Q.I.- Fanfic Interativa
41 O Nascimento do Caos
Notas iniciais
Gloss Violet
“A justiça é uma questão de perspectiva, não um valor universal” – O Jogo do Anjo
Hello Sleepwalkers — Goya no Machiwase
Desceu dos degraus da mercearia, segurando a porta para que Edgar passasse. Ele segurava dois copos de café, borbulhantes de modo que nunca imaginou ver um café, e com um saco de biscoitos de açúcar. Aquele seria o almoço que tanto esperaram até chegar ao Vietnam. Agora que estavam lá, o dólar parecia ser quase uma preciosidade.
– Com sorte conseguimos trocar o dinheiro ainda hoje. – disse ela, fechando a porta e acenando para a mulher no caixa, que fora muito simpática e se esforçara para falar o inglês.
Não se admirava que eles tinham ido parar numa cidade quase fantasma dentro daquele lugar, onde todos falavam uma língua não-oficial. O Catalão.
– Os bancos só abrem a partir das duas da tarde. – Edgar deu um dos copos para Cat e o outro para Khaos.
– Folgados. – comentou o outro menino.
– Não são folgados – Gloss o censurou com o olhar – Os bancos são pequenos e possuem poucos funcionários, por isso eles precisam fechar por algum tempo para a troca dos funcionários e do almoço.
– Que seja.
Edgar tamborilava levemente os dedos contra o seu biscoito, que retirara do saco. Parecia pensativo, e Gloss queria saber no que pensava, mas não ousaria entrar em sua mente. Não agora, não aqui. Talvez quando voltasse. Se voltassem. Soltou um suspiro um tanto longo e alto demais.
– O que foi, Gloss-Chan? – Cat jogou um biscoito inteiro para dentro da goela, mastigou-o rapidamente e o engoliu junto com café. – Está frustrada?
– Não é isso – tentou sorrir. Fracasso. – Só um pouco cansada. A caverna não fica muito longe, algumas horas de caminhada e chegamos. Prefiro dormir numa cama quentinha do que num beco sem saída. Vamos?
– Espere – Edgar a interrompeu – Para norte? Sul? Não temos direção. – ficou em silêncio com suas sobrancelhas e então as ergueu como se houvesse encontrado a resposta para a paz mundial. – Vou invocar um Página-Viva. Um mapa. Algum mapa mágico.
– Não! – Gloss disparou, juntamente de Khaos e Cat, que se mostraram muito mais lógicos e racionais que Edgar naquele momento. – Está louco? Um Página-Viva? Nós lutamos contra eles! Além disso: você não sabe como invocar um. E mesmo se soubesse, onde acharia um livro onde houvesse um mapa mágico? Numa biblioteca? E em qual biblioteca? Na biblioteca desta cidade? – ela exibia seus olhos em tom avermelhado, como indignação. Edgar não se abateu, embora seus ombros estivessem mais caídos que o normal. – Não é muito inteligente da sua parte dizer isso.
– Não me dê um banho frio de lógica e racionalidade, Gloss. Não vê sua posição? Quem poderia dizer palavras mais bonitas do que eu? – ele pressionou as têmporas por um segundo e voltou a encará-la – Acontece, querida albina autista que de repente resolveu se expressar sem língua-enrolada, que eu uso meu tempo livre com coisas mais importantes do que vocês. Eu sei, sim, como invocar um Página-Viva, e muito mais que isso, sei como encontrar um livro com um mapa mágico.
– Ah? Então me diga. – ela colocou as mãos na cintura, com um olhar mais lilás.
– Vou escrever um. – ele sorriu, vitorioso.
– Um livro inteiro?
– Livros são variados. – Edgar suspirou – Podem ter quatro páginas, trezentas ou duas linhas. Agora me dê mais algum banho de lógica e racionalidade.
Permaneceu em silêncio, mas com o mesmo olhar duro.
– Ótimo – ele se voltou para Cat –, por acaso tem uma folha e caneta?
– Claro – ela respondeu, indiferente – Sempre levo folhas comigo, são ótimas para entreter as garras. Aqui. – entregou-lhe.
Khaos possuía um lápis com ponta grossa e o deu para Edgar, que escreveu três linhas rapidamente de puro detalhe sobre o livro, desde sua cor, até o número de páginas e como ele funcionava. No final, exigiu que todos o abandonassem num galpão abandonado e que se distanciassem dois quarteirões, a fim de não ouvirem, verem ou descobrirem como se invocar um Página-Viva. Gloss relutou, mas nada pôde fazer além de obedecer e permanecer por uma hora dentro de um mercado, seguindo Khaos e Cat para todos os corredores que iam, se entretendo com nomes engraçados, letras diferentes da língua Catalão e brincando com pessoas que não entendiam uma palavra do inglês.
Quando, por fim, Edgar apareceu no mercado, no setor de grãos, com um livro de capa verde em veludo e com um sorriso triunfal no rosto (com suas sobrancelhas saltando de excitação), pôde respirar fundo e então sentir um leve alívio e ao mesmo tempo ansiedade.
– Meus caros resistentes – ele piscou para Gloss, que revirou os olhos, tentando conter um rubor leve – Conheçam o Sid, meu livro mágico de caminhos. Ele nos dirá para onde ir, como ir.
Ele abriu o livro.
– Ei! – Gloss o deteve — Aqui? No mercado?
Ele olhou em volta e então fechou o livro, tocando levemente a mão de Gloss, que permanecia na capa de veludo.
Foram para um beco ao lado do mercado e lá abriram o livro, que exibia um mapa na direção para onde queriam ir. O mercado estava circulado de vermelho, simbolizando onde estavam. O nome das ruas e setas indicavam por onde seguir e a caverna estava riscada em um X amarelo. Seguiram pelo caminho. Todos muito ansiosos e apreensivos.
º º º
Entre Assassinos
“Você sempre terá uma desculpa para não viver a sua vida” – Chuck Palahniuk
Tinha sido pego com as mãos no crime. A faca pequena que tinha pego do escorredor da cozinha ainda gotejava sangue fresco e a vítima a seus pés agonizava com as mãos na garganta, borbulhando sangue pela boca, nariz e pela própria garganta, que estava rasgada.
E agora seria preso. Era sempre este enredo, sempre o mesmo dilema. A mesma cena. As mesmas falas. Nada de novo, nada que realmente valesse uma morte literária. Aquilo já tinha ficado cansativo demais até mesmo para ele, que era a pessoa mais liberal de tudo. Enquanto deslizava com as algemas nos pulsos, ele observou pelo canto do olho o corpo inerte de sua vitima que nunca recebera ou receberia um nome. Pior que um personagem secundário, e até mesmo que um vilão, são aqueles personagens cuja identidade é um enigma cujo qual autor não se deu ao trabalho nem de pensar. Aquela mulher de cabelos louros e robe de banho permaneceria ali, naquele chão. Ela não tinha rosto, nem mesmo poderia dizer algo. Era muda. A única coisa que sabia fazer era agonizar até a morte (e gritar quando alguém cortasse sua garganta). Pobre morte literária.
Enquanto isso, tinha de prestar atenção apenas na cadeia e no protagonista, o policial que o perseguira por todas as páginas do livro. Quando finalmente saiu pela porta, sentiu as mãos se desintegrando e então desaparecendo e voltando para o começo do livro. Até a próxima leitura, ele ficaria lá. Preso. O protagonista poderia vagar pelas páginas, mas ele não. Era uma pobre alma presa.
Mas quando aquele portal surgiu diante de seu rosto e o puxou pelos ombros, percebeu que mergulhava num lago de águas quentes e então reaparecia diante de um homem um tanto velho demais para estar vivendo naquela montanha de neve. Junto dele, uma menina aguardava com um sorriso gentil nos lábios, algo que até o fez pensar que o mundo poderia ser belo, mas logo se lembrou que não era.
– Bem vindo à vida, Página-Viva.
– Então não era mentira. – atirou.
– Não – o velho sorriu, com malicia. – Espero que Roxanne possa mostrar o caminho.
Roxanne, a menina, sorriu com ainda mais gentileza e tomou-o pela mão. Heikki sentiu as bochechas se esquentando com um leve rubor e notou que a neve caía e que o vento uivava. Estava frio. Começou a bater os dentes.
– Por favor, antes de ir, dê um casaco para o menino – o velho indicou a cabana e a menina obedeceu.
Heikki recebeu suas coordenadas logo no começo da viagem, e quando chegou ao seu destino, já tinha os nomes decorados.

Hanun Heikki Aaltonen
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