Q.I.- Fanfic Interativa
30 Os Gritos dos Fantasmas - Parte Cinco
Notas iniciais
Os Gritos dos Fantasmas – Parte Cinco
“A Felicidade é uma ilusão que nós podemos viver como se fosse realidade” – Mário Gonçalves Viana
Munique Hansburg
Enquanto Tommy mantinha a mão no ombro da irmã mais nova, Munique puxou um morango entre os outros. Ele era o menor e o mais vívido. Parecia delicioso. Sorriu e se virou para os outros dois, dando-o nas mãos pequenas e delicadas de Áustria. A menina tinha calos e cicatrizes por todos os lados da pele das mãos. As agulhas tinham sido muito cruéis com ela.
– Um pequeno morango para uma pequena grande menina – a mais velha sorriu, enquanto soltava um suspiro invejoso. Áustria possuía cabelos ruivos, como de todos Hansburg, porém eles eram lisos e sem frizz, o que contradizia tudo o que os Hansburg eram. Uma família de ruivos alemães, que possuíam olhos castanho-claro, pele pipocada de sardas e cachos. Muitos cachos. Seus pais eram assim. Seus avós também. Não entendia de onde o liso escorrido de Áustria tinha saído. As duas meninas tinham olhos claros, embora Tommy tivesse o comum castanho. Diziam que os pais de mamãe eram italianos e que possuíam olhos claros. Já o bisavô de papai era asiático e possuía cabelos pretos e escorridos. Deve ser daí que as duas tiraram aquelas características.
– Aa deveria ganhar um morango bem grandão, do jeito que ela é – Tommy disse, com um sorriso no rosto.
Os galhos formavam um labirinto de armadilhas na floresta. As árvores altas e coníferas pareciam impedir que a luz do Sol penetrasse o interior da floresta. Folhas caídas no chão estavam ainda verdes e vívidas. O céu escurecia e à medida que as estrelas surgiam Munique pensava em como queria que estivessem em casa. Tocou a costela. Uma dor forte a envolveu num abraço pela cintura. Passou os braços pelos seios, fechando-se num gemido.
– Você está bem, mesmo, Nique? – Tommy levantou seus olhos de Áustria. Tommy tinha um jeito muito interessante de fazer apelidos para seus irmãos. Eles já tinham tido cinco outros irmãos, todos adotados, somente os três eram de sangue e filhos legítimos dos Hansburg. Mas foram separados da família. Áustria tinha o apelido de Aa, pela razão de que Tommy pegou o A no começo do nome e o A no final do nome, unindo-os. Já para Munique o apelido era comum na Alemanha, Nique. E Tommy... Ela é quem tinha lhe dado aquele apelido, era a mais velha e a primeira que conheceu Tommy. Ela tinha sido a única irmã que o menino tinha até os três anos dele e por isso era a única pessoa com quem ele brincava. Tommy era o apelido carinhoso para Tommas que Munique encontrou para dizer que o irmão era fofo. Com os constantes olhos hiperativos, Tommy parece nunca querer descansar. O castanho das íris quando está no Sol parece um entardecer, quase alaranjado, e isso fica lindo atrás de seus cílios curvilíneos e ruivos. Os cabelos quase-cacheados formam rebeldes ondas ruivas que no Sol também parecem brilhar. As sardas que possui pelo rosto continuam pelos ombros e os braços. Até mesmo nas costas. As sobrancelhas grossas e grandes lhe dão uma aparência inocente e quase ingênua, às vezes brava. A junção de tudo isso torna Tommy uma pessoa extremamente fofa. E “Tommy” é um nome fofo, na visão de Munique.
– Estou bem – assegurou Munique, com um sorriso amarelado. Era ótimo ter a atenção calorosa de Tommy, mesmo que por alguns segundos. Raramente o irmão tirava os olhos da caçula, e Munique não podia mentir que aquilo a irritava levemente.
– Então tudo bem... – ele pareceu hesitar em acreditar nela, mas apenas deu de ombros e voltou a entreter sua irmã menor (e mais bonita, acrescentou Munique). Áustria era tudo mais. Mais bonita, mais fofa, mais amável, mais querida, mais feminina... Enfim, ela era tudo, menos imperfeita. Era uma verdadeira princesa-boneca com movimentos e pele. Era aceitável que Tommy preferisse a mais nova. Munique sempre soube.
Olhou em volta. Os três tinham se perdido durante a fuga da fábrica. Os outros meninos deveria ter ido em direção ás outras fábricas, mas Tommy tinha corrido para a floresta, e sem pensar muito bem Munique correu junto, com Áustria agarrada ao seu corpo. A menina era leve e magra, por isso levá-la enquanto se foge de pessoas armadas é fácil.
Ao menos sabia ficar em silêncio. Sua voz era fina e suave, harmoniosa e agradável aos ouvidos. Diferente da voz ardida e estridente de Munique. Áustria só dizia coisas em tom calmo, baixo e às vezes em sussurros. Munique não conseguia se controlar, quando via já estava gargalhando feito doida e gritando piadas sobre os outros. Sempre fora assim. Sua irmã era a menina dos olhos de qualquer pai, principalmente dos dela. Tommy sempre foi muito arteiro e Munique não dava um exemplo melhor. Quando adotaram mais dois filhos e eles seguiram os caminhos dos primeiros é que ficaram muito desconsolados. A casa vivia em desordem. E então nasceu Áustria. Não é preciso dizer mais nada.
O vento levou as tranças de Áustria para cima, como se não pesassem nada. Os cabelos cacheados e volumosos de Munique permaneceram no lugar, como se pesassem toneladas. Os calos nos dedos de Munique causados pelo trabalho na fábrica tinham deixado as mãos feias e grossas, feito lixa. Áspera. Odiava esfregar as mãos uma na outra e sentir aquela pele dura. As mãos eram grandes, assim como ela. Um metro e setenta e oito, e talvez crescesse mais. Tommy tinha a mesma altura e ele era um menino. Aquilo com certeza irritava Munique. Parecia uma girafa. As pernas longas, quase sem cintura, busto grande demais para os ombros que possuía e pés de tamanho quarenta. Às vezes quarenta e dois. Áustria, por outro lado, tinha um corpo pequeno e frágil, quase intocável, magra e reta, tinha apenas treze anos. Um metro e quarenta e cinco de altura. Calçava trinta e quatro, mãos pequenas e mesmo com calor e cicatrizes, continuavam macias e finas, tão delicadas quanto porcelana.
Ciúmes.
Tudo junto no peito de Munique. Embora, é claro, amasse Áustria do mesmo jeito que amava Tommy e seus pais. E seus irmãos adotivos. Não sabiam se estavam vivos, se estavam na Alemanha, se ainda eram uma família, se sentiam saudades ou se se lembravam deles. Mesmo assim, Munique não poderia deixar de amar a família que tivera por dez anos.
– Está escurecendo – notou Tommy, percorrendo os dedos pelos fios soltos da trança esquerda de Áustria – Acho melhor acharmos um lugar para dormir. Aa, você está com frio?
– Um pouco. – sussurrou. Munique não conseguiu ouvir o que a menina tinha dito, porém Tommy era quase perfeito em diferenciar as palavras que Áustria soltava no ar. Ele deveria ter uma audição muito boa.
º º º
“Guerra e amores, por um prazer, sem dores”
Kano Shuuya
Como se fossem extensões de seu corpo, o vento passava pelos vãos de seus dedos e pareciam estar impulsionando seu corpo para baixo com muito mais força do que ele deveria cair. Depois sentiu ser impulsionado para frente e logo em seguida para cima. Passou pela cobertura, onde os guardas gritavam insultos para sua mãe.
Sorriu com os dentes afiados. Era ótimo ver que seus treinos tinham valido de algo. Aprendera a controlar o vento ao seu redor já fazia alguns meses, porém era pouca coisa, capaz somente de levantar objetos ou impulsionar sua mão para fazer coisas mais rapidamente, porém agora ele estava fazendo aquilo com todo o seu corpo.
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“O medo é o instinto que o espírito tem da própria fraqueza.” – Leoni Kaseff
Edgar Lewis
Tamborilou os dedos impacientemente pelo casaco. Odiava ficar esperando.
Ouviu passos no terreno lamacento, virando seu rosto na direção do barulho. Um garoto loiro-acastanhado de feições finas e belas com um cachecol verde-musgo esvoaçando de suas mãos, chapinhava os pés no solo. Observou o outro aproximar-se, com um sorriso acalorado.
– Pois não? — Edgar bufou, irritado. — Loui. — Respondeu, em uma voz tímida, encolhendo os ombros. Fez uma expressão de surpresa, olhando para Gloss e esticando para ela o emaranhado de lã verde-musgo, que aceitou de bom grado, envolvendo-o em seu pescoço.
Edgar ergueu as sobrancelhas.
– Você vive dando cachecol para meninas albinas que vê pela rua?
– Ela estava passando frio — Loui enfiou as mãos dentro dos bolsos, curvando os ombros, fazendo-se de baixinho.
– Não se admira que Edgar não tenha notado. — Gloss interrompeu a conversa deles, enquanto alisava o presente com a ponta dos dedos quase imóveis. — Loui, o novato, certo? Obrigada.
– Por nada. — ele abaixou a cabeça, formalmente, fazendo questão de deixar os cabelos louros se soltarem para frente em cachos muito bem definidos e rebeldes. — Ah, desculpe, eles amanheceram irritados comigo... — um sorriso caloroso passou por seu rosto. Edgar não se surpreendeu ao perceber que não gostava de Loui.
– Algo errado? — O outro ergueu os olhos, num olhar ingênuo, mordendo o interior da bochecha, fitando Edgar. — Sim. — Respondeu o primeiro, ríspido, recebendo um olhar de censura por parte de Gloss. — Seja gentil. — Sua voz fraca foi melodiosamente levada pelo vento. Edgar pigarreou, fazendo um movimento para que Loui o seguisse. O loiro parou, como se temesse algo, mandando um olhar para Gloss, buscando confirmação, que veio como um sorriso.
– Ele não morde — a garota afirmou, enquanto se juntava a Edgar. — Só quando precisa.
Edgar tentou não ficar irritado com aquele comentário. Adoraria que o novato fosse apenas uma criancinha pequena, mas aquele menino... Algo cheirava mal em relação a ele. Não por ser estranhamente bonito, ou por parecer ter um charme tão natural quantos seus cachos "rebeldes" em perfeitas curvas. Edgar se pegou comparando os cabelos duros e espetados, louros-pálidos, que tinha, com os macios e dourados de Loui. Isso só serviu para irritá-lo mais ainda.
No fim, desistiu de tentar achar algo nele próprio que fosse mais atraente do que em Loui. Talvez só sua inteligência se sobressaísse, e isso já deixava-o mais relaxado. A inteligência valia por tudo.
Olhou de relance para trás e viu o que achou ser um sorriso frio, como se zombasse da constatação recém-feita, o que o fez ficar ainda mais irritado. Poderia ter sido uma ilusão moldada pela irritação? Achava que não. Tanto fazia, de qualquer modo. Pôs-se a marchar na trilha, para voltar aos dormitórios, sentindo gotículas de água despejarem-se contra seu corpo, consequentemente contra os outros. Conseguiu ver Loui retirando o casaco de couro marrom que cobria seu tronco, por cima de uma camiseta branca impecável, e estendê-la para Gloss cobrir-se. Caminhavam sem pressa.
Respirou fundo. Edgar Lewis não perdia a calma. Ele era maduro o suficiente para não ficar irritado com aquele cavalheiro exagerado. Soltou o ar devagar, deixando que seus ânimos se acalmassem. Por fim, sorriu forçadamente, enquanto abria caminho para o dormitório mais próximo. Não era um de Gloss, nem dele próprio, porém teria de servir como abrigo enquanto a tempestade agredisse o lado de fora.
– Obrigada — ouviu o sussurrou de Gloss. Ela estava vermelha como nunca, com a pele quase queimando. Entrou no quarto ao empurro que Edgar conseguiu lhe dar. Tentou não parecer visivelmente irritado, porém Loui passou por ele com um sorriso malicioso no rosto.
– Não sabia que era sua namorada — disse, tirando os sapatos antes de entrar.
– E não é — ele tentou parecer indiferente. Mas era visível o tremor.
– Então se eu fosse você iria me declarar logo. — Loui piscou, entrando e abrindo os braços numa exclamação de "Ah, como aqui dentro está quentinho!".
– Não preciso de suas dicas, seu... — Mordeu a língua, respirando fundo. — Ah, eu não queria irritar, certo? — Murmurou, como se estivesse arrependido. — Mas não deixe ela fugir, certo? — Garotos? — Gloss saiu de algum canto com três toalhas, passando uma para cada pessoa que estivesse no local, usando a sua para secar seu cabelo, com cuidado. Loui secou o rosto, logo após balançando sua cabeça, como se pra secar o cabelo como um cachorro. Os cachos voavam ao redor de sua cabeça, fazendo parecer que tinha uma auréola. O terceiro, Edgar, deixou sua toalha de lado.
– Nossa, como seus cabelos ficam legais molhados, menina! — ele disse, com um sorriso — Ainda não sei seu nome.
– Gloss. E este é Edgar. — ela apontou para o outro louro, que mantinha distância.
– Claro. — Loui se virou para Edgar, com a mão estendida — Desculpe não ter feito isto antes. É um prazer conhecê-lo, Ed.
Edgar apenas deu um leve tapa em sua mão.
– O Edgar não gosta que o chamem de Ed — Gloss encolheu os ombros — Pare de ser tão chato com uma pessoa tão gentil, Edgar.
Um resmungo. Foi tudo que Gloss obteve como resposta. Loui fez uma feição apreensiva, como se não compreendesse a profundidade da situação, mas os problemas. Edgar tentou desviar de sua mente tudo que citasse o outro loiro. Inteligência, pelo que se sabia até o momento, era o que lhe salvava.
– Vou buscar água quente — Gloss disse, enquanto caminhava até o banheiro — Acho que seria interessante vocês conversarem enquanto isso.
– Também acho! — Loui se sentou na cama desocupada. — Adoraria fazer amizade com Ed... Quer dizer, Edgar. — ele sorriu, atrapalhado. Edgar tentou conter o desejo de lhe dar um soco no meio da testa.
Áustria
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