virou para ela. Ainda andando.
– Você escutou, não foi? – Rose tinha o rosto vermelho de raiva ou irritação.
– Sim – Gloss voltou a olhar para a frente, procurando pelo quarto cuja porta estaria com o nome do menino Bran. Quando encontrou, percebeu que mesmo sendo em russo ela ainda conseguia diferenciar. Empurrou a porta, escutando os gritos abafados de pessoas dentro do quarto. Rose entrou logo atrás dela, já se preparando. – Bom dia, meninos. – a albina sorriu. Era ótimo descobrir duas crianças deitadas numa cama, com as barrigas viradas para cima e conversando tranquilamente. Rose soltou um suspiro aliviado, e Gloss quase sorriu novamente. Por outro lado, tentou manter o foco. – Anya. Olá.
– Oi – Anya respondeu em pensamento. Bran não podia escutar os pensamentos dela, mas podia escutar os de Gloss. – O que você quer?
– Só vim lhe desejar uma boa semana de recuperação. Ficar com seu pai deve ter sido terrível...
– Nem tanto, embora eu duvide que ele machucasse uma arma tão boa quanto eu... – Anya encolheu os ombros. Desolada, Gloss se inclinou, com um sorriso leve e doce. Fazia três dias que tinha aprendido a sorrir verdadeiramente, com a ajuda do bom senso de humor de Cat e um empurrãozinho de Khaos.
– Não se preocupe com isso, pequena, você está do lado certo agora. Aqui ninguém quer te usar, mas sim te proteger. Vejo que já teve uma demonstração do nosso senso de proteção, com Bran, é claro. Ele foi bem irresponsável, de fato, mas foi te salvar do mesmo jeito. Isso é algo que o Instituto faz.
– É algo que a família faz – Brandon interveio. Ele tinha escutado os pensamentos de Gloss, pois a menina tinha deixado, mas não conseguia ouvir Anya. Assim como Anya não conseguia ouvi-lo. Mesmo assim quis entrar na conversa.
– Ora, Bran, nós somos uma família – Gloss se aproximou da cama, sentando-se aos pés dela. – O Instituto é uma grande família.
– Não para nós. – ele era teimoso. Isso irritava levemente Gloss, porém ela não se deixou levar por isso.
– Bem sabe você que ela não é somente sua família, garoto. – Gloss usou o tom mais seco que sua mente conseguia fazer. – Bem sabe que esses não são seus sentimentos.
º º º
Delilah Morgenst
E então o grito. Foi algo alto o suficiente para eriçar os pelos de Esmeralda, a loba que sempre estava atenta e sabia de tudo o que acontecia. Algo muito estranho deveria ter acontecido para que Esmeralda não pressentisse. Sentiu a própria pele se arrepiando e um frio subindo sua espinha. O arco estava armado e ela caçava, mas assim que ouviu aquele grito, logo em seguida outro, começou a correr em direção à fortaleza Fantasma. Embora os gritos não parecessem de mulheres e muito menos ela poderia ouvi-los naquela distância, Delilah continuou correndo, com a loba logo a seu calcanhar. Esmeralda poderia correr mais rápido, se quisesse, mas preferia manter o passo perto da dona.
Quando passou pela Árvore-Rainha, Delilah soltou o ar, encontrando somente uma ave despenada, presa em redes. A Árvore-Rainha era sagrada para os Fantasmas, pois acreditavam que tinha sido ela a criadora do clã, a árvore que abençoou e formou a primeira Fantasma. Ninguém ousaria fazer uma armadilha na árvore, nem mesmo a mais novata do clã. Tirou seu punhal de abater animais do cinto e rasgou as cordas. Não pareciam ser feitar para resistirem a animais grandes. Se o pássaro usasse o bico ou as garras poderia se soltar.
E ele era estranhamente exótico. Possuía uma cor púrpura de azul safira. As asas eram grandes, quase do tamanho dos braços de Delilah. O bico curvado e pequeno mostrava que a ave não era feita para caçar animais, mas sim carniças. As garras longas e esbranquiçadas demonstravam que estavam limpas. E os olhos... Olhos arregalados, grandes e redondos, como de corujas. De um preto hipnotizante. Os olhos inteiros eram pretos, até mesmo os cílios que a ave tinha. Era diferente de qualquer outra que Delilah já tivesse visto.
A ave exclamou num grito alto que lembrou Delilah do grito que tinha escutado alguns minutos antes. Deveria ser a ave, que tinha um canto estranhamente parecido com um grito de pavor. Era voou, livre, pousando gentilmente na cabeça de Esmeralda. Delilah soltou um ganido, temendo que a loba não gostasse e devorasse a pobre ave, porém Esmeralda pareceu nem notar, continuava a olhar para Delilah, com a língua para fora e pronta para mais uma corrida.
– Vamos voltar. – ela disse, para nenhuma das duas criaturas em específico, mas as duas a seguiram. Esmeralda por terra, Azulada por ar. Assim nomeou a ave, Azulada.
Entrou pelo pequeno buraco na grande de segurança, porém Azulada não a seguiu, sobrevoou o alto dos limites da grade e pousou graciosamente perto de onde Delilah estava. A menina apenas puxou o arco para cima do ombro, já escutando os passos desastrados de Layla.
– Dê! – a menina exclamou, segurando sua perna com força – O que você trouxe hoje? Um coelho? Um cervo? Ou um esquilo? – a garota tentou olhar para trás de Delilah, mas ficou decepcionada ao não encontrar nenhum animal. — Cadê?
– Ali – a garota mais velha apontou, levando os olhos de Layla em direção a ave, que no momento estava limpando suas penas e quando notou a presença de Layla, soltou um leve ganido baixinho e voltou a se limpar.
– Que linda... – a menor suspirou.
Até agora Delilah não tinha de fato admirado a ave, mas olhando agora realmente ela era linda. As penas brilhavam refletindo na luz do Sol. A sua barriga era branca como a neve e seus olhos... Aquele preto brilhoso e tão negro quanto qualquer noite que Delilah já tivesse admirado. Era um tom quase impossível de negrume.
Era lindo.
– Qual o nome?
– Azula. – Delilah soltou, ainda contemplando a ave. – Ela me seguiu.
– Acho que gostou de você! – Layla pulou para frente, acariciando a cabeça de Azula.
– Cuidado, Lay, ela pode ser agressiva.
– Duvido – a menina ousou pegar a ave e a envolver num abraço fraco, para não sufocá-la. Azula permaneceu quieta, e até abaixou o pescoço para se aninhar nos braços pequenos e magrelos de Layla. – Ela é mansinha.
Delilah sorriu com aquela cena. Era lindo ver Layla se dando bem com os animais, era isso que uma Fantasma precisava. Quando estava prestes a dizer para que fossem ao quarto, escutou a voz imponente e respeitosa de Lady Cecília. Ela estava logo atrás das meninas.
– Vejo que trouxe um amigo com você, Delilah. – ela tocou seu coelho, que se aconchegava dentro das mangas de seu vestido. – Posso vê-la?
– Claro, Lady Cece. – Delilah tomou Azula das mãos de Layla, que ficou irritada, mas nada disse. Entrou a ave para a líder do clã, que avaliou com muita atenção.
– Já vi uma dessas – por fim Cecília disse. – No dia em que fiz meu juramento. – continuou ela, com pesar. – Esta ave sobrevoou minha cabeça e assim todos souberam que eu era a escolhida para ser a nova líder do clã.
– Nova líder? – Delilah ergueu as sobrancelhas. – Mas pensei que o clã tivesse começado com você.
– Não. Ele começou bem antes de mim, eu só entrei nele cinco anos depois da fundação. A líder estava envolvida num caso amoroso com um homem e por isso a Árvore-Rainha escolheu outra líder, libertando a antiga de seu juramento. A Árvore, embora fique triste, sabe que o ser humano foi feito para procriar. Somos pequenas exceções e mesmo assim não somos de ferro. – Cecília sorriu para Delilah – Como achou esta ave?
– Numa armadilha, presa na Árvore-Rainha.
– Entendo... – Lady Cecília ficou pensativa.
– O que foi? – Layla foi a que quebrou o silêncio.
– Temo que meu tempo esteja chegando ao fim... É hora de renovar a idade do clã... – Cecília entregou Azulada para Delilah, enquanto acariciava seu coelho e pensava mais um pouco – Delilah, amanhã quero conversar com você. Encontre-me na Torre Norte.
– Sim, Lady Cecília.
– E você também, Layla – Cece voltou-se para a menor, que até agora estava confusa com o diálogo. – Quero que aprenda algumas lições.
Fale com o autor