Q.I.- Fanfic Interativa
29 Os Gritos dos Fantasmas - Parte Quatro
Notas iniciais
Os Gritos dos Fantasmas – Parte Quatro
“As palavras se dissolvem no silêncio geral. Mas ficam ecoando na mente” – Érico Veríssimo
Jean Robbin-Loui
Talvez, só talvez, ele estivesse se precipitando. Sorriu, exibindo seu caloroso e alinhado sorriso. Os cabelos estavam arrumados para o lado, enquanto a gravata irritava sua pele. A roupa era grande demais para ele, mas não podia reclamar, era o conjunto mais novo e mais conservado que Sebastian tinha.
– Por aqui, Senhor Pentilivrusky. — o bibliotecário chamou-o, enquanto indicava o livro com o dedo gorducho. — Livros raros.
Loui apertou o passo, enquanto tentava não demonstrar seu nervosismo. Após a traição do primeiro braço direito de Sebastian, agora ele era muito bem examinado. Sebastian não deixaria nada passar, e sinceramente Loui não queria ter seu precioso cortado. Quando parou na frente das prateleiras que indicavam com seus grossos e empoeirados nomes, os livros sorriram para Loui, quase zombando da cara dele.
– Não está aqui. — disse para si mesmo, num sussurro irritado e de dentes trincados. — Não é nenhum destes — ele se virou para o bibliotecário. — Senhor, tem certeza de que são os mais raros e velhos? Minhas pesquisas precisam de um livro muito, muito antigo...
O homem gorducho ficou pensativo e avaliou Loui dos pés a cabeça, até que alisou os poucos tufos de cabelo negro e então soltou o ar. Ele girou nos calcanhares e pegou seu celular. Loui não entendeu muito bem, mas sabia que seus métodos de persuasão raramente falhavam. O homem era fraco de mente, com certeza muito manipulável. Tinha certeza de que ele só tinha ido fazer um telefonema.
– Han? Isso, sou eu. Por favor, me descreva o Senhor Pentilivrusky. Isso mesmo, Professor Sebastian, do Instituto. Sim... Sim... Altura mediana... Ombros, ok... Moreno? — o gorducho virou os olhos preguiçosos para Loui — Tem certeza de que era moreno? Não loiro? Sim... Bem... Obrigado, Han.
O menino tentou engolir, mas sentiu a garganta seca. Não iria se desesperar. Abriu seu sorriso de calor e então enfiou as mãos nos bolsos, tocando gentilmente suas lâminas. Isso tranquilizou. O gordo poderia desconfiar, mesmo assim a pessoa amarda e atlética ali era Loui, não ele.
– Senhor Pentilivrusky, creio que terei de ver sua identidade...
Antes do homem gordo esticar o braço para pedir, Loui retirou as lâminas com rapidez quase invisível e avançou com graciosidade num salto leve e baixo, somente para chegar perto o suficiente para cortar a barriga gorda e molenga do homem. O bibliotecário gritou de dor, enquanto a segunda lâmina deslizava para sua garganta e lhe dava uma morte rápida. Loui se levantou, vendo o líquido vermelho escorrendo da barriga e pulsando do pescoço. De repente o chão de madeira já estava com uma poça enorme do sangue do gordo. Passou a língua pelos lábios. Era maravilhoso a sensação de calor que aquele tom de vermelho passava para seu corpo.
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“Grandes, variados, estupendos efeitos da palavra! Move todas as fibras do coração humano; consola, aflige, irrita, estimula, acalma” – Dom Silvério Gomes Pimenta
A voz retumbava pela sala, enquanto o sorriso do loiro-acastanhado vacilava. Cada esbravejo era em um nível diferente de voz. Cada fôlego tomado era um silêncio interminável. Ajeitou-se na cadeira acolchoada de veludo vermelho.
– Sebastian. — A voz suave amaciou os ouvidos do outro, ao mesmo tempo irritando-o por sua displicência. — Peço-lhe um momento para falar, sim?
O homem de cabelos extremamente negros num emaranhado oleoso e sujo apenas suspirou e fez um gesto para que continuasse. Seu sermão sempre vinha antes das explicações. Normalmente seus empregados não ousavam se explicar para ele após terem recebido seus insultos, porém Loui se explicava, e na verdade era uma das coisas que mais gostava no garoto.
– Tive de matá-lo, não me deu escolhas... – disse, ao término de sua apresentação dos fatos. Sebastian passou os dedos ossudos pela barba que precisava urgentemente ser feita. Por fim, apenas concordou com um meneio e se virou para a cafeteira, colocando em uma xícara café quente que tinha acabado de fazer.
– Quer um pouco, pequeno Loui? – ele perguntou, já sabendo que Loui era completamente apaixonado por café (assim como Sebastian, outro fato que dava mais pontos de afeição pelo menino)
– Claro – ele disse, tentando soar indiferente.
Os dois homens saborearam as xícaras até o último gole, colocando mais um pouco, até que a garrafa estivesse vazia. Loui disse que iria fazer uma pesquisa na internet para tentar descobrir mais sobre o Livro da Vida. Mas parecia que ele não estava em lugar nenhum. Desde que fora contratado, tinha ido a mais de seis bibliotecas e nenhuma tinha o Livro. Os humanos o guardariam como uma relíquia, não saberiam como traduzi-lo, porém nas mãos das pessoas certas... Poderia indicar a vida ou a morte de todo um planeta.
Já no corredor, Loui começou a se sentir estranhamente nauseado. Olhou de relance para um dos guardas, vendo-o gordo em suas formas de fumaça negra. Atingiu-o com um soco no nariz, deformando sua cara de cinzas. Ele urrou e logo se recompôs, erguendo a lança que empunhava.
– Abaixe isso agora. — Loui mandou. Ele tinha autoridade sobre todos os guardas, ficando abaixo somente de Sebastian. Poderia deformar a cara de quantos quisesse e nada aconteceria.
Virou as costas, sentindo os olhares emburrados dos outros guardas, enquanto seu companheiro ainda tocava a lança com raiva. Loui constantemente agredia aquelas cinzas, afinal elas nem eram capazes de sentir dor, só gritavam pois era inevitável. Fumaça, pensou Loui. Sentiu as primeiras rolando quentes pela bochecha. Secou rapidamente, enquanto mais e mais rolavam e secavam. Tocou as lágrimas e seus rastros, percebendo o quanto estava quente.
Entrou em seu quarto, parando somente para se olhar no espelho. Estava incrivelmente lindo, enquanto mantinha os lábios em uma linha curvada para cima. Sorriu, desmanchando a expressão. Gostava de se admirar e de descobrir novas expressões para usar em suas manipulações.
Deitou-se na cama, sentindo os ombros relaxarem. Estava em paz, agora. Era ótimo ter recaídas, afinal elas lhe renovavam e assim ele conseguia continuar com sua vida miserável. Virou de lado, para encarar a parede branca. Como tinha exigido das faxineiras, impecáveis. Mais tarde diria que era preciso limpar mais coisas, só para não parecer um chefe muito liberal. Colocou os braços acima da cabeça, puxando o travesseiro e colocando-o por cima dele, tampando sua visão do mundo. No escuro, ele conseguia relaxar mais. Colocou a cabeça para funcionar, bolando o próximo passo que daria.
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“A verdadeira palavra do homem é a palavra escrita, pois só ela é imortal” – João de Deus
Gloss Violet
Ela estava mordendo os lábios novamente, sentindo o gosto do sangue inundando os vãos entre seus dentes.
Embora estivesse doendo, a dor lhe trazia paz. Era bem mais fácil esquecer uma dor interior do que uma dor externa. Pelo menos era o que Gloss pensava. Se ela quisesse esquecera dor de seu peito, era somente morder seus lábios e então sentir a carne reclamando e o sangue. Era o que Ivan fazia. E Gloss adotara aquilo como um meio de se lembrar dele. Mesmo que o odiasse.
A dor para um ser humano é algo visto como desagradável ou até cruel. E mesmo eu sendo uma humana, não encaro as coisas desta maneira. Eu não. Gosto do jeito como as coisas levam a outras. As máscaras sempre caem. Embora seja doloroso, vendo por outro ângulo é algo belo, algo da vida, doentio e sofrido, mas ao mesmo tempo tão bonito quanto uma pintura. Ser traído também é belo, assim como ser enganado ou isolado. É belo sofrer, é doloroso ser belo. Acho que essa é a maior beleza das coisas bonitas, normalmente sempre são sofridas. São sempre dramáticas, melancólicas... Gosto disso. Desse jeito de sofrer na beleza. É algo incrivelmente indesejável.
Seus devaneios foram interrompidos pelo reforço do gosto metálico na boca. Desencravou seus dentes da pele macia de seus lábios, sentindo pontadas de dor no local. Engoliu o sangue que lhe banhava a língua, tossindo um pouco, enquanto encolhia-se no canto do estábulo. Sentia frio, notou. Procurou mover-se o menos possível, na sua tentativa controversa de manter o calor do corpo. Do local, ouvia-se apenas sua respiração e a respiração dos animais ali estocados. Os ventos uivavam nas paredes de madeira do estábulo, faziam as telhas rangirem, como Poltergheists o fariam.
A portinhola de entrada para o estábulo gemeu, dando passagem à uma vista já familiar para Gloss. Edgar cruzou a distância entre eles em poucos passos.
– Gloss? — A voz buscou seus ouvidos, suavemente.
–S-sim? — Gaguejou, com o queixo trêmulo pelo frio. O menino tomou seus ombros com as mãos e puxou-a para cima, como se levantasse-a.
– Você está passando mal? — As sobrancelhas de Edgar dançaram em sua testa, porém suavizaram quando recebeu um balanço negativo de cabeça como resposta. — A velha mandou te chamar. — Falou, como quem não quer nada. — Um novato está a vir.
– Quem? — sua voz soou distante, como se o vento levasse suas palavras junto com seu calor.
– Um inglês. — Edgar olhou para um papel que tinha em mãos, até agora Gloss não tinha percebido isso, o que era estranho, afinal ela percebia tudo o que acontecia ao seu redor. Com certeza estava avoada. — Mas se naturalizou nos Estados Unidos. Acho que sabe falar inglês, mas ele está na Rússia.
– Entendi. Ela quer que escoltemos ele em segurança? — Gloss limpou o feno que tinha se prendido em seu jeans.
– Não acho que seria necessário. — Edgar deu de ombros — Na ficha dele consta que já matou dois guardas de Sebastian e que é um foragido.
– Khaos? — a menina ergue seus olhos, e se irritou quando eles se tornaram lilases. Odiava aquilo. Odiava aquela cor.
– Sim. Quase como Khaos. — Edgar sorriu. Não tinha sorrido pela comparação da garota, mas sim pela mudança de cor. Ele adorava aquilo. Adorava aquela cor.
– E quando ele chega? — Buscou saber, com a voz fraca em demasia.
– Perdão? — Edgar franziu o cenho, buscando compreender o que a outra dissera.
– Quando ele chega? — Repetiu, um pouco mais alto.
– Ah, sim. — Compreendeu. — Creio que já chegou, notando que a velha mandou-me chamar você. — Murmurou, tomando-a pela mão, delicadamente. Sua mão era macia e tinha uma textura parecida com o veludo das poltronas do dormitório. Deixou-se ser puxada para fora do estábulo. Ora ou outra, um trovão retumbava no céu acinzentado, porém ainda sem chuva. Pararam junto do portão que delimitava os limites do terreno.
– Só nós? — Não sabia porquê, mas suas bochechas estavam coradas. Talvez de frio. Talvez não.
– Quanto menor o grupo, menor a atenção que darão. — Edgar puxou seu relógio de dentro da manga do casaco — Estamos cinco minutos atrasados... Demorou para te encontrar — ele virou os olhos para a albina, quase que acusando-a de ser culpada pelo atraso. E de fato era. — Com sorte ele ainda estará nos esperando.
Ela concordou com um meneio desajeitado, sentindo o pescoço doer ao fazê-lo. Seu corpo parecia estar congelando. Nunca gostara do frio. Assim como no Sol, seu corpo era muito mais vulnerável. Agarrou-se no ato de segurar as mãos de Edgar novamente, afinal elas estavam quentes, porém ele já tinha enfiado-as dentro dos bolsos. Irritou-se, mas não disse nada. Gloss não queria corar ainda mais.
Com muito tremor, apressou-se em apertar o passo.
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Jean Robbin-Loui
"Nada vale mais no homem, como força, do que a palavra, capaz de todo bem e capaz de todo o mal" — Miguel Couto
Manteve o capuz escondendo seu rosto. Os cabelos tinham amanhecido rebeldes e não queriam parar no típico penteado. Os olhos ainda sonolentos queriam se fechar, fazendo as pálpebras pesarem. A marca do livro, no qual tinha dormido com a cabeça apoiada, ainda estava na sua testa. O relógio dizia dez minutos do horário marcado. Estava lá já fazia meia hora. Mas não tinha pressa. Paciência era uma de suas virtudes mais prestigiosas.
Marcou na mente que iria aparecer somente dez minutos depois da chegada dos Inferiores. Eles com certeza não ficariam bravos com isso, afinal não era um encontro romântico. Loui tinha treinado as expressões de sonolência e inocência na frente do espelho por duas horas antes de sair do hotel de Sebastian. Já sabia as palavras que diria para provocar melancolia.
Viu de relance dois jovens enrolados em casacos grandes e quentes, andando lado a lado, como Sebastian os descrevera: Há dois que chamam bastante a atenção, uma albina, você jamais irá se confundir com ela. E um garoto cujas sobrancelhas têm vida própria, também não é tão fácil de confundi-lo.
Apoiou as costas no muro da loja em que estava, observando por trás do vidro o casal muito diferente do resto das pessoas que transitavam a rua naquela manhã. A menina albina tremia mais do que o normal, batendo os dentes e com manchas vermelhas pelo queixo e pescoço. A pele branca se tornava parecia com neve durante aquele início de tempestade. O garoto, por sua vez, parecia nem perceber como ela estava congelando viva. Se fosse para Loui estar no lugar dele, teria oferecido seu casaco, somente para agradá-la. Ela ficaria “devendo-lhe uma”, e Loui adorava quando as pessoas deviam algo á ele.
Tocou gentilmente a mão da atendente no caixa e pediu um cachecol que estava na promoção. Ele era verde-musgo, não muito quente ou grosso, porém era uma forma de agradar (e enganar) seus mais novos amigos.

Jean Robbin-Loui
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